De passagem por essa vida

Estou sentado à mesa de uma cafeteria, bem próxima de casa. É de manhã, e enquanto bebo o primeiro café do dia, vou olhando umas fotos de família, que trago dentro de uma caixa de sapatos. São várias fotografias muito antigas, algumas já bastante danificadas pela corrosão do tempo e dos elementos. Seleciono uma delas e coloco sobre a mesa.
Na mesa ao lado, a poucos metros da minha, há uma senhora bastante idosa. Somos os únicos clientes do estabelecimento. O olhar dela está direcionado ao vazio – é um olhar carregado de uma solidão tal, que parece até pesar sobre suas costas frágeis, a ponto de fazê-las curvarem-se, à maneira de uma cariátide.

Lembra-me o tipo de olhar que já por tantas vezes notei nos olhos dos porteiros dos grandes prédios residenciais de São Paulo – falo daqueles prédios mais antigos, que ainda não escondem esses homens por detrás de vidros escurecidos.

(estes devem sentir-se ainda mais solitários)

Faz frio, mas, apesar disso, a senhora na mesa ao lado está vestida apenas com um leve vestido de chita, que mal lhe cobre boa parte das suas pernas e braços.

Intrigado, tomo o último gole de café que ainda sobrava no fundo da xícara, aproximo-me dela e, depois de cumprimentá-la:

– Bom dia.

Pergunto-lhe:

– A senhora não está com frio?

e então ofereço-lhe:

– Gostaria de um café ou um chá bem quente?

Como as folhas de uma árvore em um dia sem vento, a velha senhora continua imóvel; seu olhar, ainda fixo no vazio. Mas seus olhos agora parecem estar mais brilhosos do que quando a notei há instantes. Logo descobri a razão: lágrimas.

Posiciono-me à frente dela, de modo a ocupar, com o meu corpo, o vazio que ela contempla. Noto, enfim, meu reflexo nas pupilas de seus olhos, ou pelo menos penso ver-me dentro deles. Pergunto-lhe:

– Qual o nome da senhora?

no que ela levanta ligeiramente sua cabeça, olha-me bem de frente, como quem nos olha de uma fotografia, e responde-me:

– Arlete.

numa voz baixa, cansada, que parece ter chegado às suas cordas vocais depois de peregrinar, sozinha, por longas distâncias e por tempos imemoriais.

– Prazer.

digo-lhe.

– O meu nome é Serafim.

E, enquanto meus olhos continuam detidos por aquela figura, os olhos de Arlete, por sua vez, voltam a emular os olhos de uma estátua.

Penso em quanto ela faz recordar-me de minha avó, que em seus últimos anos de vida olhava-me sem me notar, pois o Alzheimer fizera com que ficasse sem memória, de modo que, aos olhos dela, eu ou qualquer outra pessoa da família éramos sempre estranhos, recém-chegados ao seu convívio. Esquecidos por sua memória, já devíamos estar mortos para ela há muito tempo.

No dia em que ela veio a falecer, o primeiro pensamento que tive, ao saber de sua morte, foi imaginar que horrível solidão deveria ser morrer daquela maneira, sentindo-se cercada por estranhos, em um mundo onde a falta de memória eliminara de seu convívio todos que ela conhecia: família, amigos.

(que morte não é solitária?)

Essa lembrança faz meus olhos marejarem.

(– Como a senhora está, vó?

– De passagem por essa vida.)

Pego um lenço que trago no bolso da calça e enxugo os olhos. Uma lágrima cai sobre a foto que eu havia retirado de dentro da caixa e colocado sobre a mesa, molhando-a um pouquinho. A imagem do mar, na foto molhada pela lágrima, parece agora ganhar movimento, cheiro.

Na minha frente, Arlete ainda está envolta, como minha avó vivera em seus últimos anos de vida, na invisível redoma do Alzheimer, isolada de tudo e todos ao seu redor.

Ao menos suas lágrimas parecem ter cessado de escorrer. Forçando um pouco meus olhos, consigo notar o tracejado que as lágrimas, ao secarem, deixaram nos seios de sua face. São marcas sutis, ainda mais se comparadas às rugas que vincam a pele de seu rosto. Ambas, por certo, são testemunhas das mesmas dores; de todas as dores que, à maneira de um cinzel, esculpiram aquele ser diminuto, curvado, sentado à minha frente, cujo olhar, de tão distante, parece separado de mim por uma fronteira de muitos anos.

Sinto-me tão pequeno diante de toda a história que deve comportar essa mulher. Imagino como seria fascinante se pudéssemos colocar uma agulha de vitrola para correr sobre os sulcos de sua pele vincada e ouvir tudo que estaria registrado naqueles baixos relevos.

