O unicórnio 

Um unicórnio de purpurina fúcsia, com chifre pink-escarlate e cascos de cristal fluo, foi visto na calçada da Rua Augusta, pouco depois do cruzamento daquela via com a Rua Costa, na direção do centro da cidade.Quem, em êxtase, afirma tê-lo visto é uma menina, uma jovem criança de uns cinco anos de idade, que não cabe em si de alegria. Diz ela que viu o reluzente animal caminhando imponente pela calçada, quando passava por ali de ônibus na manhã de hoje. A menina estava acompanhada da mãe. Esta, entretanto, afirma que naquele local onde a filha diz ter visto o unicórnio havia apenas contas atrasadas para pagar. A estas, aliás, juntou-se mais uma: a fiança pela liberdade da filha, que encontra-se agora detida pela Polícia da Razão, por crime de fantasia.

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A praça 

Eram seis da tarde quando os sinos da igreja começaram a ribombar, num ir e vir lento e pesado, anunciando à população que era chegada a hora de reunirem-se, na pracinha ali em frente, para a roda de samba de todo dia.Por volta das seis e meia, a praça já estava tomada de gente cantando, numa alegria tamanha que até os santos da igreja desceram de seus pedestais, despiram-se de suas santidades castas e foram juntar-se ao povo para cantar e dançar. Uma lua cheia, com cara de bem nutrida, iluminava a praça, e sua luz cuidava de limpar quaisquer manchas de tristezas dos rostos da gente que por ali comparecia.

Esta roda de samba, em específico, segundo o que se anunciava, seguiria pela noite afora, com os músicos e cantores revezando-se na liderança da festa, até o raiar do dia seguinte, quando, junto com os raios do sol, esperava-se, chegaria também a revolução.

Mas o dia seguinte amanheceu nublado e chuvoso e encontrou vazia a praça em frente à igreja.