as estrelas

Do parapeito da janela do sobradinho onde mora, a mirar o horizonte diante de si, acompanhando o pôr do sol, distante como seu olhar, Conchita aprecia as últimas horas do domingo, com a mesma melancolia com que, em sua infância distante de menina pobre, olhava para a última fatia do delicioso bolo de cenoura com cobertura de chocolate, que sua avó preparava para os netos, torcendo para que aquele pedaço fosse dela.

À medida que a noite se aproxima, o forte calor daquele dia vai cedendo algum espaço. As damas da noite então florescem e, com seu perfume, dão as boas-vindas às estrelas, aqueles sóis distantes que Conchita tanto gostava de observar imaginando serem as almas daqueles que já morreram. As estrelas mais brilhantes, ela acreditava, seriam as almas das pessoas que teriam desfrutado vidas interessantes. Não necessariamente vidas que merecessem uma biografia, uma estátua, um nome de rua; apenas vidas cheias de histórias para contar. Como fora a própria vida dela.

Última de sua família, Conchita nunca se casara nem tivera filhos, e vivia na mesma casa onde seus falecidos pais tinham morado enquanto vivos. Embora cheia de histórias, não tinha a quem contá-las, então as escrevia em um caderninho que levava a tiracolo para todos os lugares onde ia. Quando terminava de preencher um, iniciava outro. Assim, ao longo dos anos, a sua coleção desses caderninhos foi ficando cada vez maior e preenche todo o espaço de uma estante da sala. Justamente a estante para a qual ela fica de costas quando, debruçada sobre o parapeito da janela do sobradinho onde mora, observa o sol se pôr no horizonte.

Exceto por um deles, os demais cadernos são todos pretos ou brancos, de modo que, vistos ali expostos na estante, lembram as teclas de um piano.

Naquela noite, antes de dormir, terminou de escrever o que se passara naquele dia em mais um caderninho de anotações. Ao tentar guardá-lo em meio aos outros que tinha na estante da sala, não encontrou espaço para ele: a estante estava tão repleta daqueles cadernos, que não sobrava espaço para mais nenhum deles. Lembrou-se então de sua avó, a mãe de sua mãe, certa vez a dizer-lhe:

— Se aprochegue aqui, minha filha.

Quando, deitada numa cama de hospital, lutava para ver-se curada de um câncer terminal.

Conchita foi até ela e ouviu-a dizer-lhe algo ao pé do ouvido, dito bem baixinho, de modo que só com muito esforço lhe foi possível entender. A avó disse-lhe:

— Anota aí.

E então passou a revelar a receita do bolo de cenoura com cobertura de chocolate que Conchita tantas vezes comera na casa da avó, em tardes animadas, junto dos seus primos. Até então, a receita era um segredo muito bem guardado pela avó. Conchita anotou a receita em um caderno, similar àqueles nos quais anotava as histórias de sua vida, mas reservado apenas a receitas. Esse caderninho de receitas, Conchita também guardava na estante. Envolto em uma capa cor de rosa, o caderno de receitas se destacava em meio aos demais em preto e branco, à maneira de uma flor que brota por entre pedras.

Conchita decidiu tirá-lo dali e, em seu lugar, acomodar o caderno que terminara de escrever naquele dia. Sentou-se diante da estante, abriu o velho caderno de receitas e começou a folhear suas páginas até chegar àquela na qual escrevera, muitos anos atrás, a receita de bolo de sua avó. Fora da estante onde estavam todos aqueles outros cadernos com suas histórias de vida, aquele caderno de receitas parecia contar grande parte de todas aquelas mesmas histórias, mas de forma mais viva: podia-se sentir o aroma e o sabor delas.

(— Se aprochegue aqui, minha filha)

Ao ler a receita do bolo de cenoura com cobertura de chocolate, que quando viva sua avó tantas vezes preparara, Conchita viu seus sentidos serem transportados para aqueles idos anos de sua infância e foi então tomada por um intenso sentimento de saudade.

Naquela noite, dormiu ali mesmo, sentada na cadeira diante da estante, com o livro de receitas no colo. Na manhã seguinte, atendendo ao chamado de sua falecida avó a dizer-lhe:

— Se aprochegue aqui, minha filha.

foi-se juntar a ela.

Na noite que chegou ao final daquele dia, dentre as muitas novas estrelas do céu, nenhuma em especial chamava a atenção pelo brilho.


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