Copo vazio

Na feira que acontecia todas as quintas, ocupando três quarteirões da rua principal do bairro, sempre havia muito burburinho de pessoas que iam até ali para comprar alimentos frescos, ou mesmo para simplesmente ver o movimento e fofocar. Quem quisesse encontrar preços mais em conta, chegava mais tarde, lá pela hora do almoço, horário a partir do qual os feirantes baixavam os preços na tentativa de zerar os produtos das barracas. Nem sempre funcionava para eles, mas os clientes comemoravam os preços mais baixos, ainda que, por outro lado, a variedade de produtos não fosse a mesma que aquela do início da feira.

Maria Helena gostava de ir à feira bem cedo para dar uma geral nos produtos que estavam à venda, ver o que ela queria levar, mas de fato só levava mais tarde, na hora da xepa, quando os feirantes baixavam os preços, tornando-os mais condizentes com o dinheiro que ela recebia mensalmente da aposentadoria. Vez ou outra, não sempre, sobrava para alguma extravagância como, por exemplo, comer um pastel e tomar um caldo de cana. Mais comum era ela voltar para casa com a sacola preenchida apenas pela metade.

De seu falecido marido, que trabalhara a vida toda na construção civil, um homem rude, porém de modos muito corretos, sempre ouvia:

– Há que se ver sempre pela perspectiva do meio cheio.

Referindo-se a situações da vida em que, metaforicamente ou não, o copo encontrava-se preenchido apenas pela metade.

Era o jeito dele de cultivar algum otimismo, mesmo diante de tantas dificuldades. Às vezes funcionava, como quando ele, ao se deparar com o diagnóstico de uma doença terminal, que, segundo o médico, o levaria a óbito em, no máximo, dois meses, olhou para Maria Helena e, sorrindo, disse-lhe:

– Pense pelo lado positivo.

E, diante do olhar incrédulo dela, esclareceu-lhe:

– Pelo menos vou parar de peidar.

E então complementou:

– Assim você vai conseguir dormir melhor daqui pra frente.

De fato, com a morte de Luiz, seu marido, Maria Helena passou a dormir melhor. À época, não se sentiu nem um pouco culpada pela alegria que tomou sua mente quando conseguiu dormir sem o incômodo do ronco e, pior, dos peidos que seu marido emitia continuamente todas as noites, tornando desafiante a simples tarefa de respirar dentro do quarto do casal.

Naquele dia, lá na feira, na barraca de legumes do Seu João que ela frequentava havia mais de dez anos, o próprio Seu João veio perguntar-lhe como andava a vida, pergunta que muitas vezes a faziam de maneira desinteressada, apenas para jogar conversa fora. Mas no caso de Seu João, não. A pergunta tinha um propósito absolutamente alinhado às palavras proferidas: ele estava sinceramente preocupado com o bem-estar de Maria Helena, pela simples razão de que nutria um amor platônico por ela.

Como a cordialidade de sempre, Maria Helena respondeu-lhe:

– Ô, Seu João, estou que nem essa sacola de feira.

E então esclareceu:

– Nem cheia nem vazia.

E diante da indagação de Seu João, feita apenas por meio de um frisar de sobrancelhas, Maria Helena concluiu:

– Ando meio triste.

Vendo ali uma oportunidade de ser um ombro de apoio, Seu João quis saber dela:

– Mas por quê, Dona Maria?

– Ah, sei lá.

Ela respondeu, não dando muita pista do que ia em sua mente nem em seu coração.

O feirante então convidou-a para um pastel e um caldo de cana, na barraca dos japoneses a poucos passos dali, convite que foi prontamente aceito por Maria Helena, afinal ela nem tinha tomado café da manhã: estava faminta.

Lá chegando, ao perguntar-lhe que sabor de pastel que ela queria, João ouviu dela algo completamente inusitado. Disse-lhe Maria Helena:

– Quero me casar de novo, sabe?

E prosseguiu:

– Tenho pensado muito nisso ultimamente, dado que ando me sentindo muito sozinha.

Ainda ela:

– Além disso, não tem sido fácil fechar as contas do mês só com o que ganho de aposentadoria. Os preços têm subido muito.

Vendo ali a deixa que precisava para dizer a ela o que ele sentia, João soltou um:

– Quer se casar comigo?

Dito de joelhos, diante de uma Maria Helena incrédula com a cena que se desenrolava diante de si.

Um tanto assustada, ela não conseguiu proferir outra resposta senão:

– Tem de queijo?

Na verdade, uma pergunta que ela dirigiu ao pasteleiro japonês que, ali ao lado dela e de João, aguardava pelo pedido dos dois.

Constrangido pelo fora que levara, João tirou a carteira do bolso e, como prometido, pagou pelo pastel de queijo e pelo caldo de cana pedidos por Maria Helena. Ele mesmo não comeu nem tampouco bebeu nada.

Quando Maria Helena chegou à metade do copo de caldo de cana, olhou para João e, do nada, disse-lhe:

– Aceita?

João, pensando que aquela pergunta era a aguardada resposta para a proposta que ele fizera a ela poucos minutos antes, gritou de alegria, grito que, de tão inesperado e alto, acabou assustando Maria Helena a ponto de fazê-la derrubar ao chão o copo de caldo de cana que então estava pela metade, esvaziando-o por completo.


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