Quem te espera?

Era-lhe quase impossível precisar há quanto tempo estava a esperar, se horas, dias, quem sabe até mais. Para Lúcia, o tempo parecia um contínuo infinito, denso e viscoso, que, como o ponteiro de um relógio que parou de funcionar, prendia-a num quadrante fixo, no qual passado, presente e futuro pareciam iguais na sua completa ausência de perspectiva.

Com os olhos, fixos, a mirar o vazio, ela aguardava uma ligação no telefone que repousava sobre uma pequena mesa, ao lado da cabeceira da cama onde se encontrava deitada. Não a sua cama, propriamente, mas a de um hotel barato no centro da cidade. Da janela do quarto, sempre aberta, ora chegava a luz do sol, ora as luzes da noite, embora, para ela, ali dentro, a escuridão fosse permanente.

Desde que chegara ali, Lúcia não trocou uma peça de roupa e quase não se alimentou. Sua pele estava amarelada, assim como seus olhos. O quarto cheirava mal.

Quando o telefone finalmente tocou, ela atendeu e, do outro lado da linha, ouviu alguém lhe perguntar:

– Quem te espera?

Sem saber o que responder diante da pergunta que lhe pareceu demasiadamente inusitada, restou-lhe apenas desligar o telefone de pronto, sem nem ao menos querer saber quem perguntara.

Levantou-se para ir ao banheiro e, logo depois, retornou para a cama, onde novamente se deitou e ficou em silêncio a mirar fixamente o vazio com seus olhos. Naquele momento, as luzes da noite entravam pela janela, trazendo junto com elas o lúgubre aroma da escuridão.

Lúcia tinha esperança de que o telefone voltaria a tocar e, não tendo quem a esperasse, continuou ali deitada, sozinha, esperando.

Cida

Eu nunca vou entender esses parabéns que as pessoas postam nos stories do instagram. Parecem aqueles apertos de mãos em que uma delas, por não desejar aquela intimidade, oferece-se de modo tépido, como se tivesse nojo da outra.

Esses parabéns do instagram sempre são dados pela publicação de uma ou mais fotos de quem parabeniza na companhia de quem é parabenizado, em algum momento aleatório do passado. Há casos até em que esse momento já faz muito tempo.

E o que dizer de todos que, ao visualizarem os stories, são informados da data sem nem ao menos conhecer quem está aniversariando.

Deve ser bem constrangedor para pessoas como Dona Cida, que prefere não revelar a idade, e assim, para evitar que lhe perguntem:

– Quantos anos a senhora está fazendo?

simplesmente deixa passar em brancas nuvens todos os seus aniversários.

Pois foi justo ela quem, no dia do seu aniversário de 84 anos, viu-se exposta quando sua neta, Patricia, publicou stories no instagram com a foto dela acompanhada da avó, parabenizando esta pelo seu aniversário.

Quase todo mundo da família viu a postagem de Patrícia e, em seguida, enviou cumprimentos à Dona Cida, por mensagens, ligações e até mesmo pessoalmente, em um ou outro caso.

Invariavelmente, de todo mundo que a abordou, Dona Cida ouviu a pergunta:

– Quantos anos a senhora está fazendo?

Pergunta que Dona Cida cuidou de deixar no ar, sem resposta para ninguém. Ela queria morrer com toda aquela situação, que para ela era demasiadamente constrangedora.

De fato, uma semana depois de completar 84 anos, Dona Cida veio a falecer.

Tristes pela morte da matriarca, Patrícia e outros familiares publicaram homenagens a ela nas suas respectivas redes sociais sempre cuidando para mudar a foto do perfil pela foto de um lacinho na cor negra, em sinal de luto.

Na pequena cidade, a notícia de sua morte viralizou.

Ainda assim, foram poucos os que compareceram ao velório e quase ninguém foi ao seu enterro.

Estrelas

Falta-me o brilho das estrelas

Vai ver é porque vivo com os pés no chão

Como as árvores que fincam raizes na terra

Sou talhado para viver como quem erra

Errei a vida toda

Por isso não saí do lugar.

Já não estar

Naquele momento, em que tudo já tinha sido dito, parecia-lhes um ponto de não retorno, Sentados em lados opostos da mesa da sala de jantar, tentavam evitar o constrangimento do contato com o olhar do outro, desviando os olhos para o celular, para a paisagem da janela, para o teto, a parede, o chão, para dentro de cada um, A conversa que começara meio sem rumo, em pouco tempo encontrou um norte e para ele seguiu, a passos firmes, como se ali estivessem apenas para sacramentar algo que já vinha pelas suas mentes, Para dizer em palavras o que os gestos já acenavam, Abrir uma brecha de respiro numa situação que há muito vinha sendo sufocante para ambos, Para escrever mais um capítulo na narrativa da relação: o final, Não que a relação só terminasse ali, naquele momento, A bem da verdade, já havia terminado meses atrás, Ali, em volta da mesa, apenas deram voz aos sentimentos, sacramentaram, oficializaram, fizeram pedra o que antes era nuvem, A regra que faz a união não é a mesma que faz a separação, Para a primeira, é necessário um encontro de vontades, Para separar, basta que um a queira, Mesmo antes de verbalizada a decisão pelo fim, aquelas duas pessoas já não eram mais um casal, Há muito instalara-se a ausência do beijo, do carinho, mas também das brigas e discussões, Veio a paz? Vieram os silêncios, longos silêncios a preencherem o vazio da falta do que compartilhar, A pouca conversa, depois, mudou de assunto, de tom, de emoção, de cor, os olhares que a envolviam mudaram, Não se destrói uma ponte para deixar um vale em seu lugar? Ou se constrói outra ponte para unir pontos que então precisam de outra ligação? Vai ver é cada um para seu lado e pronto, vai ver que sim, vai ver que não, Como a poeira que vemos assentar sobre uma longa estrada de terra depois que a vida passa, o tempo dirá.

João

Foi de sua mãe que João uma vez ouviu, quando era adolescente:

– Você é um jovem com mente de velho.

À época, João havia pedido a ela uma harpa de presente de aniversário.

De uma amiga de sua mãe, que acompanhava aquela conversa, ainda ouviu:

– Harpa é instrumento de velho, João.

Passados mais de quarenta anos daquele dia, João não se considera propriamente um velho, nem tampouco um jovem, ao menos não aquele jovem do passado. Considera estar na chamada meia idade.

Hoje em dia, sente-se feliz quando ouve das pessoas coisas como:

– Você ainda é jovem.

ou

– Não aparenta a idade que tem, João.

As memórias sobre aquela conversa com sua mãe e a amiga dela invadiram sua mente enquanto escrevia, num pedaço quadriculado de papel pólen, um recado para Teresa, sua diarista.

Incomodava-o a vulgaridade das folhas brancas de papel; para escrever, preferia aquelas de papel pólen que, com seu tom pastel, imitavam um certo envelhecimento.

Escreveu:

“Não se demore, seja breve”

Naquele dia, João não queria que Teresa se demorasse com os afazeres da casa, pois sabia que ela precisava levar o filho ao médico, no período da tarde, sem falta.

Caprichando na caligrafia, João complementou a mensagem que deixava no bilhete com um:

“Te amo”

Homem solitário, de poucas palavras, leu mentalmente o bilhete que havia escrito e ao ler a mensagem completa:

“Não se demore, seja breve

Te amo”

João sentiu-se envergonhado, pois julgava estar velho para aquele tipo de demonstração de afeto. Talvez velho demais para amar.

Sentiu seu rosto ficar vermelho e gotículas de suor brotaram de sua testa. Enxugou-as com um lenço de papel e então rasgou o bilhete, substituindo-o por um outro, também em um pedaço quadriculado de papel pólen, no qual escreveu simplesmente:

“Quando sair, não se esqueça de trancar a porta com a chave”

Colou aquele bilhete na geladeira e partiu para o trabalho.

A procissão

Ela tinha o dom de cuidar, embora, ao longo de sua vida, pouco ou nenhum cuidado tivesse recebido, fosse de seus pais, seus parentes, ninguém. Chamava-se Maria, nome bastante comum para as mulheres que, como ela, habitavam aquela comunidade humilde, nas franjas da metrópole, ou, como diriam alguns, nos seus arrabaldes.

O barraco onde morava abrigava mais seis pessoas: seu pai, sua mãe e seus quatro irmãos mais novos, todos meninos ainda impúberes. Sendo a única pessoa da família a trabalhar, Maria era responsável pelo sustento de todas aquelas muitas bocas. Dentro do infinito limite de forças de uma mulher, conseguia trazer algum dinheiro para casa por meio de alguns bicos de faxineira, alguns biscates, ou mesmo pela mendicância. Para ela, a mendicância por vezes mostrava-se mais atraente, pois ao menos lhe permitia um maior controle do tempo, além de evitar a subordinação a patrões temporários, que não raro tentavam convencê-la a aceitar um acréscimo de pagamento, por meios outros que não o simples desempenho das tarefas domésticas de faxina para as quais havia sido chamada.

Foi num sábado um pouco nublado, que Maria saiu de casa logo pela manhã, ainda antes do sol nascer, acompanhada de um dos quatro irmãos, o mais novinho deles. Moisés era seu nome. Levando-o pela mão, pegou um ônibus para o centro da cidade, onde chegaria, se tudo corresse bem, dali a quase duas horas, tendo uma baldeação pelo caminho.

Numa semana que tinha feito poucos bicos, o dinheiro ficou demasiadamente curto, não lhe restando alternativa, naquele final de semana, senão mendigar para conseguir levantar um dinheiro extra, ao menos o mínimo para passar a semana seguinte com a despensa abastecida com o básico para livrar de passar necessidades as muitas almas sob sua guarida.

De fato, a situação da família era de penúria. Pai e mãe não eram propriamente idosos, mas devido a uma doença em comum que médico nenhum tinha conseguido diagnosticar, contavam com pouca autonomia até para as tarefas mais simples do dia a dia. Viviam, assim, tão dependentes de Maria quanto os irmãos mais novos. Estes passavam o dia a vagar pelos barracos da redondeza, buscando a sorte de poder comer a convite da mãe, tia, avó ou madrasta de algum amiguinho com quem brincavam ali na comunidade.

Depois de embarcar Maria e Moisés, o ônibus seguiu pela estrada de terra do bairro distante, trazendo para dentro, a cada ponto de parada, mais e mais passageiros. Era um bairro dormitório, que servia apenas a função de abastecer a cidade com mão de obra barata. Lar de pedreiros, lixeiros, porteiros e Marias.

