Lembrancia

O carro seguia viagem tendo seu pai na direção, sua mãe sentada no banco de passageiros da frente, sua irmã ao lado dele no banco de trás. Ninguém dizia uma palavra sequer, tão absortos estavam pelos pensamentos que corriam em suas mentes.

A notícia da morte da avó, a mãe de seu pai, havia chegado de madrugada, encontrando todos ainda adormecidos da vida. Parece haver uma regra não escrita, segundo a qual toda vez que um telefone toca de madrugada é para que uma má notícia seja transmitida a quem atende a ligação. Se há exceções, por certo só devem comprovar essa regra. Regra que foi naquele momento observada quando seu pai atendeu a ligação, com voz baixa e sonolenta, no seu segundo toque.

Ao desligar o telefone, ele chamou a esposa, que por sua vez chamou os filhos para dar-lhes a notícia. Pouco mais de uma hora depois, estavam todos dentro do carro a caminho do interior.

E era da memória de sua avó que os pensamentos de Daniel iam ao encontro enquanto o carro dirigido por seu pai seguia viagem pela estrada que, diferentemente da vida, tinha poucas curvas, uma estrada quase reta, que exigia dos motoristas que por ela trafegassem um enorme esforço para não adormecerem.

Quando menino, Daniel sempre tivera uma predileção por conversar com pessoas idosas, pois tinham conteúdo muito mais interessante, aos ouvidos dele, que aquele que encontrava nas raras conversas que tinha com as pessoas de sua idade.

Foi justamente com sua recém-falecida avó, Dona Lina, que ele tivera as melhores conversas da sua infância. Para ele, conversar com a avó era como abrir um livro de histórias, daqueles cheios de ilustrações que ajudam a mente a imaginar o que se narra, como eram os livros com os quais Daniel tivera contato, ainda nos seus primeiros anos de alfabetização.

Nos finais de tarde daqueles tempos, ao sentar-se ao lado dela, entre um café e outro, as histórias eram narradas, saborosas como os bolinhos de chuva que Dona Lina insistia em fazer para acompanhar o café.

Naquela época, não lhe ocorria que aqueles encontros pudessem, um dia, não mais acontecerem. O tempo era só aquele do relógio de louça que sua avó tinha preso à parede da cozinha, que dividia os dias em pequenas tarefas rotineiras: acordar, ir para a escola, almoçar, ir ter com a avó, voltar para casa, jantar e dormir, fechando desta forma o ciclo que, assim ele então pensava, seguiria se repetindo por toda a vida.

Enquanto sua mente recuperava essas memórias, lágrimas insistiam em brotar dos cantos de seus olhos, com a teimosia do mato que insistia em crescer por entre os canteiros de flores que sua avó cultivava: dálias, crisântemos, margaridas e rosas. Talvez, pensou, ao permitir o crescimento daquele mato por entre as flores, a natureza quisesse dizer algo a respeito da nossa vida, lição que aprendemos só com o passar dos anos.

Depois de algumas horas de viagem, a família finalmente chegou ao local onde, desde as primeiras horas da manhã daquele dia, acontecia o funeral do corpo de sua avó. Todos entraram no recinto, menos Daniel. Paralisado diante da entrada, como que impedido por um muro invisível, ele sentiu as lágrimas que, até então, brotavam dos cantos de seus olhos ganharem volume mais condizente com a dor que sentia naquele momento e descerem fortes por ambos os lados de sua face, à maneira das enxurradas formadas pelas chuvas que, em sua infância, chegavam para aliviar o calor insuportável daqueles dias de primavera e verão, enxurradas sobre as quais ele depositava folhas de árvores para navegarem imitando balsas em rios turbulentos. 

Tão nervosas eram as correntezas formadas por aquelas enxurradas, que era infalível o naufrágio daquelas rudimentares balsas e, por certo, do que quer que fosse posto ali para navegar. Uma metáfora da fragilidade da vida?

Ao verem Daniel ali fora, parado, chorando, muita gente que acompanhava o velório foi ao encontro dele a fim de tentar, pelos meios que eram possíveis a cada um, consolá-lo. Mas Daniel mostrava-se inconsolável – ele não queria que o último registro da avó em sua memória fosse com ela deitada dentro de um caixão funerário, coberta por véus e rodeada de flores, que não eram as mesmas flores que ela cultivava em seu jardim, mas sim, flores funerárias, que, com seu aroma tão característico, perfumam a morte na vã tentativa de tornar menos doloroso o luto de quem fica.

Se as flores do jardim de sua avó lutavam com o mato, e eventualmente, graças ao cuidado e esmero de Dona Lina, venciam aquelas ervas daninhas, as flores funerárias, numa evidência de mais uma injusta desigualdade do mundo, lutam com a morte, e esta ninguém vence.

Sua avó para ele, sempre que se encontravam:

– Bom dia, né?

e depois complementava:

– Dormimo aggiunto?

Em seguida, ela sorria e o beliscava, e só então ele respondia:

– Bom dia, vó.

A infância tinha o frescor de uma melancia, ou, como ele dizia, quando criança, “lembrancia”.

Quando o funeral terminou, a gente toda que estava ali se dividiu em vários carros para acompanhar o carro funerário até o cemitério, seguindo um atrás do outro, reproduzindo assim cena que Daniel tantas vezes testemunhara em sua infância, ali na sua pequena cidade natal, e que, naquela época, quando o tempo parecia ser apenas aquele do relógio de louça preso à parede da cozinha de sua avó, nunca lhe passara pela cabeça um dia vir a fazer parte, muito menos com o corpo de sua avó dentro do carro funerário que puxava a procissão. A morte lhe parecia algo tão distante e exótico.

Ao entrar no carro, junto com seu pai, sua mãe e sua irmã, seguiram para o cemitério, acompanhando o rodar lento dos demais carros que seguiam para o mesmo destino.

Era um cemitério simples, para gente simples, situado na descida de uma colina, para lá de onde terminava a pequena cidade, numa distância relativamente pequena, mas longe dos olhos dos vivos.

Lá chegando, alguns homens da família puseram o caixão sobre seus ombros e, poucos passos depois, depositaram-no dentro da cova. Naquele momento, assim como para muitas pessoas que ali estavam, foi-lhe impossível mais uma vez conter as lágrimas.

Uma menina (talvez sua prima) veio lhe oferecer um pequeno buquê de flores, com dálias, crisântemos, margaridas e rosas, e num gesto do braço direito e da cabeça, pediu-lhe que jogasse aquelas flores sobre o caixão. Ao invés de assim fazer, Daniel abraçou aquelas flores, apertando-as sobre seu peito, enquanto as lágrimas que caiam de seus olhos as regavam com sua água salgada.

Aquelas flores, dos mesmos tipos que sua avó cultivava, haviam sobrevivido ao mato dos canteiros em que cresceram, por obra do cuidado de algum zeloso jardineiro. As memórias de sua avó e das muitas histórias que ela compartilhara com ele naqueles idos anos de sua infância, hão-de sobreviver à morte dela.

As linhas que aqui escrevi são como aquelas flores.

In memoriam.


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