Tem coisa que só sai da gente por escrito

Todas as tardes, ela caminhava até a porta da sala e, de cara para a rua, punha-se a picotar os papéis que trazia em uma sacola plástica, dessas de supermercado. Dali daquela porta, ficava a lançar os pedacinhos das cartas sobre a calçada, até que, ao modo das folhas do outono, eles cobrissem todo o trecho em frente ao sobrado onde morava.

Não eram papéis quaisquer que Aurora picotava, eram cartas de amor, dezenas delas, acumuladas ao longo de toda uma vida. Cartas que carregavam desabafos, angústias, ansiedades, ódios e, também, muitos amores, estes não raramente ornamentados com corações desenhados com canetinha hidrocor vermelha, a destacar os diversos

“eu te amo”

ou mesmo os

“sinto sua falta”

e até os

“não sei viver sem você”

com que ela preenchia aquelas cartas.

Com canetinhas de outras cores, ela pintava as letras dos

“eu te odeio”

ou

“nunca mais quero te ver”

e os ainda mais definitivos

“suma da minha vida”.

Na verdade, nem sempre tão definitivos, pois muitos desses

“suma da minha vida”

foram depois seguidos de reconciliações, que, uma vez concretizadas, punham em marcha novos ciclos de

“eu te amo”

e

“sinto sua falta”

e

“não sei viver sem você”

sempre ornamentados com corações desenhados com canetinha hidrocor vermelha.

Aurora colecionava essas cartas desde a mais tenra adolescência, quando sua letra ainda era de

– Menininha.

como dizia sua mãe, ao revisar suas tarefas escolares, a fim de garantir que a filha fosse sempre a primeira da classe, missão que sua mãe conseguira bem cumprir apenas enquanto Aurora foi de fato uma

– Menininha.

Fase que terminou quando, já desinteressada dos estudos, Aurora escreveu sua primeira carta de amor ao menino, loiro, que à época tinha a mesma idade dela, e cuja família se mudara, dias antes, para o sobrado vizinho.

O sobrado estava até então vazio, pois sua antiga e única moradora, Dona Sônia, que ali residira por todos os seus últimos dias, sozinha, havia falecido de causas naturais, repentinamente, caindo ao chão como um passarinho que, de uma hora para a outra, vê-se sem asas em pleno voo.

Foi Dona Sônia que ensinara Aurora a escrever cartas de amor. Dizia-lhe sempre:

– Tem coisa que só sai da gente por escrito.

Ensinamento que guiou Aurora por todas as vezes em que se punha a escrever suas cartinhas, as quais, pouco depois de completar 80 anos, trazendo na pele da alma as muitas feridas de amores passados, desesperançada de um dia poder voltar a amar alguém e sozinha no mundo como Dona Sônia vivera antes de morrer, passou a picotar, jogando os pedacinhos, pequenos como confetes, por sobre a calçada, vez ou outra atingindo algum pedestre que por ali passava bem nesse momento.

Ninguém entendia a razão por que Aurora, todas as tardes, desde completar seus 80 anos, vinha cumprindo esse ritual de picotar as cartas de amor que tão zelosamente guardara ao longo dos anos, todas elas escritas de próprio punho e nunca enviadas aos seus destinatários.

(dos quais Aurora nunca recebeu carta nenhuma)

Certa vez, questionada por uma vizinha sobre o porquê daquele gesto, Aurora deu de ombros e respondeu simplesmente:

– Estavam a juntar traças dentro de casa.

E seguiu picotando as cartas e jogando à calçada os seus pedacinhos, tão pequenininhos que, ainda que fossem colados de volta, não garantiriam o retorno da carta à sua legibilidade de origem.

– Tem coisa que só sai da gente por escrito.

Ensinava-lhe Dona Sônia – uma lição que Aurora bem apreendeu.

Por outro lado, a vida lhe ensinara que outras coisas só saem da gente quando de fato as destruímos e jogamos fora, muitas vezes nos deixando em pedacinhos.

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