Há conversas das quais não regressamos

Era alta madrugada e, exceto por uma única janela, todas as demais daquele velho edifício estavam apagadas: os moradores, àquela hora, dormiam sonos intranquilos, em uma quase vigília: avizinhava-se mais uma manhã de segunda-feira.
Sob aquela solitária luz, num tom de sépia, que se avistava na fachada encardida do prédio, lá dentro do apartamento no décimo andar, Eulália, sentada de maneira comedida sobre o sofá de corvim, olhava em silêncio para Doralice, que, sentada de um modo displicente em uma poltrona de tecido puído, do outro lado da sala, esforçava-se para não errar os pontos do seu tricô; vez ou outra, era vencida nesse seu esforço por um sono que lhe pesava sobre as pálpebras, puxando-as para baixo, como o fazem as gotas de orvalho sobre as folhas da relva nas manhãs frias e úmidas de Maio. A separar as duas amigas, além de um enorme e denso
(quase palpável)
silêncio, apenas uma mesinha de centro, sobre a qual repousava um vasinho com margaridas de plástico, algo amareladas pelo tempo. Eulália e Doralice viam-se ao menos uma vez por semana, alternando os encontros ora no apartamento de uma, ora no da outra. Há mais de uma década elas cumpriam à risca essa rotina: era a forma que haviam encontrado de tornar suportável a velhice: compartilhar experiências a respeito de vidas que foram tão distintas. Nos encontros dos últimos anos, em pauta, uma predominância repetitiva de assuntos ligados aos percalços da idade avançada: o abandono dos filhos, as doenças da terceira idade, a saudade dos entes falecidos, dos maridos: ambas eram viúvas.
Havia um momento, nessas oportunidades, a partir do qual as duas, quase simultaneamente, ficavam em silêncio e assim permaneciam até uma ou a outra, dependendo do lar de qual delas servia de recinto para o encontro, decidir-se por ir embora, o que poderia ocorrer dali a minutos ou horas: para isso não havia regra. Adentrar esse silêncio era a forma tácita, e muito própria delas, de darem por encerradas as conversas daquele encontro, forma esta que fora aperfeiçoada de uma maneira tal, que assim vinham agindo, quase inconscientemente, há muitos encontros. Logo, uma vez instalado esse silêncio, as únicas palavras que as amigas
(dali a minutos ou horas)
trocariam naquele dado encontro seriam palavras corteses de despedida, ditas sob o foco de olhares tristes, do tipo daqueles que lançamos a um amigo que parte, sendo grandes a chances de que não mais
(talvez nunca mais)
possamos reencontrá-lo na mesma pessoa da qual nos despedimos, ou que não reencontremos de fato.
Tal não ocorreria novamente nessa madrugada em que as vemos juntas. Após algumas horas ali quietas, eis que Doralice, deixando de lado as agulhas de tricô e tendo um semblante cansado, haja vista o avançado da hora, anunciou seu desejo de ir-se embora:
– Acho que já vou chegando, Lália.
Era como Doralice chamava Eulália.
– É cedo, Dorinha.
Assim Eulália chamava Doralice.
– Vou passar mais um café para você. Quer mais uns biscoitinhos de nata?
Feita a oferta à Doralice, Eulália então ignorou um quase inaudível:
– Não, obrigada.
da amiga, e saiu caminhando, um pouco atrapalhada com suas pantufas, no sentido da cozinha. Com tal gesto, ela havia quebrado o protocolo de comportamento que, para aqueles encontros com Doralice, firmara-se ao longo dos anos: pela primeira vez, o silêncio não havia sido a deixa para a despedida, fato que deixou Doralice um tanto perdida, transtornada até.
(– O que essa louca ainda quer comigo? Preciso ir embora. Já está quase amanhecendo o dia.)
Pouco depois, já na cozinha, Eulália depositava água fervente dentro de um coador de pano, preenchido com umas três colheres de sopa de café, de onde subia um vapor impregnado com o inebriante aroma dessa bebida quando feita na hora. Eulália, ali, relembrava seus tempos de menina, no interior, quando acordava junto com sua avó, ainda bem antes do alvorecer, e ficava a vê-la preparar o café, em um coador similar àquele que então utilizava, enquanto galos cantavam lá fora, anunciando que dali a logo mais um novo dia nasceria.
