Era a mesma rotina todos os dias pela manhã: depois de acordar e tomar banho, Paulo vestia-se e punha-se diante do espelho que ficava na parte de dentro da porta do guarda-roupa, a fim de verificar se estava apresentável para ir trabalhar. Sua maior preocupação era manter a camisa para dentro da calça, bem ajustada pelo cinto, como sua avó lhe mandava fazer quando criança, dizendo:

– É assim que um homem se veste.

Fazendo-o crer, desde menino, que vestir a camisa deixando-a para fora da calça não era o comportamento adequado a um menino e, portanto, seria menos ainda para um homem feito.

De sua avó, na infância, também ouvia:

– Sair de casa com a camisa para fora da calça é o mesmo que sair como um maltrapilho.

E, por fim, sentenciar:

– Jamais quero vê-lo desta forma.

Num dia desses, Paulo acordou bastante atrasado para um importante compromisso no trabalho e, por isso, mal teve tempo de tomar banho, escovar os dentes, pentear o cabelo. Acabou tendo de se arrumar a toque de caixa, esquecendo-se até de checar no espelho se tudo estava em ordem antes de sair de casa.

Ao chegar ao metrô, viu sua imagem refletida na janela do trem e foi então que se deu conta de, não só ter esquecido de colocar a camisa para dentro da calça, como sua avó fazia questão, mas também ter esquecido de passar o cinto sob o cós da calça, de modo que, mesmo que colocasse a camisa para dentro, ela sairia de novo para fora, sempre: a calça estava larga para ele.

Imediatamente, veio à memória sua avó a dizer-lhe:

– Sair de casa com a camisa para fora da calça é o mesmo que sair como um maltrapilho.

Envergonhado, correu até o banheiro da estação e lá abriu a mochila que trazia às costas. Dentro dela, havia um longo vestido de algodão, todo rendado na barra e nas mangas, que pertencera à sua avó. Paulo pretendia vesti-lo à noite, em um encontro romântico que teria depois de sair do trabalho.

Lembrando de sua avó a dizer-lhe:

– Jamais quero vê-lo desta forma.

Referindo-se a usar a camisa para fora da calça, não pensou duas vezes e trocou a roupa que estava usando pelo vestido.

As palavras de sua avó então silenciaram. Apenas o cheiro dela agora o acompanhava, dado que estava impregnado no vestido.

Deixou o banheiro da estação com a cabeça erguida, altivo, e seguiu para o seu destino.


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