Esperança 

Dia sim, outro também, ele aparece na agência bancária para verificar o saldo de sua conta poupança. Seu Pereira, o titular da tal conta, tem feito isso todos os dias, exceto finais de semana e feriados bancários, há uns dois anos. Curiosamente, desde sua abertura, ainda naquela época, a conta nunca teve saldo nenhum. Os resultados que ele visualiza são portanto idênticos: todos zerados. Perguntado pela nova gerente, que assumira recentemente a agência, sobre a razão de assim agir, Seu Pereira, do alto de seus setenta anos, responde com sua voz miúda e sem muita delonga, que suas idas repetidas àquele banco para retirar um saldo de sua conta poupança zerada tem por único motivo seu objetivo, até então inconfessado e ainda por certo não realizado, de enfim ver concretizada a promessa de sua Esperança, que, segundo ele 

– Antes de desaparecer, prometeu-me que um dia depositaria um dinheirinho na minha poupança 

E já ficando com os olhos marejados, prosseguiu 

– Por isso venho aqui todos os dias 

E por fim completou 

– É por causa da promessa da minha Esperança 

Ao ouvir a inusitada resposta, a gerente olhou bem dentro dos olhos de Seu Pereira, fingindo empatia e compreensão. Por dentro, porém, ruminava uma enorme raiva. Tenho mais o que fazer, pensou. 

Então a gerente perguntou-lhe, um tanto impaciente 

– E onde está Dona Esperança? 

Em seguida, ofereceu-lhe um café 

– Aceita um café? 

Ela disse e ele respondeu, de bate e pronto, já agradecendo 

– Obrigado 

Seu Pereira ficou sentado ali, como se tivesse todo o tempo do mundo, sorvendo o café oferecido pela gerente. Parecia não ter ouvido, ou simplesmente ter esquecido a pergunta que ela lhe fizera, tão indiferente ele mostrava-se. 

Com um resto da pouca paciência que lhe restava, ela resolveu repetir a questão 

– Seu Pereira, quero muito ajudá-lo, mas preciso que pelo menos me diga onde está a Dona Esperança. 

Seu Pereira continuou a olhá-la em silêncio, enquanto terminava lentamente seu café. Foi ficando por ali bem mais do que a gerente, toda atarefada como estava, gostaria. 

Vendo que seria melhor deixá-lo em seu tempo, ela voltou aos seus afazeres. Vez ou outra, nas horas seguintes, enquanto digitava no computador ou atendia ao telefone, a gerente lançava um olhar furtivo, de rabo de olho, para ele, que por sua vez, ao notar o olhar dela, retribuía com um sorrisão largo e generoso. Algumas horas depois, já quase no horário de fechamento da agência, cansada de fazer sala para aquele senhor que não representava nenhum ganho para o banco, a gerente, então, levantando-se e pegando a sua bolsa, como quem já vai embora 

(essa era a intenção) 

lançou um 

– Seu Pereira, eu preciso ir pois a agência já vai fechar. O Senhor vem também? 

– Não 

Ele respondeu, laconicamente, e continuou ali como se nada tivesse acontecido, alheio a tudo ao seu redor. A gerente, então 

– Seu Pereira, estou ficando com muito medo do senhor 

E olhando sempre diretamente para ele 

– Muito, muito medo. Vou chamar os seguranças se o senhor não sair 

Seu Pereira, enfim deixando um pouco de lado o ar impassível, levantou-se calmamente, aprumou-se e disse à gerente, num tom seco 

– Tudo bem 

Sem contudo esconder sua frustração. 

E, em seguida, deixando claro que o medo que a gerente tinha dele não poderia vencer sua crença na promessa de sua Espernça, Seu Pereira ainda afirmou, para desespero da sua interlocutora 

– Volto amanhã. Até. 

Logo em seguida, sob olhar algo aliviado da gerente, ele virou-se e caminhou em direção à porta de saída da agência. Tão serenamente partiu, que era como se nunca tivesse estado por ali. 

No dia seguinte, ao contrário do que dissera à gerente do banco, Seu Pereira não apareceu na agência: enquanto aguardava, no ponto de parada, o ônibus que o levaria até o centro da cidade, onde ficava a agência, Seu Pereira viu, jogada num canto, dentro de uma caixa de papelão, uma filhotinha de cachorro, muito parecida com Esperança, a sua cadela, desaparecida há uns dois anos. Apiedado da pequena cachorrinha, Seu Pereira decidiu adotá-la ali mesmo. Pegou-a no colo e, emocionado, abraçou-a contra o seu peito. Foi aí que viu tratar-se na verdade de um cachorro e não de uma cadela. Batizou-o de Aperto no Peito. Seu Pereira via no cãozinho muito de sua Esperança. Para ele, era como se Esperança tivesse, por meio do Aperto no Peito, encontrado um meio de fazer-se ainda presente.

Quando lembra-se do episódio com Seu Pereira, a gerente do banco até hoje fica intrigada com a história que ouviu dele, da última vez que ele foi à agência. Ela ainda está convencida que a Esperança a que ele referiu-se naquele dia era a esposa dele, de Seu Pereira. Notando que ele não apareceu mais na agência 

(nunca mais ele voltou lá) 

por esses dias ela anda até com saudades daquele sorrisão farto dele. 

(ninguém nunca sorriu assim para ela) 

Esqueceu-se do medo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s