(embora nenhum galo estivesse a anunciá-lo, mais um dia estava de fato surgindo, como denunciava a luz esmaecida do sol nascente a iluminar os vidros foscos do vitrô da cozinha)
Eulália sempre teve uma grande admiração por sua avó, pela determinação que esta, ao longo da vida, demonstrara para criar os três filhos
(dentre os quais, o pai de Eulália)
cuidar de seu avô, administrar com competência e austeridade um orçamento enxuto, sempre colocando suas necessidades pessoais em último plano, o que, não raras vezes, fazia com que estas fossem abortadas ainda em seus primeiros instantes de gestação na mente pouco fértil de amor próprio da sua avó.
– O cobertor é curto, Lália.
(a avó, a justificar-se, cabisbaixa)
Perdia vigor, a admiração de Eulália por sua avó, quando esta era vista sob a mira exclusiva deste foco. Revoltava-a ver a mágoa profunda que essa sujeição às prioridades ou mesmo aos caprichos dos outros membros da família lhe causava. Era como se sua avó vivesse presa a um casamento de conveniência, conveniente para todos, menos para ela.
– A vida da gente que é mulher é assim mesmo, minha filha.
(resignava-se a avó, desviando o olhar)
Desde muito cedo, vendo tudo isso, Eulália decidira-se por agir diferente com relação à sua própria vida. Tornara-se para ela uma questão de honra dar esse salto geracional em relação à sua avó, já que sua mãe, mesmo se o quisesse, nem sequer teria tido a chance de tentá-lo, pois faleceu ainda adolescente, logo após ter dado à luz a então pequena Eulália.
Mas a vida, sempre ela, como sói ocorrer com todos, tinha outros planos para Eulália, bem diferentes daqueles que esta planejara e, dentro dos estreitos limites de seu mundo, até sonhara. No final, aquela menina que estufava o peito para falar de seus anseios feministas e sua ideologia libertária, acabou reproduzindo em sua vida adulta a mesma submissão aos interesses do marido e dos filhos
(todos homens)
que tanto condenara em sua avó paterna.
(– A vida da gente que é mulher é assim mesmo.)
Diferentemente de Eulália, Doralice conseguira trazer para o plano real e aplicar na prática cotidiana os anseios feministas e a ideologia libertária que, no caso de sua amiga, não conseguiam fazer a migração do plano teórico para o prático, eis que este, diante do extenuante acúmulo de dificuldades da vida, acabou tornando-se árido, completamente inóspito a qualquer elemento que não dissesse respeito à mera, estrita e mais básica sobrevivência. Eulália, velha, era a imagem de um galho seco, esturricado.
Já Doralice, não. Ao longo de sua vida, desta fez o que bem entendeu, vivendo-a de modo pleno e intenso. Foi generosa com todos, mais ainda com si mesma. Era uma hedonista. Mesmo idosa, mantinha um porte altivo, olímpico, destacado pela elegância heráldica com que sempre se apresentava. Por conta desses atributos, Eulália nutria por ela uma inveja demasiadamente tóxica.
Mesmo a força dessa personalidade não foi, todavia, capaz de livrar Doralice de cair na mesma vala comum do destino solitário em que também jazia Eulália. Nesse aspecto, eram iguais. Verdade é que, salvo pela companhia de uma para a outra, e vice-versa, sofriam de uma enorme solidão, do tipo daquela que oposicionistas argentinos, feitos prisioneiros pelo regime militar, experimentaram ao serem libertos em meio à multidão que comemorava a vitória da Argentina na Copa do Mundo de 78. Assim como ninguém ali os ouviu gritar por socorro, ninguém dá ouvidos às duas amigas, nem tampouco as vê: tornaram-se invisíveis.
Eulália a oferecer o café para Doralice:
– Eis aqui seu café. Aproveita que está quentinho.
Que com a costumeira gentileza, agradeceu-lhe:
– Muito obrigada, Lália.
(– Velha inútil. Fazendo-me esperar esse tempo todo!)
– De nada, Dorinha. Foi um prazer.
(– Seria de fato um prazer se eu pudesse…
– Pegue mais uns biscoitinhos.
… nunca mais ouvir sua voz.)
Tendo Doralice ingerido o café
(rejeitou cordialmente os biscoitinhos)
fez-se novamente um enorme e denso
(quase palpável)
silêncio entre elas, um silêncio, contudo, diverso daquele que por anos serviu para prenunciar o momento da partida ao final dos encontros semanais, pois, desta vez, ele não seria quebrado
(dali a minutos ou horas)
por palavras corteses de despedida.

