A família toda de cabeça erguida a olhar para cima, tentando avistar Júlia, a matriarca, que subira no topo de uma árvore da rua à maneira de um gato. Fazia pelo menos duas horas que ela estava lá em cima.

Chamados, os bombeiros chegaram rapidamente e, a todo custo, tentaram convencer Júlia a descer da copa daquela árvore. Senhora de certa idade

(nunca revelava)

ela poderia ficar gravemente ferida ou mesmo morrer se acaso caísse dali: a árvore era bem alta.

Após horas de tentativas, graças à lábia de um bombeiro mais jovem, ela finalmente foi convencida a descer. A tensão de todos lá embaixo nesse momento cresceu: a cada vez que ela se agarrava a um galho para descer, parecia que seu corpo não suportaria o próprio peso e ela cairia ao chão feito um fruto podre.

Descendo de galho em galho, depois agarrando-se ao tronco, que deslizou como se agarrada a um pau de sebo, ela finalmente alcançou solo firme, com leves arranhões pelo corpo, nada mais.

Aliviados, os membros de sua família correram para dar-lhe um abraço. Logo depois, passado o susto, quando seu marido, com quem era casada há mais de quarenta anos, perguntou-lhe o porquê de ter subido ali, ela, professora aposentada de inglês, simplesmente respondeu:

— Queria experimentar uma relação a “trees”.

E em seguida riu-se solta e debochadamente, como há muito não fazia, deixando todos que estavam ali ao seu redor algo constrangidos, com a expressão de a ver navios.

Naquela mesma semana, ela e o jovem bombeiro que a convencera a descer da árvore fizeram um primeiro encontro, secretamente, e assim continuaram a se encontrar por meses.

Ao cabo do terceiro mês de encontros sem testemunhas, Júlia decidiu largar seu marido para ficar de vez com aquele jovem bombeiro, com quem, depois, viveu uma relação carnal e ardente até o dia em que seu corpo esfriou numa morte súbita, ocorrida enquanto ela e ele faziam amor.

Cumprindo seu desejo em vida, seu corpo foi cremado e suas cinzas jogadas ao pé da árvore que a unira ao jovem bombeiro.

Foi ele, ao final, com sua juventude e vigor, o responsável por restabelecer em Júlia a sua condição humana, permitindo-a deixar para trás os anos, em grande parte vividos na sua antiga relação, em que seu desejo andava frio como a seiva da árvore que suas cinzas adubariam, a partir do dia em que foram depositadas ao pé do frondoso tronco que Júlia um dia descera deslizando como se agarrada a um pau de sebo.


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