Chá da tarde

Sente-se aqui, Aceita um café? Acabei de passar, Quer com açúcar ou adoçante? Ah, mascavo eu não tenho, pode ser cristal, daqueles de cubinho? Que bonequinha você é, não entendo como ainda continua solteira, Na sua idade eu estava casada há pelo menos uns dois anos e carregava o Carlos, meus mais velho, então com dois meses, no colo, pra lá e pra cá, Foram anos difíceis aqueles, uma pindaíba danada, mas não me arrependo de nadica de nada, Casei cedo, com uns dezessete pra dezoito anos, com meu primeiro namorado, Éramos apaixonados um pelo outro, Acho até que eu era mais por ele do que ele por mim, E pensar que já se passaram trinta anos, Parece que foi ontem, Faria tudo outra vez, sabe, Eis aqui seu café, Tome enquanto está quente, Tem uns biscoitinhos caseiros também, quer? Estão bem fresquinhos: assei hoje de manhã bem cedinho, O sol nem tinha nascido e eu já estava na cozinha, Tenho dormido pouco, ando muito sem sono, Passo boa parte da noite acordada, olhando pra cima, pro escuro, pensando na vida, esperando o primeiro galo cantar pra então levantar, Pode comer à vontade, você está magrinha, puro osso, E além disso, como dizem, a gente só engorda depois que casa, não é mesmo, Eu engordei muito depois do meu casamento, mais ainda durante a gravidez do João, meu mais novo, Era uma gravidez de risco e eu tinha medo de faltar algum nutriente para ele, tadinho, então comia feito uma porca, Quando ele nasceu, não deu outra, eu estava gorda tal como uma, Nunca mais consegui voltar ao meu peso normal, a gente acaba se acomodando quando está casada, isso é verdade, Você vai entender isso quando se casar também, Dois meses depois de nascido, ainda um serafim, o João morreu, De certa forma foi melhor assim, acabou não dando tempo da gente se afeiçoar, Assistiu a novela ontem? Caí no sono, sentada em frente à tevê, Essa novela está muito parada, não sai do lugar, sem assunto, muito chata, Era fã daquelas da Janete Clair, mas a que me marcou mais mesmo foi a Escrava Isaura, do Gilberto Braga, Bons tempos aqueles, hoje tudo está tão diferente, As novelas, então, é uma pouca vergonha só, mulher se oferecendo pra homem antes do casamento, e todas elas agora têm um viado, Fim dos tempos! Que Deus nos proteja, Amém, Naquela época, a gente vivia num sobradinho simples ali em Pinheiros, simples mas arrumado: sempre cuidei para que tivéssemos flores frescas no vaso sobre a mesa da sala de jantar, preferia margaridas – cravos e rosas nunca, eles brigavam, e o cheiro que exalavam  – cheiro de cemitério – interferia no aroma das refeições, Isso me causava uma certa náusea, Eu tive um bom casamento, não posso reclamar, Foram mais de vinte anos de união, Estávamos sempre um do lado do outro, na “alegria e na tristeza”, como prometido na cerimônia na igreja, diante do padre, com a presença da família dele e da minha, e o testemunho dos padrinhos, Assim foi, até que a senhora com a foice veio e levou ele embora: só larguei a mão da alça do caixão quando o Carlos me puxou de lado, pois precisavam descer o ataúde para a cova, Nunca chorei tanto como naquele dia e nos dias que se seguiram – levei uns dois meses para sair do luto, Mesmo depois que o defunto esfriou, nunca mais usei cores, continuei a me vestir de preto, Lembro-me do Padre Manoel me dizendo que isso não era bom, que eu precisava superar esse episódio, usar um amarelo, um laranja, azul não, ele dizia, Segundo ele, azul podia me deixar ainda mais pra baixo, e sempre citava o Roberto Carlos como exemplo pra justificar essa restrição, pois ele vivia vestido  – acho que vive ainda – de azul e estava sempre triste, O preto me caia bem e todo mundo dizia que preto emagrecia, então nunca mais deixei de usar, Sempre fui vaidosa, se bem que hoje não ligo muito pra essas coisas mais, Acho que o Padre Manoel na verdade via que o preto ficava melhor em mim do que nele, Tinha inveja, isso sim, aquela bichona, Enfim, quando o Carlos, meu mais velho, morreu, um ano depois do falecimento do meu marido, nem precisei comprar roupa nova pro velório e pro enterro, Usei um vestido mais decotado do que aquele que usara quando da morte do meu esposo, pois fazia muito calor no dia, E sua mãe, vai bem? Não deixe de mandar lembranças pra ela, Nunca mais a vi, Éramos muito amigas no passado, mas tivemos que nos separar por causa do Alzheimer dela, De uma hora pra outra, ela começou a não falar coisa com coisa, Aquilo começou a me deprimir ainda mais, Já andava arcada por causa da morte do meu marido e do meu mais velho, Pudera, pois perdi os dois no espaço de um ano e fiquei sozinha desde então, Nunca mais quis me casar, Aceitei essas perdas como um desígnio de Deus e permaneci viúva, Não tomei nada pra sarar da tristeza, fui me curando com o tempo, Falando nisso, estava me esquecendo de tomar meu remédio pra pressão, Espere aqui um pouquinho que já volto, o comprimido está lá na caixinha de remédios, dentro da gaveta do criado-mudo lá no quarto, Se quiser trocar de canal, fique à vontade, só não sei onde está o controle, Seu café deve ter esfriado e você nem tocou nele, Você é muito quieta, Fico só eu falando aqui, parece até que estou falando com uma boneca.

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