Quando deixava a estrada de terra que cortava aquele bairro periférico, e estava prestes a iniciar o trecho asfaltado da avenida principal do próximo bairro dentro do itinerário até o centro, na fronteira entre a periferia e a cidade, o ônibus parou.

Sentada em um dos últimos assentos, lá na parte traseira do ônibus, Maria, aflita, tentava entender o que ocorria. Ela queria chegar cedo ao centro, pois, assim, conseguiria tomar um café quente e comer ao menos um pão com manteiga, na padaria cujo gerente, generoso, vendo a situação de miséria com que Maria ali volta e meia aparecia, costumava acomodá-la, mais o irmão que a acompanhava, numa mesa ao fundo do salão da padaria e, então, pedia para que lhes fossem servido um desjejum simples, mas suficiente para dar-lhes força para a dura luta pela misericórdia das multidões que caminhavam pelo centro, local onde a tal da misericórdia era por tantos disputada e, também por isso, demasiadamente escassa. Devido ao tráfego parado, pelo visto, naquele dia, Maria e Moisés, àquela hora já famintos, perderiam a chance daquele café da manhã da padaria.

Muito embora fosse um sábado de manhã e nem bem tivesse ainda cruzado os limites do primeiro bairro do longo percurso até o destino, o ônibus já estava lotado. Dentro dele, os passageiros estavam impacientes. Alguns ameaçavam descer, outros xingavam o motorista, o governo, batiam e tentavam quebrar assentos, janelas, e havia também aqueles que, assim como Maria e seu irmão, estavam fracos demais para qualquer outra reação que não fosse a simples resignação silenciosa.

Lá fora, diante do ônibus e de todos os demais veículos que ali se encontravam parados, passava uma turba enorme de pessoas, como que a seguirem uma procissão, a gritar quase em uníssono o nome de algum messias. Montadas em motocicletas as mais variadas, seguiam dirigindo ora sozinhas, ora em duplas. Com seus motores e escapamentos, as motos faziam o barulho equivalente a dezenas de trovões.

Seguindo por muitas horas, ininterruptamente, a procissão de motos criou uma espécie de muralha entre o bairro dos mais humildes e o resto da cidade. Aqueles que tentavam cruzar, num gesto de puro desespero, eram esmagados e estraçalhados pelas rodas que, ferozes, formavam a turba.

Cientes da morte trágica que lhes aguardava caso tentassem cruzar a muralha, e impedidos de voltar, os que permaneceram parados no cruzamento, a aguardar o fim da procissão, assim ficariam por mais um, dois, três, quatro anos, tempo total de duração daquela procissão, caso suportassem ali esperar por tanto tempo. Mas ninguém aguentaria e tampouco aguentou esperar todo esse tempo. Bem antes disso, em sua maioria nos dias seguintes àquele, todos que ali ficaram parados no tráfego, Maria e Moisés aí incluídos, morreram de fome.

A namoradeira

Quando menino, Saturno costumava sentar-se na varanda de sua vizinha, uma senhora de setenta anos, solitária, e com ela passar horas e horas a papear sobre a vida. Aos ouvidos dele, as histórias que ouvia dela eram tão ou mais fascinantes que aquelas que ele lia nos livros, talvez porque, diante dele, a narrá-las, estava uma personagem de muitas daquelas histórias.

Muitos anos depois, mesmo não se recordando do nome daquela sua vizinha, a memória daquelas tardes veio-lhe à mente quando, caminhando pela calçada, avistou, sobre o parapeito de um antigo sobrado, cuja janela tinha vista direta para a rua, uma velha senhora que estava ali, debruçada a observar o movimento da rua, com seus olhos que a tudo já tinham testemunhado, impávida, à maneira de um mocho. Ela tinha longos cabelos acizentados, que refletiam a luz alaranjada do quarto onde estava, fazendo-os parecer estarem em chamas; era como a personagem de uma história fantástica, como algumas daquelas que, no passado, ouvia de sua vizinha septuagenária, de cujo nome não mais se lembrava.

Lembrava-se, sim, da maneira como ela, quando farta e cansada de ficar ali com aquele garoto, a contar histórias sobre sua vida, simplesmente dizia:

– O papo está bom, mas I´m running out of cashmere.

Como quem diz:

– Por hoje, deu.

Mas de uma forma bastante curiosa.

Embora, à época, Saturno não entendesse patavinas de inglês, entendia que ali terminava a aventura das narrativas da vizinha.

Após sentenciar o fim da conversa com o 

– O papo está bom, mas I´m running out of cashmere.

ela se levantava e seguia para dentro de casa, deixando o menino Saturno sozinho na varanda do sobrado, como um cachorrinho abandonado.

Saudoso por reviver aqueles momentos, na tarde do dia seguinte, Saturno tomou o rumo do sobrado onde, no dia anterior, havia avistado a mulher com cabelos que pareciam estar em chamas.

Enquanto caminhava pela rua, já próximo do local, Saturno avistou uma mulher que passava em frente a uma loja de brinquedos, do outro lado da rua. Ela dizia ao menino que puxava pela mão direita

(provavelmente seu filho)

e que insistia para que ela comprasse um carrinho de brinquedo:

– A gente passa aqui na volta.

Sentença que, quando menino, também ao pedir a sua mãe para comprar um brinquedo, Saturno tantas vezes ouvira e que, só mais tarde, viria finalmente a entender que o

– … na volta

dito por sua mãe, era na verdade um

– Jamais.

Já que sua mãe nunca cumpria o que dizia e, ao fim e ao cabo, aquilo que ele havia pedido a ela para comprar, de fato não era comprado.

Oriundo de família simples, de renda apertada, Saturno desde muito cedo foi sendo, assim, acostumado a pensar que o melhor emprego para o dinheiro curto, que seu pai recebia de salário como funcionário público, era cobrir o sustento mais básico da família, nada mais.

A senhora com quem Saturno, na sua infância, costumava passar horas e horas a conversar, vivia em um pequeno sobrado, colado àquele onde morava a filha dela, acompanhada do marido. Era por meio de uma passagem estreita, entre os dois sobrados, que Dona Rita

(havia enfim se lembrado do nome dela)

recebia de sua filha as refeições, em pratos feitos, três vezes ao dia, fiel à regra que, no curso da vida, põe pais como filhos e estes como pais, revezando-se na função de quem cuida e quem é cuidado.

A filha de Dona Rita a perguntar para a mãe:

– O que vai querer de mistura?

Fazendo crer que havia opção sobre qual seria o acompanhamento que iria complementar o prato de arroz e feijão de todo dia, quando, na verdade, a mãe era obrigada a comer o que a filha lhe servia, fosse o que fosse, como um animal de criação.

Dona Rita sentia-se grata por pelo menos ter um teto e, também, o que comer, condição muito melhor do que a de muitas pessoas que, dali de sua varanda, observava perambularem pelas ruas, a vasculharem as latas de lixo em busca de restos de comida que ainda pudessem servir de contenção para a fome.

Uma vez, indagada por Saturno se era feliz vivendo daquela forma, Dona Rita saiu-se com um:

– O papo está bom, mas I´m running out of cashmere.

Como que a dizer:

– Isso não é da sua conta.

Dito isso, como sempre fazia, levantou-se e seguiu para dentro de casa.

Saturno foi se aproximando da senhora de cabelos que pareciam estar em chamas. Ela continuava ali debruçada sobre o parapeito da janela, sob a luz alaranjada de seu quarto.

Foi só ao chegar perto dela, posicionando-se bem abaixo daquela janela, que Saturno percebeu que a mulher dos cabelos que pareciam estar em chamas era, na verdade, uma boneca namoradeira, e que, portanto, só na aparência estava ali a observar o movimento; este é que na verdade a observava.

o cara

Desde pequeno, quando levava um tombo qualquer ao tropeçar, sua mãe vinha lhe dizer:

– Ninguém tropeça pra trás.

E, depois de desferir um tabefe na sua cabeça, ordenar-lhe:

– Levanta e toma teu rumo, moleque.

De alguma forma, essas palavras impulsionaram-no a seguir em frente e, mesmo diante dos muitos tropeços da vida, conseguir deixar para trás a infância demasiado humilde e, depois de muitos anos, enfim tornar-se o homem que é hoje – o respeitado advogado que todos conhecem pela alcunha de “o cara”.

Originário de uma pequena cidade no interior da Bahia, ele muito penou até alcançar algum sucesso profissional em São Paulo. Foram longos anos de dificuldades, vivendo de biscates jurídicos

(– Ninguém tropeça pra trás)

até conseguir se firmar como um profissional respeitado em seu meio.

Numa semana qualquer de julho, em plena segunda-feira, ele está em mais uma das muitas reuniões online, às quais, diariamente, comparece.

Profissional bem-sucedido, de respeito, falta-lhe tempo para atender a todos que o procuram, desesperados por poder com ele contar para a solução de problemas bastante complexos, que envolvem não apenas um excelente conhecimento técnico-jurídico, mas também uma capacidade, que só ele tem, de manejar estrategicamente, à maneira de um enxadrista, as leis diante dos mais labirínticos tribunais. Uma conquista: o cara atende apenas quem e pelo preço que quiser, sempre com aquele semblante tranquilo dos bem nascidos – embora não fosse essa a sua condição original, havia enfim chegado lá.

Ao contrário dos demais participantes da videoconferência em que então o encontramos, ele optou por não abrir a câmera do computador. Também evitou identificar-se perante os demais, na tela, pelo seu verdadeiro nome. Naquele quadradinho da reunião online que corresponde a ele, era possível apenas ler “o cara”, em letras minúsculas.

Esse gesto, que alguns atribuíam à timidez, na verdade, era a forma encontrada por ele para esconder dos demais participantes da reunião o que de fato acontecia por trás da sua câmera.

Vez ou outra, quando questionado por algum participante da reunião sobre o porquê da câmera fechada, o cara simplesmente respondia, abrindo rapidamente o microfone:

– Minha internet está ruim.

E, em seguida, com algum cinismo complementava:

– A minha imagem ficaria congelando.

Justificativa suficiente para convencer quem lhe perguntara de que se tratava de comportamento bastante esperado e, diante das circunstâncias, até desejável.

Mas justificativa nada fiel à verdade, pois, ali com ele, numa cama de motel barato, no centro da capital paulista, estava uma mulher.

Não a sua esposa, mas uma outra, que o cara conquistara e trouxera para a cama, para deliciar-se em luxúria sob o som das vozes daqueles seus clientes na videoconferência, que, em razão da câmera e microfones desligados no computador dele, nada podiam ver nem ouvir. De fato, ele não conseguia mais estar com uma mulher na cama, se não fosse em situações como essas.

