Há conversas das quais não regressamos

Era alta madrugada e, exceto por uma única janela, todas as demais daquele velho edifício estavam apagadas: os moradores, àquela hora, dormiam sonos intranquilos, em uma quase vigília: avizinhava-se mais uma manhã de segunda-feira.
Sob aquela solitária luz, num tom de sépia, que se avistava na fachada encardida do prédio, lá dentro do apartamento no décimo andar, Eulália, sentada de maneira comedida sobre o sofá de corvim, olhava em silêncio para Doralice, que, sentada de um modo displicente em uma poltrona de tecido puído, do outro lado da sala, esforçava-se para não errar os pontos do seu tricô; vez ou outra, era vencida nesse seu esforço por um sono que lhe pesava sobre as pálpebras, puxando-as para baixo, como o fazem as gotas de orvalho sobre as folhas da relva nas manhãs frias e úmidas de Maio. A separar as duas amigas, além de um enorme e denso
(quase palpável)
silêncio, apenas uma mesinha de centro, sobre a qual repousava um vasinho com margaridas de plástico, algo amareladas pelo tempo. Eulália e Doralice viam-se ao menos uma vez por semana, alternando os encontros ora no apartamento de uma, ora no da outra. Há mais de uma década elas cumpriam à risca essa rotina: era a forma que haviam encontrado de tornar suportável a velhice: compartilhar experiências a respeito de vidas que foram tão distintas. Nos encontros dos últimos anos, em pauta, uma predominância repetitiva de assuntos ligados aos percalços da idade avançada: o abandono dos filhos, as doenças da terceira idade, a saudade dos entes falecidos, dos maridos: ambas eram viúvas.
Havia um momento, nessas oportunidades, a partir do qual as duas, quase simultaneamente, ficavam em silêncio e assim permaneciam até uma ou a outra, dependendo do lar de qual delas servia de recinto para o encontro, decidir-se por ir embora, o que poderia ocorrer dali a minutos ou horas: para isso não havia regra. Adentrar esse silêncio era a forma tácita, e muito própria delas, de darem por encerradas as conversas daquele encontro, forma esta que fora aperfeiçoada de uma maneira tal, que assim vinham agindo, quase inconscientemente, há muitos encontros. Logo, uma vez instalado esse silêncio, as únicas palavras que as amigas
(dali a minutos ou horas)
trocariam naquele dado encontro seriam palavras corteses de despedida, ditas sob o foco de olhares tristes, do tipo daqueles que lançamos a um amigo que parte, sendo grandes a chances de que não mais
(talvez nunca mais)
possamos reencontrá-lo na mesma pessoa da qual nos despedimos, ou que não reencontremos de fato.
Tal não ocorreria novamente nessa madrugada em que as vemos juntas. Após algumas horas ali quietas, eis que Doralice, deixando de lado as agulhas de tricô e tendo um semblante cansado, haja vista o avançado da hora, anunciou seu desejo de ir-se embora:
– Acho que já vou chegando, Lália.
Era como Doralice chamava Eulália.
– É cedo, Dorinha.
Assim Eulália chamava Doralice.
– Vou passar mais um café para você. Quer mais uns biscoitinhos de nata?
Feita a oferta à Doralice, Eulália então ignorou um quase inaudível:
– Não, obrigada.
da amiga, e saiu caminhando, um pouco atrapalhada com suas pantufas, no sentido da cozinha. Com tal gesto, ela havia quebrado o protocolo de comportamento que, para aqueles encontros com Doralice, firmara-se ao longo dos anos: pela primeira vez, o silêncio não havia sido a deixa para a despedida, fato que deixou Doralice um tanto perdida, transtornada até.
(– O que essa louca ainda quer comigo? Preciso ir embora. Já está quase amanhecendo o dia.)
Pouco depois, já na cozinha, Eulália depositava água fervente dentro de um coador de pano, preenchido com umas três colheres de sopa de café, de onde subia um vapor impregnado com o inebriante aroma dessa bebida quando feita na hora. Eulália, ali, relembrava seus tempos de menina, no interior, quando acordava junto com sua avó, ainda bem antes do alvorecer, e ficava a vê-la preparar o café, em um coador similar àquele que então utilizava, enquanto galos cantavam lá fora, anunciando que dali a logo mais um novo dia nasceria.