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Sem dúvida, talvez

Há semanas não se levantava da cama: era a primeira vez em dias que se dirigia à sala: nesse período de reclusão, limitara seus movimentos ao seu quarto, ao banheiro e à cozinha: os cômodos do apartamento que lhe ofereciam o essencial para manter-se viva: sobreviver.
Debruçada sobre o parapeito da janela, Gilda avistava o sol a nascer ao longe, com seus fachos de luz a brotarem por entre os vãos dos prédios, erguendo-se, tépidos, como os braços de um bebê polvo que pede colo.
Sentia-se aliviada, pois chegara a pensar que nunca mais veria o sol, que nunca mais veria o dia.
(que nunca mais)
Lá fora, as ruas paulistanas rapidamente eram tomadas pela multidão, cujos indivíduos iam para lá e para cá, com olhares vazios e andar apressado, como que pastoreados feito ovelhas pelos cães nervosos das contas a pagar. Era em geral nesse horário, quando a maioria das pessoas saía para o trabalho, que Gilda costumava chegar em casa, vinda de seu trabalho. Ao entrar em seu apartamento, despia-se, tirava a maquiagem, pendurava a peruca no mancebo atrás da porta do banheiro, tomava um banho e ia para sua cama, onde divertia-se a brincar um bocadinho com Mumu, sua gatinha. Depois, vencida pelo cansaço, colocava a gata para dormir em um cantinho do quarto, sobre uma almofada, envolvia sua cama com o dossel e, por fim, adormecia.
(– Acho que ela morreu.)
A luz do sol que entrava pela janela da sala contrastava com o acinzentado de seus olhos. Com pesar, lembrava-se de, naquela noite, duas semanas atrás, ter gritado muito alto, um grito que, apesar de alto, apesar de transportar a mensagem clara de uma dor lancinante, apesar de ter sido gritado uma
– Socor
duas
– roooooo!
três vezes
(– Acho que ela morreu.)
em uma rua cheia de gente passando, apesar de tudo isso, o grito de Gilda, naquela noite, não foi ouvido
(fingiram não ouvir?)
dele não se soube: acabou abafado, quiçá mesmo silenciado pela indiferença da metrópole que, com alguma contradição, quanto mais seres humanos comporta, mais desumana torna-se.
Logo após, ouviu-se um longo acorde de violoncelo e então ela perdeu a consciência, ficando seu corpo caído de um lado; sua longa peruca loira jogada dois metros adiante, com mechas de um vermelho vivo
(– Ela está sangrando!)
de sangue.
(– Vamos embora daqui!)
Acordou com os pingos de uma chuva gelada cravejando, como estilhaços de caco de vidro, seu corpo seminu e seu rosto, ambos bastante feridos.
Um hiato na memória a partir daí … … … (– Chamem uma ambulância. É uma emergência.) … … … … … …  (– Dói aqui?) … … … … … (– Amanhã ele deve ter alta.) … … … … …
(– Trouxe seu café da manhã, João.)
Passaram-se dias em que ela mal conseguiu abrir os olhos, tão inchado estava seu rosto
– Vem Mumu
a ponto de mesmo Mumu não a reconhecer quando Gilda, após ter alta do pronto-socorro, retornou a seu apartamento.
Por mais acostumada que Gilda estivesse a ser vista com estranhamento, olhada com desconfiança, observada ao longe, por olhos temerosos, como se fosse uma fera enjaulada, a ter dedos indicadores apontados em sua direção, seguidos de risos de escárnio, o fato de não ser reconhecida por Mumu pegou-a de guarda baixa, o que acabou por tornar mais pesado o sentimento de rejeição que, por toda a sua vida
(– Larga essa boneca, João!)
Gilda havia enfrentado, e este sentimento, por sua vez, naquele instante envolveu-a e, tal qual uma rocha formada pela lava vulcânica ao esfriar, fez dela, por semanas, um fóssil de seu próprio ser, até que, nessa manhã, antes do sol raiar, Mumu, com suas patinhas almofadadas, driblou o dossel que envolvia a cama, e foi brincar com uma tirinha de gaze que ainda cobria o último ferimento no rosto de Gilda, que aos poucos foi assim d e s (um bocejo) p e r t a n d o.
Gilda abriu seus olhos, olhou para dentro dos olhos de Mumu e viu ali refletido seu rosto, já quase são. Foi quando, do nada, sentiu uma saudade invadi-la, do tipo daquela que nos toma quando olhamos para nossas fotos de infância, em que a criança que fomos aparece ao lado de nossos pais, avós. Riu-se aliviada, um riso nervoso. Daí então desatou a chorar, soltando gritos guturais que acabaram por assustar Mumu: a gatinha saiu em disparada para fora do quarto, desvencilhando-se do dossel, que ali permanecia mantendo Gilda ao abrigo do mundo exterior e de suas hostilidades. Chorou a plenos pulmões, como quando nascera, rompendo o útero de sua mãe.
(– É um menino?)
Novamente em meio a lágrimas, era chegada a hora de renascer.
(– Sem dúvida, talvez.)
Vendo ali, diante de si, do lado de fora da janela do apartamento, toda a vibração de uma grande cidade, os olhos de Gilda enfim voltaram a brilhar: brilhavam como sóis.

