Saramandaia

Sentia-se nada bem com a triste notícia que acabara de receber: sua mãe informara-lhe que não poderia comparecer ao seu tão aguardado casamento, que ocorreria dali a três semanas. A mensagem de voz deixada pela mãe de Diamantina no telefone era clara– Não poderei ir ao seu casamento

na parte em que dizia sobre a impossibilidade de ir à cerimônia, mas imprecisa 

– Sinto muito, minha filha. Te amo

no tocante às razões para tal impedimento.

Diamantina ouviu a mensagem logo pela manhã, pouco antes de sair para o trabalho. Ouviu-a repetidas vezes

(não acreditava no que ouvia)

enquanto penteava-se diante do espelho, já vestida no uniforme branco com que passaria o dia todo a caminhar pelas ruas do bairro e adjacências, puxando um carrinho refrigerado pelas mãos, para vender seus Yakults.

A mãe não voltou a ligar mais, e todas as vezes que Diamantina ligava para ela, caía em caixa postal. Diamantina começou a ficar cabreira, preocupada com o que poderia ter acontecido à sua mãe, que morava sozinha, numa pequena casa, distante uns trinta quilômetros, no outro extremo da cidade.

Depois de passar a semana toda sem conseguir falar com sua mãe, Diamantina resolveu, num domingo bem cedo

(seu dia de folga)

pegar um ônibus e ir visitá-la. Lá chegando, depois de quase duas horas de viagem, em um ônibus velho, sem refrigeração e lotado, encontrou a casa de sua infância exatamente como era naqueles tempos idos, exceto por um detalhe: uma placa, ao lado do portão, anunciava

VENDEM-SE SACOLÉS

em letras garrafais, escritas com giz, e logo abaixo vinha a lista dos sabores

morango, abacaxi, limão e saramandaia

Diamantina não sabia dizer se o que lhe causava mais estranheza era a presença daquela placa em si ou o anunciado sabor de saramandaia… ou os dois. Tocou a campainha e nada, bateu palmas e nada, chamou por sua mãe e nada.

Já estava para ir embora quando uma voz, que lhe pareceu familiar, chamou-a da casa vizinha

– Ô Diamantina!

Era Dona Isaura

(Isaura, a Tiranossaura, como as crianças a chamavam na época, em referência à pele grossa de Dona Isaura e a seus modos um tanto brutos de andar, comer, falar)

– Ô Dona Isaura. Quanto tempo!

respondeu Diamantina, enquanto observava, um tanto espantada, a mulher corpulenta aproximar-se

(a pele dela parecia ainda mais grossa depois de tantos anos, e estava bastante enrugada)

– Está procurando por sua mãe?

quis saber Dona Isaura.

– Estou sim. Estou preocupada com o sumiço dela.

frisou Diamantina.

– Ela deve estar com cliente, por isso não respondeu.

Diamantina não havia entendido nada sobre aquela história de sua mãe estar com um cliente, e por isso não poder tê-la recebido, nem sequer atendido. Percebendo o olhar perdido de Diamantina, deixando entrever claramente que ela não havia entendido patavinas, Dona Isaura chamou-a para entrar e tomar um café: queria explicar-lhe tudo a respeito de sua mãe.

– Aceito

disse-lhe Diamantina. No portão de entrada da casa de Dona Isaura, também havia, isso Diamantina notou, uma placa onde lia-se

VENDEM-SE SACOLÉS 

seguida da mesma sequência de sabores que ela tinha visto na placa ao lado do portão da casa de sua mãe, inclusive o sabor de saramandaia.