Desde muito tempo, ele vem agindo deste modo e assim continuou a fazer por muitas outras vezes, sem nenhum problema, ora em motéis baratos da cidade, ora em garconnières do centro especialmente alugadas para a ocasião.

Havia situações e momentos em que o cara aparecia para seus clientes e, para aqueles realmente importantes, até se reunia presencialmente. Mas eram exceções que, ao fim e ao cabo, serviam para fortalecer o mito por trás daquele bem-sucedido e por muitos temido advogado.

Do alto de seus quase 50 anos, já grisalho, admirava

(– Toma teu rumo, moleque)

tudo o que conquistara e o rumo que a sua vida enfim tomara.

Certo dia, enquanto novamente participava de mais uma videoconferência de trabalho, por mera distração, esqueceu por alguns instantes a câmera e o microfone ligados, de modo que todos que estavam do outro lado da tela, na reunião, ao direcionarem os olhos para o quadradinho onde se lia “o cara”, puderam ver, atônitos, o que se passava entre ele e a mulher que o acompanhava naquele motel chinfrim às margens da Marginal Pinheiros. O choque foi geral.

Um dos participantes da reunião online, uma advogada com quem o cara já estivera numa cama muito similar àquela que a câmera agora revelava, aproveitou o descuido dele e a oportunidade que aquela câmera e microfone abertos traziam, e filmou toda a cena que seus olhos enciumados puderam acompanhar.

Poucos minutos depois, naquele mesmo dia, só que mais tarde um pouquinho, aquele vídeo tinha sido compartilhado inúmeras vezes, chegando, em menos de uma hora, aos celulares de milhares de pessoas, dentre as quais, a mulher com quem o cara era casado há mais de vinte anos.

A esposa dele, ao ver a traição do marido na tela de seu celular, em alta resolução, pôs-se a chorar como uma criança e, entre lágrimas, juntou todas as coisas dele – camisas, calças, sapatos, cuecas… – e jogou tudo na frente do prédio com mansarda e varandas gourmet onde moravam, em um bairro nobre de São Paulo, fazendo a alegria de alguns passantes.

Depois desse incidente, o cara acabou perdendo todos os seus clientes e teve tomados todos os seus bens pela agora ex-mulher. Não demorou a percorrer o caminho que o levaria de “o cara” até “um ninguém”.

Profundamente deprimido, ele acabou indo parar na rua, onde, para sobreviver, viu-se forçado a apelar para a prostituição, o que lhe proporcionava alguma renda, ao menos a suficiente para não morrer de fome. Há que se levar em conta que a idade já então pesava e ele não tinha mais os predicados que, em outros tempos, fizeram-no objeto de desejo de muitas mulheres.

Daquele cara, pouco ou quase nada havia sobrado.

A bem da verdade, a vasta maioria daquelas com as quais estivera nos motéis e garconnières da cidade, estavam em busca apenas de poder e dinheiro, tudo que aquele agora ninguém menos tinha.

Noite dessas, depois de beber uma garrafa inteira de pinga, adormeceu ali pelas imediações da Praça da Sé e, em sonho, viu sua mãe vir lhe dizer, num tom de bronca:

– Ninguém tropeça pra trás.

E, sentindo uma pancada forte na cabeça, acordar com um policial a lhe gritar:

– Levanta e toma teu rumo, seu merda!

No que ele então se levantou e, ainda atordoado, acabou tropeçando. Porém, desta vez, caiu para trás.

As andorinhas

Sempre que avistava meu pai a se aprontar para ir à feira, minha mãe lhe pedia:

– Aproveita e vê se traz um ou dois pacotes de laranja.

E frisava:

– Mas escolha aquelas de casca fina.

Certamente, por oferecerem mais suco ao serem espremidas.

Ainda assim, meu pai voltava da feira trazendo, nas sacolas carregadas de várias frutas, um ou dois pacotes de laranjas de casca grossa, todas elas praticamente secas por dentro. Para ele, a casca grossa conferia àquelas laranjas um certo tipo de virtude que faltava às laranjas de casca fina. Qual virtude, não sabia dizer. Justificava-se dizendo, simplesmente:

– Laranjas com casca grossa são mais resistentes, duram mais. 

Justificativa que não convencia minha mãe, que, então, decepcionada, reclamava:

– Essas laranjas não tem suco nenhum. Não havia lhe pedido para escolher as laranjas de casca fina?

Ao que meu pai, já então ocupado a cortar uns limões para a caipirinha, dava de ombros.

Imprestáveis para a função que minha mãe gostaria de lhes conferir

(suco)

as laranjas de casca grossa eram depositadas na fruteira, onde ficavam até apodrecerem, sendo, então, jogadas ao lixo.

Exceto por essa pequena desavença em relação ao tipo de laranjas a serem adquiridas, meu pai e minha mãe, mesmo sendo muito diferentes entre si, tinham uma dinâmica de casal bastante harmônica: mesmo após mais de trinta anos de casamento, pareciam ainda se amar – ao menos, tratavam-se com carinho e respeito.

A relação entre os dois seguiu bem, por anos a fio, sem nenhum sinal mais evidente de atrito.

Até que, de uma hora para a outra, meu pai, já então com setenta e dois anos, passou a responder de forma aleatória aos cumprimentos que recebia, nos seus passeios diários pela pequena cidade.

Dizia:

– Boa noite.

quando o cumprimentavam com um 

– Bom dia.

Ou

– Vou à padaria.

em resposta a um 

– Como vai?

Preocupada com o surto do marido, minha mãe levou-o ao médico, que, após analisar alguns exames, nada encontrou de errado na cabeça de meu pai.

– Parece o cérebro de um jovem.

Diagnosticou o médico, enquanto passava o cartão do plano de saúde pela maquininha de cobrança.

Naquele dia, minha mãe deixou o consultório do médico de mãos dadas com meu pai, e seguiram caminhando pelas ruas em direção à casa que ficava em um bairro próximo ao centro da pequena cidade, a mesma casa que um dia foi “nossa”, mas que passou a ser apenas “dos meus pais” quando de lá parti para estudar e trabalhar fora.

Era o final de tarde de um dia qualquer da semana, no mês de dezembro, quente como um braseiro em chamas. Baixando no horizonte, o sol parecia de fato uma brasa viva, ainda incandescente.

Quando passavam em frente a uma barraquinha de sucos, minha mãe convidou meu pai para tomar um suco de laranja geladinho. Perguntou a ele:

– Quer um suco de laranja gelado?

Ao que ele, de pronto, respondeu a ela:

– Acho que perdi.

Intrigada, mas pensando que meu pai continuava a responder de forma aleatória ao que lhe perguntavam, minha mãe quis saber:

– Perdeu o quê?

No que meu pai, com um olhar vazio a mirar o nada, respondeu:

– Perdi a capacidade de te amar.

E minha mãe:

– O quê!?

Com lágrimas começando a escorrer pelos olhos.

– Não te amo mais, Ana.

Meu pai afirmou, sem alterar o tom de voz. E minha mãe reagiu:

– Como pode dizer isso, Otávio?

Já num tom de voz bastante alto.

No que meu pai então respondeu, ajustando o tom de voz ao seu olhar triste:

– É o que sinto.

Em prantos, minha mãe, já crente de que aquela resposta não tinha nada de aleatória, pegou o copo cheio de suco de laranja que o vendedor lhe entregara e arremessou-o sobre o rosto de meu pai.

– Está vendo, Otávio! Era para fazer sucos assim que eu lhe pedia para comprar laranjas com casca fina!

Minha mãe gritou, com a voz embargada, sentindo sobre si o peso do olhar curioso dos poucos transeuntes que, naquele momento, por ali passavam. Momento em que ainda era possível ouvir o ruído dos bandos de andorinhas, sobrevoando a praça, ocupadas em encontrar um lugar seguro para passar a noite, em meio às folhas das palmeiras. As andorinhas voavam por entre as copas altas daquelas árvores, totalmente alheias aos destinos das gentes que andavam lá no chão, metros e metros abaixo delas.

Muitos anos se passaram desde aquele episódio, e no final das tardes de verão, quentes como feridas em alma viva, ainda é possível avistar o sol a se por no horizonte, enquanto as andorinhas sobrevoam a praça, buscando um local para dormir nas folhas das palmeiras.

Abigail

Para onde quer que fosse, costumava chegar em silêncio, quietinha, de maneira a chamar a atenção o mínimo possível. Sentia-se demasiado insignificante para ser notada.

Na verdade, Abigail era tímida, muito tímida, uma timidez tamanha que a fazia corar pelo simples fato de alguém lhe dirigir o olhar. Quando o que lhe dirigiam era a palavra, então, não apenas seu rosto corava, mas também seu coração punha-se a bater freneticamente.

Compelida por sua timidez, sai pouco de casa, indo à rua apenas para aquilo que lhe é essencial: o mercado, a feira, a farmácia.

Vive sozinha, às custas de uma pensão que seu pai, um militar da reserva, deixou-lhe ao falecer. Sua mãe morrera quando ela ainda era uma criança de colo. Abigail acabou sendo criada por sua tia, Dona Maria, irmã de seu pai, à época também solteira, condição que a acompanhou por toda a vida, até falecer pouco antes de seu irmão, o pai de Abigail, devido a um câncer no fígado que os médicos atribuíram ao excessivo consumo de álcool.

Certa manhã, enquanto punha as roupas para quarar no quintal detrás da casa, sob o sol escaldante de uma manhã de dezembro, ouviu tocar o telefone que ficava sobre uma toalhinha de crochê, depositada por sobre uns livros empilhados no chão da sala, ao lado do sofá, a fazerem as vezes de uma mesinha.

Abigail, que sempre evitara atender ligações telefônicas, pois mesmo isso lhe era causa de ansiedade e rubor, deixou o cesto de roupas ali, debaixo do varal, e foi caminhando apressadamente para dentro de casa, a fim de atender ao chamado do telefone, o que finalmente fez quando o quarto toque terminara de soar.

– Alô?

Alguém perguntou do outro lado da linha.

– É a Dona Abigail?

complementou.

Abigail estranhou o “Dona Abigail” – nunca ninguém a chamara assim: ou a chamavam “senhora”, quando não a conheciam, ou simplesmente “Abigail”. Jamais “Dona Abigail”.

A voz do outro lado da linha insistiu:

– É a Dona Abigail?

No que ela, já com o rosto todo vermelho, respondeu:

– Sim…

deixando clara a hesitação em sua voz.

Esclarecida, para quem ligava, a identidade de quem atendia o telefone, a voz do outro lado da linha prosseguiu:

– Dona Abigail, bom dia. A senhora já conhece a promoção do mercad…

Abigail desmaiou quando seu interlocutor ainda nem bem terminara a pergunta que lhe fazia.