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Faz-me falta tua ausência

Sentados lado a lado diante da televisão, acompanham, com olhos entorpecidos de cansaço e sono, as cenas da novela. As mentes de ambos trazem pensamentos dispersos, que ora pousam nas imagens projetadas no ecrã, ora nas lembranças do passado. Ali, naquela pequena casa, residiam sozinhos desde a partida do casal de filhos: primeiro, o filho primogênito, que um dia, há muito anos, desapareceu: dele nunca mais se teve notícias; depois, a filha mais nova, que, mancomunada com um sujeito nada confiável, um dia foi embora da casa dos pais sem deixar recado – nem mesmo deles se despediu. Até onde se sabe, vivia na mesma cidade, se bem que suas poucas ligações e suas ainda mais, e cada vez mais, raras visitas aos pais fizessem parecer que ela residia em alguma terra muito distante.

– Quando você vem nos visitar?

Perguntou-lhe Celina na última vez que Maria Clara, a filha, ligou para a casa dos pais. No que Maria Clara respondeu que dali a duas semanas chegaria, o que, de fato, não se concretizararia nem dali a duas semanas nem nunca mais: as duas semanas tornaram-se três, quatro, depois meses, e nada de Maria Clara aparecer. Nesse período, nem tampouco se preocupou em justificar a sua prolongada ausência. Antes desse sumiço, quando de suas raras ligações, limitava-se a perguntar à Celina, sua mãe, num tom seco:

– Está tudo bem com você e o pai?

E ao ouvir a resposta de Celina, que invariavelmente após o

– Sim.

enveredava por uma cantilena de reclamações sobre a sua saúde e a do marido, que em tudo contradiziam a afirmação anterior de Celina de que tudo ia bem, Maria Clara, sempre impaciente, encerrava a conversa com um displicente:

– Cuidem-se. Amo vocês.

e desligava antes de Celina

– Também te amamos, minha fi

terminar sua despedida.