Já lá dentro da casa de Dona Isaura

– Sente-se aí nessa poltrona e fique à vontade, enquanto eu vou passar um café quentinho para tomarmos. Diamantina sentou-se sobre uma enorme poltrona, bastante apropriada para o corpo avantajado de Dona Isaura e ficou ali, esperando, naquela sala que parecia ter mantido o mesmo cheiro de Leite de Rosas dos seus dias de infância, quando, de vez em quando, iam ela e sua mãe ali tomar um café e papear com Dona Isaura. A sala ainda mantinha a mesma decoração daquela época, com dezenas de bibelôs de louça a encimar a mesa de centro, as mesas laterais e as prateleiras da estante. Aparentemente, nenhum deles tinha se perdido, ao contrário de tanta gente que passara pela vida de Diamantina, muitos que, ao longo dos anos, morreram de fato ou foram mortos pela ausência ou pelo esquecimento. Tudo levava a crer, pensou Diamantina, que os bibelôs eram mais longevos que os humanos. Vai ver são mesmo até eternos, disse baixinho e suspirou.

Um inebriante cheiro de café recém coado começou a invadir a sala onde Diamantina estava. Vinha misturado ao de bolinhos de chuva. 

Não demorou muito, Dona Isaura chegou na sala trazendo nas mãos uma bandeja, e sobre esta um bule de ágata azul, de cujo bico saía uma fumaça a indicar que o café estava bem quente. Ao lado do bule, equilibrando-se sobre a bandeja, um prato grande, fundo, cheio até a borda de fumegantes bolinhos de chuva. A mulher corpulenta colocou, de maneira um tanto abrupta, a bandeja sobre a mesinha de centro 

(quase derrubando os bibelôs que lá estavam)

e, enquanto servia a sua convidada, foi-lhe contanto a respeito de Dona Isoldinha, a mãe de Diamantina

– Sua mãe, Dona Isoldinha, andou uns tempos muito angustiada, minha filha. O dinheiro da aposentadoria já não estava dando mais para ela pagar nem o básico do mercado. 

Enquanto ouvia, Diamantina, faminta como estava, ia comendo um bolinho de chuva atrás do outro, vez em quando molhando a boca com café, para ajudar a engoli-los.

– Eu sei o que é passar pelo que ela, sua mãe, passou, pois vivi o mesmo. A mesma pindaíba, talvez até pior

confessou-lhe Dona Isaura.

Então Isaura fez uma breve pausa, tomou um gole de café, jogou um bolinho de chuva garganta adentro, quase inteiro, sem mastigar, engolindo-o do modo como um pelicano engole um peixe, e prosseguiu dizendo

– Certo dia, estávamos eu e sua mãe sentadas aqui nesta sala, assim como estou hoje aqui com você, e de repente ocorreu-nos uma ideia para ajudar no pagamento das contas.

– Os sacolés?

Perguntou-lhe Diamantina, interrompendo a narrativa de Dona Isaura.

– Sim, os sacolés

Isaura respondeu-lhe e continuou

– Mas com o tempo, fomos vendo que o dinheiro que entrava com a venda dos sacolés mal cobria as despesas de seu preparo. Foi então que sua mãe apareceu com uma nova ideia que, apesar de ter-me causado grande resistência no começo, revelou-se com o tempo a única solução à mão para continuarmos sobrevivendo nessa terra de ninguém, com nossas aposentadorias minguadas, que vez ou outra o governo ainda atrasa para pagar.

Enquanto Dona Isaura seguia contando a história, a curiosidade de Diamantina só se fazia crescer cada vez mais e mais.

– Foi aí que surgiu a ideia da saramandaia

concluiu Dona Isaura, acreditando, pelo visto, que Diamantina já sabia o que isso significava. Mas Diamantina não tinha ideia do que a tal saramandaia vinha a ser, e já não se aguentando de curiosidade enfim perguntou 

– Mas Dona Isaura, o que é essa saramandaia?

Surpreendida pela questão, Dona Isaura bebeu dois goles de café, finalizando o que tinha na sua xícara, olhou para os bibelôs sobre a mesa de centro, e então, voltando os olhos para Diamantina, respondeu

– Saramandaia é o código que eu e sua mãe adotamos para atendermos aqueles clientes, homens feitos mas também alguns adolescentes, que vêm bater à nossa porta, a procurar não por sacolés, mas por companhia feminina.

