Maria

Tinha por hábito ler o horóscopo ao final do dia, no trajeto do seu trabalho para casa. Dentro do ônibus com o qual fazia esse percurso, Maria lia o seu horóscopo mesmo que não conseguisse
(o que era bastante comum)
um lugar para se sentar: o ônibus estava quase sempre lotado.

Era assim

(dentro do ônibus a ler o seu horóscopo)

que, de segunda a sexta, ela vencia a longa distância que separava a casa de sua patroa e aquela onde ela mesma, Maria, era a patroa: a sua própria casa.
Uma casa pequena, feita de tijolos e sem reboco, cercada de pesadas grades de ferro, que Maria dividia com seu marido, Agenor, e mais três filhos
– Todos criados
como dizia, orgulhosa, para quem quer que lhe perguntasse.
Pela sua data de nascimento, o horóscopo lhe atribuía o signo de Virgem, mas desde muito moça, Maria decidira adotar o Touro como sendo o seu signo do zodíaco, por enxergar na figura daquele portentoso bovino com chifres o símbolo da força com que gostava de ser percebida. Virgem sempre lhe parecera um signo delicado demais: não combinava com seu gênio forte. Além do mais, há muito perdera a virgindade do corpo, não havia, portanto, por que mantê-la no horóscopo, pensava.

Era com esses argumentos

(que para ela pareciam bastante contundentes)

que ela justificava essa troca zodiacal. 
Trabalhadora exemplar, Maria orgulhava-se de ser empregada da mesma família há quase vinte e cinco anos, período no qual, sem nunca ter faltado um dia, trabalhara como babá dos filhos da patroa e, também, dos seus netos, sempre cumprindo sua jornada de trabalho vestida com um impecável uniforme, todo ele branco, do qual ela tanto se orgulhava. Nas palavras da patroa, o tal uniforme
– Serve para que saibam quem você é
declaração que Maria não entendia muito bem, haja vista que todos naquele condomínio onde a patroa morava a conheciam, não pelo nome próprio, é verdade, mas, sim, como a babá da Dra. Ângela. Não havia, portanto, quem por ali não soubesse quem ela era.

Ingênua, Maria não se dava conta, mas o uniforme branco abria-lhe portas que, de outro modo, estariam para ela fechadas à chave se, diante delas, ela se apresentasse sem nada para branquear a negritude de sua pele.
Há anos

(quase 25)

sua vida tinha sido praticamente só trabalhar, cumprindo, de segunda a sexta, uma primeira jornada na casa da patroa, e depois à noite, uma segunda jornada naquela casa onde ela mesma era a patroa: a sua própria.
Gabava-se de, com seus próprios recursos – provenientes de seu emprego como babá –, sem depender de um tostão do marido, ter conseguido criar seus filhos, todos hoje crescidos e encaminhados na vida, mantendo-os longe do crime. Naquela vizinhança onde os meninos

(como Maria ainda os chamava)

moravam com sua mãe e mais seu pai, numa distante periferia de São Paulo, o crime tinha por hábito arregimentar vidas jovens, e não raro as entregava à morte, principalmente se fossem vidas negras, como eram as dos filhos de Maria.
Numa segunda-feira, Maria retornava para casa ainda trazendo no corpo o cansaço da semana passada: tivera que fazer plantão na casa da Dra. Ângela, que somente na sexta a avisara que

– Vou dar uma festa e preciso de você aqui durante todo o final de semana, pode ser?

retoricamente a patroa perguntou.

Com seu uniforme todo branco guardado dentro de uma sacola, Maria estava
– À paisana
como sua patroa dizia nas raras vezes em que as duas se encontravam pela manhã: em geral, quando Maria chegava para trabalhar, a patroa ainda dormia e só acordaria dali a pelo menos uma hora, lá pelas 7 da manhã.

Enquanto o ônibus seguia, embarcando e deixando passageiros ao longo do caminho, Maria lia o seu horóscopo com as previsões para aquele dia, que muito mais apropriadamente deveriam ter sido lidas ao amanhecer, e não já no início da noite, como Maria então fazia. As colunas do horóscopo eram a única leitura que conseguia acompanhar, pois ela nunca frequentara a escola: o pouco que sabia ler foi aprendido com a ajuda de um de seus filhos, o mais velho.

Ao final do dia daquela segunda-feira, antes de deixar o trabalho, depois de espalhar algumas folhas de jornal pela área de serviço do apartamento da sua patroa, para servirem de toalete para os cachorros da família, Maria, como sempre fazia, separou para si a página do horóscopo e colocou-a dentro de sua bolsa, junto com sua escova de dentes e a bíblia que carregava como um simples amuleto: nunca lera nem sequer uma página. Era-lhe mais fácil simplesmente ouvir a bíblia pelas palavras do pastor, nos cultos que Maria frequentava todos os domingos.
O trajeto do trabalho para casa durava em média duas horas, era o tempo que em geral Maria levava para ler as previsões de seu signo de adoção, Touro, previsões que àquela altura do dia, com o sol já posto, já nada mais previam, apenas ruminavam.
Para ela, a leitura do horóscopo era muito mais que uma simples distração: realmente acreditava no que lia e esperava ver realizadas aquelas previsões passadas em sua vida futura, o que, de fato, até então nunca ocorrera. 

Não tinha sido por que o astrólogo autor daquelas colunas faltara ao trabalho, não as entregando redigidas e prontas a tempo de serem publicadas naquela segunda-feira, em que, ao final do dia, Maria voltava para casa.
Por certo, não tinha sido esta a razão pela qual a coluna daquela segunda-feira saíra exatamente igual à coluna da sexta-feira passada. Um imprevisto qualquer, ninguém sabia bem dizer qual, tinha levado o editor do jornal a republicar, ipsis litteris, a coluna de sexta na segunda.
Maria demorou um pouco para perceber 

(sua memória não andava lá essas coisas)

mas ao terminar de ler o horóscopo para o seu signo de adoção, na coluna de segunda-feira, ela enfim deu-se conta que aquelas previsões que ela então lia eram idênticas àquelas que ela tinha lido na sexta-feira passada, naquela mesma coluna, quando também retornava da mesma casa onde, há quase 25 anos, vinha trabalhando como babá, sempre vestindo seu uniforme branco, do qual tanto se orgulhava.

Ao terminar de ler aquela coluna e perceber que estava igual à coluna de sexta passada, Maria sentiu um pensamento estranho e inusitado

(nunca o tivera antes)

passar por sua cabeça. Por aquele breve instante, Maria sentiu que sua vida andava repetitiva.

– Será?

perguntou-se em pensamento, e então desceu do ônibus, tomando o caminho dali para sua casa, como sempre fizera por quase 25 anos. Na manhã seguinte, recomeçaria tudo de novo.

 

 

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