Antônio

Encontramos Antônio em um dia 31 qualquer, de um dezembro qualquer, de um ano qualquer. Ele está sozinho no seu posto de trabalho, acompanhando, da pequena janela que o separa da noite lá fora, o quase nenhum movimento na rua em frente, uma rua, quase toda ela, residencial. Faltam poucos minutos para a meia-noite. Dali a pouco começará o espocar dos fogos de artifício, que virão anunciar a passagem daquele ano qualquer para um outro qualquer. De onde está, ele de fato pouco verá da festa, nem tampouco tomará parte dela. Quando muito, os restos de seus sons e de suas luzes chegarão, de segunda mão, aos seus ouvidos e olhos.Meia-noite, enfim, e, como era esperado, o silêncio foi então mergulhado em fervilhante êxtase: gritos, berros, fogos, taças sendo brindadas, abraços, beijos, percebidos, todos eles, ao longe.

Lágrimas começaram a escorrer, silenciosas, dos olhos de Antônio. Ao descerem pelos seios de sua face, refletiam as longínquas luzes dos fogos que estouram em brilhos multicoloridos no céu: é o máximo de festa que conseguimos notar no seu rosto, todo ele sisudo, compenetrado.

Aos poucos o silêncio foi retornando à noite, sendo interrompido, cerca de uma hora, uma hora e meia madrugada adentro, pelo longo berro de uma buzina, seguido de um

– Abre o portão

Acompanhado de um palavrão qualquer, dito bem alto.

Um dos moradores do condomínio regressava e era tarefa de Antônio, o porteiro daquele prédio

(que então cochilava)

abrir o portão da garagem.

Antônio sabia quem era o morador pela placa do carro: era impossível ver dentro daquele automóvel caro, devido ao vidro fumê. O morador que chegava não sabia quem, àquela hora, estava na portaria, uma vez que esta encontrava-se igualmente encoberta por um vidro escurecido.

A bem da verdade, ao morador pouco importava quem na portaria estivesse, desde que o portão fosse aberto. E de preferência bem rápido, pois não queria ficar exposto à violência da rua, ainda mais naquela hora da madrugada.

O portão abriu, o morador entrou, o portão fechou.

Um dia primeiro qualquer, de um janeiro qualquer, de um ano qualquer.

A noite seguiu seus passos:

.

. 2 da madrugada

.

. 3 da madrugada

.

. 4 da madrugada

.

. 5 da madrugada 

.

Pesados, hora ante hora.

Pela manhã 

– Feliz ano novo, Antônio

Era Pedro chegando para a troca de turno.

– Pra você também

Respondeu-lhe Antônio, seguido de um

– Até amanhã

Protocolar

– Até

Finalizou Pedro, já a postos para mais um dia de trabalho.

Há anos repetiam a mesma rotina.

E ali, mais uma vez, em um dia primeiro qualquer, de um janeiro qualquer, de um ano qualquer, a rotina impunha-se.

Ano que vem, Antônio espera poder aposentar-se, poder enfim viver.

Ano que vem…

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