A pedinte

Ela estava sentada sobre um cobertor, estendido na calçada, tendo ao lado uma sacola, dessas de supermercado, feitas de material reciclável. Da distância em que eu me encontrava, não conseguia ouvir o que ela pedia àqueles que passavam à sua frente: as pessoas caminhavam em passos apressados e, não raro, procuravam nem encarar os olhos daquela pobre mulher que lhes estendia a mão direita, em súplica, e murmurava qualquer coisa. Mesmo de longe, era-me possível saber que a mulher tinha fome: a pele vincada de seu rosto magro e seus olhos fundos, suplicantes, podiam ser vistos à grande distância, o que dá uma ideia de quão profundas eram essas marcas em sua face e de quão intensa era sua fome. A mão direita, magra como um graveto, saía da manga da blusa para implorar algo a qualquer transeunte que por ali passava, e depois, não tendo recebido nada, voltava novamente vazia para dentro da manga da blusa; assim foi por todas as vezes que acompanhei esse movimento de ir e vir. Compadeci-me da situação da mulher e, embora não tivesse nada para oferecê-la, caminhei até onde ela estava, do outro lado da rua. Lá chegando, alguns passos depois, encontrei-a cabisbaixa. Pareceu-me que as poucas forças que até então tinha conseguido arregimentar para mendigar ajuda tinham enfim se esgotado. Não saberia dizer a quanto tempo ela poderia estar ali, ao relento, no calor sufocante e úmido que fazia naquele dia. As roupas dela, assim como o cobertor, estavam sujos e enlameados. Ao seu redor, envolvendo-a à maneira de um sufocante abraço, um intenso cheiro de corpo: ela provavelmente não tomava banho há dias.

Agachei-me diante dela e, ao notar minha presença, ela levantou a cabeça, num gesto lento, com se sua cabeça tivesse o peso do mundo, olhou-me com seus olhos, que pareciam abissais no meio daquelas enormes e escuras olheiras, e sem nada alterar em seu semblante triste, balbuciou um pedido: “O senhor tem algum wifi para me dar? Meu celular tem fome.”

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Norma

Norma acreditava piamente nas instituições, principalmente naquela que, para ela, era “a” instituição em pessoa: Michael Jackson. Na cabeça de Norma, Michael era tudo e mais um pouco. Mais do que isso, se é que ainda possível, Michael era eterno, imortal, na carne mesmo, não apenas no espírito. Quando seu ídolo morreu, Norma sentiu como se a terra faltasse embaixo de seus pés. Seu mundo ali desmoronava por completo em razão daquele enorme balde de água fria que, com a morte de Michael, fora jogado sobre seus valores e suas crenças. Quando ela soube do ocorrido, chorou até não poder mais, até desidratar as lágrimas. Depois, ainda passou noites e noites sem dormir direito.Desde aquele dia e profundamente traumatizada por aquele episódio, Norma não parou mais de pensar na morte e no quanto a vida, a vida dela e a de qualquer um, até mesmo a de Michael Jackson, vejam só, pode acabar de um instante para outro, não raro sem nenhum tipo de aviso prévio (uma doença degenerativa ou coisa que o valha), e frequentemente por razões as mais ordinárias. Uma amiga sua, a Marli, por exemplo, outro dia saiu pela manhã para comprar pãezinhos na padaria, e não voltou mais viva para casa: no caminho, não se sabe se na ida ou na volta, alguém confundiu-a com uma barata e matou-a de uma chinelada só. Ficou a amiga lá no chão reduzida a uma massa disforme por um bom tempo antes de alguém dispor-se a limpar a “sujeira”. Uma morte tão besta, lamentava-se Norma, enquanto passava sobre uma fatia de pão a pasta a que fora reduzida a amiga Marli, do mesmo modo como se faz com manteiga. 

Sentia-se mais aliviada. A morte de Michael parecia-lhe agora algo distante, difuso, tal como um sonho, talvez?