Ao fim e ao cabo

Ao apoiar o tronco sobre o parapeito da janela do seu apartamento, no quinto andar, Aldo deitou o olhar sobre a rua lá embaixo, tomada de pessoas a irem para todas as direções e virem de todos os lados. Nenhum rosto lhe era familiar: uma multidão de anônimos, que Aldo acompanhava com os olhos. Aqui e ali, ora um, ora outro, ele selecionava, em meio à multidão, um alvo para o qual apontava o revólver que trazia na mão direita. Primeiro, mirou uma mulher que caminhava com uma criança ao colo, mas, mal tinha lhes apontado a arma, perdeu-as de vista. Depois, seu alvo foi um jovem com ar de parvo, com um boné virado para trás sobre a cabeça, que caminhava apressado por entre aquele mar de gente, que por fim também acabou por engoli-lo, fazendo-o sumir do alcance do olhar e da mira do revólver de Aldo. Estes então foram ao encontro da figura de uma senhora, bastante idosa, que caminhava pé ante pé, com uma bolsa pendurada ao braço. A velha senhora parou em um ponto da calçada, em frente ao cruzamento, a fim de aguardar a abertura do sinal para os pedestres. Enquanto esperava, ela olhou ao seu redor e para o céu, seguindo à risca o velho hábito de conferir se o tempo ia bem ou se haveria risco de chuva para dali a mais tarde. 

Nisso, seus olhos encontraram-se com os de Aldo e, logo em seguida, com a arma que ele empunhava, a mirar-lhe bem no meio da tes

Créc!

Ouviu-se um clique partindo da arma e depois 

Créc!

outro e 

Créc!

mais outro: Aldo tentava atirar, sem êxito. O revólver insistia em falhar.

Acreditando que, ao sacudir a arma, na vã tentativa de dispará-la, Aldo estava a acenar para ela, a velha senhora retornou um gentil aceno para ele. Ao fazê-lo, ela trazia no rosto o esboço de um sorriso terno e doce como o de um bebê. 

Bam!

O revólver enfim disparou.

No mesmo instante, o sinal do cruzamento abriu, e as pessoas que ali esperavam seguiram adiante.

  

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Madrugadas sem orvalho

Maria era o seu nome de batismo, aquele que, junto ao seu sobrenome, estava registrado em seus documentos. Contudo, no seu local de trabalho, no caixa à entrada dos sanitários da rodoviária, nenhum  dos clientes que por ali chegavam interessava-se por saber o nome dela, que assim passava incógnito mesmo ela trazendo ao peito um crachá com sua identificação. À toda evidência, aqueles clientes mal davam pela própria existência de Maria, pois sua presença ali nem tampouco era percebida para além da função que desempenhava: receber, das mãos dos usuários dos banheiros feminino e masculino, aquelas uma ou duas moedas que, invariavelmente, completavam o módico valor necessário para que pudessem fazer uso dos mictórios lá dentro, a fim de dar satisfação às suas necessidades mais básicas, e não raras vezes, quando ali chegavam, já bastante urgentes.

Ela trabalhava no turno da madrugada, período de menor movimento na rodoviária e, por conseguinte, nos sanitários. Para distrair-se, passava as horas a tricotar uma blusa de lã, a qual, uma vez pronta, Maria cuidava de desfazê-la por completo, e depois novamente tricotá-la, e assim por diante, num ciclo sem fim, repetido semana após semana, tendo por produto final e efêmero sempre uma blusa do mesmo modelo e cor que a anterior.

Em geral, por faltar condicionamento de ar àquele recinto, Maria não sentia necessidade de usar, quando no trabalho, nenhum tipo de abrigo contra o frio, daí que o ato repetitivo de tricotar e, depois de pronta, desmanchar a blusa era-lhe não mais do que um passatempo, a auxiliá-la a tornar suportáveis aquelas longas e, em geral solitárias, horas noturnas passadas ali no caixa à entrada dos sanitários. Esse objetivo sobrepunha-se ao de fabricar um artigo de vestimenta que pudesse ser-lhe útil. Embora, de fato, tivesse muito poucas roupas, estas eram-lhe suficientes para abrigar seu corpo. Em sua idade, não detinha vaidade para vestir-se para outra função senão simplesmente proteger seu corpo da nudez e, eventual e muito raramente, também do frio.