Horas depois, ela acordou e viu-se deitada sobre uma cama, toda forrada de branco, em um quarto, todo ele decorado com um papel de parede com motivos de nuvens.

Numa mesinha de cabeceira, ao lado da cama, um telefone vermelho começou a chamar. Ao final do terceiro toque, ainda atordoada, Abigail atendeu.

Do outro lado da linha, alguém lhe sussurrou algo, tão baixinho que ela não conseguiu entender.

Quando Abigail finalmente conseguiu dizer um

– Alô…

hesitante, já tendo àquela hora o rosto adquirido a mesma cor vermelha do telefone, a ligação caiu.

Sem saber onde estava, ou mesmo quem lhe ligara e lhe sussurrara algo pelo telefone, tomada naquele momento por uma angústia sufocante, Abigail pôs-se a chorar, do mesmo modo como fazia quando ainda era uma criança de colo.

Foi quando, mesmo com os olhos embaçados pelas lágrimas, viu a porta do quarto se abrir e, por trás dela, surgir sua tia, Dona Maria. Ao ver Abigail ali deitada, chorando, Maria recolheu-a ao seu colo, sentou-se na poltroninha a um canto do quarto e, embalando-a em um vaivém vagaroso como o pêndulo de um relógio de parede cuja pilha se esgota, principiou a ninar Abigail, tal qual se nina uma criança, que, aos poucos

(como um relógio de parede cuja pilha se esgota)

foi parando de chorar, e por fim, caiu no sono.

Para onde quer que tenha ido, foi-se em silêncio, quietinha.

Memória de pirulito

Ontem, por volta do meio-dia e meia, uma velha senhora veio sentar-se à mesa, ao lado daquela que eu ocupava no restaurantezinho de bairro, muito simples, para onde eu sempre ia para almoçar. Nunca a tinha visto antes.

Havia percebido sua chegada pelo cheiro de talco de bebê que a acompanhou, a denunciar, pelo olfato, o quanto infância e velhice guardam em comum.

Enquanto esperava pelo meu prato, pedido já havia alguns minutos, distraia-me a olhá-la com afeto: lembrava-me minha falecida avó.

Imaginei-me chegando a casa dela e deparando-me, no quarto, com uma coleção de bonecas de plástico, amontoadas sobre o guarda-roupa, todas elas adquiridas em jogos de parques de diversão. Era assim o quarto de minha avó.

Como numa arquibancada, as bonecas ficavam a olhar, lá de cima, todo o movimento do cômodo, por trás do celofane colorido que as envolvia, para protegê-las da poeira. Tinham sorrisos estranhos, que mudavam a depender do olhar de quem as observava.

– Quero esquecer o amanhã.

Minha avó dizia, a querer justificar a manutenção de todas aquelas bonecas sobre o guarda-roupa.

– Tenho memória de pirulito.

Finalizava, sempre deixando quem quer que estivesse a ouvi-la demasiado atordoado com a linha de raciocínio ali exposta.

A garçonete veio servir meu prato, e só então se deu conta de que a senhora na mesa ao lado ainda nem fizera seu pedido.

Perguntou-lhe, então:

– O que vai ser hoje?

No que a senhora que cheirava a talco respondeu:

– O mesmo que ele.

Apontando para meu prato com o dedo indicador de sua mão direita, toda ela rechonchudinha a ponto de fazer os muitos anéis que portava parecerem encravados na carne dos dedos.

Depois que a garçonete anotou o pedido dela e o levou à cozinha para ser preparado, aquela senhora ficou a me observar, ora com o olhar sobre mim, ora sobre meu prato, a ponto de forçar-me a lhe perguntar:

– A senhora está servida?

Ao que ela, de súbito, respondeu:

– Obrigada. Pedi uma salada para mim.

Respondi, então:

– Ah, ok.

Confuso, pois, acabara de vê-la pedindo à garçonete o mesmo prato que eu comia: um picadinho.

Justamente o prato que, poucos minutos depois, foi-lhe servido pela garçonete.

Intrigado, tomei coragem e perguntei-lha:

– A senhora não havia pedido uma salada?

E ela, espantada, respondeu-me perguntando:

– Foi?

E completou, decidida:

– Foi não. Pedi mesmo um picadinho, igual ao seu.

E lançando sobre mim um olhar parecido com os das bonecas que minha falecida avó mantinha sobre o guarda-roupa dela, enquanto viva, completou:

– Mas vai saber, né? Sou muito esquecida.

E por fim justificou, em meio a um sorriso afetuoso:

– Tenho memória de pirulito.

Posso ter mais lembranças de você?

Mulher de muitas posses, viúva, sem filhos, Catarina vivia em sua mansão na companhia de sua cadela Nina, uma lulu da pomerânia de longos pelos na cor caramelo, e de sua criadagem: faxineira, cozinheira, motorista e uma cuidadora de idosos, para os quais Catarina nunca dirigia diretamente a palavra – toda a comunicação dava-se exclusivamente por meio de pequenos bilhetes de papel quadriculados, semelhantes a post-its, que Catarina deixava pela casa, com o nome do empregado a quem se dirigia na parte de cima, e na parte de baixo, o pedido escrito em francês.

Como nenhum dos empregados da casa era versado nesse idioma, mas apenas no português, não entendiam nada do que a patroa lhes pedia por meio daqueles bilhetes.

A comunicação oral tinha cessado por completo desde o falecimento de Ulisses, marido de Catarina, há dez anos. Uma das sequelas do trauma causado pela morte do marido foi a mudez de Catarina.

A casa funcionava meio que em modo automático, na base da experiência acumulada daqueles empregados e empregadas domésticos, que ali serviam desde muito antes de Seu Ulisses, como o chamavam, vir a falecer, repentinamente, de um infarto.

Dona Catarina, como a chamavam, de fato ainda não havia superado o luto pela perda de seu marido. Na cama, antes ocupada pelo casal, Catarina continua a dormir como se Ulisses ainda a acompanhasse: deitada a um canto, o mesmo que sempre ocupou, ela deixa vazio todo o resto da enorme cama de casal, como que a velar pelo corpo do falecido marido que, quando vivo, preenchia com seu corpo todo aquele espaço.

Espalhados por todas as paredes do quarto, apoiados ao chão ou presos às paredes, encontram-se vários porta-retratos com fotos de Ulisses e Catarina, sempre juntos, em vários momentos da vida. Os porta-retratos circundam todo o quarto, formando um halo em torno da cama do casal.

Todos os dias, ao acordar e antes de dormir, Catarina caminha por todo o quarto, passando em revista cada um daqueles porta-retratos, com um olhar triste e ainda inconformado. Em sua mente, não consegue mais distinguir a cronologia das fotos: para ela, era como se todas elas tivessem sido tiradas em um único dia, num mesmo local, muito embora naquelas fotografias estivessem documentados pelo menos uns vinte anos de história do casal.

(se tudo passa, por que você ficou?)

Certa noite, ao deitar-se para dormir, Catarina notou que Nina se aproximou e levantou seu pequeno corpo, num movimento que deixava claro que queria subir na cama para deitar-se com ela.

Embora muito afetuosa com a cachorra, Catarina nunca a deixava subir na cama, pois considerava aquele local sagrado como um santuário. A hipótese de Nina dormir com ela na cama, portanto, nem se cogitava.

Daquela vez, porém, vendo os olhos de Nina cheios daquela carência afetuosa que só os cães sabem demonstrar, Catarina concedeu que ela subisse na cama e ali dormisse junto dela. Sobre a cama, Nina dormiu sem ocupar o lugar que pertencia a Ulisses: dormiu colada ao corpo de Catarina.

Na manhã seguinte, quando os primeiros raios de sol começaram a entrar por entre as frestas da janela, como areia que escorre por entre os dedos, Catarina foi acordada por uma série de lambidas em seu rosto, o que fez com que ela sorrisse como não sorria desde a partida de Ulisses.

Mais tarde, para surpresa dos empregados da casa, que a tudo assistiam incrédulos, Catarina corria pelo jardim da mansão a brincar com Nina.

Quando retornou para dentro de casa, Catarina cumprimentou a faxineira:

– Bom dia, Maria.

o motorista:

– Bom dia, João.

a cozinheira:

– Como vai, Teresa?

e por fim sua cuidadora:

– Olá, Helena.

Com a mesma voz feminina e doce que há anos não se ouvia.

Daquele dia em diante, os bilhetinhos em francês não foram mais vistos pela casa. Catarina se dirigia a todos em conversas amigáveis e, quando pedia algo, sempre o fazia de forma muito educada e cortês, abrindo e fechando o pedido com um

– Por favor

ou um

– Por gentileza

e após a resposta da faxineira, da cozinheira, do motorista ou da cuidadora de idosos, invariavelmente ouvia-se de Catarina um

– Muito obrigada.

A João, o motorista, certo dia Catarina pediu que fosse à floricultura e trouxesse muitas flores – ela queria encher a casa de cores e perfumes, e substituir a tristeza que impregnava todos aqueles cantos, desde a morte de Ulisses, por um clima alegre e festivo.

À Maria, a faxineira, Catarina pediu que retirasse do quarto todos os porta-retratos com as fotos dela junto de Ulisses. Catarina queria aquelas paredes totalmente brancas, sem nada a ornamentá-las.

Quando a noite caiu, ao final daquele dia, as paredes do quarto já não traziam mais nenhum ornamento: todos os porta-retratos tinham sido removidos para o sótão da mansão, longe da vista de todos.

Ao ir se deitar para dormir, Catarina novamente recebeu Nina para fazer-lhe companhia, desta vez num quarto todo branco como uma nuvem

(que, como tudo, passa)

E foi então que Catarina pôde finalmente

(passou)

dormir em paz.

Na escuridão de sua voz

Sentavam-se à mesa para jantar sempre no mesmo horário, por volta das sete da noite. Como de hábito, ele a acomodava sentada na cadeira, no lado oposto ao dele, na pequena mesa redonda, e servia, ele mesmo, o jantar para os dois.

Invariavelmente, era servido algo muito leve, frugal: uma sopa e alguns pães, para as noites mais frias; legumes cozidos e alguma carne grelhada, para aquelas mais quentes. Para acompanhar a comida, água natural.

Enquanto comia, Pedro ia contando de seu dia a Helena, que a tudo ouvia sem dizer uma palavra.

O jantar todo não demorava mais que uns quarenta minutos e, uma vez finalizado, Pedro retirava a mesa, levando pratos, talheres e tigelas para a cozinha, onde punha-os sobre a pia e, em dez minutos, no máximo, tinha-os todos lavados e secos, prontos para o uso novamente.