No porta retratos, sobre a mesa de canto ao lado do sofá, ao alcance das mãos de Celina, a foto da família: ela, Antero – seu marido –, o filho primogênito e Maria Clara. Estão todos juntos ao redor do bolo de aniversário do primeiro ano de vida de Célio, o primogênito. Lá se iam pelo menos uns 30 anos desde o dia em que aquela foto havia sido tirada, na festa de aniversário de Célio, uma celebração feita de modo muito simples, pois as condições da família não permitiam, menos ainda na época, grandes dispêndios para além do essencialmente ligado à sobrevivência.

– Fazemos ao menos um bolo para a data não passar em branco.

Celina, jovem e vistosa na foto, sorri em direção à câmera. Há mais vida no olhar dela, retratada na foto, do que no olhar da Celina de carne e osso de hoje: este abatido, lasso, desesperançado.

Ao seu lado no sofá, Antero cochila, deixando escorrer uma baba branca por um dos cantos da boca. Ele em nada lembra o homem com o qual Celina, há trinta e um anos, havia se casado: um ano antes do nascimento de Célio. À época, quando Celina e Antero eram bastante jovens, ele a conquistara com sua voz pausada, que fazia contraste com a firme determinação dele para vencer na vida, outro predicado que, então, também lhe serviu para angariar a confiança e, sobretudo, o amor de Celina. No entanto, com o passar dos anos, a voz pausada de Antero foi aos poucos silenciando: as muitas dificuldades pelas quais ele e Celina, juntos, passaram pela vida, para poder criar Célio e Maria Clara, com aquilo que julgavam ser o mínimo de dignidade para seus filhos, agiram em Antero como, sobre o lustro, age a poeira que vai se depositando por cima de uma mesa de jantar, ao redor da qual, outrora, a família sentava-se, todos reunidos, para fazer suas refeições.

Uma lufada de vento entra pela janela e faz dançar a cortina de chintz, ao mesmo tempo em que agita as plumas de avestruz que, dentro de um vaso de latão, decoram um dos cantos da sala. Era com aquelas plumas que Célio costumava brincar: colocava-as às costas, por dentro do calção, de modo a imitarem a cauda do Garibaldo, no que era logo repreendido por Antero, com um tapa no traseiro seguido de um:

– Vira homem!

dito em voz grave, e não na sua habitual voz pausada.

Chorando, Célio então corria para o seu quarto, que dividia com Maria Clara, para onde Celina, em seguida, ia em seu socorro, secar suas lágrimas e oferecer-lhe consolo com sua voz calma e suas mãos sedosas

– Beba essa água com açúcar, filho. Vai te ajudar a se acalmar.

que, para ele, assemelhavam-se às mãos do padre Olavo, quando estas, sediosas, desciam em direção às partes íntimas de Célio, a fim de acariciá-las, o que o menino consentia, uma vez que, na sua idade, então 10 anos, a resultante entre as forças da culpa e do desejo favoreciam este último com folga. Os dois encontravam-se com regularidade quase diária, até que um dia acabaram pegos em flagrante atrás da sacristia da igreja de São Pedro, por Antero, que, suspeitando dos sumiços diários de Célio, sempre no mesmo horário: no final da tarde, resolvera investigar. Desde esse episódio, nunca mais nem padre Olavo nem Célio foram vistos na cidade.

A noite avançava e, em seu progresso, seguia encontrando Celina e Antero ali, sentados no sofá. Antero dorme; Celina continua acompanhando, com olhos ainda mais entorpecidos de cansaço e sono, as cenas projetadas na televisão.

(não sabe mais dizer se são cenas de uma novela)

Celina olha para Antero e, vendo-o dormir, aos poucos acaba também caindo no sono. E assim
(adormecidos?)
seguem madrugada adentro, numa noite que para eles não teve
… fim.

