Os outros também somos nós

Quem de longe observasse aqueles dois homens, sentados sobre o banco da praça da igreja matriz, portando chapéus-coco sobre as cabeças e gesticulando efusivamente, poderia ser levado a crer, vendo à distância, que estavam a discutir e que seria portanto uma questão de mais hora menos hora para entrarem em briga corporal, chegando, assim, às chamadas vias de fato.

Bastaria, contudo, aproximar-se para ver que, além de nada dizerem, os dois homens estavam na verdade distantes de algo mesmo próximo de uma desavença: ambos eram mímicos e ensaiavam uma apresentação que pretendiam fazer logo mais, num cruzamento próximo dali: eram artistas mambembes: viviam disso.

Uma menina, vestida de bailarina, aproximou-se deles, com o olhar intrigado, como o de quem vela um sono alheio e intranquilo. Ficou por alguns instantes a observá-los, e eles, indiferentes, continuaram seu ensaio de mímica.

A menina levantou seu pequeno corpo, apoiando-o sobre as pontas de seus pés e, sob a regência de uma música que tocava apenas em sua imaginação, começou a dançar passos de balé. Os mímicos nem ao menos a notaram, ou, se notaram, não demonstraram, pois continuaram firmemente concentrados em seu ensaio.

Frustrada, a menina fez cessar a música em sua mente e com isso também parou de dançar.  De maneira quase irrefletida, passou então a imitá-los. Ora imitava um, ora outro, e assim conseguiu tirá-los daquela espécie de transe em que estavam metidos, fazendo-os finalmente percebê-la ali diante deles. 

O mímico um, sorrindo, olhou para a menina e cumprimentou-a:

– Olá, garotinha.

Mas em resposta: 

– …

recebeu apenas o silêncio.

Mímico dois então interferiu com um:

– Como vai você, minha pequena?

E novamente:

– …

nada retornou da menina, a não ser um olhar estatelado, como se surpresa, ou assustada, ou ambos, por ver-se diante de mímicos que falavam.

Lembrou-se de sua mãe a adverti-la, pouco antes em sua casa, enquanto punha seu vestido para sair à rua:

– Não vá falar com estranhos, menina.

Algo que sua mãe sempre lhe dizia, ao menor sinal de que a menina fosse sair de casa, mesmo sabendo da inutilidade, ou até crueldade de tal advertência, uma vez que dirigida a alguém que, como a menina, nada podia falar: era muda.

A estes três personagens: mímico um, mímico dois e a menina-bailarina, foi juntar-se uma mulher-placa, daquelas que, de um modo desumano, servem de suporte humano a anúncios publicitários, ficando prostradas pelas esquinas da cidade, sendo, quando muito, notadas em sua publicidade; raramente ou nunca em sua humanidade. Mas ali, aquela mulher-placa, miúda, tão pequena quanto a menina-bailarina, talvez até menor, a depender do ângulo do qual se olhava, havia sido enfim notada, fato que a deixou surpresa, assustada, ou ambos, tão acostumada havia sido à invisibilidade durante toda a sua vida.

Mas a placa que envolvia o corpo da mulher-placa, tapando-a tanto na parte da frente quanto atrás, não tinha anúncio nenhum: estava em branco, cor esta que, involuntariamente, servia ao propósito de mimetizar sua pele, muito alva, e que se não fosse a placa estaria totalmente exposta, pois, debaixo dela, estava nua. Isso, a nudez da mulher-placa, a placa também não anunciava, mas era possível de se notar, tanto que, como já se disse, notaram-na a menina-bailarina e os mímicos um e dois. Este último estalou os dedos de ambas as mãos diante dos olhos dos demais, quebrando o incômodo silêncio que por instantes se fizera entre eles. Quis assim chamar-lhes a atenção, pois queria dizer-lhes algo. Mas ao invés de dizer em palavras, como àquela altura já era sabido que podia fazer, disse-lhes o que pretendia dizer sob a forma de gestos. Mímico um olhou-o de esgueio, questionando-o, também em gestos, sobre a mensagem que mímico um quisera transmitir.

Ao notar, contudo, a incompreensão de mímico um sobre o significado de seus gestos, mímico dois desistiu deles e propôs em alto e bom som:

– Que tal se trabalhássemos juntos?

Ante tal indagação, cada um dos demais, a seu modo, respondeu com uma outra questão:

– Como assim?

Com efeito, essas palavras foram proferidas apenas pela mulher-placa, ainda assim bem baixinho: era bastante tímida e em geral muito calada. A menina-bailarina, por sua vez, indagou com um gesto do seu olhar; ao passo que mímico um, com gestos de suas mãos e braços. Mas tão simultâneas foram todas estas manifestações para dizer:

– Como assim?

que pareceram, todos os três, ter respondido em coro.

Horas mais tarde, numa movimentada esquina da cidade, a mulher-placa, novamente prostrada, já não tinha mais sua placa em branco, nem ela estava mais nua: usava o vestido da menina-bailarina. Sobre a placa, havia uma grande flecha vermelha desenhada a giz, que apontava para a menina-bailarina dançando ali ao lado, completamente nua, exceto pelo par de chapéus-coco, emprestados pelos mímicos, cobrindo-lhe suas vergonhas de cima e de baixo.

Hipnotizados por essa cena, ignorando por completo o anúncio da mulher-placa, que assim mais uma vez via-se invisível, os motoristas que paravam no cruzamento para aguardar o semáforo abrir, não percebiam a aproximação silenciosa dos mímicos um e dois. Estes, à maneira de gatos de tocaia, seguiam silenciosos para as laterais dos carros e, aproveitando-se da distração de alguns motoristas que, mesmo cientes da violência da cidade, mantinham as janelas de seus carros abertas, anunciavam, com as mãos imitando revolveres, gritando em alto e bom som:

– É um assalto!

Anúncios