A fotografia

O primeiro encontro também tinha sido o último. Naquele final de tarde, ele partia de trem para uma nova vida, num lugar ainda desconhecido, mas que lhe trazia a esperança de uma vida melhor. Da plataforma da estação, ela acenava em vão e assim continuou fazendo até o momento em que seu aceno encontrou o aceno dele no ar e, então, os dois acenos se abraçaram num aperto forte que só o movimento do trem conseguiu desatar.

Depois daquele dia em que seus acenos se abraçaram no ar impregnado de tantos adeus da estação de trem, Fátima e José nunca mais se encontraram e, desde então, trinta anos se passaram.

Nesse tempo todo, cada um seguiu sua vida: casaram-se, tiveram filhos, sofreram angústias, alegrias, viveram enfim as vidas que a vida lhes deu, com sua mão por vezes generosa e outras vezes, vai ver a maior parte delas, avarenta ou mesmo miserável.

Naquela tarde em que Fátima e José se encontraram em seus acenos, um lambe-lambe que fotografava aleatoriamente as pessoas documentou numa foto o momento daquele abraço. Essa foto viajou trinta anos no tempo até ir parar numa exposição em comemoração aos cem anos da pequena cidade onde ficava a estação.

Certo dia, à exposição, compareceram um grupo de adolescentes do orfanato local mais as suas supervisoras, que com muito esforço cuidavam para que nenhum dos órfãos se perdesse por entre os corredores do enorme recinto, localizado a poucos metros da estação de trem, num antigo galpão que, no passado, servira a função de oficina mecânica dos trens, hoje sem uso dado que aqueles há muito não mais circulam.

Antônio, um dos órfãos que acompanha a excursão, interessado como é em fotografia, observa com bastante atenção cada uma das fotos ali expostas, demorando-se bastante em cada uma delas, a ponto mesmo de a excursão andar e ele ficar para trás, sozinho. As fotos lhe trazem um alívio da pesada realidade que o cerca no orfanato.

Quando seus olhos se dirigiram à foto do abraço dos acenos de Fátima e José, amarelada pelo tempo, algo chamou a atenção de Antônio, algo que ele não sabia explicar o que era, mas que lhe atiçou a curiosidade, fazendo com que despendesse ainda mais tempo na contemplação daquela fotografia do que havia gasto nas demais por ele vistas até então.

Depois de alguns minutos observando aquela imagem, como que hipnotizado pela cena que estava ali retratada, lágrimas começaram a escorrer dos olhos de Antônio. Não entendia a razão por que reagia daquela forma.

Uma forte angústia começou a tomar-lhe de assalto, tão intensa que não encontrava precedente em sua vida. Ele não reconhecia a mulher naquela foto, uma jovem de não mais que quinze anos, nem tampouco o rapaz, um jovem de não mais que dezoito anos.

Aos poucos, porém, foi reconhecendo as mãos da mulher no abraço dos acenos ali registrado. À medida que esse reconhecimento foi ganhando corpo, também a sensação de angústia passou a apertar-lhe ainda mais o peito, levando-o até a sentir que lhe faltava o ar.

Minutos depois, finalmente adquiriu a consciência do que estava diante dele: aquelas mãos que, no abraço dos acenos, a fotografia capturara eram as mesmas mãos que tantas vezes ergueram-se contra ele, munidas de varas e chicotes, oferendo-lhe pesadas surras em resposta às menores infrações. As mesmas mãos que, no dia em que o descobriram “mulherzinha”, como dizia seu pai, expulsaram-no de casa com a roupa do corpo e nada mais.


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