Lindaura

Não tinha muita escolha

(para dizer a verdade, escolha nenhuma)

a não ser aceitar aquele emprego: com os boletos das contas depositando-se sobre a soleira de sua porta como os dejetos que a maré alta traz para a praia, Lindaura só poderia responder sim ou sim. E quando o fez

– Sim.

não conseguia esconder seu sorriso.

(há muito não sorria)

Logo em seguida, a secretária de seu futuro chefe estendeu-lhe a mão direita, a fim de cumprimentá-la pela conquista.

– Parabéns.

disse-lhe a secretária, sem o menor esforço para disfarçar seu pouco entusiasmo com aquela mulher magra diante de si, que no dia seguinte começaria como faxineira, ali naquele consultório médico.

Depois desse cumprimento frio, a secretária comunicou a data de início àquela mulher magra diante de si, disparando um

– Pode começar amanhã mesmo

dito de forma contida, no que Lindaura agradeceu dizendo-lhe um

– Obrigada

um tanto tímido, dali então virando as costas e tomando o rumo da porta de saída da pequena sala da secretária, a mesma porta pela qual entrara há cerca de uma hora.

– Até amanhã.

Despediu-se Lindaura, voltando o rosto para trás, num gesto que em nada reverberou: ensimesmada, a secretária continuou ali sentada em sua cadeira, a lixar as unhas de suas mãos, ignorando por completo a mulher magra que partia.

Duas horas depois, Lindaura chegava em casa, ansiosa por levar a boa nova a suas plantas e a seu gato de estimação, Nico.

Ao abrir a porta de casa

(uma casa simples, num bairro simples e distante)

qual não foi a sua surpresa ao deparar-se com o interior completamente vazio: não apenas seus móveis e utensílios tinham desaparecido, como também suas plantas e o próprio Nico não estavam mais lá.

Os larápios que ali estiveram deixaram para trás apenas os boletos das contas que vinham se acumulando sobre a soleira da porta. Tinham levado todo o resto, limpando a casa.

Desesperada, Lindaura queria gritar por socorro, mas uma forte angústia apertava seu peito de uma maneira tal que lhe tirou o fôlego. Depois de recuperá-lo

(só conseguiu fazê-lo quando foi para fora tomar um ar)

quis saber das vizinhas se tinham visto algo.

De Dona Catarina, uma viúva aposentada que vivia na companhia de suas memórias, na casa ao lado, ouviu apenas um

– Não vi ninguém.

Perguntada por Lindaura, Marzipã, como chamavam a mulher que preparava bolos sob encomenda, e que vivia na solidão de seus raros pedidos, na casa em frente, respondeu com um

– Não

tão seco quanto a massa dos bolos que preparava.

Só então Lindaura lembrou-se de perguntar a Deus

– Oh, Senhor, o que aconteceu?

que, como de hábito, ignorou-a por completo.

Angustiada, triste e com o cérebro em disparada, tentando encontrar explicação para seu infortúnio

(justo agora que tinha conseguido um emprego, depois de meses tentando em vão)

Lindaura acabou passando a noite em claro, com a mesma roupa que vestira o dia todo, deitada no chão duro do cômodo da casa que fazia as vezes de seu quarto.

Por efeito do cansaço, caiu no sono por volta das 5 da manhã

(antes do alvorecer)

horário em que deveria estar acordando para poder chegar ao seu primeiro dia de trabalho, com muita sorte, por volta das 7 horas: seu horário de entrada.

Quando finalmente acordou, já era meio-dia. O sol quente, a pino, aquecia o quarto onde Lindaura dormia, fazendo-o parecer um forno de tão quente. Ainda deitada, Lindaura transpirava em bicas. Sua cabeça doía.

Ao levantar-se e olhar ao seu redor, Lindaura viu Nico, no canto do quarto, a ronronar dentro da caixa de sapatos que, forrada com um pano de chão, servia-lhe de cama. Também suas plantas, móveis e utensílios estavam lá, de volta a casa, cada um no seu devido lugar, como se nada tivesse ocorrido.

(será?)

Confusa, mas aliviada, ela levantou-se e, trançando as pernas como se estivesse embriagada, arrumou-se correndo para ir ao seu primeiro dia de trabalho. Não sabia qual justificativa daria para o atraso, mas não poderia de jeito nenhum deixar de ir: tinha boletos para pagar.

(estes não tinham desaparecido; permaneciam jogados na soleira da porta de entrada)

Quando saiu, certificou-se de que a porta estava bem trancada. Não queria passar novamente pelo que passara nem em sonho.

O som de um tambor chegava aos ouvidos dela, vindo de longe, acompanhando-a com seu

TuM

tUm

tUM

por todo o percurso que ela fez da porta de casa até o ponto de ônibus, como o pulsar de uma enxaqueca.

Duas horas e pouco depois, Lindaura chegava ao seu destino, mas no lugar onde, no dia anterior, ela tinha recebido a boa nova de que poderia começar no trabalho

– Amanhã mesmo

havia apenas uma porta trancada e, presa a ela, uma placa não a dizer

NADA

mas algo que Lindaura não sabia decifrar, pois era analfabeta.

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