Bom dia

Era sábado, bem cedo, o sol nem bem tinha nascido e já encontrávamos Seu Bondia acordado, fazendo seus alongamentos matinais ao lado da cama, de frente para a janela aberta do quarto. Mesmo nos finais de semana, a força do hábito o impedia de ficar dormindo até mais tarde. Logo mais, concluídos os alongamentos, também por imperativo do costume ele sairia de casa para ir à padaria da esquina, tomar um café preto acompanhado de um pão na chapa, e depois, dali, seguiria até a lotérica do bairro para fazer a sua tradicional fezinha de toda semana. Há anos, ele vem apostando sempre a mesma sequência de números; quando muito, acertou um ou outro, de forma isolada, nada portanto que lhe permitisse ver a cor de qualquer premiação, mesmo que mínima. A despeito dessa má sorte no jogo, sempre considerou-se um privilegiado na vida. Figura bastante conhecida e querida por todos na pequena cidade onde vive desde quando nasceu, Seu Bondia não passa um dia sequer sem receber um bom dia em dose dupla daqueles que cruzam com ele em suas caminhadas matutinas diárias pela cidade.– Bom dia, Seu Bondia.

Dizem, sempre que o encontram.

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Helena 

Por debaixo da soleira da porta de entrada de seu apartamento, alguém fizera escorregar um envelope fechado, totalmente em branco, sem nenhuma referência a destinatário nem tampouco identificação de remetente. Dentro dele, uma folha branca de papel trazia colada bem ao centro uma letra H maiúscula, recortada em papel celofane vermelho, numa caligrafia bojuda de coração.
No segundo dia, no mesmo local, havia novamente um envelope idêntico ao primeiro, trazendo dentro uma folha de papel branca, então com a letra E maiúscula, também em celofane vermelho e com a caligrafia de coração, colada no meio da folha.
No dia seguinte, já o terceiro dia seguido, a letra
L
e assim por
E
diante
N
sempre um envelope por dia
A
contendo, cada um, uma única letra de papel celofane vermelho colada ao centro da folha que vinha dentro, as quais, juntas, alinhadas uma ao lado da outra por ordem de chegada, formavam o nome de H E L E N A, justamente o nome da moradora daquele apartamento.
Encucada, Helena pensou se não poderia ser o Seu Zé Maria, da loja de armarinhos, que estaria encaminhando aqueles envelopes a ela. Dia desses, quando Helena tinha ido até a loja dele pra comprar uns botões, notou que ele ficava olhando-a de rabo de olho enquanto ela explorava a pequena loja.

(ou será que aquele velho suspeitava que eu poderia estar a querer furtar alguma porcaria daquela loja dele?) 

Ou então, pensou melhor, vai ver é o Seu Nonô, da loja de bijuterias. Quando ela esteve lá na semana passada, buscando algo para dar à sua sobrinha de aniversário, viu expostas, sobre o balcão onde faziam as embalagens para presentes, umas folhas de papel celofane em muito similares àquele de que eram feitas as letras que vinham coladas ao papel dentro dos envelopes que andava recebendo, e além disso, o Seu Nonô há muito vinha mostrando-se interessado por ela, haja vista os generosos descontos que lhe concedia a cada bijuteria que Helena comprava na loja dele. Nenhuma das hipóteses sobre os dois, porém, oferecia elementos conclusivos sobre qual deles

(se é que algum deles)

estaria de fato enviando-lhe aqueles envelopes com as letras de papel celofane vermelho, com caligrafia bojuda de coração, coladas sobre a folha em branco que vinha dentro deles, formando o nome de Helena ao serem postas juntas, alinhadas uma ao lado da outra por ordem de chegada.

Helena, depois de receber essas misteriosas cartas, tem andado com a pulga atrás da orelha. Mal tem dormido pensando em quem pode ter sido o autor de tão curiosa, e ao mesmo tempo, para ela tão sedutora abordagem. Todos os dias, tem voltado do trabalho em passos ligeiros, ansiosa por chegar em casa e encontrar lá na soleira da porta o envelope que, enfim, daria um desfecho àquela história, revelando o mistério da identidade de seu admirador secreto.

(um futuro marido?)

Depois de quase uma vida toda dedicada, primeiro ao cuidado dos pais doentes e, depois que faleceram, ao cuidado do ex-marido alcoólatra, Helena havia-se esquecido de como cuidar de si mesma e, mais ainda, de ser cuidada por alguém. De ser, enfim, amada.

