Não se sabia se por força do hábito ou por ação de algum transtorno obsessivo compulsivo, Glória cuidava para que fosse sempre o direito o primeiro pé a ser posto para fora de casa ao sair para trabalhar.

Nas poucas vezes em que acreditou, de memória, ter trocado o pé direito pelo esquerdo, sua mente era de tal forma tomada por angústias naquele dia, que ela mal conseguia respirar – sentia-se sufocada.

O pior de todos os dias foi aquele em que, ao caminhar até a porta de sua casa e abri-la para sair, tropeçou sobre seus pés e caiu sobre o capacho com motivos florais que dava as boas-vindas aos seus poucos visitantes.

Naquele dia, nem o pé direito nem o esquerdo foi o primeiro a alcançar o lado de fora, mas sim, o corpo todo, ao mesmo tempo. Tendo suas carnes e ossos ligeiramente doloridos e com alguns leves arranhões e rasgos pela roupa, ela se levantou e seguiu para o trabalho: estava demasiado atrasada para limpar as feridas e trocar de roupa.

Ao chegar ao escritório, não foram poucas as pessoas, seus colegas de trabalho, que a abordaram para perguntar se ela havia sofrido um assalto, se estava bem, se precisava de algo. A todos, respondia cordialmente:

– Estou bem.

E complementava:

– Não foi nada.

Quando a novidade de seus ferimentos e rasgos pela roupa foi absorvida pela rotina dos afazeres daquele dia, e ninguém mais a abordou, ela correu até o banheiro e, ao chegar lá, despiu-se de todas as roupas que então vestia, ficando apenas com as lingeries de baixo.

Ali, diante do espelho do banheiro, mirou seu olhar em seus próprios olhos e, assustada, gritou:

– Não!

E gritou mais alto:

– Não pode ser!!

Havia esquecido seu colar, no qual trazia pendurado um amuleto da sorte: uma pedra jade em formato de coração. Levou as duas mãos ao rosto e começou a chorar de desespero.

Naquele momento, uma senhora, aparentemente de muita idade, com as costas curvas à maneira de uma cariátide, trajando um vestido todo de um véu diáfano como um papel de seda, entrou no banheiro. Ao ver Glória ali, vestida apenas com as lingeries de baixo e chorando feito criança, correu, ou pelo menos tentou correr, até ela para acudi-la. Perguntou-lhe se estava bem. Ao que Glória respondeu cordialmente:

– Estou bem.

E complementou:

– Não foi nada.

Foi só então que Glória se deu conta de que falava sozinha: a senhorinha de costas curvas que julgava (ou mesmo jurava) ter visto entrar no banheiro e falar com ela, havia desaparecido ou mesmo nunca ali com ela estivera.

Glória andou até a borda da enorme pia daquele banheiro, abriu a torneira no máximo e, com a água jorrando forte, lavou seu rosto e seus cabelos, a fim de desamarrotar o primeiro e livrar o segundo do sebo do sal de suas lágrimas que sobre ele escorrera.

Depois, buscou uma toalha para secar a cabeça encharcada, tateando por sobre a pia molhada. Quando seus dedos vacilantes finalmente encontraram uma toalha a um canto da parede do banheiro, Glória enfim conseguiu secar seus cabelos e rosto. Feito isso, olhou-se no espelho e viu refletida a mesma imagem que, todos os dias pela manhã, logo após acordar, via no espelho de seu banheiro, o mesmo onde Glória então estava e que, só naquele momento, assim notou com alívio, ainda permanecia naquela manhã.

Minutos depois, ao sair pela porta de casa, foi seu pé direito que primeiro alcançou o lado de fora, pousando cuidadosamente, como que conduzido por um guindaste, sobre o capacho com motivos florais que ornava a entrada de sua casa.

Pouco mais de uma hora depois, quando, segura de si, enfim chegou ao escritório, foi até o banheiro para retocar a maquiagem, pois queria estar bem apessoada para uma reunião que teria logo mais, ainda naquela manhã. Ao se olhar no espelho, deu-se conta, com surpresa e desespero, que esquecera de vestir no pescoço seu colar com a pedra de jade em formato de coração, seu amuleto da sorte.


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