A casa dela, provavelmente, deveria ser repleta de retratos dispostos pelas paredes, em álbuns ou mesmo em caixas. Sempre gostei de explorar a casa das pessoas mais velhas, ouvir suas histórias e, deleite supremo, vasculhar aquelas caixas de fotografias antigas, como esta que trago comigo. Aprecio reparar no que vestiam, como eram os locais que hoje conheço em épocas passadas. Sobretudo, gosto de olhar fundo nos olhos dos retratados, e procurar naqueles olhos um enredo para aquelas imagens. Nem sempre consigo: nem todos os olhos têm algo a nos dizer: alguns tanto testemunharam, que lhes falta mesmo meios para contar tudo que viram.

É este o caso dos olhos de Arlete, e quando, mais uma vez, volto meu olhar para bem dentro dos olhos dela, percebo que aos poucos eles começam novamente a verter lágrimas.

Quando menino, perguntei a uma professora de química se as lágrimas de tristeza tinham a mesma composição química das lágrimas de alegria. A professora, uma mulher de olhar frio e distante, não soube me responder. De seus lábios, quase imóveis, instalados naquele rosto que, de tão inexpressivo, mais parecia a parede lateral envidraçada de um edifício, ouvi apenas um:

– Desconheço.

Bem seco, ríspido até.

Olhando em retrospectiva, hoje creio que ela mal sabia o que eram lágrimas. Foi minha avó que, em sua enorme sabedoria e generosidade de mulher simples, quando por mim também questionada a respeito, disse-me um dia, a fim de explicar-me seu entendimento:

– Não saberia lhe dizer, meu filho, se as lágrimas de tristeza e de alegria teriam composições químicas distintas, mas certamente têm composições emocionais bem diferentes.

E isso bastou para mim. Eu era então uma criança ingênua, um menino.

Tomo as mãos de Arlete com as minhas e passo a acariciar a pele muito macia e fina dos seus dorsos, cheios de pintas senis.

(como as mãos de minha avó)

– Dona Arlete?

chamo-a, intensificando as carícias sobre suas mãos.

– Por que a senhora está chorando?

pergunto-lhe, enquanto vejo escorrer aquelas lágrimas,

– Aconteceu algo?

que novamente descem de seus olhos, preenchendo os vincos da pele de seu rosto.

Fui um menino sensível, chorão. A pele de meus sentimentos talvez fosse frágil demais para as tantas cercas cheias de pregos e espinhos que a vida forçou-me a cruzar desde muito jovem.

(vida severina)

Ao contrário, hoje, já velho, sinto como se as minhas lágrimas tivessem secado em definitivo. Vai ver é um prenúncio do momento, quiçá próximo

(daqui a nada)

quando eu mesmo não serei nada senão um conjunto de pele e ossos secos.

Peço um outro café. Enquanto o garçom vai buscá-lo, volto a observar Arlete e seus olhos distantes, como se estivessem a mirar o horizonte diante do oceano.

Minha avó foi criada durante toda a sua vida no interior. Nunca havia visto o mar, a não ser em fotografias. Na primeira vez em que finalmente pisou na areia de uma praia e aproximou-se do mar, sentiu-se desequilibrada pelo repuxo das águas. Recordo-me de vê-la então voltar as costas para o mar e, com um olhar de pânico, retornar para junto de nós. Mais tarde naquele dia, consegui convencê-la a voltar para a água, junto comigo. De mãos dadas, fomos até o ponto onde ficamos submersos até a cintura e dali voltamos. Ao abrigo do guarda-sol, ficamos eu e ela a conversar sobre a vida, pelo resto daquela tarde. O olhar de pânico dera lugar a um olhar cheio de ternura

(um olhar-abraço)

como que depositário de um amor generoso, sentimento que nela prevalecia, apesar de a sua vida

(vida severina)

ter-lhe tantas vezes querido impor outros sentimentos.

Minha avó era cheia de histórias para contar, algumas divertidas, mas a maioria era carregada de muito sofrimento.

(agrada-me chorar, afinal temos lágrimas pra quê?)

De qualquer forma, eu passava horas a ouvi-la. Com um sentimento de pesar, dou-me conta agora que todas essas histórias iam deixando de ser narradas à medida que suas testemunhas foram morrendo. Sendo eu o último dessas testemunhas, também as histórias de minha avó, que trago comigo, deixarão de ser contadas quando eu partir dessa vida. E então não haverá mais ninguém para, por exemplo, contar-lhes a respeito do que vem registrado na foto que depositei sobre a mesa à minha frente: uma fotografia em preto e branco, que eu e minha avó tiramos naquele dia de praia. Nela, ambos estávamos a olhar de frente para o mar e para a lente do fotógrafo. Eu estou a sorrir, e ela

(toda curvadinha em seu vestido de chita)

tem um olhar distante. Nos seus olhos, vendo a imagem agora com atenção, noto que haviam lágrimas.

No verso da fotografia, a inscrição: “1965”, seguida de “minha mãe Arlete e meu filho Serafim”, escrita por minha mãe, a identificar os personagens, o tempo e o lugar: “na primeira ida de ambos à praia”, registrados por meio daquela velha fotografia.

  

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