Passou-se uma semana sem que nenhum envelope daqueles fosse de novo entregue. Os envelopes que Helena encontrava depositados na soleira da porta, então, eram apenas aqueles das contas do mês, que religiosamente vinham atracar por ali por volta do dia 27 e seguintes de cada mês.

Helena não escondia um certo sentimento de tristeza e abandono. No trabalho, a Rita, sua melhor amiga, notando a tristeza de Helena, andou perguntando-lhe o que é que é que há. Helena não responde, sai sempre pela tangente, tergiversa. Não quer contar a verdade à amiga, pois, no fundo, sente-se envergonhada do que anda sentindo e pensando.

Helena pensou num plano: depois de pagas as contas do mês, iria visitar a loja do Seu Zé Maria e também a do Seu Nonô. Arrumaria um pretexto para cada uma das visitas, apenas para esconder a real intenção: descobrir qual dos dois

(se é que algum dos dois)

estaria abordando-a com aquelas cartas, que para ela eram verdadeiras cartas de amor sob a forma de poesia concreta.

Nem foi preciso levar adiante esse plano: no segundo dia útil do mês, ao adentrar o apartamento, nos seus já costumeiros passos ligeiros, logo depois de abrir a porta, Helena encontrou caído sobre a soleira, um envelope fechado, totalmente em branco, sem nenhuma referência a destinatário nem tampouco identificação de remetente. Helena correu para dentro, fechou a porta à chave, sentou-se no sofá, diante da televisão já ligada na novela, e com as mãos trêmulas e suarentas

(e demasiado frias)

abriu o envelope.

Dentro dele, uma folha em branco, sem nenhuma letra de papel celofane vermelho colada ao centro. Mas, no lugar das letras escarlates, estava escrito seu nome

H E L E N A

em alto relevo, todo branco sob um fundo branco. Helena virou o papel e, no verso, viu uma mensagem que dizia: “dê uma chance ao branco”, e logo abaixo um logotipo que ela bem conhecia. Helena enfim deu-se conta de que todos aqueles envelopes que ela recebera, inclusive aquele que tinha em mãos, nada mais eram do que uma ação publicitária da marca de sabão em pó que ela costumava usar.

Esperança 

Dia sim, outro também, ele aparece na agência bancária para verificar o saldo de sua conta poupança. Seu Pereira, o titular da tal conta, tem feito isso todos os dias, exceto finais de semana e feriados bancários, há uns dois anos. Curiosamente, desde sua abertura, ainda naquela época, a conta nunca teve saldo nenhum. Os resultados que ele visualiza são portanto idênticos: todos zerados. Perguntado pela nova gerente, que assumira recentemente a agência, sobre a razão de assim agir, Seu Pereira, do alto de seus setenta anos, responde com sua voz miúda e sem muita delonga, que suas idas repetidas àquele banco para retirar um saldo de sua conta poupança zerada tem por único motivo seu objetivo, até então inconfessado e ainda por certo não realizado, de enfim ver concretizada a promessa de sua Esperança, que, segundo ele 

– Antes de desaparecer, prometeu-me que um dia depositaria um dinheirinho na minha poupança 

E já ficando com os olhos marejados, prosseguiu 

– Por isso venho aqui todos os dias 

E por fim completou 

– É por causa da promessa da minha Esperança 

Ao ouvir a inusitada resposta, a gerente olhou bem dentro dos olhos de Seu Pereira, fingindo empatia e compreensão. Por dentro, porém, ruminava uma enorme raiva. Tenho mais o que fazer, pensou. 

Então a gerente perguntou-lhe, um tanto impaciente 

– E onde está Dona Esperança? 

Em seguida, ofereceu-lhe um café 

– Aceita um café? 

Ela disse e ele respondeu, de bate e pronto, já agradecendo 

– Obrigado 

Seu Pereira ficou sentado ali, como se tivesse todo o tempo do mundo, sorvendo o café oferecido pela gerente. Parecia não ter ouvido, ou simplesmente ter esquecido a pergunta que ela lhe fizera, tão indiferente ele mostrava-se. 

Com um resto da pouca paciência que lhe restava, ela resolveu repetir a questão 

– Seu Pereira, quero muito ajudá-lo, mas preciso que pelo menos me diga onde está a Dona Esperança. 

Seu Pereira continuou a olhá-la em silêncio, enquanto terminava lentamente seu café. Foi ficando por ali bem mais do que a gerente, toda atarefada como estava, gostaria. 

