A novela favorita

Na sala da casa, sobre uma mesa dessas de pés baixos, havia uma televisão velha, daquelas de tubo, que permanecia ligada o dia inteiro, com o volume sempre alto, de modo que era possível ouvir a programação transmitida praticamente de qualquer canto dali. Para Cláudia, a única moradora daquela casa, isso servia como um antídoto contra a solidão.

Viúva, sem filhos nem nenhum parente vivendo próximo, ela passava o dia todo sozinha em casa, cuidando dos afazeres domésticos e fazendo bicos de passadeira de roupas, para complementar os ganhos da aposentadoria.

A televisão só era desligada à noite, por volta das nove horas, quando ela ia dormir. Então, ao invés da tevê, Cláudia deixava o rádio ligado bem baixinho, sintonizado a uma estação que só tocava músicas antigas, do seu tempo de juventude, tempo em que as raras televisões eram todas em preto e branco, como aquela que tinha sobre a mesa de pés baixo localizado na sala de sua casa.

A casa assim nunca ficava em completo silêncio: sempre havia um som, fosse da televisão, fosse do rádio, a preencher o ambiente.

Os próprios vizinhos, há muito, haviam se acostumado àqueles sons que partiam daquela casa velha, com rebocos à mostra e um mal cuidado jardim à frente.

Estes mesmos vizinhos viam Cláudia como uma figura exótica: salvo por quem fosse à casa dela para levar ou buscar as roupas que ela cobrava para passar, eram bem poucas as pessoas que já a haviam visto pessoalmente. A maioria a conhecia apenas de ouvir falar.

Naquela pequena cidade, falar dos outros era o entretenimento preferido dos seus habitantes. Para algumas pessoas, falar da vida alheia era tão natural ou mesmo necessário como comer e respirar.

Cláudia era um tópico repetitivo dessas conversas não apenas por ser pouco vista, o que por si só seria suficiente para atrair um certo mistério para sua figura, mas também porque, quando se permitia sair de casa, nas raríssimas vezes em que isso acontecia, sempre era vista caminhando de mãos dadas com o vazio, como se estivesse puxando alguém pela mão direita.

Alguns moradores, para além do privilégio de terem podido vê-la caminhar pelas ruas, em suas raras aparições públicas, também tinham podido trocar alguns cumprimentos com Cláudia.

Dessa ainda mais rara situação, traziam testemunhos de terem ouvido Cláudia apresentar o vazio que puxava pela mão direita como seu marido Alfredo, muito embora este já tivesse falecido há anos.

Antônia, uma antiga e habitual cliente, foi à casa de Cláudia, numa sexta-feira pela manhã, buscar as roupas que havia deixado para ela passar no início daquela semana. Como nunca antes fizera, Cláudia a convidou para um café, o que Antônia, surpresa, de pronto aceitou. Enquanto aguardava Cláudia retornar da cozinha, onde preparava o café, Antônia, sentada em uma poltrona grande o suficiente para acomodar seu corpanzil de maneira confortável, observava a decoração da sala, tomada, assim como toda a casa, pelo som da televisão ligada em algum programa matutino. A decoração da sala parecia ter parado no tempo há pelo menos uns 30 anos.

Sobre o aparador, localizado ao lado da porta de entrada, repousavam inúmeros e minúsculos bibelôs e também porta-retratos com fotos de Cláudia e Alfredo, ora juntos, ora separados. Bem no meio daqueles bibelôs e porta-retratos, havia um grande jarro de louça vermelha, em cuja lateral se lia o nome de Alfredo, envolto em um coração também em baixo relevo. Eram suas cinzas crematórias que ali estavam guardadas.

Ao contrário de Cláudia, Antônia nunca se casara: aos 54 anos, ainda era solteira. Sentia falta da presença masculina, mas sua timidez crônica associada ao seu sobrepeso nunca lhe permitira iniciar e, menos ainda, cultivar uma relação amorosa com homem nenhum.

Enquanto Cláudia preparava o café lá na cozinha, Antônia, como que hipnotizada e seduzida por aquele vaso de louça vermelha, dentro do qual repousavam as cinzas de um homem que, como demonstravam as fotos ali em cima do aparador, quando vivo tinha sido muito bem apessoado e sedutor, levantou-se da poltrona em que estava sentada, caminhou até o aparador, pegou o jarro de louça em suas mãos e o abraçou, tocando a tampa fria do jarro com uma de suas bochechas. Com seu abraço, o frio da superfície da louça foi aos poucos se aquecendo.

Lá da cozinha, Cláudia gritou:

— O café está quase pronto.

Grito alto o suficiente para se fazer ouvir mesmo em meio ao barulho da televisão que seguia ligada em alto volume, assustando Antônia a ponto de quase fazê-la deixar o jarro de louça cair ao chão.

Ela então apertou-o ao peito ainda mais fortemente e, aproveitando-se da cobertura do som da televisão, saiu pela porta da frente levando o jarro com ela.

Quando Cláudia finalmente voltou da cozinha, já não mais encontrou Antônia ali na sala. Naquele momento, a televisão transmitia a vinheta de início de sua novela favorita, o que foi suficiente para desviar e imediatamente prender a atenção de Cláudia de um jeito tal, que ela mal se lembrava de ter recebido a visita de Antônia, alguns minutos atrás.

Sentou-se diante da televisão e, ensimesmada, tomando o café que havia preparado para ela mais a visita, passou a próxima hora acompanhando pela televisão a sua novela favorita.

Era a semana dos capítulos finais.


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