E pode-se jamais saber numa escuridão dessas

Há anos, nenhuma carta, nenhum telefonema, nem o menor sinal de vida. O último momento em que se viram foi de fato a última vez em que se falaram. Certa manhã, ele saiu de casa logo cedo, dizendo para ela:– Vou até ali na padaria comprar pão e já volto.

No que Dona Cristiana então lhe pediu:

– Aproveita e traz farinha de rosca também.

Pois, para o almoço daquele dia, ela queria preparar uns bifes à milanesa.

Depois disso, seguiram-se cinco anos, daí para mais,

Ela não sabia dizer ao certo.

sem nenhuma carta, nenhum telefonema, nem o menor sinal de vida de Deus: seu marido. Na verdade, João de Deus, mas que todos, por respeito e temor reverencial, chamavam-no Seu Deus.

E ai daquele que ousasse escrever, ou mesmo deixar implícito na pronúncia, que o “s” do Seu estivesse em letras minúsculas: era logo punido com um xingamento deveras humilhante, que reduzia o perpetrador da injúria

Assim ele considerava.

a algo para muito abaixo de um ser humano. Também não lhe apetecia ser chamado de senhor, pois Senhor Deus afigurava-se para ele demasiado formal.

Sentia-se envelhecido com esse modo de tratamento.

Crime maior

Na visão de Deus.

cometiam aqueles que escreviam, ou que deixavam implícito na pronúncia, que o “d” do Deus estivesse em letras minúsculas: para estes, a vida tornava-se um inferno. Deus costumava usar de sua posição de gerente na empresa de seguros de vida,

Posição que lhe garantia uma cadeira de espaldar médio: nem tão alto como o das cadeiras ocupadas pelos membros da diretoria, nem tão baixo como o das cadeiras do pessoal do baixo clero, expressão com a qual ele designava os funcionários abaixo dele na hierarquia da empresa – não eram muitos.

para fazer valer sua pequena autoridade, que ia até o ponto em que esta se confrontava com a da diretoria à qual estava subordinado, pois, perante seus membros, Deus comportava-se como se devesse-lhes a vida: agia sem autonomia nenhuma, nem tampouco amor próprio – era-lhes completamente servil.

E depois de todo esse tempo sem nenhuma carta, nenhum telefonema, nem o menor sinal de vida de Deus,

Que Dona Cristiana acreditava estar vivo apenas por obra de sua própria fé.

Não havia de fato, nenhum indício disso desde o sumiço de Deus.

eis que, dentro de um envelope pardo, com o nome do remetente

Mas sem indicar seu endereço, tampouco um número de telefone qualquer para contato.

e do destinatário,

Este com o endereço.

impressos sobre etiquetas, um cartão com um:

Lembrança de Aparecida

em uma letra similar a dedinhos de gorda, escrito logo abaixo da nuvenzinha que servia de andor para a imagem da dita santa. Da nuvenzinha, pululavam umas cabecinhas de querubins, a olhar para cima, marotos, como que a espiarem por baixo do manto da divindade.

O cartão havia sido entregue na casa de Dona Cristiana provavelmente até o meio daquela tarde, quando a doméstica ainda cumpria sua jornada de trabalho, pois, como de costume, e seguindo fielmente a orientação de sua patroa, o envelope havia sido colocado, junto com outras correspondências, dentro da coroa do filtro de louça em formato de abacaxi, que ficava sobre a pia da cozinha.

Logo ao lado da moringa de barro, que, ao invés de água, era preenchida com aguardente.

Não estava jogado na soleira da porta, como aquelas cartas que chegavam depois de finda a jornada de trabalho da doméstica.

No verso do cartão, logo abaixo do:

Estive em Aparecida e lembrei-me de você

numa letra miúda, de menina, Deus dizia estar arrependido, pedia a compreensão e o perdão de Dona Cristiana por todos esses anos sem nenhuma carta, nenhum telefonema, nem o menor sinal de vida, e por fim anunciava que:

Chego no domingo, ainda a tempo de

E a mensagem de Deus, por falta de espaço no cartão, terminava assim, incompleta.

Cinco anos para mais,

Dona Cristiana não sabia dizer ao certo.

sem nenhuma carta, nenhum telefonema, nem o menor sinal de vida e, de repente, numa mensagem incompleta, escrita em uma letra miúda,

De menina.

num cartão suvenir de Lembrança de Aparecida, logo abaixo do:

Estive em Aparecida e lembrei-me de você.

Deus anunciava que chegaria no próximo domingo.

Portanto, dali a três dias.

A tempo de

Dona Cristiana deduziu que ele quisera dizer a tempo de almoçarem juntos e, no domingo, acordou bem cedo, foi ao mercado, comprou, entre outros produtos, espaguete, meio quilo de carne moída, para o molho bolonhesa, e um quilo de filé mignon,

Os pratos preferidos de Deus.

e, chegando em casa, pôs-se a cozinhar, esperançosa de que, mais hora menos hora, Deus bateria à porta, anunciando a sua chegada com um:

– Voltei.

Era quase meio-dia, o almoço já estava pronto, a mesa colocada, tudo preparado para a volta de Deus. Mas eis que as horas foram passando e nada de ele bater à porta, para anunciar a sua chegada com um:

– Voltei.

Nada.

Cansada de esperar, conformada, mas sobretudo faminta, Dona Cristiana encheu um prato de macarronada, depositou sobre ele dois bifes de filé mignon, e devorou-os avidamente. De tão boa que a comida estava

Ou seria a fome dela que estava grande?

bateu logo dois pratos, e, mesmo sobrando pouco espaço para a sobremesa, não se furtou a essa indulgência

Havia preparado um pudim de leite condensado sem furinhos.

e mandou ver no pudim de leite condensado sem furinhos que havia preparado, também de modo a satisfazer o gosto de Deus, que não tolerava pudim de leite condensado com furinhos.

Naquele dia, tão satisfeita quanto Dona Cristiana, ficou a cadela vira-lata Maria, que se fartou com a enorme sobra de macarronada e bifes de filé mignon, oferecidas a ela, como uma oferenda, por Dona Cristiana, que, cansada de esperar, conformada, mas então de barriga cheia, tomou um gole de pinga

Daquela que mantinha guardada dentro da moringa ao lado do filtro de abacaxi.

e foi para o quarto, onde tirou uma soneca tão profunda que lhe pareceu durar por uns três dias.

Ao acordar, sentiu-se como que a ressuscitar.
N. do A.: O título deste conto é uma expressão colhida do livro “O inominável”, de Samuel Beckett

  

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