Pedro então retornava à mesa do jantar, tomava Helena em seus braços

(como na nossa lua de mel, lembra-se?)

e a levava para o sofá da sala, onde, diante da televisão ligada em alguma novela, noticiário ou mesmo algum filme, ficavam até o sono chegar. E quando este vinha, Pedro desligava a televisão e dormia ali mesmo no sofá, na companhia de Helena.

Na escuridão de sua voz, as noites sempre vinham contar a Pedro, sob a forma de sonhos e pesadelos, as mais variadas histórias. Numa dessas, Pedro e Helena estavam diante do altar, cercados de padrinhos e madrinhas, elegantemente vestidos para aquela ocasião. À sua frente, um padre lhes indagava:

– Pedro, aceita Helena como sua esposa?

No que Pedro, em sonho, respondeu:

– Sim.

Em seguida, o padre perguntou a Helena:

– Aceita Pedro como seu esposo?

E daí seguiu-se um enorme silêncio, que só foi quebrado pelo barulho de alguém batendo à porta da sala.

Pedro acordou e, ainda meio zonzo de sono e sentindo a boca amarga, levantou-se, foi até a porta e a abriu.

Do lado de fora, um entregador trazia nas mãos uma grande caixa de papelão. Pedro assinou o recibo de entrega e, após despedir-se do entregador e lhe agradecer, voltou para dentro de casa.

Aproveitando que Helena ainda dormia sobre o sofá, dirigiu-se para o quarto, onde, ansioso e com um sorriso no rosto, abriu a caixa.

Pedro veio às lágrimas de alegria quando, dali de dentro daquela grande caixa de papelão, viu surgir Rita, sua mais nova esposa inflável, novinha em folha.

De volta pra casa

Era-lhe inevitável a sensação de vingança quando, ali no meio daqueles anúncios das páginas funerárias do jornal, via anunciada a morte de algum desafeto do passado.

– Aqui se faz, aqui se paga.

Regozijava-se João todas as vezes que isso acontecia, sempre esboçando um sorriso no canto da boca.

Ao contrário do que fazia com o restante do jornal, sobre cujas páginas apenas passava distraidamente os olhos, quando a leitura recaia sobre as páginas funerárias não lhe bastava simplesmente ler, era necessário focar a leitura com a ponta do dedo indicador, que ficava a percorrer aqueles anúncios como um revolver que mira suas vítimas.

Terminada a leitura, João recortava aqueles anúncios e arquivava numa pasta, colocando cada anúncio em um plástico específico. Era uma pasta bastante volumosa e pesada, que ele guardava bem escondida, por debaixo de umas caixas que ficavam em um quartinho nos fundos do apartamento, onde antes havia um banheiro de empregada.

João tinha 80 anos e vivia sozinho em um apartamento bastante amplo dos anos 50, no meio da Avenida São Luiz, com vista para boa parte do centro de São Paulo, suas riquezas e suas misérias.

Funcionário público aposentado, João nunca se casara. Era então o único sobrevivente de uma pequena família: pai, mãe e dois filhos, um deles, o mais novo, o próprio João.

Além de ler o jornal, sua rotina diária limitava-se a ficar horas e horas a observar os prédios à frente de seu apartamento e a breves caminhadas até o mercado e a farmácia, a fim de buscar os mantimentos e os remédios que sua aposentadoria ainda lhe permitia adquirir. Ao longo dos anos, a conta da farmácia foi ficando maior, enquanto a conta do mercado foi diminuindo. Ainda assim, comparado aos seus contemporâneos

(aqueles que ainda sobreviviam)

João era um homem que podia se considerar um privilegiado portador de boa saúde.

Dia desses, enquanto lia o jornal e, como de costume, procurava por nomes conhecidos por entre aqueles cuja morte os anúncios funerários faziam a todos saber, João deparou-se, surpreso, com seu próprio nome, escrito logo abaixo de uma cruz. Ao lado do nome, constava uma data de nascimento igual à dele, seguida de uma data de falecimento a indicar o dia de ontem como seu marco.

– Há de ser coincidência.

Pensou, enquanto seus olhos ainda miravam o anúncio, com as pupilas dilatadas pela curiosidade que fato tão inesperado lhes causara.

Intrigado, João recortou o anúncio e, quebrando um pouco sua rotina de apenas sair para ir ao mercado e à farmácia, tomou um táxi e foi até o endereço onde se daria o velório daquele seu homônimo cuja morte o jornal anunciara.

O local do velório ficava em uma capela de bairro, pequena, que estava completamente vazia quando João chegou, muito embora aquele fosse o horário anunciado do velório. Não havia caixão, nem defunto, nem flores, nada nem ninguém.

Ao redor de João, na nave da igreja, havia apenas estátuas de anjo a olharem para baixo, entediados. O silêncio ali dentro era tamanho que João podia ouvir o pulsar de seu sangue em suas têmporas, dilatadas devido ao calor intenso do dia.

Sentou-se em um dos bancos da capelinha e ficou a admirar a decoração interna, cuja exuberância e riqueza de detalhes contrastava com a simplicidade da parte externa.

João ficou ali até a fome apertar e, quando isso ocorreu, levantou-se e foi embora, tomando o caminho de seu apartamento, ainda intrigado com tudo que lhe ocorrera naquela manhã.

Quando o táxi que havia tomado chegou à Avenida São Luiz, João não soube indicar ao taxista onde deveria parar: não se lembrava qual daqueles prédios, colados um ao outro, era o seu.

Pediu ao taxista:

– Pode parar aqui.

Indicando um local qualquer quase na esquina com a Rua da Consolação. Ali ele desceu do táxi e seguiu caminhando pela calçada da Avenida São Luiz, como que sem destino, pois ainda não conseguia se lembrar onde morava.

Diante do Edifício Itália, João começou a sentir uma angústia crescer dentro de seu peito, como que a querer devorá-lo vivo. Olhava ao redor, na tentativa vã de se recordar onde morava: estava perdido.

Foi quando um senhor aproximou-se dele e, percebendo que João parecia precisar de ajuda, ofereceu-se

– O senhor precisa de ajuda?

para ajudá-lo.

Ao voltar os olhos para o senhor que lhe oferecia ajuda, João reconheceu no homem um dos seus muitos desafetos do passado: era Heitor quem estava ali diante dele, o mesmo que, há vinte anos, traíra a sua amizade ao revelar, aos pais de João, que ele mantinha relações com michês que, naquela época, faziam ponto na Avenida São Luiz, logo em frente ao prédio onde João morava, fofoca que acabou resultando na quebra de relação entre ele e seus pais.

João era capaz de se lembrar disso com detalhes, embora não estivesse conseguindo se recordar do prédio onde morava.

Depositou a dor dessa lembrança em sua mão em punho, com a qual desferiu um potente soco no rosto de Heitor, que, atordoado, caiu ao chão, batendo a cabeça na quina da calçada: o óbito foi imediato.

– Aqui se faz, aqui se paga.

Pensou João, com os olhos injetados de sangue, logo depois de ver o desafeto cair morto ao chão.

Foi então que dois policiais surgiram do nada e agarraram João pelos braços, algemando suas mãos e levando-o ao camburão.

Dali, ele foi levado para a delegacia mais próxima. Na sela onde foi lançado, João reconheceu os móveis e objetos de seu apartamento: estava em casa.

Andorinha

Sempre tive essa coisa meio andorinha, de voar pra lá e pra cá,
a cruzar hemisférios,
fugindo de invernos deletérios,
para buscar na vida verões, ver a alma esquentar,

e quem sabe assim, como um balão, poder voar… feito uma andorinha.

Ícaro

Logo que o ônibus ultrapassou a enorme plantação de eucaliptos, que ficava do lado direito da estrada, Ícaro avistou sua cidadezinha natal, ao longe, no horizonte que sempre lhe parecera tão estreito. Caía a noite, e à medida que o sol se punha por detrás das colinas, timidamente uma ou outra estrela ia surgindo no céu, ao mesmo tempo em que também as primeiras luzes da iluminação pública da cidade começavam a ser acesas, num movimento coordenado como o de uma troca de guarda.

Ícaro sentia que, na cidade, tudo estava menor, mas a impressão predominante, ao cruzar o perímetro urbano, foi de que quase nada ali mudara em vinte e cinco anos: tempo em que estivera distante.

Enquanto olhava a cidade, que ia aos poucos se revelando diante do para-brisa do ônibus, sua memória transportava-o para aquele momento, no dia da sua partida, em que, já dentro do ônibus que o levaria a São Paulo, via, pela janela, a família: pai, mãe, irmãos, avós; todos reunidos do lado de fora, a acenarem em despedida, em pé sobre a plataforma daquela rodoviária que, a exemplo de tantas outras pelo mundo afora, era apenas um lugar de passagem: dali, tal como ele, muitos partiam; outros tantos, por sua vez, chegavam; lá ninguém permanecia.

(metáfora da vida?)

De quase todos ali então reunidos, Ícaro despedia-se por uma última vez: morreram antes de ele poder reencontrá-los.

Não lhe ocorria, à época, que um filho pudesse morrer antes do pai, ou que um irmão mais novo pudesse morrer antes do irmão mais velho: Ícaro era o mais velho dos três irmãos, todos homens. As notícias das mortes que lhe foram chegando ao longo desses anos, todavia, contradisseram, em grande parte, essa crença. No final, sobrara apenas sua mãe, a única integrante da família, além dele, ainda viva.

– Ícaro!

Sua mãe

– Meu filho.

(– Tão envelhecida, meu Deus!)

a saudar-lhe o retorno à rodoviária de onde um dia, há muitos anos, ele partira, dando assim voz a uma saudade que por tantos anos quase a emudecera.

– Ícaro!

Aos prantos, ela esforçava-se por abrir caminho por entre as demais vivalmas ali prostradas sobre a plataforma: queria tocá-lo, beijá-lo,

– Mãe!

abraçá-lo. Finalmente, assim se fez. Por alguns instantes

(incalculáveis para eles)

permaneceram os dois ali, ligados por um abraço, cuja intensidade física parecia querer, na enorme pressão que se fez entre seus corpos e braços, fechar as chagas da saudade, que há tantos anos neles se exibiam abertas e cálidas. Só então deram-se conta da ordem de grandeza

– Quanto tempo…

do tempo em que viveram separados um do outro.