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Parece que vives sempre de uma gaiola envolvida

É final de tarde, a noite se avizinha, e como ocorre todos os dias, sem distinção entre dias úteis, sábados, domingos ou feriados – havendo mesmo uma predileção por estes últimos, pois neles o movimento de clientes é maior –, Antônio e Conchita estacionam seu carrinho de pipoqueiro em frente a um dos últimos cinemas de rua de São Paulo – na rua Augusta. O cinema dispõe, em seu hall de entrada, de um pequeno comércio que, entre outros comes e bebes, também oferece pipocas à venda, mas muitos clientes preferem adquiri-las do simpático casal de pipoqueiros, lá fora, talvez por acreditarem que as pipocas feitas por eles, posto que preparadas em um antigo carrinho de pipoqueiro, sejam mais saborosas. São pessoas para as quais o dedo da tradição está sempre a indicar um caminho mais conhecido, confortável, e, portanto, para elas, mais desejável.
Se nada no modo de preparo e na aparência das pipocas, ou mesmo em relação ao carrinho de pipoqueiro em si, mudou ao longo de 40 anos – tempo em que Antônio e Conchita estão casados e, juntos, à frente do negócio –, tal não se pode afirmar em relação ao casal, pois ambos mudaram muito e já se encontram bastante fragilizados por idades relativamente avançadas: Antônio tem 75 anos; Conchita, 70.
Tanto o carrinho de pipoqueiro quanto as pipocas parecem orientados por um relógio muito próprio, que parou em determinado momento do passado, permanecendo estanque em um tempo que já não mais existe.
(Processo este que lhes acomete com naturalidade, ao contrário do que se nota quando voltamos os olhos para a lanchonete do outro lado da rua – decorada com motivos dos anos 50 –, e a barbearia situada dentro de uma galeria de lojas no quarteirão de baixo – que também busca naquela década inspiração para sua decoração. Por serem fruto de um esforço deliberado – e por vezes até afetado – de representar um tempo passado, a lanchonete e a barbearia acabam, por fim, colhendo artificiosos pastiches como resultado.)
Em 40 anos de parceria afetiva e profissional, Antônio e Conchita nunca esboçaram nenhum sinal de descontentamento de um em relação ao outro, ou vice-versa – nunca nem mesmo brigaram. Falavam-se pouco, é verdade. Embora Conchita fosse muito extrovertida e falante, com Antônio a comunicação dava-se predominantemente em planos silenciosos: olhares, gestos.
Assim, não se sabe ao certo por qual motivo, naquele frio final de tarde de outono, por volta das 18h,
(horário em que, no passado, os homens punham-se a fazer seus exames de consciência)
quando Antônio e Conchita há pouco tinham estacionado o carrinho de pipoqueiro em frente ao cinema, enquanto Conchita servia uma primeira cliente com um saco grande de pipocas, virou-se para Antônio e, numa delicadeza de rendas, perguntou-lhe:
– Tonho,
Assim ela carinhosamente o chamava.
– você é feliz comigo?
Antônio estava então a pensar na morte da bezerra, enquanto seus olhos passeavam pelo vai e vem de pessoas que, apressadas, subiam e desciam a rua, entravam e saiam do cinema.
– Tonho?
Olhou para Conchita e ela insistiu:
– Diga-me: você é feliz comigo?
Conchita colocara essa questão a Antônio, sabendo de antemão que o efeito poderia ser o mesmo de uma flecha lançada contra um alvo de um côncavo infinito, tal qual um buraco negro. Antônio era um homem muito calado. Mas Conchita precisava dar voz àquela sua angústia, mesmo que essa voz, ao final, pudesse terminar ficando sem o eco de uma resposta qualquer de Antônio, que, não se sabe dizer se deliberadamente ou não, poderia deixar a pobre esposa a falar sozinha, tal como esses loucos que andam por aí, pelas ruas, esbarrando a miséria emocional de seus solilóquios nas muralhas da indiferença das gentes e da cidade.
Talvez, contudo, por força do efeito surpresa trazido pelo inesperado da questão, Antônio esboçou uma reação, perguntando a ela, com surpreendente calma:
