Baby Look

Há muito a juventude o abandonara, embora olhando para a pele de seu rosto não se percebesse nenhuma ruga: era lisa como um ladrilho. Assim a mantinha

(esticada)

graças a procedimentos estéticos que lhe garantiam uma aparência não exatamente jovem, mas muito bem conservada.

De tão lisa e estendida, a pele de seu rosto, mesmo diante de um aviso a dizer:

“Sorria, você está sendo filmado”

em nada enrugava.

O adeus à juventude foi gradual, não se deu da noite para o dia, embora, olhando em retrospecto, Baby Look tivesse a impressão

(enganosa por certo)

de que tudo aquilo que vivera naquela época dera-se ontem.

Mas não, a sua juventude ocorrera muito antes do ontem, do anteontem, e de qualquer desses saltos curtos da memória. Nem mesmo um salto de número 17, do tipo que costumava usar quando saía à noite, em seus melhores anos, quando seu corpo, então jovem, estava no auge da força e do vigor físicos, seria suficiente para fazer frente ao tamanho do salto de memória que seria necessário para transportá-lo de volta àqueles anos.

(30 ou quiçá mais anos atrás)

Naquela época, Baby Look, como então Paulo já era conhecido, saía quase todas as noites da semana, mesmo nos dias úteis. Nestes últimos, ao final do expediente na agência bancária onde trabalhava como caixa, ele chegava em casa e se deitava sobre seu sofá. Lá deitado, entre um petisco e outro

(nada muito pesado)

ficava horas a assistir, na televisão, vídeos de suas cantoras favoritas

(Shirley Bassey, Donna Summer, entre tantas outras)

memorizando os gestos, os passos, as caras e bocas que elas faziam, a fim de, mais tarde, reproduzi-los à sua maneira quando chegasse à boate onde cumpria aquilo a que chamava de sua segunda jornada, já então na pele de Baby Look.

Por volta das 11 horas da noite

(I love the nightlife)

ao som de algumas de suas músicas favoritas

(I’ve got to boogie)

dirigia-se ao banheiro para, como ele dizia, tirar o ranço do dia, e preparar-se para brilhar na noite como a estrela que tanto almejava ser.

Depois do banho tomado, seguia para diante do enorme espelho, de corpo inteiro, que tinha em seu quarto, todo rodeado de lâmpadas para melhor destacar sua imagem ali refletida e, sob o globo de espelhos que, preso ao teto, rodava acima de sua cabeça, iniciava o processo de transformação, por meio do qual o Paulo que trabalhava como caixa numa agência bancária desaparecia dando lugar, voz e vez a Baby Look.

A partir do momento em que a transformação se completava, não só a aparência de Paulo mudava: na pele de Baby Look, também mudava o modo de falar e mesmo o vocabulário que utilizava.

– Amiga.

era assim que Baby Look chamava Carlos, seu melhor amigo, quando eles falavam ao telefone.

– Preciso te contar um bafão.

continuava, querendo com isso dizer que estava prestes a revelar uma fofoca extraordinária, no que Carlos lhe respondia:

– Conta, amiga.

ansioso por ouvir a revelação.

Conversas como essa com Carlos eram comuns naqueles anos: Baby Look orgulhava-se de ter dezenas de

– Amigas

como se referia a eles ou elas, amigos ou amigas, indistintamente.

Peruca loira na cabeça

(que sem ela mostrava-se quase totalmente calva)

maquiagem no rosto, vestido curto e justo, de preferência com alguma estampa animal, Baby Look ficava a admirar-se diante do espelho, com aqueles pequenos reflexos do globo espelhado a percorrerem seu corpo, numa lentidão melancólica como uma drag queen que, em seu camarim, desmonta-se depois de terminado seu último show da noite.

Enquanto se preparava para sair, o rádio ficava sempre ligado, a tocar músicas da era Disco, que Baby Look acompanhava, fazendo seu corpo dançar de acordo com o ritmo.

Ao longo dos anos, foi-lhe ficando cada vez mais e mais difícil acompanhar os movimentos que pediam aquelas músicas, a ponto mesmo de, hoje em dia

(passados 30 ou quiçá mais anos)

Baby Look não mais sair para a noite.

Depois de se arrumar todo e ficar

– Toda montada

como lhe diziam, Baby Look hoje prefere ficar em casa, a dançar lentamente alguns passos, ao som das músicas Disco, tomando um Dry Martini atrás do outro, até que o cansaço e a embriaguez o derrubem.

Assim ocorre todas as noites e, com seu corpo caído sobre a cama, à maneira de uma sombra

(sombra do que um dia fora)

Baby Look, adormecido, passa o restante da noite dormindo e a sonhar.

No último desses sonhos, viu-se no alto de um carro alegórico, numa posição de destaque, a desfilar pela avenida do samba

(num Carnaval qualquer)

sob o olhar extasiado de uma multidão que o assistia das arquibancadas, aplaudindo-o efusivamente a cada gesto que ele fazia em aceno, vestindo sua fantasia carregada de plumas coloridas esvoaçantes.

(nesse sonho, Baby Look ainda era jovem).

Ao fazer um gesto de asas batendo, ele, sentindo-se leve como um pluma, alçou voo e, diante da multidão que o aplaudia em delírio, sobrevoou toda a avenida do samba, até o final, quando então sumiu no céu, à maneira de um balão à gás que se desprende da mão de uma criança que, por distração, solta-o no ar.

Foi nesse instante, ao sumir no sonho, que ele acordou e, sentindo-se um pouco atordoado e com a cabeça latejar, por causa da enxaqueca, viu-se deitado sobre sua cama, ainda vestindo a roupa com que se montara na noite anterior: peruca loira na cabeça

(que sem ela mostrava-se quase totalmente calva)

maquiagem no rosto, vestido curto e justo, com estampa animal.

Era dia de trabalho e, pelo horário que o relógio marcava, Baby Look havia perdido a hora para sair. Naquele dia, não foi mesmo trabalhar, pois, nem bem tinha acordado e dado conta de seu atraso, voltou a dormir, mas desta vez um sono diferente: sem sonho nenhum.

(o melhor da velhice é que ela te liberta)

No rádio ainda ligado, as músicas da era Disco, tocadas a noite toda, davam lugar a uma nova e diferente sequência de músicas. No exato momento em que suas pálpebras gradativamente desciam, antes de seus olhos fecharem de uma vez, Baby Look ainda conseguiu ouvir, vindo do rádio, o simples refrão de uma música do R.E.M., que assim cantava: “it’s the end of the world as we know it, but I feel fine”.

Ouviu esse refrão e, nunca, nada mais.

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