Saramandaia

Sentia-se nada bem com a triste notícia que acabara de receber: sua mãe informara-lhe que não poderia comparecer ao seu tão aguardado casamento, que ocorreria dali a três semanas. A mensagem de voz deixada pela mãe de Diamantina no telefone era clara– Não poderei ir ao seu casamento

na parte em que dizia sobre a impossibilidade de ir à cerimônia, mas imprecisa 

– Sinto muito, minha filha. Te amo

no tocante às razões para tal impedimento.

Diamantina ouviu a mensagem logo pela manhã, pouco antes de sair para o trabalho. Ouviu-a repetidas vezes

(não acreditava no que ouvia)

enquanto penteava-se diante do espelho, já vestida no uniforme branco com que passaria o dia todo a caminhar pelas ruas do bairro e adjacências, puxando um carrinho refrigerado pelas mãos, para vender seus Yakults.

A mãe não voltou a ligar mais, e todas as vezes que Diamantina ligava para ela, caía em caixa postal. Diamantina começou a ficar cabreira, preocupada com o que poderia ter acontecido à sua mãe, que morava sozinha, numa pequena casa, distante uns trinta quilômetros, no outro extremo da cidade.

Depois de passar a semana toda sem conseguir falar com sua mãe, Diamantina resolveu, num domingo bem cedo

(seu dia de folga)

pegar um ônibus e ir visitá-la. Lá chegando, depois de quase duas horas de viagem, em um ônibus velho, sem refrigeração e lotado, encontrou a casa de sua infância exatamente como era naqueles tempos idos, exceto por um detalhe: uma placa, ao lado do portão, anunciava

VENDEM-SE SACOLÉS

em letras garrafais, escritas com giz, e logo abaixo vinha a lista dos sabores

morango, abacaxi, limão e saramandaia

Diamantina não sabia dizer se o que lhe causava mais estranheza era a presença daquela placa em si ou o anunciado sabor de saramandaia… ou os dois. Tocou a campainha e nada, bateu palmas e nada, chamou por sua mãe e nada.

Já estava para ir embora quando uma voz, que lhe pareceu familiar, chamou-a da casa vizinha

– Ô Diamantina!

Era Dona Isaura

(Isaura, a Tiranossaura, como as crianças a chamavam na época, em referência à pele grossa de Dona Isaura e a seus modos um tanto brutos de andar, comer, falar)

– Ô Dona Isaura. Quanto tempo!

respondeu Diamantina, enquanto observava, um tanto espantada, a mulher corpulenta aproximar-se

(a pele dela parecia ainda mais grossa depois de tantos anos, e estava bastante enrugada)

– Está procurando por sua mãe?

quis saber Dona Isaura.

– Estou sim. Estou preocupada com o sumiço dela.

frisou Diamantina.

– Ela deve estar com cliente, por isso não respondeu.

Diamantina não havia entendido nada sobre aquela história de sua mãe estar com um cliente, e por isso não poder tê-la recebido, nem sequer atendido. Percebendo o olhar perdido de Diamantina, deixando entrever claramente que ela não havia entendido patavinas, Dona Isaura chamou-a para entrar e tomar um café: queria explicar-lhe tudo a respeito de sua mãe.

– Aceito

disse-lhe Diamantina. No portão de entrada da casa de Dona Isaura, também havia, isso Diamantina notou, uma placa onde lia-se

VENDEM-SE SACOLÉS 

seguida da mesma sequência de sabores que ela tinha visto na placa ao lado do portão da casa de sua mãe, inclusive o sabor de saramandaia.

Já lá dentro da casa de Dona Isaura

– Sente-se aí nessa poltrona e fique à vontade, enquanto eu vou passar um café quentinho para tomarmos. Diamantina sentou-se sobre uma enorme poltrona, bastante apropriada para o corpo avantajado de Dona Isaura e ficou ali, esperando, naquela sala que parecia ter mantido o mesmo cheiro de Leite de Rosas dos seus dias de infância, quando, de vez em quando, iam ela e sua mãe ali tomar um café e papear com Dona Isaura. A sala ainda mantinha a mesma decoração daquela época, com dezenas de bibelôs de louça a encimar a mesa de centro, as mesas laterais e as prateleiras da estante. Aparentemente, nenhum deles tinha se perdido, ao contrário de tanta gente que passara pela vida de Diamantina, muitos que, ao longo dos anos, morreram de fato ou foram mortos pela ausência ou pelo esquecimento. Tudo levava a crer, pensou Diamantina, que os bibelôs eram mais longevos que os humanos. Vai ver são mesmo até eternos, disse baixinho e suspirou.

Um inebriante cheiro de café recém coado começou a invadir a sala onde Diamantina estava. Vinha misturado ao de bolinhos de chuva. 

