Ângela

 

À medida que se afastava do burburinho formado em torno de um disco voador que pousara na esquina da Augusta com a Paulista, Ângela foi aos poucos podendo ouvir novamente seus pensamentos — bem mais barulhentos se comparados àquele burburinho.

Seu primeiro disco voador, ela vira quando tinha sete anos. Desde então, vê-los descendo e subindo em diversos pontos da cidade tornara-se algo recorrente: já tinha perdido a conta de quantas vezes presenciara esses pousos e decolagens. Era-lhe, portanto, algo totalmente ordinário, indigno de sua atenção, que assim permanecia focada em suprir suas necessidades mais básicas.

Ao deixar para trás a multidão que se aglomerava em torno daquele disco voador que então tinha pousado na esquina da Paulista com a Consolação, não foi, portanto, a imagem do objeto em si que lhe chamara a atenção, mas, sim, o sorriso de alegria de uma menina, que parecia ter a mesma idade de Ângela quando ela tinha visto pela primeira vez um disco voador bem semelhante àquele, pousado num descampado localizado na periferia onde, à época, ela morava.

Para Ângela, uma mulher cuja idade aproximava-se dos cinquenta anos, e cuja vida havia sido, toda ela, há muito devastada, a alegria é que era algo de outro mundo, como um alienígena.

Partindo dali, ela pegou o metrô na estação Consolação e seguiu seu percurso até o Largo da Batata, de onde então pegou o ônibus que a levaria até sua casa, na periferia da cidade.

Seguiu todo o caminho com a cabeça baixa, procurando evitar o contato com o olhar das pessoas. Só quando o ônibus passou por um cruzamento, onde um palhaço fazia malabarismos para levar alegria aos passantes, foi que Ângela, inadvertidamente, levantou a cabeça e ficou a observá-lo por alguns instantes — o tempo que o ônibus levou para entrar e sair daquele local, cercado de pequenos comércios populares, onde as pessoas iam e vinham, freneticamente, sem se verem nem se notarem, como sonâmbulos a caminharem em plena luz do dia

Ângela sempre havia percebido os palhaços como sendo figuras tristes, e aquele palhaço, nesse sentido, não diferia em nada de todos aqueles que ela vira ao longo de toda a sua vida: também ele lhe parecia uma figura triste.

Contudo, havia naquele palhaço malabarista algo diferente, que Ângela somente foi dar-se conta ao chegar à sua casa e, logo de cara ao entrar, deparar-se com a foto de seu filho, em um porta-retrato sobre o aparador.

Aquele palhaço que ela tinha visto no cruzamento era demasiadamente parecido com Tomás, seu falecido filho, parecido demais, ela pensou, para de fato não ser seu filho. Um

— Meu Tomás

brotou de seus lábios angustiados, como a erva daninha que brota em meio a brechas, na aridez de uma calçada de concreto.

Ângela não se permitiu nem um gole d’água para matar a sede que a atormentava: precisava voltar rapidamente àquele local onde vira seu filho, vivo, há poucos minutos. Precisava vê-lo, sentir seu cheiro, seu abraço, poder dizer

— Filho

poder gritar

— Filho!

de novo, como fazia quando Tomás ainda era vivo.

Ângela criara Tomás sozinha, sem a ajuda do pai do menino, que a abandonou assim que soube que ela estava grávida. Para ela, Tomás era mais que um filho: era um símbolo de vitória.

Sem delongas, ela fechou a porta da casa à chave, andou dois passos e voltou para conferir se de fato a tinha trancado. Fez isso mais umas duas vezes, até ter certeza de que a porta estava de fato bem fechada. 

Seguiu para o ponto de ônibus, a poucos metros dali, a fim de pegar aquele que a levaria de volta para o cruzamento onde vira seu filho Tomás a fazer malabarismos, vestido de palhaço. Daria uma hora de percurso, se o trânsito ajudasse. 

Por todo o caminho, ela seguiu ensaiando o grito que daria ao encontrar-se novamente com Tomás. Queria poder gritar

— Filho!

poder gritar

— Tomás!

bem alto, para que todos pudessem ouvir.

A última vez que Ângela tinha visto Tomás, antes de ele desaparecer, aos dezesseis anos de idade, o menino estava de saída para trabalhar. Naquela manhã, uma operação policial acontecia no bairro onde moravam: os policiais procuravam por traficantes que, diziam os policiais, tinham base em uma casa na redondeza. Depois daquela manhã, Tomás e mais dois rapazes residentes naquele bairro, com idades próximas à idade de Tomás, nunca mais foram vistos.

Prevaleceu a narrativa de que eram de fato traficantes e que teriam sido mortos em confronto com a polícia, que por sua vez os confundira com os verdadeiros traficantes, confusão que, na visão da polícia, era plenamente justificada, afinal, assim como os traficantes, também os rapazes que tinham sido mortos eram, todos eles, pobres e pretos. Nenhum policial sofreu qualquer tipo de punição por aquele triplo homicídio.

Quando, uma hora e meia depois — Ângela encontrou um trânsito pior do que aquele que encontrara no caminho para casa — o ônibus finalmente chegou ao cruzamento onde ela vira seu filho vestido de palhaço, a fazer malabarismos para alegrar os passantes, no lugar dele, Ângela encontrou apenas um palhaço, cuja única característica semelhante à de seu filho Tomás era justamente a vontade de alegrar quem quer que estivesse por perto. Tomás sempre conseguia isso com seu sorriso largo e seu jeito molecão de ser; o palhaço bem que tentava, mas raramente conseguia extrair o sorriso daqueles que por ele passavam naquele cruzamento.

Isso ele conseguiu com Ângela: ela de fato sorriu ao encontrá-lo. Mas foi um sorriso tímido, que lhe ocorreu apenas para disfarçar a profunda decepção e tristeza que ela sentiu quando se deu conta do equívoco que cometera.

Aos olhos do palhaço, porém, aquele sorriso de Ângela parecia ser derivado de alegria. Ele então sorriu de volta. Tendo conseguido fazer Ângela sorrir — ainda que o sorriso dela tivesse sido para disfarçar a sua decepção e tristeza —, o palhaço, sem se dar conta deste detalhe, tinha conseguido finalmente cumprir a sua meta de obtenção de cem sorrisos para aquele dia. Meta cumprida, só lhe restava registrar isso em sua planilha de controle e entregar ao seu supervisor, que acompanhava o trabalho dele, sentado em uma cabine, a poucos metros dali. Feito isso, o palhaço podia, enfim, dar por encerrado seu expediente e voltar para casa.

Ângela fez o mesmo.

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