A namoradeira

Quando menino, Saturno costumava sentar-se na varanda de sua vizinha, uma senhora de setenta anos, solitária, e com ela passar horas e horas a papear sobre a vida. Aos ouvidos dele, as histórias que ouvia dela eram tão ou mais fascinantes que aquelas que ele lia nos livros, talvez porque, diante dele, a narrá-las, estava uma personagem de muitas daquelas histórias.

Muitos anos depois, mesmo não se recordando do nome daquela sua vizinha, a memória daquelas tardes veio-lhe à mente quando, caminhando pela calçada, avistou, sobre o parapeito de um antigo sobrado, cuja janela tinha vista direta para a rua, uma velha senhora que estava ali, debruçada a observar o movimento da rua, com seus olhos que a tudo já tinham testemunhado, impávida, à maneira de um mocho. Ela tinha longos cabelos acizentados, que refletiam a luz alaranjada do quarto onde estava, fazendo-os parecer estarem em chamas; era como a personagem de uma história fantástica, como algumas daquelas que, no passado, ouvia de sua vizinha septuagenária, de cujo nome não mais se lembrava.

Lembrava-se, sim, da maneira como ela, quando farta e cansada de ficar ali com aquele garoto, a contar histórias sobre sua vida, simplesmente dizia:

– O papo está bom, mas I´m running out of cashmere.

Como quem diz:

– Por hoje, deu.

Mas de uma forma bastante curiosa.

Embora, à época, Saturno não entendesse patavinas de inglês, entendia que ali terminava a aventura das narrativas da vizinha.

Após sentenciar o fim da conversa com o 

– O papo está bom, mas I´m running out of cashmere.

ela se levantava e seguia para dentro de casa, deixando o menino Saturno sozinho na varanda do sobrado, como um cachorrinho abandonado.

Saudoso por reviver aqueles momentos, na tarde do dia seguinte, Saturno tomou o rumo do sobrado onde, no dia anterior, havia avistado a mulher com cabelos que pareciam estar em chamas.

Enquanto caminhava pela rua, já próximo do local, Saturno avistou uma mulher que passava em frente a uma loja de brinquedos, do outro lado da rua. Ela dizia ao menino que puxava pela mão direita

(provavelmente seu filho)

e que insistia para que ela comprasse um carrinho de brinquedo:

– A gente passa aqui na volta.

Sentença que, quando menino, também ao pedir a sua mãe para comprar um brinquedo, Saturno tantas vezes ouvira e que, só mais tarde, viria finalmente a entender que o

– … na volta

dito por sua mãe, era na verdade um

– Jamais.

Já que sua mãe nunca cumpria o que dizia e, ao fim e ao cabo, aquilo que ele havia pedido a ela para comprar, de fato não era comprado.

Oriundo de família simples, de renda apertada, Saturno desde muito cedo foi sendo, assim, acostumado a pensar que o melhor emprego para o dinheiro curto, que seu pai recebia de salário como funcionário público, era cobrir o sustento mais básico da família, nada mais.

A senhora com quem Saturno, na sua infância, costumava passar horas e horas a conversar, vivia em um pequeno sobrado, colado àquele onde morava a filha dela, acompanhada do marido. Era por meio de uma passagem estreita, entre os dois sobrados, que Dona Rita

(havia enfim se lembrado do nome dela)

recebia de sua filha as refeições, em pratos feitos, três vezes ao dia, fiel à regra que, no curso da vida, põe pais como filhos e estes como pais, revezando-se na função de quem cuida e quem é cuidado.

A filha de Dona Rita a perguntar para a mãe:

– O que vai querer de mistura?

Fazendo crer que havia opção sobre qual seria o acompanhamento que iria complementar o prato de arroz e feijão de todo dia, quando, na verdade, a mãe era obrigada a comer o que a filha lhe servia, fosse o que fosse, como um animal de criação.

Dona Rita sentia-se grata por pelo menos ter um teto e, também, o que comer, condição muito melhor do que a de muitas pessoas que, dali de sua varanda, observava perambularem pelas ruas, a vasculharem as latas de lixo em busca de restos de comida que ainda pudessem servir de contenção para a fome.

Uma vez, indagada por Saturno se era feliz vivendo daquela forma, Dona Rita saiu-se com um:

– O papo está bom, mas I´m running out of cashmere.

Como que a dizer:

– Isso não é da sua conta.

Dito isso, como sempre fazia, levantou-se e seguiu para dentro de casa.

Saturno foi se aproximando da senhora de cabelos que pareciam estar em chamas. Ela continuava ali debruçada sobre o parapeito da janela, sob a luz alaranjada de seu quarto.

Foi só ao chegar perto dela, posicionando-se bem abaixo daquela janela, que Saturno percebeu que a mulher dos cabelos que pareciam estar em chamas era, na verdade, uma boneca namoradeira, e que, portanto, só na aparência estava ali a observar o movimento; este é que na verdade a observava.


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