O mito de Selfie

Tinha acordado triste, sentindo-se pra baixo, a ponto até de faltar-lhe forças para levantar-se da cama. O rosto, todo amarfanhado, denunciava o estado de espírito, confirmado pelo olhar distante, quase ausente, perdido em meio a olheiras escuras e pesadas.Ainda assim, a fim de cumprir a obrigação de parecer feliz no Facebook, Selfie pegou uma caneta hidrocor, no estojo que tinha sobre a mesinha da cabeceira da cama, e, com ela, desenhou uma carinha feliz, à semelhança de um “smiley”, sobre sua nuca, toda ela desprovida de cabelos. Logo em seguida, fez uma “selfie” do desenho, como se fosse de seu próprio rosto, e postou.

Seus “amigos” acharam aquilo divertido. A foto chegou a umas cem curtidas em poucos minutos, e continuava a receber esses afagos virtuais até muitas horas depois. No mundo virtual, ninguém deu pela tristeza de Selfie no mundo real. A obrigação de parecer feliz no Facebook estava, portanto, cumprida. Ter de cumpri-la, contudo, só deixou Selfie ainda mais deprê.

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