Cristina

Orfã de pai e mãe, quando ainda era um bebê recém-nascido, Cristina foi adotada por uma tia, irmã de sua falecida mãe, que era entretanto jovem e inexperiente demais para assumir tamanha responsabilidade. Quando se deu conta de que aquele bebê lhe custaria abrir mão dos muitos planos que tinha para sua vida, a jovem tia abandonou Cristina, ainda com poucos meses de vida, ao pés de um enorme cruzeiro de madeira, nos arrabaldes da pequena cidade onde, à época, morava.

Cristina estava entregue a Deus, e portanto em boas mãos.

Ali, passou a noite, envolta em um cueiro de pano branco, no mais pleno silêncio. Na verdade, chorou quase sem parar, mas seu choro foi abafado pelo barulho dos carros e das prostitutas que circularam ao redor do cruzeiro, a noite toda, perseguindo-se uns aos outros, à maneira de um cachorro que corre atrás do próprio rabo.

Na manhã seguinte, sol já alto no céu, a bebê Cristina foi descoberta por um padre, quando este fazia o caminho entre o bar em que tomara o primeiro aguardente do dia

(para despertar)

e a capela, poucos metros distante dali, onde passaria o resto do dia a embriagar de fé seus fiéis.

Ao ver aquele pacote de pano, branco como uma hóstia, aos pés do cruzeiro, contrastando fortemente com o multicolorido dos muitos despachos, por ali deixados, o primeiro pensamento de Padre Messias foi de que se tratava de uma garrafa de pinga

(talvez por efeito do retrogosto da bebida que tomara um pouco antes)

embrulhada e deixada ali como uma oferenda.

Depois, pensou que poderia ser um pacote de carne, do tipo daqueles que seu pai, vez ou outra no mês, trazia para casa, preso na garupa da velha bicicleta com que ia do trabalho para casa e voltava desta para o trabalho

(era funcionário público na prefeitura municipal)

sem nunca, em toda a sua vida, ter cruzado os limites da cidadezinha que era seu mundo.

Padre Messias tinha tido uma infância pobre: comia-se muito pouca carne. Sua mãe passava o dia cuidando dele, único filho, e da casa. À noite, deitada ao lado do corpo embriagado de cansaço do marido, ela tinha sonhos, nos quais deitava-se com outras mulheres.

Ao ajoelhar-se ao lado daquele embrulho de pano e abri-lo, o padre sorriu algo decepcionado ao ver o pequeno corpinho de Cristina, todo nu, abrindo seus bracinhos num gesto de cruz. A menina estava então quieta, talvez exausta de tanto chorar, e certamente faminta.

Adotada pela igreja, Cristina cresceu em um ambiente cercado de pecado por todos os lados.

(se Deus existe, tudo é permitido)

Ao atingir a adolescência, cansada de ser sexualmente abusada, Cristina fugiu. Aproveitando-se de um momento de distração de Padre Messias, que então estava demasiadamente embriagado para notar a ausência da menina que, até poucos minutos atrás, ele tentava penetrar com seu pênis túrgido, ela deixou a sacristia e, atravessando apressada a pequena nave da capela, foi-se embora sem olhar para trás. Tinha medo de virar uma estátua de sal.

Caiu na marginalidade das ruas, onde, vestida à maneira de uma virgem, dizia ser capaz de promover milagres sobre aqueles com os quais se deitava.

(milagre mesmo era ainda estar viva)

Resgatada das ruas por um pastor evangélico

(um cliente eventual)

Cristina começou a participar dos cultos no templo para onde o pastor levava seu rebanho. Em todos os cultos, ela era a responsável por recolher dos fiéis o pagamento que lhes daria a garantia de encontrarem abertas as portas do céu, quando por lá fossem bater.

Com seu corpo no auge da sexualidade, as contribuições que Cristina conseguia recolher dos fiéis eram bastante significativas. Por dias seguidos, ela conseguiu ser a primeira colocada no ranking da fé, como o pastor chamava a competição que promovia, entre suas meninas, para estimular a arrecadação de dinheiro dos fiéis.

Duas horas para ir, outras duas horas para voltar: esse era o tempo que Cristina dispendia todos os dias no trânsito, para ir da casa que dividia com o pastor e outras meninas até o templo e vice-versa. Tempo que ela nem via passar: distraía-se ouvindo repetidamente, em seus fones de ouvido, as músicas de sua banda preferida.

Num sábado, a igreja estava mais lotada que de costume. Uma multidão de fiéis disputava espaço

(cada um por si, com a ajuda de Deus)

procurando ficar o mais próximos possível do aparelho de televisão que transmitia a partida final de um campeonato de futebol. Naquela tarde, Cristina bateu seu recorde de arrecadação.

Terminado o culto, vendo diante de si aquela quantidade enorme de dinheiro, veio-lhe um repentino e forte desejo de apossar-se daquilo tudo e fugir.

O pastor tinha-lhe prometido, para aquela noite, trazer de volta sua virgindade e não havia nada no mundo que ela pudesse querer mais, mas a vontade de ser livre, naquele momento, falou mais alto e, quando a noite enfim chegou, encontrou Cristina de malas prontas, a esperar na rodoviária o ônibus que a levaria para algum lugar bastante distante dali. Ela não sabia nada sobre esse lugar. Só queria partir.

Era início da madrugada quando o ônibus enfim deixou os limites da rodoviária e, poucos minutos depois, pegou a estrada.

As malas de Cristina tinham sido deixadas no enorme porta malas do ônibus. Bem menos confortavelmente instalada que as suas malas, Cristina, por sua vez, tentava

(em vão)

acomodar-se para dormir, em um assento ao lado de uma senhora bastante gorda, que não parava de roncar.

Vencida pelo cansaço, caiu no sono, mas foi logo depois acordada de supetão pela sirene de um carro de polícia: o ônibus tinha sido parado em uma blitz. Tanto os passageiros como as bagagens passariam por uma revista.

Ao revistarem as malas de Cristina, os policiais encontraram-nas cheias de quilos de culpa, embrulhada em papel celofane.

Nem ela sabia que transportava aquele produto dentro de suas malas. Mesmo contrariado, o pastor prontificara-se a fazer as malas para ela, colocando nelas tudo que, na opinião dele, Cristina precisaria para viver sua nova vida, em uma nova cidade.

– Confie em mim.

Ele disse, enquanto entregava-lhe as malas prontas e bem fechadas. Confiando nele, ela nem pensou em abrir as malas para verificar se seus poucos pertences estavam de fato ali dentro.

Pega em flagrante, Cristina acabou presa. Mais tarde, na delegacia, teve direito a uma única ligação. Ligou para o pastor. Este, ao ser perguntado por que tinha feito aquilo com ela, apenas respondeu, laconicamente:

– A culpa é toda sua.

E, em seguida, desligou o telefone.

Semanas depois, Cristina ouviu sua sentença da boca boçal de um juiz boçal

(com uma longa barba rabínica, que parecia postiça naquele rosto pueril)

em um tribunal boçal, tudo parte de um sistema ainda mais boçal. Foi condenada a passar o resto de seus dias enclausurada em uma sela superlotada, que dividia com dezenas de outras detentas.

Para ela, o pior da vida na prisão nada tinha a ver com a falta da liberdade que tanto almejara

(a isso estava acostumada)

nem tampouco com a rotina de horários controlados para tudo. A fonte de sua maior angústia e infelicidade advinha, por certo, do fato de que, presa ali dentro daquela sela superlotada, passaria o resto de sua vida sem nunca mais poder ouvir, da sua banda favorita, as músicas do ABBA Gold.

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