– Quer dizer que vocês fazem programas, como prostitutas?

perguntou-lhe uma incrédula Diamantina, já fazendo um movimento para levantar-se da poltrona.

– Digamos que sim

respondeu Dona Isaura.

E levando as mãos à cabeça, Diamantina exclamou, lívida

– Meu Deus!

e perguntou

– Como vocês podem fazer um negócio desses?

e então finalizou

– Que vergonha!

Dona Isaura acompanhava, impassível, o chilique de Diamantina. Estava acostumada a essas reações por parte de suas amigas e de seus familiares, quando lhes contava a respeito do que havia por trás do sabor de saramandaia. Não pensou que pudesse ser diferente com Diamantina, que vivera toda a sua infância e adolescência sob as mais rígidas regras morais e religiosas.

– E onde está minha mãe, Dona Isaura? Há dias eu a procuro, sem encontra-la em lugar nenhum. Nem tampouco consigo falar com ela.

Isaura pensou por alguns instantes e então respondeu

– Sua mãe tem te evitado pois vem sentindo-se muito constrangida de encará-la e, mais ainda, de ter de comparecer à cerimônia de seu casamento. Não por você em si, claro que não. Afinal você é filha dela e Deus sabe o quanto ela te ama.

– Se é assim, então qual foi o problema?

perguntou Diamantina, já demasiado angustiada pelas demoradas pausas que Dona Isaura fazia a cada palavra que pronunciava.

Pacientemente, mantendo as demoradas pausas entre as palavras, Dona Isaura então finalizou sua explicação 

– Não sei se é bem um problema, Diamantina. Fato é que sua mãe tem te evitado a todo custo porque, ao ver o nome de seu futuro marido no convite de casamento que você lhe enviara, percebeu que se tratava de um conhecido cliente nosso, grande apreciador dos sacolés sabor saramandaia.

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Dona Mirtes

No açougue, a primeira cliente do dia chega, puxando pela mão direita um carrinho de feira, vazio. Já diante do balcão, pede ao açougueiro:– Um quilo de qualquer coisa moída, por favor.

O açougueiro vira-se para ela e responde:

– Qualquer coisa não tem. Tem cochão mole, acém, filé mignon.

Ela pensa por alguns instantes e, em seguida, responde:

– Me vê então dois quilos do mais barato moído.

– Dona Mirtes

(esse era o nome dela)

– vou moer pra senhora dois quilos de patinho. 
O açougueiro propõe.

– Está bem.

Ela responde. 

Pouco depois, Dona Mirtes é vista saindo do açougue levando, dentro do carrinho de feira, um pacote de dois quilos de carne moída.

Ao chegar em casa, seus 20 gatos vieram recebê-la, entrelaçando-se por entre as pernas dela e miando alto de ansiedade: sabiam que aquela carne moída ela para eles.

Ela criava aqueles gatos para, com a carne deles, alimentar as piranhas que ela criava em um aquário, exposto na estante da sala, ao lado de uma imagem da Nossa Senhora Desatadora dos Nós.

Televisão

A vida dela era ali, em meio a suntuosas lojas de grifes internacionais, com seus letreiros dourados, sempre repletas das mais caras mercadorias, frequentadas por gente que, ao que sempre lhe parecera, tinha dinheiro de sobra, pois pagavam com gosto – sorrindo para as vendedoras e vendedores, que sorriram em resposta, ou vice-versa –, vultosas quantias pelas bolsas, sapatos, camisas, tênis, bolsas, cosméticos, bolsas, tudo meticulosamente exposto em vitrines glamurosas.A vida dela era ali, durante o dia, enquanto cumpria sua jornada de faxineira naquele luxuoso shopping center de um bairro tido por nobre da cidade de São Paulo.

Quando chegava à sua casa, onde morava ela mais o marido, já tarde da noite, depois de enfrentar mais de duas horas de trânsito e aperto no ônibus que tinha de tomar diariamente para ir e voltar do trabalho, a vida dela era bem diferente: na sua casa, apesar de seu marido ignorá-la, ela não era de todo invisível, tal como ocorria no shopping, pois a televisão estava sempre ligada à sua frente, a olhá-la, iluminando-a.

