Para onde quer que fosse, costumava chegar em silêncio, quietinha, de maneira a chamar a atenção o mínimo possível. Sentia-se demasiado insignificante para ser notada.

Na verdade, Abigail era tímida, muito tímida, uma timidez tamanha que a fazia corar pelo simples fato de alguém lhe dirigir o olhar. Quando o que lhe dirigiam era a palavra, então, não apenas seu rosto corava, mas também seu coração punha-se a bater freneticamente.

Compelida por sua timidez, sai pouco de casa, indo à rua apenas para aquilo que lhe é essencial: o mercado, a feira, a farmácia.

Vive sozinha, às custas de uma pensão que seu pai, um militar da reserva, deixou-lhe ao falecer. Sua mãe morrera quando ela ainda era uma criança de colo. Abigail acabou sendo criada por sua tia, Dona Maria, irmã de seu pai, à época também solteira, condição que a acompanhou por toda a vida, até falecer pouco antes de seu irmão, o pai de Abigail, devido a um câncer no fígado que os médicos atribuíram ao excessivo consumo de álcool.

Certa manhã, enquanto punha as roupas para quarar no quintal detrás da casa, sob o sol escaldante de uma manhã de dezembro, ouviu tocar o telefone que ficava sobre uma toalhinha de crochê, depositada por sobre uns livros empilhados no chão da sala, ao lado do sofá, a fazerem as vezes de uma mesinha.

Abigail, que sempre evitara atender ligações telefônicas, pois mesmo isso lhe era causa de ansiedade e rubor, deixou o cesto de roupas ali, debaixo do varal, e foi caminhando apressadamente para dentro de casa, a fim de atender ao chamado do telefone, o que finalmente fez quando o quarto toque terminara de soar.

– Alô?

Alguém perguntou do outro lado da linha.

– É a Dona Abigail?

complementou.

Abigail estranhou o “Dona Abigail” – nunca ninguém a chamara assim: ou a chamavam “senhora”, quando não a conheciam, ou simplesmente “Abigail”. Jamais “Dona Abigail”.

A voz do outro lado da linha insistiu:

– É a Dona Abigail?

No que ela, já com o rosto todo vermelho, respondeu:

– Sim…

deixando clara a hesitação em sua voz.

Esclarecida, para quem ligava, a identidade de quem atendia o telefone, a voz do outro lado da linha prosseguiu:

– Dona Abigail, bom dia. A senhora já conhece a promoção do mercad…

Abigail desmaiou quando seu interlocutor ainda nem bem terminara a pergunta que lhe fazia.

Horas depois, ela acordou e viu-se deitada sobre uma cama, toda forrada de branco, em um quarto, todo ele decorado com um papel de parede com motivos de nuvens.

Numa mesinha de cabeceira, ao lado da cama, um telefone vermelho começou a chamar. Ao final do terceiro toque, ainda atordoada, Abigail atendeu.

Do outro lado da linha, alguém lhe sussurrou algo, tão baixinho que ela não conseguiu entender.

Quando Abigail finalmente conseguiu dizer um

– Alô…

hesitante, já tendo àquela hora o rosto adquirido a mesma cor vermelha do telefone, a ligação caiu.

Sem saber onde estava, ou mesmo quem lhe ligara e lhe sussurrara algo pelo telefone, tomada naquele momento por uma angústia sufocante, Abigail pôs-se a chorar, do mesmo modo como fazia quando ainda era uma criança de colo.

Foi quando, mesmo com os olhos embaçados pelas lágrimas, viu a porta do quarto se abrir e, por trás dela, surgir sua tia, Dona Maria. Ao ver Abigail ali deitada, chorando, Maria recolheu-a ao seu colo, sentou-se na poltroninha a um canto do quarto e, embalando-a em um vaivém vagaroso como o pêndulo de um relógio de parede cuja pilha se esgota, principiou a ninar Abigail, tal qual se nina uma criança, que, aos poucos

(como um relógio de parede cuja pilha se esgota)

foi parando de chorar, e por fim, caiu no sono.

Para onde quer que tenha ido, foi-se em silêncio, quietinha.

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