No decorrer desses anos, Ícaro havia mudado muito: o menino magro, barrigudinho, de umbigo estufado, tornara-se um homem viril, de aparência respeitável e olhar intenso, como os dos gaviões que, na sua infância, sequestravam inocentes pintinhos de suas mães, galinhas chocas de penas eriçadas, carregando-os para longe no céu, a fim de, logo mais, forçarem essas avezinhas a cumprirem os desígnios que a lei da vida, indiferente aos seus piados de misericórdia, impunha-lhes.

Desde muito cedo, Ícaro sentia que habitava um mundo que lhe era estranho, hostil, e uma intuição que ia se tornando nele cada vez mais forte, à medida que os anos avançavam, dizia-lhe que, mais hora menos hora, chegaria o seu momento de partir. Não fosse por sua mãe, não retornaria mais à sua cidade natal, hoje tão tranquila e pacata quanto na época em que partira.

(com a quietude de uma ruína)

Ícaro e sua mãe saíram dali, da rodoviária, caminhando de mãos dadas e, quando chegaram à casa dela, a mesma casa que ele habitara quando criança, e onde sua mãe agora morava sozinha, Ícaro viu, em seu antigo quarto, por sobre a cabeceira da cama, o quadro com a pintura de um anjo da guarda estendendo as mãos por sobre a cabeça de um menino e uma menina, ambos loiros, de cabelos cacheados, como a abençoá-los, protegendo-os de uma iminente queda em um precipício que se revelava à frente deles.

(corriam atrás de um bambolê)

O quadro já estava ali quando ele partiu. Ganhara-o de presente de sua madrinha quando do seu primeiro aniversário.

– Há de protegê-lo…

Sua madrinha dizia, sem completar a frase, deixando em aberto a informação de contra quem…

(ou o quê…)

seria a pretendida proteção.

Quando criança, Ícaro costumava deitar-se com os pés voltados para a cabeceira da cama e passar horas a admirar o quadro. A figura do anjo, em particular, atraia-o. Exceto pela cor, o longo traje que o anjo vestia era similar aos trajes que Ícaro via os padres usarem durante as missas domenicais que ele, a contragosto, ia com a família. Mas a maior semelhança mesmo era com os trajes das baianas que, no Carnaval, hipnotizavam-no ao desfilarem, rodopiantes, nos desfiles das escolas de samba que ele assistia pela televisão. Ao contrário das baianas, porém, em que era evidente o contraste entre o negro da pele e o branco dos vestidos, no caso do anjo a fronteira entre a pele e o tecido do traje era quase imperceptível: ambos eram muito alvos.

Certa vez, ao final de uma tarde, quando sua mãe chegou em casa após cumprir seu expediente no mercadinho de secos e molhados, onde ela trabalhava como empacotadora, encontrou Ícaro no quarto, de pé sobre uma cadeira, a admirar-se diante do espelho, trajando um vestido dela, branco como o do anjo da guarda do quadro, o que, na composição com a pele negra de Ícaro, fazia este parecer uma baiana, daquelas dos desfiles de Carnaval, que teria encolhido.

Ao vê-la no reflexo do espelho, Ícaro desmaiou, caindo ao chão como uma rosa jogada sobre um túmulo. Despertou poucas horas depois, sentido-se como que a flutuar alto no céu. Passada a surpresa e o susto, deu-se conta de que de fato a flutuar estava; preso por uma linha, enrolada em volta de uma lata de ervilhas vazia, que seu irmão mais novo segurava, empinando Ícaro à maneira de uma pipa, que assim subia em direção às nuvens. Lá em cima, o vento impulsionava-o para cada vez mais alto e longe. Até que a linha, incapaz de suportar a forte tensão, acabou arrebentando. Daí em seguida, Ícaro começou sua trajetória de queda.

– Ícaro, meu filho,

Sua mãe, a despertá-lo

– acorde.

de um breve, porém profundo cochilo, que o tomou de assalto, tamanho era seu cansaço, no mesmo instante em que depositara sua cabeça sobre o seu travesseiro, em sua cama. Ainda meio grogue de sono, ele confessou a ela:

– Mãe, tive um sonho tão estranho.

No que sua mãe, num tom de voz audível apenas na quietude de uma ruína, perguntou-lhe:

– Qual foi, meu filho?

E dele ouviu como resposta:

– Sonhei que estava eu dentro de um ônibus, na rodoviária, a despedir-me de você, do pai, dos meus irmãos, do vô e da vó.

Chevetinho

Chevetinho

Não, não olhe pra mim.
Não gostaria que a imagem do que hoje sou, esse ser chinfrim,
Ficasse registrada em seus olhos como sendo a sua última lembrança de mim.
Preferiria que guardasse em seu olhar, com carinho,
A minha imagem de quando estávamos juntos,
E viajávamos pelo Brasil naquele meu chevetinho.
Que saudade daquele meu carrinho…

Par perfeito

E eu que pensava que, por sermos casados há tantos anos, sabia tudo a seu respeito – para mim isso era praticamente insuspeito, Mas tudo bem, não vou tomar isso como um defeito seu para que continuemos a formar um par perfeito, Confesso-lhe que quando tomei conhecimento de que era amante do prefeito, em minha mente vi renascer um certo preconceito: difuso, liquefeito – mas disso já estou refeito, Não encarei de forma nenhuma isso como um desrespeito, embora até então pensasse – e não havia nada que de mim afastasse tal pensamento – que para você eu era o único eleito, Isso nunca chegou a ser um pleito e nem um preceito, era um discurso que tínhamos, cá entre nós, bem fluido, escorreito, Eu tinha do meu lado, pelo menos, que isso seria – se algum dia tivesse que ser – um acordo seu comigo a ser previamente feito, Não que eu quisesse exclusividade – nem acho que isso seria de direito, Compartilhá-la com um terceiro seria algo que eu tiraria de letra: lidaria com a mesma facilidade com que mato uma bola no peito, Mas está aí, e aqui repito sem nenhum desproveito, um assunto que eu queria, antes de consumado, poder negociar com você direito, Não queria me ver diante disso como algo já feito, sem nenhum recurso à vista para vê-lo desfeito, Desisto, pois, ao que parece, não tem mais jeito, você já tem tudo organizado e pensado do seu jeito, Resta-me a resignação de ter nós três dividindo um único – o mesmo – leito, Torço para que pelo menos ele seja um bom sujeito, e nisso faço questão que me interprete direito: ele é político, não é?, logo sobre ele sempre serei um tanto suspeito, Esse pessoal respira um ar abundante, mas putrefeito, diferente da gente que respiramos um ar honesto, ainda que bem mais rarefeito, Olha lá, não quero generalizar, sei que cada um temos um modo de ser, um jeito: uns são mais tortos; outros são mais direitos, Pelo que me lembre já falamos a esse respeito, Importante pra mim, a partir de agora, já que para isso inexiste modo de contrafeito, é que na cama ele seja capaz de dar conta de nós dois, que faça, enfim, a coisa direito, A propósito, quantos centímetros tem o coiso do sujeito? Se for mais do que estou pensando, vai subir no meu conceito, Tudo isso!? Hum, pra mim parece perfeito, e a julgar pelo seu sorriso mal disfarçado, de peito a peito, não sou o único aqui satisfeito, Só vamos combinar que, daqui pra frente, ambos vamos disso tirar proveito, Até então você usufruía tudo sozinha, Isso, sim, vou tomar como um despeito!

Devasso

Eu não queria apenas te ver,

Queria sentir o calor do teu abraço,

A me envolver,

Confortando-me em teu regaço.

Sei que é um pedido nada a ver,

Pois entre nós não há nenhum laço,

Sabia, contudo, que andava a me querer,

Surpreendeu-me, assim, seu embaraço.

Achava que naquele momento fosse ser

Um tanto mais devasso…

Volto já

Queria muito poder dizer-lhe.
Com todas as letras, explicar-lhe,
Mas você me interrompe todas as vezes que eu lhe
Peço a palavra, e assim atiça o meu cansaço.
Desse jeito não dá, sinto-me um bagaço.
Cansei de lutar, não sou um palhaço.
Vamos logo esse assunto encerrar,
Mas antes preciso ir ao banheiro.
Essa conversa parece ter me tomado o tempo de um dia inteiro.
Quando voltar, quero poder falar,
Nem que seja pra simplesmente dizer… ah, sei lá:
Com a bexiga cheia não consigo pensar.
Falamos quando eu voltar.
Vou até ali, volto já.

Na calada do dia

Na calada do dia, ela caminhava,
Sob o sol do meio-dia, sol a pino,
Que não só a aquecia, como também ardia, queimava.
Seu corpo enfraquecia, sua alma alquebrava.
Ainda assim, seguia, continuava.
Não havia alternativa: de seu destino era escrava.
Quando lhe perguntavam pra onde ia, não respondia, apenas baixava a cabeça e chorava
Lágrimas que mal chegavam a ver o dia, pois assim que nasciam em seus olhos, a dureza de sua condição logo as secava.
Mais tarde, sem forças, viu-se caída no chão, vazia de vida.
A sua acabava ali, enquanto o mundo ao redor girava,
Indiferente a mais essa morte,
A morte de mais uma trava.

Depois da tempestade vem a calmaria

A tempestade nem bem terminara, quando Maria entrou pela porta do apartamento toda trôpega — por pouco não deu com a cara no chão após tropeçar com desengonço no capacho da soleira. Estava aflita: seu rosto, de tão pálido, parecia o caule de um broto de feijão. O olhar perdido vagava sem rumo pela sala como uma alma penada, sem se fixar em ponto nenhum — parecia vir de uma longa e dolorosa peregrinação à beira do abismo da morte.

Vendo-a assim chegar, sua companheira, com quem dividia o apartamento, assustada, correu para acudi-la – “Calma, Maria!”, gritou Socorro.

Oferenda

De manhã bem cedo, ainda estava escuro, pois o sol nem bem chegara a raiar.
Sob um céu sem nuvens, com apenas alguns resquícios da luz do luar,
Ela foi vista, toda de branco, a depositar, sobre a areia da praia, um alguidar.
Dentro dele, frutas e flores compunham uma oferenda para a deusa do mar,
Que, depois, o vai e vem das ondas, de um modo que aqui não cabe explorar,
Cuidaria de fazer à sua destinatária, algum dia – quem sabe –, chegar.
Ali ela permaneceria, assim nos contam aqueles que a viram, até que os primeiros raios do sol começassem a desabrochar.
Foi então que ela se levantou e foi trabalhar, pois tinha hora certa para chegar,
E se chegasse atrasada, o tempo com a patroa iria fechar.
Pensou: um dia hei de ganhar na loteria e essa vida deixar, mas, por ora, melhor não arriscar.