– Como assim, Conchinha?
Era o apelido carinhoso com o qual a chamava.
Conchita então servia mais uma senhora, que aparentemente tinha a mesma idade dela. Ao entregar-lhe o saco de pipocas, Conchita agradeceu-lha com um apressado:
– Obrigada!
E retomou:
– Antônio,
Desta vez com a voz mais pausada.
– … vivemos juntos há 40 anos e nunca lhe perguntei isso, pois sempre me pareceu que você fosse feliz comigo,
Conchita media as palavras com bastante cuidado.
– … mas ultimamente tenho notado você distante.
– Eu!?
– Sim, você! … sentimentalmente ausente. E todo aquele carinho, afeto, cordialidade e… desejo que costumava ter para comigo parecem
Hesita por alguns instantes antes de finalizar.
– … perdidos.
Antônio, naquele instante, olhava de soslaio para uma rapariga alta, feita ainda mais alta pelo efeito dos sapatos de salto agulha que calçava, de abundantes cabelos descoloridos – que mais pareciam um chumaço de palha pronto para ser incendiado –, com ombros largos, que descia pela calçada falando ao celular com um timbre de voz forte de barítono, abafando o zum zum zum dos demais pedestres que passeavam por ali. Quando Antônio voltou os seus olhos para Conchita notou, envergonhado, o olhar de desaprovação dela. Disse-lhe então:
– Conchinha,
O olhar de Conchita deixou de lado o tom de reprovação e ganhou a languidez do olhar de uma namoradeira de gesso. Seus cabelos desgrenhados e grisalhos teimavam em cair sobre seus olhos, e cada vez que ela os afastava, aproveitava para enxugar – e assim disfarçar – pequenas lágrimas que começavam a deles brotarem, teimando em descer pelos seios pálidos de sua face, numa tristeza de noite infinita.
Um jovem casal aproximou-se do carrinho de pipocas. Ele pediu um saco de pipocas grande. Ela tentou convencê-lo que a média seria suficiente. Acabaram por fim discutindo e não levando nenhuma das opções. Homens e mulheres, até nisso tão distintos.
– vê essas pipocas que vendemos aqui há tantos anos?
Conchita olhou para um resto de pipocas que sobejava dentro do carrinho – pareciam frias e murchas, como cravos brancos há muito abandonados sobre um túmulo.
Havia naquele instante menos gente na calçada em frente ao cinema. As sessões das 18h30 já tinham começado, levando para dentro das salas de projeção boa parte dos que por ali ainda circulavam. O entorno estava tomado da melancolia de uma última janela que à noite se apaga na fachada de um velho edifício no centro da cidade.
– Sim…
Ela fez que entendeu – ao menos se esforçou. Estava confusa. O cheiro das pipocas, que sempre lhe pareceu algo inebriante, naquele início de noite tinha sobre ela um efeito entorpecente.
O tempo parecia suspenso, como se estivesse a aguardar o movimento da batuta do regente de sua orquestra para seguir em frente com sua desarmônica sinfonia – a sinfonia da vida –, pautada pela nota altissonante do caos.
Antônio prosseguiu:
– Foi com a venda delas que conseguimos nos manter e criar nossos filhos.
– Oh, Antônio.
(parecia comovida)
– E hoje temos um casal de filhos exemplar, não é mesmo?
Ele perguntou já sabendo que a resposta dela não poderia ser outra senão:
– Sim, são um homem e uma mulher exemplares.
– Temos nossa casa própria, nosso carro, e tudo isso foi construído com a venda dessas pipoquinhas,
Exceto pelo modo carinhoso com o qual a chamava:
– Conchinha.
Antônio não era homem de usar diminutivos. Conchita, portanto, estranhou o:
– pipoquinhas…
– que há anos são preparadas e vendidas da mesma forma.
Perdida, sem saber aonde Antônio queria chegar com aquela cantilena toda sobre as pipocas, Conchita, ansiosa:
– Tonho, responda-me simplesmente: você é feliz comigo?
Um periquito azul, que havia acabado de fugir de um realejo que ficava ali na esquina de cima, onde há anos cumpria pena oferecendo, às pessoas, esperança dentro de papelotes, foi visto, naquele ato, voando rente às cabeças de Antônio e Conchita. Seu dono, um senhorzinho de boina de feltro verde na cabeça, com a fralda da camisa para fora do cinto, vinha correndo atrás dele, desembestado, mas logo viu-se forçado a desistir da perseguição quando, desolado, acompanhou com os olhos seu pequeno detento de plumas azuis desaparecer, livre, mimetizado pelo azul do céu.