O mito de Selfie

Tinha acordado triste, sentindo-se pra baixo, a ponto até de faltar-lhe forças para levantar-se da cama. O rosto, todo amarfanhado, denunciava o estado de espírito, confirmado pelo olhar distante, quase ausente, perdido em meio a olheiras escuras e pesadas.Ainda assim, a fim de cumprir a obrigação de parecer feliz no Facebook, Selfie pegou uma caneta hidrocor, no estojo que tinha sobre a mesinha da cabeceira da cama, e, com ela, desenhou uma carinha feliz, à semelhança de um “smiley”, sobre sua nuca, toda ela desprovida de cabelos. Logo em seguida, fez uma “selfie” do desenho, como se fosse de seu próprio rosto, e postou.

Seus “amigos” acharam aquilo divertido. A foto chegou a umas cem curtidas em poucos minutos, e continuava a receber esses afagos virtuais até muitas horas depois. No mundo virtual, ninguém deu pela tristeza de Selfie no mundo real. A obrigação de parecer feliz no Facebook estava, portanto, cumprida. Ter de cumpri-la, contudo, só deixou Selfie ainda mais deprê.

A carta

Um São Sebastião de louça, crivado de flechas, com seus olhos vitrificados, dava as boas-vindas a quem chegasse à entrada do apartamento, depois de percorrer o longo, escuro e frio corredor, desde a saída do elevador, passando pelos impenetráveis olhos mágicos dos apartamentos vizinhos, que observavam, indiferentes, quem chegava e saía, do alto das muitas portas que haviam pelo caminho. Ao lado do santo, havia uma Comigo Ninguém Pode ressecada, plantada em um vaso de barro vermelho, esmaltado, trincado na vertical à semelhança de um coração partido. Sobre os cantos da porta do apartamento, fechada à chave, era possível ver algumas teias de aranha, a denunciarem que há muito tempo

(semanas… quiçá meses)

ninguém por ela entrava ou saía.

Um capacho de sisal sintético, surpreendentemente limpo e com as cores do arco-íris ainda vivas, impedia qualquer visitante de concluir que ali havia apenas sinais de abandono e tristeza.

Nenhum vizinho, nem os porteiros, tampouco o pessoal da limpeza do prédio sabia do paradeiro de quem ali teria vivido e cultivado aquele cenário à entrada daquele minúsculo apartamento, tipo quitinete. Naquele enorme condomínio, ninguém se olhava nem se via: os moradores eram invisíveis entre si. Viver ali era como estar sozinho numa multidão.

Certo dia, chamados pelo síndico – que andava cabreiro com as dívidas de condomínio daquela unidade que iam se acumulando –, os bombeiros arrombaram, sem grande esforço, a porta daquele apartamento. Lá dentro, a janela da sala, aberta e nua, deixava entrar uma brisa abafada, que trazia com ela muita poeira e fuligem, além de muito ruído: o apartamento era bem de frente para o Minhocão.

Os móveis eram escassos, havia apenas o suficiente para poder afirmar que um ser humano teria vivido ali. Na diminuta sala, conjugada com o quarto, o destaque era o pequeno sofá com a frente voltada para a janela, e encostado ao seu parapeito, sobre o qual, encoberto pela poeira, os bombeiros encontraram um envelope, e dentro dele uma carta. Dentro da carta, muita dor. Feita de dor, a caligrafia de uma despedida. Feita de despedidas, toda uma vida. Naquela carta, a despedida final.

