Teve que se acostumar a sentir saudades, a sentir fome e, principalmente, a sentir medo: recém chegado à capital, Mateus vivia sozinho em um barraco numa das mais distantes e violentas periferias da grande metrópole, um lugar de muitas misérias.

Filho mais novo de uma família de sete filhos, todos homens, deixou-os todos, mais pai e mãe idosos para trás, na pequena cidade do interior do Brasil onde nascera, em busca das oportunidades que, naquela pequena vila, jamais teria acesso. Todos os seus irmãos mais velhos seguiram o destino e desejo de seus pais e se tornaram, também eles, sertanejos miseráveis.

No dia de sua partida, sob o olhar desolado de seus pais e aliviado dos outros irmãos, embarcou em um ônibus velho e, três dias depois, chegou, entorpecido de cansaço, àquela que, em sua mente, então cheia de esperança, seria sua nova casa: a capital.

Mas a cidade que, naquele momento, lhe parecera alvissareira, mostrou-se depois uma enorme decepção.

Por meses, ele, por falta de alternativa, teve que viver naquela longínqua e violenta periferia, tão diferente e tão pior que sua cidade natal, onde, apesar da pobreza, não se tinha notícia de violência, pelo menos não de homem contra homem.

Naquele bairro distante e miserável, a morte era cotidiana: dia e noite, ela rondava o bairro em busca de novas vítimas, que escolhia aleatoriamente, sem distinção nenhuma. Isso quando não matava no atacado, em geral a mando e paga por alguém, e fazia várias vítimas de uma só vez, naquilo que os jornais sensacionalistas, no tédio da renitente violência diária, chamavam em suas manchetes de chacinas, e que seriam abordadas com pouco destaque por outros jornais, os quais, ao falar daquelas mortes, mal disfarçavam o tom de comemoração.

Ali naqueles arrabaldes longínquos, Mateus vivia de bicos de pedreiro, que fazia ora ali pela vizinhança mesmo, ora nos bairros próximos. Apesar de sua fama de exímio mestre de obras, conquistada a muito custo, o trabalho mal lhe garantia o sustento mais básico.

De alguma forma, sua fama de bom obreiro chegou aos ouvidos da morte, que, precisando de um pedreiro, foi ter com ele numa certa manhã, cedo demais até para encontrá-lo acordado. Como de hábito, entrou sem bater e, já dentro do barraco, encontrou Mateus deitado envolto em um cobertor velho, sobre um colchão magro, dormindo um sono silencioso. Seduzida pela imagem dele, a de um jovem homem cujos sulcos da pele do rosto contavam histórias de muito sofrimento, a morte ficou ali, por cerca de uma hora, debruçada sobre Mateus a velar seu sono.

Por todo esse tempo, Mateus não emitiu nenhum ruído, não esboçou nenhum movimento e, não fosse pelo ar que se sentia entrar e sair de suas narinas, pareceria morto: dormia um sono sem sonhos.

Quando enfim acordou, a morte, premida por outros compromissos, já tinha partido. Ao partir, deixou um bilhete ao lado do colchão onde Mateus dormia. Ao abri-lo, ele tentou ler a mensagem deixada por ela, que dizia: “Estive aqui hoje para encontrá-lo. Volto amanhã bem cedo”, e ao final assinava: “A morte”.

Semianalfabeto, Mateus mal pôde entender o que estava ali escrito naquele bilhete, nem tampouco quem o deixara. Deu de ombros, repetindo um gesto que lhe era habitual.

Mais tarde, naquele mesmo dia, um vizinho, um dos poucos que tinha acesso a telefone na vizinhança, veio lhe trazer a notícia de que sua mãe morrera na noite anterior, de morte morrida, decorrência da idade avançada. No dia seguinte, bem cedo, o mesmo irmão que ligara para dar essa notícia ligou de novo para aquele vizinho, a fim de trazer a notícia da morte do pai de Mateus, que, muito velho, não suportara seguir vivendo nem um dia depois de ver a esposa falecer e também sucumbira à navalha da foice da morte.

Naquela mesma manhã, também muito cedo, quando a morte foi ter com Mateus novamente, como avisara no dia anterior que faria, encontrou-o pouco depois do momento em que seu vizinho lhe dera a notícia da morte de seu pai. Mateus tinha o rosto triste, porém sereno e algo aliviado: seus pais finalmente tinham ido descansar de uma vida sofrida demais até para os Severinos.

Ao ver a morte ali ao seu lado

(ela novamente entrara sem bater)

ele olhou para ela e, com a voz firme, disse-lhe um “Obrigado”, e então, com uma voz firme mesmo que embargada, complementou: “Te devo esse favor”.

Foi a deixa que a morte precisava para fazer-lhe o pedido que tinha em mente:

— Preciso de seus serviços para algumas obras.

— Que obras?

Quis saber Mateus.

— Quero construir o futuro.

Disse-lhe a morte e então complementou:

— Vai ter obra para toda a vida.

Ao ouvi-la, Mateus sorriu e, sentindo enfim esperança de dias melhores, respondeu, com uma confiança que beirava a arrogância:

— Serei seu melhor mestre de obras.

Com um sorriso triunfante, a morte disse-lhe:

— Não tenho dúvidas disso.

E, depois de uma breve pausa, complementou:

— Pago muito bem.

Frase sedutora que Mateus nunca ouvira de ninguém até então, e diante da qual não lhe foi possível ter discernimento para escolher, nem tampouco negociar. Seus olhos brilhavam, mas nenhum brilho poderia livrá-lo da escuridão sem fim do destino que estava sendo escrito à tinta diante dele.

Ali, ao garantir-lhe a atenção e importância que nunca recebera dos vivos e a esperança de dias melhores no porvir, a morte conquistou de vez mais um soldado para seu exército, todo ele treinado para entrar onde quer que fosse sem pedir licença, do mesmo modo como ela fazia.


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