Dali a nada

Havia terminado de endireitar o porta-retratos, que há tantos anos estivera preso naquele mesmo local, conforme denunciava a tonalidade mais clara da tinta da parede logo atrás dele. Cansada, Dona Celeste sentou-se no sofá, bem diante da televisão desligada, em cuja tela escura ela podia ver refletida sua imagem, ali projetada à maneira de um negativo de fotografia, daquelas bem antigas. Suspirou fundo… e olhou ao seu redor, a fim de preencher com imagens da memóriaImpossível dizer se fiéis à realidade ou não

o vazio humano do ambiente, buscando, num esforço de náufraga, trazer de volta àquele recinto as conversas, discussões, risos e choros daqueles

Seus familiares

que um dia haviam habitado o diminuto espaço do pequeno apartamento, onde ela agora residia sozinha. De fato, era um imóvel minúsculo, conquanto seu espaço interno foi sendo ampliado, no espaço de alguns poucos meses, à medida que a morte, à revelia dos vivos, unilateralmente decidira levar dali os outros membros da família, que também ali residiam: Seu José, seu marido, foi levado primeiro, vítima de um câncer nos pulmões; pouco tempo depois, por volta de uns dois meses após a partida dele, seu filho e sua nora o acompanharam, vítimas de um acidente de carro. Restou ela: Dona Celeste, que só não se julgava acometida pela solidão, pois lhe sobrara a companhia do casal de canários da terra, que

Cada vez de forma mais esporádica

cantarolavam dentro de uma gaiola presa à parede, logo acima do tanque, na exígua área de serviço contígua à cozinha, ali na parte de trás do apartamento. Os olhos de Dona Celeste, de aparência lassa, cheios de olheiras escuras, passeavam pelos quadros, pelas fotografias, pelos bibelôs: objetos que

Naquele momento

pareciam estar a sussurrar vozes, como se estivessem a segredar algo entre eles.

Riam-se dela?

Quando passaram pelo buquê de camélias brancas de plástico, que sua nora usara na ocasião do casamento com seu filho, seus olhos detiveram-se para além de um simples instante, de modo a poder acomodar o volume maior de lembranças que aquele objeto lhe transmitia: na noite da cerimônia, quando a noiva – sua nora – fizera o tradicional gesto de jogar o buquê por sobre seus ombros, em direção a suas convidadas, foi Dona Celeste (na época ainda apenas Celeste) quem conseguiu pegá-lo, vencendo, na disputa, uma dezena de moças casadoiras, as quais, num frenesi de trutas que sobem a correnteza de um rio para desovar, pulavam, afoitas, tentando agarrar o buquê antes que este caísse no chão. O buquê de camélias, desde aquela noite,

– Dona Celeste, quando é que a senhora vai jogar fora essas flores velhas?

a contragosto de

– Deixe-as em paz aí, Adelaide.

Adelaide, sua nora, ornava a mesa de centro da sala, metido dentro de um jarro de opalina rosa.

– Estão tão bonitas.

Apesar de já há muito amareladas pela ação do tempo.

Há dias, Dona Celeste vinha se sentindo ansiosa, sentimento que a última noite, passada em vigília, em razão da insônia, só tinha agravado. Logo pela manhã, resolveu abrir todas as janelas do apartamento, buscando arejá-lo e, com isso, respirar melhor, a fim de afastar a ansiedade. Abriu também a porta da entrada do apartamento, que dava para um longo e escuro corredor curvo, salpicado de luzes automáticas, que acendiam quando censores ligados a elas identificavam a movimentação de algum ser vivo – humano ou animal – a passar por ali, revelando, assim, de cada lado do corredor, as portas dos muitos apartamentos que faziam vizinhança ao de Dona Celeste naquele mesmo andar. Cada porta era decorada segundo o gosto estético de seu respectivo morador: gente de todo tipo, mas, em geral, pessoas solitárias, condição que agora também alcançava Dona Celeste.

