Família

Sentados à mesa que está a poucos metros da minha, em um restaurante semi vazio, estão um homem, uma mulher e um menino de uns sete anos. Suponho que sejam pai, mãe e filho. O menino tem o cabelo todo armado, como se tivesse sido penteado por pura imitação de sua avó. Em dado momento, ele saca do bolso da calça um pente pata pata e começa a pentear-se, linda e divinamente, imitando um velho hábito que parece herdado de seu avô. Ao seu lado, o homem e a mulher, aparentemente muito apaixonados, falam um ao outro usando e abusando dos diminutivos, parecem duas crianças.

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A festa

Que ela uma celebridade naquela festa, isso era bem evidente: quando chegou, depois de descer da limousine que a trouxera até ali, e caminhar fazendo poses pelo tapete vermelho à entrada, sob intenso tiroteio dos flashes das câmeras, cumprimentou todo mundo e foi cumprimentada por toda a gente ali presente. Se ela não cumprimentava, é porque o outro não era tido por gente, logo, nessa não-condição, não deveria também nem dirigir-se a ela. Não sou obrigada, ela dizia, e então virava as costas e seguia altiva pelo salão.Além de comida e bebida fartas, a festa também estava repleta de sorrisos, todos muito brancos, impecáveis… e amplos. Em alguns rostos, faltava até mesmo espaço para um cumprimento com beijo. Nesses casos, valia cumprimentar apenas com os sorrisos, deixando reticências acompanharem o gesto inconcluso do beijo.

Ela sentia-se o centro daquele universo. Tinha pleno domínio da linguagem corporal mais adequada para chegar em cada um dos convidados. Conhecia-os todos pelo nome e sobrenome. Sobre muitos, aliás, o seu conhecimento ia além: tinha os nudes.

Sabia bem o que podia falar e com quem, e, muito importante, sobre o quê calar-se.

Homens de fraque, mulheres em vestidos de noite; a noite, toda ela, em roupas de festa.

Festa esta que já avançava pelas primeiras horas da madrugada quando um homem adentrou o recinto e, gritando muito alto, parecendo bastante desesperado, ameaçou suicidar-se com um tiro na cabeça. Era apenas uma performance para divertir os convidados, como depois ele mesmo revelou ao disparar a arma e dela sairem apenas bolhas de sabão. Passado o susto, quase simultaneamente todos voltaram a beber e sorrir, e sorrir e sorrir e sorrir e beber. A comida acabara.

Mesmo assim, a alegria ainda imperava. Não era de bom tom, aliás, estar triste ali. Quem por acaso assim estivesse, procurava não deixar isso transparecer. Soube-se apenas de um único caso de uma mulher que, não resistindo à tristeza, foi chorar no banheiro. Os seguranças , ao verem-na nessas condições, trataram de colocá-la para fora da festa o quanto antes e o mais discretamente possível.

O dia que quase amanhecia lá fora encontrava o salão, onde realizava-se a festa, já enfim quase vazio ali dentro. Foi quando ela, cansada, resolveu dar por encerrada e noite e tomar o rumo de sua casa. Antes, porém, foi até o toilette, despiu-se de sua máscara, lavou a pesada maquiagem que encobria seu rosto e trocou sua fantasia por uma roupa bem mais básica. Saiu pela porta dos fundos. 

Lá fora, na companhia apenas dos sacos plásticos cheios do lixo produzido pelos convidados, ela ficou aguardando, quieta e cabisbaixa, o ônibus que a levaria dali. Começava a chuviscar leve quando o ônibus enfim chegou. Distraída, ela não o viu quando ele parou no ponto. Teria de esperar pelo próximo, que, para passar, demorou menos tempo que a festa, é verdade, embora esta, ainda que não lhe tenha assim parecido, tenha durado o tempo da vida dela.

Anônimos

Ela morreu no início da tarde, vítima de um atropelamento, enquanto atravessava a rua e digitava ao mesmo tempo no celular. O motorista do carro fugiu sem prestar socorro. A ambulância demorou a chegar, devido ao trânsito, e quando enfim chegou, já era tarde demais.No exato instante em que a alma dela deixou seu corpo, o post que ela fizera no Facebook pela manhã contabilizava 43 curtidas. O tal post trazia, tendo por legenda um “bom dia”, uma fotografia tirada das escadas rolantes da estação Pinheiros, tomadas da habitual multidão de anônimos subindo e descendo. Ao fundo, na própria foto, aparecia um telão de mídia eletrônica, no qual era possível ler a notícia de que um jogador brasileiro tinha sido negociado por alguns milhões de Euros para um certo clube europeu de futebol.

Uma amiga dela de Facebook estava no meio daquela multidão e saíra na foto: era possível identificar seu rosto em meio aos demais rostos cansados, já àquela hora da manhã, que desciam por uma das muitas escadas rolantes daquela estação de trens e metrô. Essa amiga dela curtiu o post, mesmo não reconhecendo a si mesma retratada na foto, e respondeu, nos comentários, com um “bom dia”, seguido de um coraçãozinho. Era o último dos 7 comentários que aquele post recebia. Todos os outros também diziam “bom dia” e tinham sido respondidos e curtidos pela autora do post, mas como esta já tinha falecido quando a amiga comentou, o comentário desta ficou sem curtida e, claro, também sem nenhuma resposta. A tal amiga, ao notar o tratamento diferenciado, tomou isso pelo lado pessoal, entendeu como uma desfeita e excluiu a recém-falecida dos seus amigos do Face.