Ícaro

Logo que o ônibus ultrapassou a enorme plantação de eucaliptos, que ficava do lado direito da estrada, Ícaro avistou sua cidadezinha natal, ao longe, no horizonte que sempre lhe parecera tão estreito. Caia a noite, e à medida que o sol se punha por detrás das colinas, timidamente uma ou outra estrela ia surgindo no céu, ao mesmo tempo em que também as primeiras luzes da iluminação pública da cidade começavam a ser acesas, num movimento coordenado como o de uma troca de guarda.

Ícaro sentia que, na cidade, tudo estava menor, mas a impressão predominante, ao cruzar o perímetro urbano, foi de que quase nada ali mudara em vinte e cinco anos: tempo em que estivera distante.

Enquanto olhava a cidade, que ia aos poucos se revelando diante do para-brisa do ônibus, sua memória transportava-o para aquele momento, no dia da sua partida, em que, já dentro do ônibus que o levaria a São Paulo, via, pela janela, a família: pai, mãe, irmãos, avós; todos reunidos do lado de fora, a acenarem em despedida, em pé sobre a plataforma daquela rodoviária que, a exemplo de tantas outras pelo mundo afora, era apenas um lugar de passagem: dali, tal como ele, muitos partiam; outros tantos, por sua vez, chegavam; lá ninguém permanecia.

(metáfora da vida?)

De quase todos ali então reunidos, Ícaro despedia-se por uma última vez: morreram antes de ele poder reencontrá-los.

Não lhe ocorria, à época, que um filho pudesse morrer antes do pai, ou que um irmão mais novo pudesse morrer antes do irmão mais velho: Ícaro era o mais velho dos três irmãos, todos homens. As notícias das mortes que lhe foram chegando ao longo desses anos, todavia, contradisseram, em grande parte, essa crença. No final, sobrara apenas sua mãe, a única integrante da família, além dele, ainda viva.

– Ícaro!

Sua mãe

– Meu filho.

(– Tão envelhecida, meu Deus!)

a saudar-lhe o retorno à rodoviária de onde um dia, há muitos anos, ele partira, dando assim voz a uma saudade que por tantos anos quase a emudecera.

– Ícaro!

Aos prantos, ela esforçava-se por abrir caminho por entre as demais vivalmas ali prostradas sobre a plataforma: queria tocá-lo, beijá-lo,

– Mãe!

abraçá-lo. Finalmente, assim se fez. Por alguns instantes

(incalculáveis para eles)

permaneceram os dois ali, ligados por um abraço, cuja intensidade física parecia querer, na enorme pressão que se fez entre seus corpos e braços, fechar as chagas da saudade, que há tantos anos neles se exibiam abertas e cálidas. Só então deram-se conta da ordem de grandeza

– Quanto tempo…

do tempo em que viveram separados um do outro.

No decorrer desses anos, Ícaro havia mudado muito: o menino magro, barrigudinho, de umbigo estufado, tornara-se um homem viril, de aparência respeitável e olhar intenso, como os dos gaviões que, na sua infância, sequestravam inocentes pintinhos de suas mães, galinhas chocas de penas eriçadas, carregando-os para longe no céu, a fim de, logo mais, forçarem essas avezinhas a cumprirem os desígnios que a lei da vida, indiferente aos seus piados de misericórdia, impunha-lhes.

Desde muito cedo, Ícaro sentia que habitava um mundo que lhe era estranho, hostil, e uma intuição que ia se tornando nele cada vez mais forte, à medida que os anos avançavam, dizia-lhe que, mais hora menos hora, chegaria o seu momento de partir. Não fosse por sua mãe, não retornaria mais à sua cidade natal, hoje tão tranquila e pacata quanto na época em que partira.

(com a quietude de uma ruína)

Ícaro e sua mãe saíram dali, da rodoviária, caminhando de mãos dadas e, quando chegaram à casa dela, a mesma casa que ele habitara quando criança, e onde sua mãe agora morava sozinha, Ícaro viu, em seu antigo quarto, por sobre a cabeceira da cama, o quadro com a pintura de um anjo da guarda estendendo as mãos por sobre a cabeça de um menino e uma menina, ambos loiros, de cabelos cacheados, como a abençoá-los, protegendo-os de uma iminente queda em um precipício que se revelava à frente deles.

(corriam atrás de um bambolê)

O quadro já estava ali quando ele partiu. Ganhara-o de presente de sua madrinha quando do seu primeiro aniversário.

– Há de protegê-lo…

Sua madrinha dizia, sem completar a frase, deixando em aberto a informação de contra quem…

(ou o quê…)

seria a pretendida proteção.

Quando criança, Ícaro costumava deitar-se com os pés voltados para a cabeceira da cama e passar horas a admirar o quadro. A figura do anjo, em particular, atraia-o. Exceto pela cor, o longo traje que o anjo vestia era similar aos trajes que Ícaro via os padres usarem durante as missas domenicais que ele, a contragosto, ia com a família. Mas a maior semelhança mesmo era com os trajes das baianas que, no Carnaval, hipnotizavam-no ao desfilarem, rodopiantes, nos desfiles das escolas de samba que ele assistia pela televisão. Ao contrário das baianas, porém, em que era evidente o contraste entre o negro da pele e o branco dos vestidos, no caso do anjo a fronteira entre a pele e o tecido do traje era quase imperceptível: ambos eram muito alvos.

Certa vez, ao final de uma tarde, quando sua mãe chegou em casa após cumprir seu expediente no mercadinho de secos e molhados, onde ela trabalhava como empacotadora, encontrou Ícaro no quarto, de pé sobre uma cadeira, a admirar-se diante do espelho, trajando um vestido dela, branco como o do anjo da guarda do quadro, o que, na composição com a pele negra de Ícaro, fazia este parecer uma baiana, daquelas dos desfiles de Carnaval, que teria encolhido.

Ao vê-la no reflexo do espelho, Ícaro desmaiou, caindo ao chão como uma rosa jogada sobre um túmulo. Despertou poucas horas depois, sentido-se como que a flutuar alto no céu. Passada a surpresa e o susto, deu-se conta de que de fato a flutuar estava; preso por uma linha, enrolada em volta de uma lata de ervilhas vazia, que seu irmão mais novo segurava, empinando Ícaro à maneira de uma pipa, que assim subia em direção às nuvens. Lá em cima, o vento impulsionava-o para cada vez mais alto e longe. Até que a linha, incapaz de suportar a forte tensão, acabou arrebentando. Daí em seguida, Ícaro começou sua trajetória de queda.

– Ícaro, meu filho,

Sua mãe, a despertá-lo

– acorde.

de um breve, porém profundo cochilo, que o tomou de assalto, tamanho era seu cansaço, no mesmo instante em que depositara sua cabeça sobre o seu travesseiro, em sua cama. Ainda meio grogue de sono, ele confessou a ela:

– Mãe, tive um sonho tão estranho.

No que sua mãe, num tom de voz audível apenas na quietude de uma ruína, perguntou-lhe:

– Qual foi, meu filho?

E dele ouviu como resposta:

– Sonhei que estava eu dentro de um ônibus, na rodoviária, a despedir-me de você, do pai, dos meus irmãos, do vô e da vó.

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