Félix

Dias e dias passou pensando em como anunciaria aquilo para sua família. Antevia as reações de raiva e decepção de seu pai, o choro envergonhado de sua mãe, seus irmãos a olhá-lo num desdém triunfante. Havia chegado a um ponto em que os contínuos adiamentos não mais surtiam efeito analgésico nenhum: a ansiedade e o nervosismo tomavam de assalto seu ser, tornando dolorosamente penosos quaisquer gestos cotidianos, por mais ordinários que fossem.Cansado de viver uma vida dupla, Félix resolveu aproveitar que todos estavam juntos, ao redor da mesa, durante o almoço de domingo, e revelar seu grande segredo. 

Tinha a boca seca, então, a fim de aliviá-la, pediu

– Me passe a água 

A jarra de água à sua irmã. Encheu o copo e tomou-o quase de um gole só. Depois ficou a observar a família ali comendo. Muito lhe lembravam as vacas ao redor do cocho que, quando ainda era menino, vira uma vez numa visita ao sítio de sua avó: o mesmo ruído das bocas mastigando misturado ao das respirações e dos talheres. Bem, no caso das vacas, não havia talheres.

Respirou fundo, precisava tomar fôlego. A emoção crescia e meio que apertava a sua garganta, como que querendo sufocá-lo. Respirou fundo uma vez mais. Logo depois, certo de que não dava mais para voltar atrás, disse, quase num sussurro,

– Mãe 

E continuou

– Pai

A voz, baixa, ia embargando

– Meus irmãos

Cada vez mais

(fora ele, eram quatro pessoas à mesa)

À medida que cada um tinha sua atenção convocada, ia deixando de lado os talheres, continuando, porém, a mastigar o que tinha na boca.

Os olhos de todos à mesa estavam, enfim, voltados para Félix. Foi quando ele, envolto pelo nervosismo à maneira de uma larva em um casulo, disse

– …

Algo

– …

Dito, todavia, tão baixinho e para dentro, que ninguém ali ouviu.

(o bater das asas de uma borboleta teria feito maior ruído)

Diante do não-dito de Félix, continuaram a comer, como se nada tivesse lhes interrompido.

Frustrado, Félix levantou-se, deixando sobre a mesa um prato de comida intocado e, sobre a cadeira, um lugar que ninguém depois deu por vazio. Dali, ele seguiu até seu quarto, onde, em pé diante do espelho, começou a despir-se sob o olhar indiferente das muitas bonecas de louça que tinha sobre a cama.

De suas costas, enfim nuas, duas enormes e multicoloridas asas de borboleta foram abrindo-se, pouco a pouco, até chegarem, em instantes, ao ápice de sua abertura e exuberância. Aliviado por vê-las e senti-las livres da prisão da camisa que vestia, Félix começou a, leve e serenamente

(um sorriso teria feito maior ruído)

batê-las como se pretendesse alçar voo.

A folhinha do calendário, pendurada ao lado do espelho, revelava ser aquele dia o domingo do derradeiro final de semana do mês de janeiro. Daqui mais uns dias, Félix pensou aliviado, já vai ser Carnaval.

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