Grude

Ela era uma ex-post-it, que tinha perdido o seu emprego em um escritório de contabilidade ao ver-se desprovida de sua capacidade de grudar. Tornou-se assim apenas um pedacinho de papel amarelo.Foi depois tentar ganhar a vida como confete, mas era quadrada demais para isso.

Não cola, diziam-lhe os outros confetes, fazendo troça dela enquanto, rindo coloridamente, eram jogados das mãos de um arlequim em direção a uns foliões que brincavam o Carnaval na Rua Augusta.

Passou a viver jogada na sarjeta, em meio a bitucas de cigarro que por ali também caiam. Conseguiu alguma amizade com aquelas que tinham marcas de batom. Ainda assim, sentia-se sozinha, abandonada, triste. 

Numa noite de sábado, um chiclete mascado caiu ao seu lado, jogado por… alguém: não deu tempo de ver: passou muito rápido, a rua estava cheia e escura àquela hora.

Olharam-se e foi amor à primeira vista. Vivem grudados até hoje naquela sarjeta da esquina da Augusta com a Dona Antônia.

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Dói, logo existo

Vida era seu nome de batismo. Sua mãe queria que a sua primeira filha fosse batizada com esse nome, na esperança de que, assim, a menina pudesse desfrutar de melhor sorte, podendo, quem sabe, ter uma vida plena de felicidade, ao menos no quanto possível, livre das muitas agruras pelas quais a mãe passara ao longo do curso de sua própria história, dentre as quais, talvez a pior, ter sido abandonada à própria sorte pelo pai da menina aos três meses de sua gravidez. A esperança da mãe, depositada sobre a vida da filha, frágil como a chama de uma vela ao vento, viu-se logo apagada, pois, nem bem Vida nascera, tornou-se órfã: durante o parto, sua mãe acabou sofrendo várias complicações de saúde, que, por fim, resultaram em seu óbito. A mãe de Vida morreu sem nem ao menos ter tido a chance de ver e pegar no colo a filha recém-nascida. Morreu sem poder despedir-se de Vida.Levada depois a um orfanato, Vida passou toda a sua infância e adolescência dividindo as condições precárias daquele local com outras meninas e meninos, todos também orfãos. Passavam fome, passavam frio, apanhavam uns dos outros – dos mais fortes –, e principalmente dos supervisores. Dos poucos que dali saíam, agraciados pela adoção, podia-se dizer que renasciam para a vida. A grande maioria que ali permanecia apenas sobrevivia.

Vida sobreviveu e quando, enfim, alcançou a idade adulta, tornando-se uma mulher feita, deixou o orfanato e foi viver na rua, onde, para continuar sobrevivendo, entregou-se à prostituição. Não vivia sozinha, tinha a companhia do Medo, um amigo dos tempos do orfanato com quem ela dividia a vida na rua. Numa noite quente e enluarada de outubro, um carro aproximou-se de Vida, que, como de hábito, fazia ponto numa esquina escura do centro da cidade. Ao baixar a janela do carro, o cara lá dentro identificou-se, cumprimentou Vida e negociou com ela o preço: era um cliente como outro qualquer, dos muitos que ela atendia todas as noites. Alguns meses depois, aquele cliente, porém, já não era mais um mero cliente. Ele e Vida casaram-se, jurando, em frente ao padre, viverem juntos, amarem-se e respeitarem-se, na alegria e na tristeza, até que a morte os separasse. Naquele momento, Vida sentiu-se renascendo. Deixou Medo na rua, e foi viver com o ex-cliente tornado marido, numa casa grande, num bairro tranquilo da cidade.

As palavras do marido, entretanto, ditas diante do padre, foram como que ditas ao vento: alguns meses depois de casados, ele abandonou Vida quando ela acabara de completar três meses de gravidez da filha dele com ela. Foi-se embora, com a roupa do corpo, sem explicar por que partia e jurando nunca mais voltar. Ao ver-se sozinha, atolada nas dívidas impagáveis que o seu ex-companheiro deixara, Vida desesperou-se e saiu de casa correndo, gritando a plenos pulmões por ajuda pela rua. Nenhuma alma viva veio em seu socorro: os que por ali passavam ignoravam-na. Mesmo seu amigo Medo, que por acaso andava ali por perto, olhou-a com desdém, pois sentia-se traído pelo abandono dela no passado. Vida acabou salva pela Morte, uma velha amiga que ela conhecera na sua mais tenra infância. A Morte passava por ali de carro e, quando viu o desespero da amiga Vida no meio da rua, acelerou o automóvel para ir mais rápido ao seu socorro.