Helena 

Por debaixo da soleira da porta de entrada de seu apartamento, alguém fizera escorregar um envelope fechado, totalmente em branco, sem nenhuma referência a destinatário nem tampouco identificação de remetente. Dentro dele, uma folha branca de papel trazia colada bem ao centro uma letra H maiúscula, recortada em papel celofane vermelho, numa caligrafia bojuda de coração.
No segundo dia, no mesmo local, havia novamente um envelope idêntico ao primeiro, trazendo dentro uma folha de papel branca, então com a letra E maiúscula, também em celofane vermelho e com a caligrafia de coração, colada no meio da folha.
No dia seguinte, já o terceiro dia seguido, a letra
L
e assim por
E
diante
N
sempre um envelope por dia
A
contendo, cada um, uma única letra de papel celofane vermelho colada ao centro da folha que vinha dentro, as quais, juntas, alinhadas uma ao lado da outra por ordem de chegada, formavam o nome de H E L E N A, justamente o nome da moradora daquele apartamento.
Encucada, Helena pensou se não poderia ser o Seu Zé Maria, da loja de armarinhos, que estaria encaminhando aqueles envelopes a ela. Dia desses, quando Helena tinha ido até a loja dele pra comprar uns botões, notou que ele ficava olhando-a de rabo de olho enquanto ela explorava a pequena loja.

(ou será que aquele velho suspeitava que eu poderia estar a querer furtar alguma porcaria daquela loja dele?) 

Ou então, pensou melhor, vai ver é o Seu Nonô, da loja de bijuterias. Quando ela esteve lá na semana passada, buscando algo para dar à sua sobrinha de aniversário, viu expostas, sobre o balcão onde faziam as embalagens para presentes, umas folhas de papel celofane em muito similares àquele de que eram feitas as letras que vinham coladas ao papel dentro dos envelopes que andava recebendo, e além disso, o Seu Nonô há muito vinha mostrando-se interessado por ela, haja vista os generosos descontos que lhe concedia a cada bijuteria que Helena comprava na loja dele. Nenhuma das hipóteses sobre os dois, porém, oferecia elementos conclusivos sobre qual deles

(se é que algum deles)

estaria de fato enviando-lhe aqueles envelopes com as letras de papel celofane vermelho, com caligrafia bojuda de coração, coladas sobre a folha em branco que vinha dentro deles, formando o nome de Helena ao serem postas juntas, alinhadas uma ao lado da outra por ordem de chegada.

Helena, depois de receber essas misteriosas cartas, tem andado com a pulga atrás da orelha. Mal tem dormido pensando em quem pode ter sido o autor de tão curiosa, e ao mesmo tempo, para ela tão sedutora abordagem. Todos os dias, tem voltado do trabalho em passos ligeiros, ansiosa por chegar em casa e encontrar lá na soleira da porta o envelope que, enfim, daria um desfecho àquela história, revelando o mistério da identidade de seu admirador secreto.

(um futuro marido?)

Depois de quase uma vida toda dedicada, primeiro ao cuidado dos pais doentes e, depois que faleceram, ao cuidado do ex-marido alcoólatra, Helena havia-se esquecido de como cuidar de si mesma e, mais ainda, de ser cuidada por alguém. De ser, enfim, amada.

Passou-se uma semana sem que nenhum envelope daqueles fosse de novo entregue. Os envelopes que Helena encontrava depositados na soleira da porta, então, eram apenas aqueles das contas do mês, que religiosamente vinham atracar por ali por volta do dia 27 e seguintes de cada mês.

Helena não escondia um certo sentimento de tristeza e abandono. No trabalho, a Rita, sua melhor amiga, notando a tristeza de Helena, andou perguntando-lhe o que é que é que há. Helena não responde, sai sempre pela tangente, tergiversa. Não quer contar a verdade à amiga, pois, no fundo, sente-se envergonhada do que anda sentindo e pensando.

Helena pensou num plano: depois de pagas as contas do mês, iria visitar a loja do Seu Zé Maria e também a do Seu Nonô. Arrumaria um pretexto para cada uma das visitas, apenas para esconder a real intenção: descobrir qual dos dois

(se é que algum dos dois)

estaria abordando-a com aquelas cartas, que para ela eram verdadeiras cartas de amor sob a forma de poesia concreta.

Nem foi preciso levar adiante esse plano: no segundo dia útil do mês, ao adentrar o apartamento, nos seus já costumeiros passos ligeiros, logo depois de abrir a porta, Helena encontrou caído sobre a soleira, um envelope fechado, totalmente em branco, sem nenhuma referência a destinatário nem tampouco identificação de remetente. Helena correu para dentro, fechou a porta à chave, sentou-se no sofá, diante da televisão já ligada na novela, e com as mãos trêmulas e suarentas

(e demasiado frias)

abriu o envelope.

Dentro dele, uma folha em branco, sem nenhuma letra de papel celofane vermelho colada ao centro. Mas, no lugar das letras escarlates, estava escrito seu nome

H E L E N A

em alto relevo, todo branco sob um fundo branco. Helena virou o papel e, no verso, viu uma mensagem que dizia: “dê uma chance ao branco”, e logo abaixo um logotipo que ela bem conhecia. Helena enfim deu-se conta de que todos aqueles envelopes que ela recebera, inclusive aquele que tinha em mãos, nada mais eram do que uma ação publicitária da marca de sabão em pó que ela costumava usar.

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