Tempo

Sim, eu notei sua chegada. Com efeito, não o tinha visto partir. Vendo-o mais claramente, recuperado finalmente da torpeza que me causara a sua entrada de surpresa, eu diria que este homem que há pouco voltou e aquele que partira não são a mesma pessoa. Afinal, faz muito tempo e devo inferir que, em todo esse período, muita coisa em você mudou, estou certo? Nem precisa responder, pois pela sua fisionomia posso claramente ver: há mais rugas na pele de seu rosto e seus olhos estão lassos, como que a refletir o caminhar por longas estradas, o pisar de muitos passos, o cair e levantar ante o peso de muitos fracassos — um olhar baço como um espelho a ornamentar a entrada de um decadente cinema antigo.
Lembro-me que partiu sem de mim se despedir, disso me lembro, sim. Na ocasião, fiquei triste, pois senti-me traído, rejeitado. Não, pior que isso: senti-me ignorado, como ignoramos esses pobres coitados que vivem na rua, quando vamos passando e eles nos estendem as mãos em súplica: desviamos o olhar, fingindo que não existem, desejando, no fundo, que desapareçam de nosso caminho.
Não entendia a razão de sua ação de sumir e sua omissão de nem ao menos de mim se despedir. Até onde consigo recapitular, não me lembro de ter feito nada capaz de te magoar — pelo menos não voluntariamente. Sim, eu sei que andava meio distante, um tanto ausente, mas não era nada pessoal contra você, entende? A vida andava atribulada, você sabia: minha rotina era acordar, trabalhar, dormir, pra no outro dia tudo recomeçar, numa repetição embotada — eu era apenas parte de uma engrenagem industrial que dia após dia só se repetia. Tinha horas que, confesso-lhe, diante de tão entediante e opressor vagar, tinha vontade de gritar, chorar…, até me matar. A vida havia perdido o sentido — ainda assim me contive, eis o porquê de por aqui ainda estar.
Sim, sei que a vida, enquanto conceito, não tem mesmo nada a significar, mas eu queria que a minha fosse menos boçal, que tivesse ao menos um propósito que a diferenciasse da vida de um animal. Não a desejava excepcional, nem normal…, sei lá, pra ser sincero, nem sei a que tipo de vida almejava. Sabia apenas o modelo que não me interessava, mas era-me vaga a ideia da que queria vir a ser verdadeiramente por mim vivenciada.
Disseram-me na época que eu andava muito sonhador — como se isso fosse, por si, algo do que sentir pudor —, e que a vida de todo mundo era assim mesmo: um suceder sofredor de fatos aleatórios até o cruzar da fronteira com a morte.
Nunca quis aceitar isso, nunca! Mas aí você partiu e nem de mim se despediu. Pensei: puta-que-o-pariu! Ele conseguiu, conseguiu me incutir a ideia que até então eu lutava para rejeitar: de que a vida, mesmo que por um breve instante, vale pensar ser menos inconstante; ser, enfim, algo significante — com significado. Afinal, você era meu melhor amigo e não se espera isso de um melhor amigo, pelo menos não em uma vida que se pretende com sentido.
Eis que, passado todo esse tempo (meses? anos? — um punhado), você está de volta. Não é mais o mesmo, como já lhe disse. Eu também não, pode notar isso, não?
Os que aqui agora se (re)encontram, sob a testemunha cerrada dessas mesmas quatro paredes (nem essas de fato são as mesmas, pois já foram rebocadas e passaram por pelo menos uma demão de tinta desde aquela época), eu ousaria dizer, sem medo de em quaisquer erros incorrer, encontram-se na vida como se pela primeira vez.
Seria isso uma verdade incontestável? Creio eu que sim (se é que elas existem…), não fosse a minha mente a todo instante a me recordar o passado, e neste, com o peso de um porrete, a história de sua infame partida, que me jogou num buraco de dor inglória. Ainda me dói por dentro a lembrança desse ato tão detestável: aquela dor ainda está fresca em minha memória.
Assim, digo-lhe: “Vá embora! Acostumei-me a tê-lo ausente. Não quero, pois, sofrer como antigamente, caso, de súbito, resolva partir, sem de mim se despedir novamente”. Pode ir tranquilo. Não posso, não quero e não vou chorar. As lágrimas que à época fez-me derramar meio que blindaram meu ser ao secarem. Tornei-me mais duro, como há de notar: como o solo de um rio que seca, mas, ao contrário deste, novas águas não fariam a minha armadura se desmanchar, em lama mole virar.
(Fitamo-nos por alguns instantes sem nada dizer, olhando-nos um nós olhos do outro – lá fora, a noite caia.)
O que esconde em suas mãos aí atrás de você, flores? Deixe-me ver. Ah, logo imaginei. Devia tê-las me entregado quando chegou. Agora, veja só, estão murchas, que dó.
O tempo é mesmo implacável.

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