Vendo que seria melhor deixá-lo em seu tempo, ela voltou aos seus afazeres. Vez ou outra, nas horas seguintes, enquanto digitava no computador ou atendia ao telefone, a gerente lançava um olhar furtivo, de rabo de olho, para ele, que por sua vez, ao notar o olhar dela, retribuía com um sorrisão largo e generoso. Algumas horas depois, já quase no horário de fechamento da agência, cansada de fazer sala para aquele senhor que não representava nenhum ganho para o banco, a gerente, então, levantando-se e pegando a sua bolsa, como quem já vai embora 

(essa era a intenção) 

lançou um 

– Seu Pereira, eu preciso ir pois a agência já vai fechar. O Senhor vem também? 

– Não 

Ele respondeu, laconicamente, e continuou ali como se nada tivesse acontecido, alheio a tudo ao seu redor. A gerente, então 

– Seu Pereira, estou ficando com muito medo do senhor 

E olhando sempre diretamente para ele 

– Muito, muito medo. Vou chamar os seguranças se o senhor não sair 

Seu Pereira, enfim deixando um pouco de lado o ar impassível, levantou-se calmamente, aprumou-se e disse à gerente, num tom seco 

– Tudo bem 

Sem contudo esconder sua frustração. 

E, em seguida, deixando claro que o medo que a gerente tinha dele não poderia vencer sua crença na promessa de sua Espernça, Seu Pereira ainda afirmou, para desespero da sua interlocutora 

– Volto amanhã. Até. 

Logo em seguida, sob olhar algo aliviado da gerente, ele virou-se e caminhou em direção à porta de saída da agência. Tão serenamente partiu, que era como se nunca tivesse estado por ali. 

No dia seguinte, ao contrário do que dissera à gerente do banco, Seu Pereira não apareceu na agência: enquanto aguardava, no ponto de parada, o ônibus que o levaria até o centro da cidade, onde ficava a agência, Seu Pereira viu, jogada num canto, dentro de uma caixa de papelão, uma filhotinha de cachorro, muito parecida com Esperança, a sua cadela, desaparecida há uns dois anos. Apiedado da pequena cachorrinha, Seu Pereira decidiu adotá-la ali mesmo. Pegou-a no colo e, emocionado, abraçou-a contra o seu peito. Foi aí que viu tratar-se na verdade de um cachorro e não de uma cadela. Batizou-o de Aperto no Peito. Seu Pereira via no cãozinho muito de sua Esperança. Para ele, era como se Esperança tivesse, por meio do Aperto no Peito, encontrado um meio de fazer-se ainda presente.

Quando lembra-se do episódio com Seu Pereira, a gerente do banco até hoje fica intrigada com a história que ouviu dele, da última vez que ele foi à agência. Ela ainda está convencida que a Esperança a que ele referiu-se naquele dia era a esposa dele, de Seu Pereira. Notando que ele não apareceu mais na agência 

(nunca mais ele voltou lá) 

por esses dias ela anda até com saudades daquele sorrisão farto dele. 

(ninguém nunca sorriu assim para ela) 

Esqueceu-se do medo.

Chão de Estrelas

Conheceram-se na boate Proibidu’s, na Rua Amaral Gurgel, lá pelos idos dos anos 90. Sandra era uma travesti, habitué do local; Germano era o responsável pela limpeza do banheiro. Era uma noite de sábado, casa lotada, gente saindo pelo ladrão, Sandra foi ao banheiro para dar uma aliviada e, também, uma retocada na maquiagem, e lá encontrou com Germano, que naquele momento limpava uma latrina infecta e fedida. Vendo aquilo, Sandra apiedou-se dele e chamou-o de lado. Quis saber o nome 

– Germano 

Quantos anos 

– 57 

(parecia mais velho) 

Se casado ou solteiro 

– Viúvo 

Se gay ou bofe 

– Sou homem, senhora 

Onde morava 

– Moro na Vila Nhocuné. 

O resto da conversa não deu para ouvir: foram para o banheiro reservado para deficientes e só saíram de lá muitos minutos depois. Germano estava então visivelmente cansado. Sandra, por sua vez, não esboçava o menor sinal nem de cansaço nem de nada: mantinha a mesma altivez de sempre. 

A partir daquela noite, os encontros passaram a ocorrer de forma mais regular e, também, fora da boate, de forma mais discreta: ora na casa de um, na Vila Nhocuné, ora na quitinete de Sandra, no Copan. 

Não demorou muito para juntarem os trapos: Germano deixou a pequena casa onde morava de aluguel, na Zona Norte de São Paulo, e foi morar com Sandra. A comodidade de poder ficar perto do trabalho havia pesado na decisão. 