Exceto pelo casal de canários da terra a lhe fazerem companhia.

Algumas portas não dispunham de ornamento nenhum, talvez indício de que a condição humana do morador que residia sob sua guarda, além de flertar com a solidão, também podia ser diagnosticada como imune à capacidade de sonhar. Era um edifício gigantesco, com mais de uma dezena de minúsculos apartamentos em cada laje, e todos tinham as janelas de suas salas voltadas para um profundo e frio vão central, de modo que da sala de cada apartamento podia-se diretamente visualizar o interior do apartamento da frente, e, logo mais abaixo e acima, parte do interior dos demais apartamentos, e vice-versa, formando, no seu todo, um visual labiríntico, como naquelas pinturas do Escher.

Janelas de onde não se via o sol nascer, nem se por: sem horizontes à vista.

Aqueles que passavam pela porta do apartamento de Dona Celeste – e a notavam aberta –, lançavam rápidos olhares ali para dentro, desviando-os, assustados, logo em seguida ao encontro com o olhar dela, que seguia, sentada e quase imóvel, ali diante da televisão desligada. Passadas algumas horas, nada da sua ansiedade diminuir – pelo contrário, havia aumentado, a ponto até de se tornar angustiante. Uma cadela de olhar assustado, bixiguenta, só pele e osso, ao passar por ali e deparar-se com a porta aberta, atreveu-se a entrar, mas, ao ver-se diante da figura de Dona Celeste, que dali do sofá a observava feito um mocho, deu meia volta e saiu, num passo apressado, com o rabo entre as pernas.

Depois disso, Dona Celeste se levantou e foi tomar uma água na cozinha.

(– Ô véia, traz uma água para mim, quando você voltar?)

Lembrou-se de seu falecido marido a pedir-lhe isso quando ela ia à cozinha, sempre se esquecendo de emendar um:

– Por favor.

que para ela, àquela época, poderia fazer alguma diferença – não mais. Era-lhe, assim ali pensou, de fato, de todo irrelevante agora.

Ao ver a gaiola dos canários da terra, presa à parede, logo acima do tanque, na exígua área de serviço contígua à cozinha, que ficava na parte de trás do apartamento, dirigiu-se até ela e abriu a sua portinhola. Indiferentes à desimpedida passagem para o lado de fora da gaiola, os canários da terra agiam como se a portinhola ainda estivesse fechada, ignorando por completo a chance que lhes havia sido concedida de saírem e desbravarem o mundo exterior – continuaram ali dentro, como se nada em seu pequeno mundo tivesse sofrido qualquer alteração. Dona Celeste, algo indiferente, virou-lhes as costas e voltou para a sala, seguindo em direção à janela, de onde ela podia mirar o fundo do vão central do edifício e as janelas dos apartamentos vizinhos, com seus moradores vivendo seus dramas quotidianos.

(– Dona Celeste, quando é que a senhora vai jogar fora essas flores velhas?)

A brisa fresca que entrava por aquela janela fazia as cortinas esvoaçarem e revirava o jornal do dia, que Dona Celeste havia deixado sobre a mesa de canto, ao lado do sofá – era a última edição do jornal a que ela teria direito, pois cancelara a sua assinatura no dia anterior.

Não lhe interessava mais saber das notícias do dia seguinte.

Junto com a brisa, chegava uma mistura agridoce de cheiros e fedores provenientes dos outros apartamentos. Sentindo a carícia do vento sobre a pele vincada de seu rosto e por entre seus cabelos grisalhos, Dona Celeste viu-se, de um instante para outro, livre da angustiante ansiedade que a atormentava. Tomada então por uma leveza entorpecente, agarrou-se às cortinas e inclinou seu corpo

pa

ra

fo

ra,

o que, por fim, dali a nada, faria com que ela se sentisse

(– Deixa-as em p

em paz.

  

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