– Conchinha, você para mim é como essas pipocas: a certeza de continuidade. Sei que amanhã, salvo se morrermos um ou outro (ou ambos), estaremos aqui a vender essas mesmas pipocas, ganhando de forma justa nosso dinheirinho,
(o diminutivo de novo)
– e isso para mim é a melhor síntese de felicidade: viver sem surpresas. A mesma esposa, a mesma rotina, no mesmo local. Assim tem sido há 40 anos e assim continuará sendo. Por quantos anos mais?
Tendo o olhar perdido, Conchita suspirou um:
– Não sei…
E Antônio por fim sentenciou:
– Deus queira que por muitos ainda, minha Conchinha.
Ele então abraçou o rosto dela com as suas mãos em concha e beijou sua testa, produzindo um estalinho, ouvido apenas por eles dois, tal como um segredo de alcova.
Diante das palavras de Antônio, Conchita sentiu-se sufocada – percebeu-se de um instante para o outro
(num estalinho)
como um passarinho na gaiola, que há 40 anos ficara presa a um homem e a uma rotina de trabalho e de vida. Vislumbrou, como que numa epifania, o quão diminutos e restritos
(inexistentes?)
tinham sido seus horizontes nesse tempo todo. Os diminutivos que Antônio utilizara naquela conversa então lhe fizeram sentido – um sentido triste e melancólico, como um domingo à noite.
(por acaso, era mesmo domingo à noite)
Conchita olhou a cidade a seu redor, viu o quanto ela mudara e comparou com o quanto ela permanecera sendo a mesma pessoa
(apenas bem mais envelhecida)
fazendo a mesma coisa, na companhia do mesmo homem.
(até o uniforme branco que ambos usavam, parecido com uma sobrepeliz, era o mesmo nesses anos todos)
Aquilo tudo a despertou para a vida tediosa e sem esperança de mudança que tinha vivido e ainda vivia. A única possibilidade de mudar seria, como o próprio Antônio mencionara em suas palavras, morrer ele ou ela, ou ambos.
(Parece que vives sempre de uma gaiola envolvida)
Num gesto de rompante, Conchita jogou o guardanapo com o qual limpava as mãos, sujas do óleo das pipocas, sobre o carrinho de pipoqueiro, e saiu pisando duro, rua abaixo, sem olhar para trás,
– Conchinha!?
deixando Antônio a falar sozinho.
Logo mais à frente, duas esquinas depois, Conchita encontrou-se com o velhinho do realejo. Ele estava lá, parado, enxugando, com a fralda da camisa, as lágrimas que vertiam de seus olhinhos castanhos, ternos como olhos de bebê: chorava a perda de seu periquito azul. Conchita apiedou-se dele e o abraçou, trazendo a cabeça do velhinho para o conforto dos fartos seios dela.
No dia seguinte, vestida de colombina, enquanto o velhinho do realejo tocava o seu instrumento, no mesmo local do dia anterior, Conchita, presa ao carrinho dele por uma corda de tule púrpura, atada a uma coleira de miçangas coloridas, dançava e oferecia, às pessoas, esperança dentro de papelotes. Estes, que até o dia anterior eram simples e não contavam com nenhum tipo de ornamento, vinham então acompanhados, cada um, de um cravo de papel crepom vermelho.
Na frente do cinema, logo mais ali abaixo, não se via mais Antônio, não se via mais o carrinho de pipoqueiro, ambos aos quais ela estivera presa por tanto tempo. Conchita, vendo aquele espaço vazio em frente ao cinema, perguntou em pensamento:
– O que será deles?
Depois se desinteressou e nisso um sorriso de margarida desabrochou em seu rosto.
Sentiu-se finalmente livre, e a emoção a levou a tentar um rodopio, que acabou sendo frustrado pela corda de tule púrpura atada à coleira de miçangas coloridas que a mantinha presa ao carrinho de realejo.
(Parece que vives sempre de uma gaiola envolvida)

N. do A.: O título “Parece que vives sempre de uma gaiola envolvida” foi extraído de versos do poema “Mulher vestida de gaiola”, de João Cabral de Melo Neto.