Trouxe quase nada na mudança. Além de algumas poucas peças de roupa 

(tudo que tinha) 

só a cama de solteiro, que juntou à cama de solteira de Sandra, formando assim uma cama de casal improvisada. 

Alguns meses depois de terem ido morar juntos, a Proibidu’s fechou as portas, colocando Germano no olho da rua. Desempregado e sem esperanças de encontrar um novo emprego 

(a idade pesava) 

poucas semanas depois de ter sido mandado embora, Germano passou a beber de forma exagerada. Todos os dias, ao final da tarde, depois de encarar o dia todo na sua nova função de “do lar”, encontrávamos ele num bar ali nas imediações do Copan, bebendo cachaça. Quando voltava para casa, sempre embriagado, batia em Sandra, que, injuriada, gritava por socorro ao mesmo tempo em que desferia alguns golpes certeiros em Germano. No saldo final, ambos ficavam muito feridos, física e emocionalmente. Não raro, nessas ocasiões, adormeciam cansados de tanto brigar. Essa foi a rotina do casal por quase duas semanas, até que o dia da inevitável separação chegou: era isso ou morreriam os dois. Sandra já havia prometido dar parte na polícia de Germano, que por sua vez parecia afundar-se cada vez mais nos problemas que seu recém adquirido alcoolismo trouxera. 

Ao despedir-se dele, Sandra disse 

–Você está proibido de voltar aqui 

E então completou com um 

– Nunca mais quero te ver, nem no inferno nem no céu! 

Bem enfático. 

Naquele dia, Germano saiu da quitinete de Sandra, levando consigo só a roupa do corpo. Não tinha mais para onde levar sua cama. Não tinha para onde ir. Despojou-se até mesmo das dores que trazia no peito: pesariam demais em sua caminhada sem rumo. 

No fundo, no fundo, ainda amavam-se, mas não tinha mais como viverem sob o mesmo teto. 

Germano saiu caminhando e, poucas quadras depois de sair do Copan, quando atravessava a pé a esquina da Ipiranga com a São João, viu num cartaz a oferta de um emprego que lhe interessou: era para uma vaga de cuidador de estrelas. Consistia basicamente, como ele veio a saber ao aproximar-se do homem-placa, em identificar estrelas perdidas, solitárias, desamparadas no céu noturno de São Paulo, ora cinzento, ora tomado pelo reflexo das luzes da cidade, e dar-lhes abrigo e alimento, até que alguém as adotasse. 

Germano foi logo contratado. O encarregado das contratações da empresa, que prestava esses serviços, gostou dele. Viu nele um grande potencial. Germano não cabia em si de alegria quando, depois de uma breve entrevista, ouviu da boca do encarregado da empresa um 

– Está contratado 

Logo seguido por um 

– Pode começar amanhã mesmo. 

No dia seguinte, logo ao anoitecer, mesmo com alguma dor no corpo por ter dormido na rua, e sentindo-se um pouco fraco de fome, lá estava Germano pronto para seu primeiro dia, na verdade, sua primeira noite de trabalho. Passaria o expediente todo a procurar estrelas perdidas, solitárias, desamparadas no céu noturno de São Paulo, a fim de dar-lhes abrigo e alimento, até que alguém as adotasse. Aquela noite interia, porém, passou sem que nenhuma estrela pudesse ser localizada: a pesada névoa que encobria o céu da cidade não dera nenhuma brecha. 

Já o dia seguinte 

(um domingo) 

começava lentamente a amanhecer, a névoa da noite ia sendo dispersada numa lentidão de beatas em procissão. Era final de expediente para Germano, quando ele, ao passar pela Rua Augusta, notou uma travesti sentada à beira da sarjeta, sobre um enorme pedaço de tecido coberto por lantejoulas prateadas

(um chão de estrelas)

em meio ao lixo deixado por aqueles que ali tinham estado a festejar a noite toda. 

Embriagada, a travesti parecia alheia ao sol que ia esquentando cada vez mais seu rosto e seu corpo seminu, fazendo ambos pingarem suor. As lantejoulas do tecido que lhe servia de assento refletiam a luz do sol, de uma forma festiva, à maneira daqueles globos de espelhos de casas noturnas. 

As pessoas que por ali passavam depositavam olhares curiosos sobre a vitrine que estava atrás da travesti: era de uma sex shop. A travesti mesmo nunca era notada, era como se fosse mais um pedaço de lixo jogado na sarjeta. Só Germano teve olhos para notá-la. 

