Desde pequeno, quando levava um tombo qualquer ao tropeçar, sua mãe vinha lhe dizer:

– Ninguém tropeça pra trás.

E, depois de desferir um tabefe na sua cabeça, ordenar-lhe:

– Levanta e toma teu rumo, moleque.

De alguma forma, essas palavras impulsionaram-no a seguir em frente e, mesmo diante dos muitos tropeços da vida, conseguir deixar para trás a infância demasiado humilde e, depois de muitos anos, enfim tornar-se o homem que é hoje – o respeitado advogado que todos conhecem pela alcunha de “o cara”.

Originário de uma pequena cidade no interior da Bahia, ele muito penou até alcançar algum sucesso profissional em São Paulo. Foram longos anos de dificuldades, vivendo de biscates jurídicos

(– Ninguém tropeça pra trás)

até conseguir se firmar como um profissional respeitado em seu meio.

Numa semana qualquer de julho, em plena segunda-feira, ele está em mais uma das muitas reuniões online, às quais, diariamente, comparece.

Profissional bem-sucedido, de respeito, falta-lhe tempo para atender a todos que o procuram, desesperados por poder com ele contar para a solução de problemas bastante complexos, que envolvem não apenas um excelente conhecimento técnico-jurídico, mas também uma capacidade, que só ele tem, de manejar estrategicamente, à maneira de um enxadrista, as leis diante dos mais labirínticos tribunais. Uma conquista: o cara atende apenas quem e pelo preço que quiser, sempre com aquele semblante tranquilo dos bem nascidos – embora não fosse essa a sua condição original, havia enfim chegado lá.

Ao contrário dos demais participantes da videoconferência em que então o encontramos, ele optou por não abrir a câmera do computador. Também evitou identificar-se perante os demais, na tela, pelo seu verdadeiro nome. Naquele quadradinho da reunião online que corresponde a ele, era possível apenas ler “o cara”, em letras minúsculas.

Esse gesto, que alguns atribuíam à timidez, na verdade, era a forma encontrada por ele para esconder dos demais participantes da reunião o que de fato acontecia por trás da sua câmera.

Vez ou outra, quando questionado por algum participante da reunião sobre o porquê da câmera fechada, o cara simplesmente respondia, abrindo rapidamente o microfone:

– Minha internet está ruim.

E, em seguida, com algum cinismo complementava:

– A minha imagem ficaria congelando.

Justificativa suficiente para convencer quem lhe perguntara de que se tratava de comportamento bastante esperado e, diante das circunstâncias, até desejável.

Mas justificativa nada fiel à verdade, pois, ali com ele, numa cama de motel barato, no centro da capital paulista, estava uma mulher.

Não a sua esposa, mas uma outra, que o cara conquistara e trouxera para a cama, para deliciar-se em luxúria sob o som das vozes daqueles seus clientes na videoconferência, que, em razão da câmera e microfones desligados no computador dele, nada podiam ver nem ouvir. De fato, ele não conseguia mais estar com uma mulher na cama, se não fosse em situações como essas.

Desde muito tempo, ele vem agindo deste modo e assim continuou a fazer por muitas outras vezes, sem nenhum problema, ora em motéis baratos da cidade, ora em garconnières do centro especialmente alugadas para a ocasião.

Havia situações e momentos em que o cara aparecia para seus clientes e, para aqueles realmente importantes, até se reunia presencialmente. Mas eram exceções que, ao fim e ao cabo, serviam para fortalecer o mito por trás daquele bem-sucedido e por muitos temido advogado.

Do alto de seus quase 50 anos, já grisalho, admirava

(– Toma teu rumo, moleque)

tudo o que conquistara e o rumo que a sua vida enfim tomara.

Certo dia, enquanto novamente participava de mais uma videoconferência de trabalho, por mera distração, esqueceu por alguns instantes a câmera e o microfone ligados, de modo que todos que estavam do outro lado da tela, na reunião, ao direcionarem os olhos para o quadradinho onde se lia “o cara”, puderam ver, atônitos, o que se passava entre ele e a mulher que o acompanhava naquele motel chinfrim às margens da Marginal Pinheiros. O choque foi geral.

Um dos participantes da reunião online, uma advogada com quem o cara já estivera numa cama muito similar àquela que a câmera agora revelava, aproveitou o descuido dele e a oportunidade que aquela câmera e microfone abertos traziam, e filmou toda a cena que seus olhos enciumados puderam acompanhar.

Poucos minutos depois, naquele mesmo dia, só que mais tarde um pouquinho, aquele vídeo tinha sido compartilhado inúmeras vezes, chegando, em menos de uma hora, aos celulares de milhares de pessoas, dentre as quais, a mulher com quem o cara era casado há mais de vinte anos.

A esposa dele, ao ver a traição do marido na tela de seu celular, em alta resolução, pôs-se a chorar como uma criança e, entre lágrimas, juntou todas as coisas dele – camisas, calças, sapatos, cuecas… – e jogou tudo na frente do prédio com mansarda e varandas gourmet onde moravam, em um bairro nobre de São Paulo, fazendo a alegria de alguns passantes.

Depois desse incidente, o cara acabou perdendo todos os seus clientes e teve tomados todos os seus bens pela agora ex-mulher. Não demorou a percorrer o caminho que o levaria de “o cara” até “um ninguém”.

Profundamente deprimido, ele acabou indo parar na rua, onde, para sobreviver, viu-se forçado a apelar para a prostituição, o que lhe proporcionava alguma renda, ao menos a suficiente para não morrer de fome. Há que se levar em conta que a idade já então pesava e ele não tinha mais os predicados que, em outros tempos, fizeram-no objeto de desejo de muitas mulheres.

Daquele cara, pouco ou quase nada havia sobrado.

A bem da verdade, a vasta maioria daquelas com as quais estivera nos motéis e garconnières da cidade, estavam em busca apenas de poder e dinheiro, tudo que aquele agora ninguém menos tinha.

Noite dessas, depois de beber uma garrafa inteira de pinga, adormeceu ali pelas imediações da Praça da Sé e, em sonho, viu sua mãe vir lhe dizer, num tom de bronca:

– Ninguém tropeça pra trás.

E, sentindo uma pancada forte na cabeça, acordar com um policial a lhe gritar:

– Levanta e toma teu rumo, seu merda!

No que ele então se levantou e, ainda atordoado, acabou tropeçando. Porém, desta vez, caiu para trás.


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