Traidora

Você sabia desde o início, Por que não me disse nada? Teria me poupado de sofrer tanta dor, tanta mágoa, Há anos eu tantas lágrimas não derramava, Fiquei surpreso e triste, muito triste, naquele dia em que descobri que você me chifrava, Não pela traição em si, Não, isso por si só não seria nada, Eu superava, Mas por saber que, ao contrário do que comigo se dava, fazendo amor com ele, você gozava.

O menino de rua

Um menino de rua, ingênuo e frágil como um barquinho de papel,

Destes cujo formato muito nos faz lembrar a imagem de um chapéu.

Sonhava conhecer o mundo, vagando livre como um pássaro no céu.

Mas tinha que se resignar à dura e fria rotina da sua existência cruel,

Que talhava cicatrizes sobre sua alma e corpo, cortante como cinzel.

Alegria

Nem toda poesia do mundo caberia

                                                  [nestes versos.

Nem precisaria…

Pois tudo que quero ver expresso

Aqui — nisso não há dilema —

É uma singela alegria: a alegria de escrever este poema.

O silêncio de Maria

Era um homem muito quieto, desses cujo som da voz ninguém nunca ouvia, Quando perguntado a respeito de algo, apenas com resmungos respondia, no que o interlocutor ficava sem saber se aquilo significava um consentia ou dissentia, De onde ele era, ninguém sabia, Vivia ali na praça da Matriz, onde passava seus dias, a olhar em direção ao nada, até desviar o olhar quando alguém ao seu lado aparecia, Não falavam nada, quando muito apenas uma troca de olhares desconfiados surgia, A uns, sua figura causava repulsa, antipatia; para outros, uma minoria, ele era uma figura cheia de simpatia, Comia o que lhe davam, ali mesmo dormia, e assim sua vida seguia, Só se mexia para procurar uma sombra, fugindo do sol do meio-dia, e pra atender aos chamados da natureza, no banheiro nos fundos da padaria, Em troca desse favor, ao dono oferecia os préstimos de deixar o local sempre muito limpo: aquilo de fato reluzia, Aos domingos, chegada a hora da eucaristia, tentava adentrar a nave da igreja, mas o padre nunca o permitia: seus trajes eram rotos demais, seu corpo fedia, e aquele era um lugar sagrado, — Deus lá em cima tudo via, e respeito exigia! assim o padre, em tom severo, o advertia, Seu verdadeiro nome ninguém sabia, Para todos, ela era apenas mais um desses que da vida se perdia, a vagar pelo mundo, vivendo sem futuro, o dia após dia, Numa manhã fria, a bruma ainda espessa, nada se via, ele tremia, em vão se encolhia, foi quando uma jornalista, jovem mocinha judia, que, por não frequentar a eucaristia, nem dele sabia, apareceu, e quis saber de sua história, Ela precisava de uma matéria para encher a pauta do jornaleco “O Dia”, um jornal que, apesar do nome, era semanal: a cidade, de tão pequena, não tinha notícia pra encher página todo dia, A jovem jornalista era jeitosa, toda sorrisos e simpatia, e assim conseguiu o que queria, A entrevista correu bem, quem diria! E terminaria a tempo de ela ainda passar no banco e pagar uma conta que naquele dia vencia, Para concluir, ao indagar-lhe o nome, ele respondeu-lhe “Maria”, Ante tal resposta, surpresa, sem nada entender, assim ela permanecia, mas pensou: — Com essa descoberta, minha entrevista vai finalmente ser capa de “O Dia”, Assim sonhava acordada, em plena luz do dia, Quando a matéria saiu, a cidade ficou em polvorosa, todos a perguntar como algo assim podia: um homem chamar-se Maria!? Até então, ninguém notara sua androginia, A polícia foi chamada, e o pobre Maria foi levado para a delegacia, onde, por quanto fosse interrogado, nada respondia, O delegado, com medo do que a opinião pública a respeito diria, mandou silenciar Maria, Um médico fora chamado para atestar que se tratava de morte natural, nada de mais, O doutor era homem de família, ninguém na cidade ousaria por em dúvida sua conclusão sobre o fim de Maria – ninguém nem sequer sobre isso discutia, O silêncio coletivo imperava, No íntimo, pensavam aliviados: — Restabeleceu-se a ordem que Deus queria, No dia seguinte, a cidadezinha voltaria à pacata rotina de seu dia a dia, Deram pela falta de Maria apenas na padaria: o banheiro não mais reluzia.

Benedito Calixto

Recordo-me exatamente do texto do cartão que, dentro de um envelope, colado ao papel crepom que embalava o presente, entreguei a você nesta mesma data há exatamente um ano, mas não consigo me lembrar do presente em si, Talvez por que este tenha sido um simples pretexto para que as palavras escritas naquele cartão (uma carta, para ser mais preciso) chegassem até você, Tínhamos acabado de terminar nossa relação – por iniciativa sua –, e eu ainda estava naquilo que as pessoas chamam de período de luto, Nunca gostei de adotar essa palavra para esse tipo de situação – para mim, luto diz respeito ao sentimento de pesar pela morte de alguém e você não tinha morrido: tínhamos apenas nos separado, Você seguiu seus caminhos; eu segui os meus, Nossas histórias, que antes eram comuns em muitos pontos, como que escritas por uma mesma mão, em uma mesma folha de papel, passaram a seguir enredos absolutamente separados e independentes, Num instante, você era parte de minha vida, e eu da sua – dormíamos e acordávamos juntos, saíamos para jantar, ir ao cinema, ao teatro, freqüentávamos nossos amigos… –, no instante seguinte, seríamos um para o outro apenas espectros de um passado, vislumbrado apenas pelas nossas memórias, à maneira da luz da lanterna de um guarda noturno que vigia uma estação de trem durante a madrugada, encontrando pelo chão restos da vida que transcorrera ali durante o dia, Desde então, e até hoje, nunca mais soube de você – evitei de todas as formas frequentar os mesmos lugares a que íamos juntos: tinha pânico só de me imaginar em qualquer um deles sem você, Assim agi durante esse último ano todo, Você pode pensar que foi loucura de minha parte, no que estaria coberto de razão, Demorei a me convencer de que estava mesmo cometendo uma loucura vivendo dessa forma, Eu estava me privando daquilo que para mim é uma das coisas mais valiosas da vida: minha liberdade, Sim, minha liberdade de poder ir a qualquer lugar – qualquer mesmo –, quando bem entendesse, a meu livre e exclusivo alvitre, Essa liberdade viu-se surrupiada de mim por todo esse período, Só hoje, enquanto fazia uma limpeza de gavetas lá em casa, que decidi me livrar da cópia xerográfica daquela carta, rasgando-a em pedacinhos, não sem antes fazer uma última leitura de seu teor, o qual eu quase trazia de cor, tantas vezes eu o lera, Acho que foi a primeira vez que li aquelas palavras sem que meus olhos nem sequer marejassem, Quando escrevi a carta – e levei dois dias (um sábado e um domingo) para escrevê-la –, chorei sem parar: cada palavra parecia extrair de mim emoções tão profundas quanto dolorosas, A pior de todas era a solidão do abandono, da rejeição, por pouco, muito pouco, eu diria, não entrei em depressão (ou entrei?), Lembro-me que dois meses depois daquele dia, eu estava numa mesa de bar, rodeado de amigos, e simplesmente não emitia uma palavra, estava ali, mas não estava, estava em corpo, mas não estava em alma, Olhava para todos ao meu redor falando, falando, e eu nada ouvia, imerso em uma melancolia de nevoeiro sobre um lago no inverno, absorto em meus pensamentos, que por sua vez estavam a repetir, em um frenético e incontrolável flashback, aquele momento em que me convidara para um café, apenas como pretexto, como fui saber depois, para dizer-me que não me amava mais e que nossa história pararia ali – era uma sexta-feira, Naquela noite não dormi, por mais que me dopasse, o nervosismo parecia anular o efeito do sonífero, Passei a noite toda sentado no sofá da sala, olhando para o nada, chorando e rememorando aquele momento, Comecei a escrever a carta quando o sábado nem bem tinha amanhecido, só parava para ir ao banheiro e comer – nada mais, E assim segui pela noite de sábado afora até a madrugada do domingo, quando enfim parei e consegui adormecer, No domingo à tarde, quando despertei, parecia que tudo aquilo tinha sido um pesadelo, mas não tinha, E fui dar-me conta disso quando vi aquelas dez folhas da carta manuscrita ali ao meu lado na cama, Eram a prova física, material, da dor emocional que eu vivera na real, não em sonho, Minha cabeça doía como se tivesse sido batida repetidamente e com força sobre uma eira, Acordei naquele dia e, além de “reaprender a andar” – como faço todos os dias dado que não sou uma pessoa matutina –, tive que aceitar que tudo aquilo tinha de fato ocorrido, e que pela frente eu teria então que me deparar com um colossal exercício de superação: eu teria que reaprender a viver, ser feliz, amar…, E para todo esse reaprendizado levei um ano, (As borboletas dentro da lata de ervilha Jurema estão mortas.), Não saberia mensurar quanto cresci emocionalmente com esse episódio – bem verdade que nem saberia dizer se isso foi ou é possível, Quero crer que nem tudo foram perdas, que eu cresci, amadureci, mas isso é apenas uma suposição – otimista, Foi um ano em que minha vida transcorreu como a melancolia solitária de um quadro de Edward Hopper, Felizmente, hoje tudo isso é passado, embora seja um passado que ficará por um tempo (a vida toda?) incrustado em meu ser como um nicho, fechado a partir do momento em que rasgara a cópia daquela carta, E cá estou, diante de você, Não, não vim aqui pedir para voltarmos, ou coisa do tipo – nada disso, Não sou louco a esse ponto, Vim apenas para pedir-lhe a via original da carta, caso ainda a tenha, Ela guarda manchas das minhas lágrimas, coisa que a cópia não tinha – pelo menos não nitidamente, Gostaria de emoldurá-la em um quadro e pendurá-la em um espaço que tenho ainda vazio na parede da parede do quarto, Encontrei uma moldura linda outro dia naquele mercado de pulgas ali da praça Benedito Calixto, e logo pensei que essa carta seria ideal para preenchê-la, à maneira de um quadro desses de naturezas mortas.

Semblante

Olho seu semblante,
E nele vejo refletido o peso
Da eternidade presa
À dor daquele instante.

Em seus sulcos, meus dedos lêem
O sofrimento pungente
De uma mágoa ingente
Que, do perdão descrente,
Nega-se a seguir em frente.