Ele aproximou-se dela. Quis saber o nome 

– Sandra 

Quantos anos 

– 43 

(parecia mais nova) 

Se casada ou solteira 

– Separada 

Se gay ou bofe 

– Estrela 

Onde morava 

– Moro no Copan. 

Germano tomou-lhe a mão e, com cuidado, levantou-a da sarjeta. Pegou o pano com lantejoulas onde ela estava sentada e, com ele, cobriu todo o corpo dela. Com o corpo envolto pelo enorme pedaço de tecido coberto por lantejoulas, Sandra parecia uma estrela de cinema, a vestir um longo de gala. Da janela de uma pequena casa de um cortiço ali ao lado, uma velha senhora, recém acordada, acompanhava a cena toda enquanto tomava seu café e alimentava seus muitos gatos. 

Germano e Sandra saíram dali caminhando, de mãos dadas, devagarinho, descendo a Augusta. No caminho, ali na esquina da Marquês de Paranaguá, encontraram com um velho conhecido de Sandra, João, que apresentou-se a Germano dizendo ser um sereio

– Meio homem, meio piranha

Explicava

– Mas inteirinho biscate

Complementou, dando ênfase ao Mas.

Germano cumprimentou João, já emendando uma despedida

(estava cansado)

e seguiu caminhando com Sandra até sumirem de vista, nas imediações da Praça Roosevelt, quando o sol da manhã já ia alto. 

Sandra foi assim a primeira estrela resgatada por Germano em seu novo emprego.

Félix

Dias e dias passou pensando em como anunciaria aquilo para sua família. Antevia as reações de raiva e decepção de seu pai, o choro envergonhado de sua mãe, seus irmãos a olhá-lo num desdém triunfante. Havia chegado a um ponto em que os contínuos adiamentos não mais surtiam efeito analgésico nenhum: a ansiedade e o nervosismo tomavam de assalto seu ser, tornando dolorosamente penosos quaisquer gestos cotidianos, por mais ordinários que fossem.Cansado de viver uma vida dupla, Félix resolveu aproveitar que todos estavam juntos, ao redor da mesa, durante o almoço de domingo, e revelar seu grande segredo. 

Tinha a boca seca, então, a fim de aliviá-la, pediu

– Me passe a água 

A jarra de água à sua irmã. Encheu o copo e tomou-o quase de um gole só. Depois ficou a observar a família ali comendo. Muito lhe lembravam as vacas ao redor do cocho que, quando ainda era menino, vira uma vez numa visita ao sítio de sua avó: o mesmo ruído das bocas mastigando misturado ao das respirações e dos talheres. Bem, no caso das vacas, não havia talheres.

Respirou fundo, precisava tomar fôlego. A emoção crescia e meio que apertava a sua garganta, como que querendo sufocá-lo. Respirou fundo uma vez mais. Logo depois, certo de que não dava mais para voltar atrás, disse, quase num sussurro,

– Mãe 

E continuou

– Pai

A voz, baixa, ia embargando

– Meus irmãos

Cada vez mais

(fora ele, eram quatro pessoas à mesa)

À medida que cada um tinha sua atenção convocada, ia deixando de lado os talheres, continuando, porém, a mastigar o que tinha na boca.

Os olhos de todos à mesa estavam, enfim, voltados para Félix. Foi quando ele, envolto pelo nervosismo à maneira de uma larva em um casulo, disse

– …

Algo

– …

Dito, todavia, tão baixinho e para dentro, que ninguém ali ouviu.

(o bater das asas de uma borboleta teria feito maior ruído)

Diante do não-dito de Félix, continuaram a comer, como se nada tivesse lhes interrompido.

Frustrado, Félix levantou-se, deixando sobre a mesa um prato de comida intocado e, sobre a cadeira, um lugar que ninguém depois deu por vazio. Dali, ele seguiu até seu quarto, onde, em pé diante do espelho, começou a despir-se sob o olhar indiferente das muitas bonecas de louça que tinha sobre a cama.

De suas costas, enfim nuas, duas enormes e multicoloridas asas de borboleta foram abrindo-se, pouco a pouco, até chegarem, em instantes, ao ápice de sua abertura e exuberância. Aliviado por vê-las e senti-las livres da prisão da camisa que vestia, Félix começou a, leve e serenamente

(um sorriso teria feito maior ruído)

batê-las como se pretendesse alçar voo.

A folhinha do calendário, pendurada ao lado do espelho, revelava ser aquele dia o domingo do derradeiro final de semana do mês de janeiro. Daqui mais uns dias, Félix pensou aliviado, já vai ser Carnaval.