Laura

Sentada à mesa da cozinha, a mãe aguardava ansiosa pela chegada da filha que há muito não via. Dois anos se contavam desde quando a filha a visitara pela última vez.  Laura, a mãe, lembrava-se bem daquele dia: brigaram muito, xingaram-se, um desentendimento besta, coisas de mãe e filha, mágoas que passam com o tempo

(ela pensou à época)

e logo dão lugar à saudade.

Assim de fato ocorreu, mas demorou dois anos para que ambas pudessem novamente voltar a conversar, dois anos para que uma ouvisse da outra, do outro lado da linha telefônica:

– Está tudo bem, mãe?

e sua mãe responder:

– Tudo bem, sim, minha filha.

A hora ia passando, passando, e a ansiedade de Laura só crescia. A filha disse que chegaria a tempo para o almoço, mas nada de aparecer até então. Ao olhar o relógio na parede, viu-o marcar duas da tarde. O combinado era que a filha chegaria, no máximo, por volta do meio dia e meia.

(teria acontecido algo?)

Laura estava preocupada.

Um pardalzinho entrou na casa pela janela da cozinha e passou voando por sobre a cabeça de Laura, bem rente aos seus cabelos. No susto, ela levantou-se e saiu correndo apressada pela casa. Pelo caminho, cruzou com um grande espelho que servia de decoração a uma das paredes da sala, olhou para a imagem que o espelho refletia e não se reconheceu.

(quem seria aquela mulher ali refletida?)

A imagem que o espelho refletia era de uma mulher muito mais velha, com a pele do rosto demasiadamente enrugada, as bochechas cavadas e os olhos fundos, mal vestida, suja até. Algo estranho para Laura, uma mulher que costumava ser muito vaidosa e cujo medo de envelhecer era maior que o céu. Orgulhava-se de ouvir de quem a encontrava:

– A senhora não aparenta a idade que tem.

e quando caminhava junto a sua filha

– Parecem irmãs.

Desde a briga com a filha, sem se dar conta, Laura deixara de se cuidar: os cremes que sempre passava no rosto antes de dormir foram esquecidos numa gaveta do armário do banheiro; os cabelos não foram mais pintados, tornando-se brancos como cal; vestia as mesmas peças de roupa por dias seguidos, às vezes até semanas; alimentava-se de maneira nada saudável. Mesmo os banhos passaram a ser menos frequentes. Como, desde então, ela pouco ou quase nada saíra de casa, quase ninguém a viu. Dizem mesmo que uma velha como ela é quase invisível.  

Somente após alguns minutos fitando, completamente inerte, aquela imagem refletida no espelho, foi que Laura finalmente aceitou que era ela que estava ali refletida, e não aquela mulher que, há pouco mais de dois anos, ao cruzar com as pessoas, ouvia:

– A senhora está bastante conservada.

e quando caminhava junto a sua filha…

Bem, já há um bom tempo que não caminhava com sua filha, que, aliás, estava atrasada demais e não dava notícias de seu paradeiro. Laura estava cansada de esperar. Sentiu-se desprezada.

Foi até a cozinha e jogou no lixo todo o almoço que havia preparado: o arroz, o feijão, a carne… tudo acabou dentro do cesto de lixo, junto com a sobremesa que ela preparara: um pudim de leite sem furinhos, o preferido da filha.

Depois de tomar um banho, trocou de roupa e saiu para ir ao salão de beleza. Foi caminhando pela rua, meio cabisbaixa, e logo chegou ao salão, onde a atendente, a mesma que sempre a atendera, recebeu-a com o sorriso que costumava esboçar quando Laura ainda era uma freguesa fiel.

(o mesmo sorriso para todas as clientes)

Foi então que a atendente disse, surpresa:

– Meu Deus!

E então perguntou, já um pouco menos exaltada:

– Está tudo bem, mãe?

no que Laura de pronto lhe respondeu:

– Tudo bem, sim, minha filha.

(em tom sereno)

Dito isso, foi sentar-se num dos muitos lugares vagos do salão de espera vazio, todo ele pintado de vermelho, a imitar o formato de um coração.

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