Dona Tristinha

Ao ver o trem aproximar-se da plataforma, Dona Tristinha, num movimento reflexo, levantou o braço a fim de fazer sinal de parada, do mesmo modo como é comum fazermos no caso de um ônibus ou um táxi. Ali, na plataforma da estação de trem, lotada de gente, ninguém deu muita bola para o gesto inusitado daquela velha senhora, uma mulher comum, tão parecida com a avó de tantos por aí. Quem, por coincidência, costumava encontrá-la por ali, naquele mesmo horário, sempre no meio daquela multidão de anônimos, já estava acostumado a vê-la fazer isso sempre.Um outro hábito que faz Tristinha um tanto conhecida é aquele que ela adota ao encontrar uma comadre ou uma vizinha. Quando vai cumprimentá-las, em vez do costumeiro aperto de mãos e beijos no rosto, ela prefere virar a comadre ou vizinha de costas a fim de dar-lhes um cheiro no cangote. É quando então diz um

– Aahhh

Em sinal de clara satisfação, ou um

– Que horror!

bem alto

(apesar de sua voz bastante rouca)

em sinal de desaprovação.

A lista das excentricidades de Dona Tristinha não para por aí, é bastante longa. Ocuparíamos, de fato, demasiado espaço, para apontá-las todas aqui.

Tristinha, ou Cristina, como registra sua certidão de nascimento, é viúva e mora, ela mais sua gata, Ágata, em um diminuto apartamento de um grande condomínio no centro da cidade. Ali ela tem ultimamente vivido dias por certo muito tristes

(daí talvez o apelido que lhe deram)

pois os demais moradores não param de reclamar dela para o síndico. 

Para eles, os vizinhos de prédio de Tristinha, o comportamento daquela velha senhora ao entrar no elevador, sempre de bobes nos cabelos, é demasiado inaceitável, beira o ofensivo.

Ora, mas por quê? Perguntou-lhe outro dia, Adelaide, uma amiga de longa data.

Não, não tem nada a ver com os meus bobes, respondeu-lhe uma intrigada Tristinha, enquanto mastigava com gosto um bolinho de chuva quentinho, servido por Adelaide, durante o café da tarde.

O que realmente incomoda aquela gente, esclareço-lhes eu, é que, sempre que vai tomar o elevador, logo que a porta dele é aberta, Tristinha cumprimenta quem ela encontra lá dentro e sorri, em vão, esperando que, ora bolas, respondam o cumprimento e também sorriam. 

Mas, ignorando-a totalmente, todos continuam sempre em silêncio, ora com seus rostos voltados para o vazio, ora para seus celulares, o que, não raro, dá no mesmo.

Os pardais

Avó, mãe, esposa e filha: as quatro gerações femininas de uma mesma família de pardais aguardavam, pousadas uma ao lado da outra, à maneira de matrioskas, sobre um confuso emaranhado de fios do sistema de iluminação pública, bem em frente à delegacia de polícia. Estavam ali desde o mais tenro raiar do dia, aflitas por notícias de Pedro, o jovem pardal, neto da avó, filho da mãe, marido da esposa e pai da filha, que durante a madrugada fora trazido para aquele lugar, dentro do que elas não sabiam dizer se era uma gaiola ou um alçapão.Já quase enfim anoitecia, quando o delegado saiu da delegacia, em mangas de camisa, e foi dar a elas satisfação sobre o paradeiro do jovem pássaro. O delegado estava encharcado de suor, parecia angustiado, o que logo foi percebido pelas pardais como um sinal de que ele era portador de má notícia.

E foi de fato. 

Entre pios de tristeza, dolorosos de se ouvir, o delegado foi-lhes contando que Pedro morrera nas garras de um conhecido criminoso daquelas bandas.

– Quem matou meu filho? 

perguntou a avó.

– Não pode ser!

exclamou a mãe.

– O quê!?

indagou uma incrédula esposa.

Sem entender o que se passava ali, a filha apenas chorapiava, debaixo das asas da sua mãe, a esposa de Pedro, tornada então viúva.

Olhando-as firmes, como um estilingue prestes a atirar, o delegado, friamente, disparou

– Pedro morreu nas garras de Estado.

Este era o nome do assassino, praticante de crimes que passavam sempre impunes: um gato dado a maldades inomináveis com a vulnerável população de pardais.