Contudo, numa noite em que por ali baixou um frio que, à Maria, pareceu demasiado intenso e inesperado, dado que era novembro, portanto um mês de clima normalmente quente, ela acabou pega desprevenida, e assim, para aquecer-se, vestiu a blusa que tinha acabado de finalizar, e que ainda nem tivera tempo de iniciar o desfazimento. Nisso, seu crachá de identificação acabou encoberto, algo que era contra as regras da empresa que a empregava, mas cuja infração tinha remotas chances de ver-se acusada, dado que, durante as madrugadas, Maria em geral e praticamente trabalhava sob sua única supervisão.

Era uma blusa de lã comum, num azul-marinho que realçava os cabelos grisalhos de Maria, conferindo-lhes uma aparência um pouco mais viçosa para aqueles fios, em geral tão opacos quanto a vida daquela de cuja cabeça pendiam.

Alta madrugada, um senhor aproxima-se do balcão e, assim como faziam todos que para ali iam, deixa cair sobre a mão direita de Maria uma moeda, no exato valor necessário para franquear-lhe o acesso ao banheiro masculino.

Quando a mão direita de Maria ainda estava a sentir a fisgada do frio metal na pele da palma de sua mão, um:

– Qual o nome da senhora?

surgiu da boca do homem, aquecendo os ouvidos de Maria. Surpresa, ela levantou a cabeça, que vinha em geral cabisbaixa, e viu diante de si um distinto senhor de meia idade, cujos cabelos, grisalhos assim como os dela, vinham presos em um rabo de cavalo que descia até o meio de suas costas, formando o efeito como de uma pluma, daquelas que Maria via aplicadas a exuberantes fantasias de Carnaval, cujos desfiles, em fevereiro, ela acompanhava pelo pequeno aparelho de televisão, em geral ligado para a audiência de ninguém, ali sobre o balcão. Ante o silêncio de Maria, mas ainda interessado na resposta, ele:

– O nome da senhora?

voltou a indagá-la, desta vez modulando a voz para um tom ainda mais brando, que a ela pareceu aconchegante como o deitar da cabeça sobre o travesseiro ao final do dia.

(no caso dela, ao final da noite)

Como que hipnotizada, Maria continuava a depositar um olhar lânguido por sobre aquele homem, de cuja cabeça brotava aquele exuberante rabo de cavalo de fios grisalhos. Finalmente, após alguns instantes de torpor e paralisia, conseguiu responder-lhe, num quase balbucio:

– Meu nome… obrigada.

Resposta que, num primeiro átimo de segundo, causou ao homem algum espanto, dado ser um tanto inusitada diante da pergunta que ele havia posto. 

(ela chama-se Obrigada?)

Perguntou ele, a si próprio, mentalmente.

(estranho)

Superado o estranhamento inicial do homem diante da resposta de Maria, ele, candidamente,

– Prazer.

apresentou-se a ela:

– Meu nome é Gonçalo.

E eis que aquele homem, que até instantes atrás era para Maria apenas o frio do metal de uma moeda a cair sobre a palma de sua mão direita, tornou-se depois uma voz, daí foi-se materializando na figura de um senhor de meia idade, e então, finalmente, para a de um senhor de meia idade com um enorme e exuberante rabo de cavalo, a prender longos fios de cabelos grisalhos à sua cabeça, agora tinha um nome:

‘Gonçalo’

que, se não era um nome que Maria considerava propriamente bonito, tornou-se sensual

(a sensualidade de um anjo)

na voz grave, porém cândida, daquele senhor à sua frente.

Gonçalo sorriu para ela e adentrou o sanitário masculino, onde ficou por alguns minutos. Passados estes, estava ele novamente diante do balcão à entrada, onde Maria havia-o recebido. 

Nem ela nem mais ninguém estava lá: terminado seu turno, Maria partira mesmo antes daquele ou daquela que a substituiria naquele posto chegar para ocupá-lo no turno seguinte.

(ela não era obrigada)

Havia sobre o balcão, e isto Gonçalo notou, logo antes de dali partir, um pedaço de papel higiênico, daqueles ordinários que eram dados aos usuários daqueles sanitários, mas que chamou-lhe a atenção pois no papel vinha escrito seu nome: Gonçalo. Ele então tomou o papel nas mãos e, ao abri-lo, viu, numa caligrafia esforçada, uma mensagem que, como toda mensagem escrita, carregava um pouco da impossibilidade de uma palavra falada, a dizer-lhe:

‘Obrigada por perguntar-me meu nome’

seguida, logo abaixo, de uma assinatura em letra minúscula:

‘maria’

a informá-lo que Maria era, portanto, o nome da mulher que, antes ali, gentilmente o recebera.