Vidas e vindas

Beijavam-se à distância: ele, da sacada do seu apartamento; ela, do dela. Ambas as sacadas ficavam na mesma altura em relação à calçada lá embaixo, embora ele morasse no nono andar e ela no oitavo.

Os beijos cruzavam a rua que os separava, como pequenas flechas, que iam para lá e para cá, sempre encontrando destino no rosto ou na boca dos seus alvos.

Assim vinham fazendo todos os dias, sem falhar um único sequer, há mais de dez anos, sempre de manhã, quando o sol nem bem despontara no lado leste da rua.

Durante esse tempo todo, nunca se encontraram para além dos limites daquelas sacadas.

Certo dia, ela foi até a sacada de seu apartamento, no horário de costume, e aguardou que ele aparecesse do outro lado, para mandar-lhe beijos como há anos fazia, todos os dias.

As horas foram passando, passando e nada de ele surgir na sacada do apartamento do outro lado da rua.

Naquela mesma sacada, para onde por mais de dez anos ele sempre fora e ficara a beijá-la à distância, havia então apenas um espelho, sobre a superfície do qual ela via a imagem dela refletida.

Na ausência dele, ela mandou o beijo para a imagem dela que via refletida no espelho. Estranhamente, a imagem não lhe respondeu e, indiferente ao gesto do beijo, permaneceu inerte como se estivesse congelada.

Diante da indiferença da sua imagem no espelho, ela deu de ombros e voltou para dentro do seu apartamento para tomar o café da manhã e cuidar dos afazeres da casa.

No dia seguinte, no mesmo horário de sempre, lá estava ele a aguardá-la da sacada do apartamento dele, para o ritual de beijos à distância. Desta vez, porém, foi ela que não apareceu, deixando seu lugar na sacada do apartamento dela ocupado por um espelho bastante similar àquele que ela vira na sacada do apartamento dele, no dia anterior.

Ao ver sua imagem refletida naquele espelho, em pé sobre a sacada do apartamento dela, do outro lado da rua, ele foi tomado por um grande sentimento de solidão e começou a chorar. A solidão que ele sentiu foi correspondida pela imagem dele refletida no espelho, que assim como e junto com ele, também chorou.

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