Veementemente…

O silêncio falou mais alto

Era sempre assim: quando eu falava A, ele entendia Bê. Daí decidi lançar mão do Cê, e ele me veio com um “o quê?”. Tentei então a língua do Pê…, pra quê! Levou pro lado pessoal. A linguagem dos sinais foi mais uma que, em vã tentativa, viu-se frustrada: na mistura com nossas cicatrizes, acabou toda borrada. Estávamos tão cegos, que nem em Braille conseguíamos nos “ler”: pura cegueira emocional, vai ver. Teria esperança no esperanto, mas como?, se nem o inglês teve vez. Queríamos virar a página, mas antes teríamos de estar na mesma…, e não estávamos.
A linguagem corporal, como era de se esperar, logo veio pedir a palavra pra nosso cansaço denunciar. Não tardou, a partir daí, para que, enfim adormecidos, finalmente nos calássemos.

O Inferno

Hoje está um dia de cão.

Olho ao meu redor

e noto que todos parecem latir,

sejam cachorros ou não.

Hoje está um dia sombrio.

Olho em minha volta

e vejo que todos caminham,

soturnos e sem brio.

Hoje está um dia daqueles.

Olho para todos os lados

e me encontro sempre sem saída,

envolto entre quatro paredes.

Hoje está um dia corrido.

Olho à minha frente

e não vejo o futuro (não dá tempo),

pois este corre e rápido vira presente,

vindo ao meu encontro esbaforido.

Hoje o dia está estressante.

Olho pra cima, pra baixo, pra trás,

e não vislumbro outro cenário

que não um inferno de Dante.

Hoje o dia não está prosa…

Uma proeza ainda vir à tona este poema.

aPesares

aPesar dos…
aPáticos
Padres
Pastores
Pedantes
Pedintes
emPecilhos
Pêsames
Pesos
troPicões
Pisões
Políticos
Poréns
Powerpoints
Pressões e oPressões
oPróbios
Profetas
Puns
Pústulas
Pusilânimes
Puta-que-o-pariu
… acordei Pra-lá-de-bem!

Vidas

Vidas sofridas

Esperanças atropeladas

Horizontes estreitos

Como calçadas de uma grande avenida

Onde só passam carros

Não passa gente

Indigente não passa

Passa, cachorro!

Vidas rasas

Como riachos que dão pé

Mas que são secos de vida

Vida à base de fé

Em que o fel é sagrado

Cobre a vida

Como um telhado

Que não protege das intempéries

Vidas em série

Que seguem cegas

Pra morte

Morte que apaga

Vidas sem luz

Como uma gare vazia

Alta madrugada

Numa noite fria.

O artista

Agradava-lhe caminhar pela manhã e sentir a luz do sol, os cheiros, ouvir os sons ainda frescos de um dia ainda jovem. Isso de certa forma o fazia relembrar do tempo em que ele mesmo era jovem.

Ao caminhar, seu passos firmes faziam vibrar todo o seu corpo, alcançando certa harmonia com os batimentos de seu coração. Raimundo sentia-se vivo depois de passar tantos anos 

(já não se lembrava mais quantos)

preso em uma sela, imunda, suja, escura e superlotada, onde as vidas, apesar de numerosas, tinham quase nada de valor.

Ele fora parar ali depois de ser detido enquanto cantava para alguns transeuntes, em uma das esquinas do Viaduto do Chá. Acusado de “artista”, sem direito a se defender ante as provas evidentes a respeito de seu crime, naquele mesmo dia foi enjaulado e, desde então, passou a viver naquela prisão, só vindo a ver-se enfim livre muitos anos 

(já não se lembrava mais quantos)

depois, quando já não mais conseguia cantar: deixara de ser aquele artista que antes encantava com sua música as pessoas simples com quem cruzava pelas ruas do centro da cidade. Só lhe restava o estado miserável de quem toda a humanidade fora extraída: não era mais um homem, apenas um homem a mais.

No finalzinho da tarde, depois de passar o dia a perambular sem rumo pela cidade, catando comida entre restos que encontrava nas lixeiras, Raimundo parava em um bar qualquer. Sentava-se sozinho, ao balcão ou à mesa, e pedia uma caninha. Para ele, beber era como uma reza.

Depois da primeira, pedia outra, e então mais outra, e outra, até que a embriaguez lhe jogasse ao chão, e depois disso ele acabava sendo expulso do bar, atirado à calçada. Com sorte, isso ocorria sem que apanhasse, fosse xingado. Raimundo não era propriamente um homem de sorte.

Na manhã seguinte, tão logo acordava, punha-se novamente a caminhar, caminhar, caminhar, sem olhar para trás.

Certa manhã, por volta das 11 horas, enquanto ainda caminhava, cruzou com uma sombra pelo caminho. Ela se dirigiu a ele e lhe disse algo que Raimundo não entendeu bem. Só compreendera algumas poucas palavras do que ela lhe dissera e, dessas poucas, esqueceu-se de todas, de modo que era como se a sombra nada lhe tivesse dito. Mas ficou em sua lembrança o sorriso da sombra: a única parte dela que podia de fato ser vista, já que todo o resto era um breu só. A sombra tinha um sorriso maroto

(traiçoeiro talvez)

que convidava Raimundo a, com ela, também sorrir, o que Raimundo não fez por falta de prática. 

Desde que fora preso, e mesmo depois de solto, Raimundo adotara uma feição grave, demasiado séria, pouco afeita a distrações, uma vez que estas passaram a ser sinônimo de aberturas para agressões de todo tipo. O rosto carrancudo era-lhe, portanto, uma forma de defesa.

– Não se pode baixar a guarda aqui.

Alertou-lhe, certa vez, um colega da prisão, quando percebeu que um grupo se aproximava dele a fim de espancá-lo. Daquela vez escapou. De outras tantas, não.

Outro dia a sombra apareceu diante dele mais uma vez, um pouco mais tarde que quando da primeira vez. Tinha no rosto aquele mesmo sorriso maroto

(traiçoeiro talvez)

a convidar Raimundo para também sorrir. Cansado e sedento por causa da caminhada, ele acabou seduzido por aquele sorriso, pois viu nele um copo d’água fresca a que lhe era oferecido. Não resistiu e bebeu.

Na manhã seguinte, não caminhou.

Encontros e desencontros

Ao avistar-me ao longe,
sozinho, naquela calçada deserta,
iluminada apenas pela luz incerta
de uma noite enluarada,
mas parcialmente encoberta,
correu ao meu encontro,
para abraçar-me, desmanchando-se em prantos,
saudosa estava de meu calor, meus acalantos.
Há meses não nos víamos, não nos falávamos,
tão abatidos estávamos por um longo histórico de desencontros.
Brigas e que tais,
pelos motivos os mais banais.
Mas ali, como que por encanto,
finalmente nos vimos prontos para nos perdoarmos,
e, felizes, despedirmo-nos um do outro de vez — e ponto.

Tem coisa que só sai da gente por escrito

Todas as tardes, ela caminhava até a porta da sala e, de cara para a rua, punha-se a picotar as cartas que trazia em uma sacola plástica, dessas de supermercado. Dali daquela porta, ficava a lançar os pedacinhos das cartas sobre a calçada, até que, ao modo das folhas do outono, eles cobrissem todo o trecho em frente ao sobrado onde morava.

Não eram cartas quaisquer que Aurora picotava, eram cartas de amor, dezenas delas, acumuladas ao longo de toda uma vida. Cartas que carregavam desabafos, angústias, ansiedades, ódios e, também, muitos amores, estes não raramente ornamentados com corações desenhados com canetinha hidrocor vermelha, a destacar os diversos

“eu te amo”

ou mesmo os

“sinto sua falta”

e até os

“não sei viver sem você”

com que ela preenchia aquelas cartas.

Com canetinhas de outras cores, ela pintava as letras dos

“eu te odeio”

ou

“nunca mais quero te ver”

e os ainda mais definitivos

“suma da minha vida”.

Na verdade, nem sempre tão definitivos, pois muitos desses

“suma da minha vida”

foram depois seguidos de reconciliações, que, uma vez concretizadas, punham em marcha novos ciclos de

“eu te amo”

e

“sinto sua falta”

e

“não sei viver sem você”

sempre ornamentados com corações desenhados com canetinha hidrocor vermelha.

Aurora colecionava essas cartas desde a mais tenra adolescência, quando sua letra ainda era de

– Menininha.

como dizia sua mãe, ao revisar suas tarefas escolares, a fim de garantir que a filha fosse sempre a primeira da classe, missão que sua mãe conseguira bem cumprir apenas enquanto Aurora foi de fato uma

– Menininha.

Fase que terminou quando, já desinteressada dos estudos, Aurora escreveu sua primeira carta de amor ao menino, loiro, que à época tinha a mesma idade dela, e cuja família se mudara, dias antes, para o sobrado vizinho.

O sobrado estava até então vazio, pois sua antiga e única moradora, Dona Sônia, que ali residira por todos os seus últimos dias, sozinha, havia falecido de causas naturais, repentinamente, caindo ao chão como um passarinho que, de uma hora para a outra, vê-se sem asas em pleno voo.

Foi Dona Sônia que ensinara Aurora a escrever cartas de amor. Dizia-lhe sempre:

– Tem coisa que só sai da gente por escrito.

Ensinamento que guiou Aurora por todas as vezes em que se punha a escrever suas cartinhas, as quais, pouco depois de completar 80 anos, trazendo na pele da alma as muitas feridas de amores passados, desesperançada de um dia poder voltar a amar alguém e sozinha no mundo como Dona Sônia vivera antes de morrer, passou a picotar, jogando os pedacinhos, pequenos como confetes, por sobre a calçada, vez ou outra atingindo algum pedestre que por ali passava bem nesse momento.

Ninguém entendia a razão por que Aurora, todas as tardes, desde completar seus 80 anos, vinha cumprindo esse ritual de picotar as cartas de amor que tão zelosamente guardara ao longo dos anos, todas elas escritas de próprio punho e nunca enviadas aos seus destinatários.

(dos quais Aurora nunca recebeu carta nenhuma)

Certa vez, questionada por uma vizinha sobre o porquê daquele gesto, Aurora deu de ombros e respondeu simplesmente:

– Estavam a juntar traças dentro de casa.

E seguiu picotando as cartas e jogando à calçada os seus pedacinhos, tão pequenininhos que, ainda que fossem colados de volta, não garantiriam o retorno da carta à sua legibilidade de origem.

– Tem coisa que só sai da gente por escrito.

Ensinava-lhe Dona Sônia – uma lição que Aurora bem apreendeu.

Por outro lado, a vida lhe ensinara que outras coisas só saem da gente quando de fato as destruímos e jogamos fora, muitas vezes nos deixando em pedacinhos.