(embora nenhum galo estivesse a anunciá-lo, mais um dia estava de fato surgindo, como denunciava a luz esmaecida do sol nascente a iluminar os vidros foscos do vitrô da cozinha)
Eulália sempre teve uma grande admiração por sua avó, pela determinação que esta, ao longo da vida, demonstrara para criar os três filhos
(dentre os quais, o pai de Eulália)
cuidar de seu avô, administrar com competência e austeridade um orçamento enxuto, sempre colocando suas necessidades pessoais em último plano, o que, não raras vezes, fazia com que estas fossem abortadas ainda em seus primeiros instantes de gestação na mente pouco fértil de amor próprio da sua avó.
– O cobertor é curto, Lália.
(a avó, a justificar-se, cabisbaixa)
Perdia vigor, a admiração de Eulália por sua avó, quando esta era vista sob a mira exclusiva deste foco. Revoltava-a ver a mágoa profunda que essa sujeição às prioridades ou mesmo aos caprichos dos outros membros da família lhe causava. Era como se sua avó vivesse presa a um casamento de conveniência, conveniente para todos, menos para ela.
– A vida da gente que é mulher é assim mesmo, minha filha.
(resignava-se a avó, desviando o olhar)
Desde muito cedo, vendo tudo isso, Eulália decidira-se por agir diferente com relação à sua própria vida. Tornara-se para ela uma questão de honra dar esse salto geracional em relação à sua avó, já que sua mãe, mesmo se o quisesse, nem sequer teria tido a chance de tentá-lo, pois faleceu ainda adolescente, logo após ter dado à luz a então pequena Eulália.
Mas a vida, sempre ela, como sói ocorrer com todos, tinha outros planos para Eulália, bem diferentes daqueles que esta planejara e, dentro dos estreitos limites de seu mundo, até sonhara. No final, aquela menina que estufava o peito para falar de seus anseios feministas e sua ideologia libertária, acabou reproduzindo em sua vida adulta a mesma submissão aos interesses do marido e dos filhos
(todos homens)
que tanto condenara em sua avó paterna.
(– A vida da gente que é mulher é assim mesmo.)
Diferentemente de Eulália, Doralice conseguira trazer para o plano real e aplicar na prática cotidiana os anseios feministas e a ideologia libertária que, no caso de sua amiga, não conseguiam fazer a migração do plano teórico para o prático, eis que este, diante do extenuante acúmulo de dificuldades da vida, acabou tornando-se árido, completamente inóspito a qualquer elemento que não dissesse respeito à mera, estrita e mais básica sobrevivência. Eulália, velha, era a imagem de um galho seco, esturricado.
Já Doralice, não. Ao longo de sua vida, desta fez o que bem entendeu, vivendo-a de modo pleno e intenso. Foi generosa com todos, mais ainda com si mesma. Era uma hedonista. Mesmo idosa, mantinha um porte altivo, olímpico, destacado pela elegância heráldica com que sempre se apresentava. Por conta desses atributos, Eulália nutria por ela uma inveja demasiadamente tóxica.
Mesmo a força dessa personalidade não foi, todavia, capaz de livrar Doralice de cair na mesma vala comum do destino solitário em que também jazia Eulália. Nesse aspecto, eram iguais. Verdade é que, salvo pela companhia de uma para a outra, e vice-versa, sofriam de uma enorme solidão, do tipo daquela que oposicionistas argentinos, feitos prisioneiros pelo regime militar, experimentaram ao serem libertos em meio à multidão que comemorava a vitória da Argentina na Copa do Mundo de 78. Assim como ninguém ali os ouviu gritar por socorro, ninguém dá ouvidos às duas amigas, nem tampouco as vê: tornaram-se invisíveis.
Eulália a oferecer o café para Doralice:
– Eis aqui seu café. Aproveita que está quentinho.
Que com a costumeira gentileza, agradeceu-lhe:
– Muito obrigada, Lália.
(– Velha inútil. Fazendo-me esperar esse tempo todo!)
– De nada, Dorinha. Foi um prazer.
(– Seria de fato um prazer se eu pudesse…
– Pegue mais uns biscoitinhos.
… nunca mais ouvir sua voz.)
Tendo Doralice ingerido o café
(rejeitou cordialmente os biscoitinhos)
fez-se novamente um enorme e denso
(quase palpável)
silêncio entre elas, um silêncio, contudo, diverso daquele que por anos serviu para prenunciar o momento da partida ao final dos encontros semanais, pois, desta vez, ele não seria quebrado
(dali a minutos ou horas)
por palavras corteses de despedida.

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