A pin-up

Todas as vezes em que ela, uma senhorinha de idade já bastante avançada e sempre vestida como uma pin-up, aparecia na quitanda, fazia sempre o mesmo pedido totalmente sem sentido.
Chegava ali, diante das prateleiras onde estavam expostas à venda os legumes, as frutas e as verduras, e pedia sempre por cimento, tijolo e cascalho.

Com muita boa-vontade, o quitandeiro ouvia-a e então, muito generosamente, entregava-lhe uma sacola plástica cheia de algumas sobras do dia anterior, daquilo que ela pedia, ainda em boas condições para consumo.

Vê-se que, na verdade, o que ela pedia não tinha sentido em razão do contexto dentro do qual tal pedido era apresentado: uma quitanda.

Certo dia, logo pela manhã, quando o quitandeiro fazia subir a porta de ferro do estabelecimento, ela já estava do lado de fora, sentada na calçada da frente, esperando para poder entrar. Assim que ouviu a porta sendo erguida, pôs-se de pé. Em seguida, correu para diante do balcão e, mais uma vez, depois de cumprimentar o quitandeiro com um:

– Bom dia.

apressado, pediu-lhe:
– O senhor me vê cimento, tijolo e cascalho, por obséquio.

Diferentemente do que fizera nos outros vinte dias anteriores em que ela aparecera ali diante do balcão de sua quitanda com esse pedido, o quitandeiro, ao invés de entregar a ela uma sacola com algumas sobras dos produtos ali vendidos, deu-lhe uma sacola
(bastante mais pesada que as sacolas recebidas nos dias anteriores)

que trazia dentro um pequeno saco de 5 quilos de cimento, dois tijolos e uma porção de cascalho.

Ao receber a sacola em suas mãos, ela deu uma cambaleada: não esperava por aquele peso todo.

Depois que conseguiu equilibrar-se, ela abriu a sacola para ver o conteúdo que ia lá dentro. Quando voltou a erguer a cabeça, a mulher tinha no rosto um sorriso de lado a lado da bochecha. Ela então apertou a sacola contra o peito, piscou para o quitandeiro, daí virou-lhe as costas e saiu caminhando para fora da quitanda e nunca mais voltou.

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O padre

Agora e na hora de nossa morte, amém, disse o padre. Amém, responderam, em coro uníssono, os beatos e beatas à frente dele, vestidos em suas melhores e mais recatadas roupas, todos comportadamente enfileirados diante dos longos bancos de madeira, que se perfilavam, um atrás do outro, dentro da nave da igreja. Vão em paz e que o Senhor vos acompanhe, novamente as palavras do padre, pondo então um fim àquela missa. Terminada a cerimônia, todos os fiéis foram lentamente saindo, em procissão solene, em direção à praça logo ali em frente. Os sinos, lá do alto da principal torre da igreja, acenavam-lhes em despedida.
No dia seguinte, um jornal da cidade – de menor circulação – trazia destacado na manchete de sua primeira página, com o típico estardalhaço das letras garrafais, a notícia de que a missa dominical do dia anterior tinha sido rezada, não por um padre de carne e osso, mas por um drone. As palavras que este proferira, ao longo de toda a cerimônia, teriam sido programadas por meio de um algoritmo, com base numa pré-seleção daquilo que os fiéis mais comentavam, curtiam e compartilhavam na página daquela igreja no Facebook.

Naquela segunda-feira, contudo, o que verdadeiramente escandalizou a população não foi essa notícia, mas sim a continuação dela, lá na primeira página do caderno de cultura do jornal. Ali, logo abaixo de uma foto do colossal órgão de tubos da igreja, estava a notícia de que, durante a missa rezada pelo drone, a organista, juntamente com as coristas, ao se apresentarem durante a missa, nos intervalos das falas do drone que substituíra o padre na função de porta-voz das palavras de Deus, tinham feito uso de playback.
Até o momento desta crônica, nenhuma dessas notícias encontrou qualquer tipo de reverberação na grande mídia.