Não demorou muito, Dona Isaura chegou na sala trazendo nas mãos uma bandeja, e sobre esta um bule de ágata azul, de cujo bico saía uma fumaça a indicar que o café estava bem quente. Ao lado do bule, equilibrando-se sobre a bandeja, um prato grande, fundo, cheio até a borda de fumegantes bolinhos de chuva. A mulher corpulenta colocou, de maneira um tanto abrupta, a bandeja sobre a mesinha de centro 

(quase derrubando os bibelôs que lá estavam)

e, enquanto servia a sua convidada, foi-lhe contanto a respeito de Dona Isoldinha, a mãe de Diamantina

– Sua mãe, Dona Isoldinha, andou uns tempos muito angustiada, minha filha. O dinheiro da aposentadoria já não estava dando mais para ela pagar nem o básico do mercado. 

Enquanto ouvia, Diamantina, faminta como estava, ia comendo um bolinho de chuva atrás do outro, vez em quando molhando a boca com café, para ajudar a engoli-los.

– Eu sei o que é passar pelo que ela, sua mãe, passou, pois vivi o mesmo. A mesma pindaíba, talvez até pior

confessou-lhe Dona Isaura.

Então Isaura fez uma breve pausa, tomou um gole de café, jogou um bolinho de chuva garganta adentro, quase inteiro, sem mastigar, engolindo-o do modo como um pelicano engole um peixe, e prosseguiu dizendo

– Certo dia, estávamos eu e sua mãe sentadas aqui nesta sala, assim como estou hoje aqui com você, e de repente ocorreu-nos uma ideia para ajudar no pagamento das contas.

– Os sacolés?

Perguntou-lhe Diamantina, interrompendo a narrativa de Dona Isaura.

– Sim, os sacolés

Isaura respondeu-lhe e continuou

– Mas com o tempo, fomos vendo que o dinheiro que entrava com a venda dos sacolés mal cobria as despesas de seu preparo. Foi então que sua mãe apareceu com uma nova ideia que, apesar de ter-me causado grande resistência no começo, revelou-se com o tempo a única solução à mão para continuarmos sobrevivendo nessa terra de ninguém, com nossas aposentadorias minguadas, que vez ou outra o governo ainda atrasa para pagar.

Enquanto Dona Isaura seguia contando a história, a curiosidade de Diamantina só se fazia crescer cada vez mais e mais.

– Foi aí que surgiu a ideia da saramandaia

concluiu Dona Isaura, acreditando, pelo visto, que Diamantina já sabia o que isso significava. Mas Diamantina não tinha ideia do que a tal saramandaia vinha a ser, e já não se aguentando de curiosidade enfim perguntou 

– Mas Dona Isaura, o que é essa saramandaia?

Surpreendida pela questão, Dona Isaura bebeu dois goles de café, finalizando o que tinha na sua xícara, olhou para os bibelôs sobre a mesa de centro, e então, voltando os olhos para Diamantina, respondeu

– Saramandaia é o código que eu e sua mãe adotamos para atendermos aqueles clientes, homens feitos mas também alguns adolescentes, que vêm bater à nossa porta, a procurar não por sacolés, mas por companhia feminina.

– Quer dizer que vocês fazem programas, como prostitutas?

perguntou-lhe uma incrédula Diamantina, já fazendo um movimento para levantar-se da poltrona.

– Digamos que sim

respondeu Dona Isaura.

E levando as mãos à cabeça, Diamantina exclamou, lívida

– Meu Deus!

e perguntou

– Como vocês podem fazer um negócio desses?

e então finalizou

– Que vergonha!

Dona Isaura acompanhava, impassível, o chilique de Diamantina. Estava acostumada a essas reações por parte de suas amigas e de seus familiares, quando lhes contava a respeito do que havia por trás do sabor de saramandaia. Não pensou que pudesse ser diferente com Diamantina, que vivera toda a sua infância e adolescência sob as mais rígidas regras morais e religiosas.

– E onde está minha mãe, Dona Isaura? Há dias eu a procuro, sem encontra-la em lugar nenhum. Nem tampouco consigo falar com ela.

Isaura pensou por alguns instantes e então respondeu

– Sua mãe tem te evitado pois vem sentindo-se muito constrangida de encará-la e, mais ainda, de ter de comparecer à cerimônia de seu casamento. Não por você em si, claro que não. Afinal você é filha dela e Deus sabe o quanto ela te ama.

– Se é assim, então qual foi o problema?

perguntou Diamantina, já demasiado angustiada pelas demoradas pausas que Dona Isaura fazia a cada palavra que pronunciava.

Pacientemente, mantendo as demoradas pausas entre as palavras, Dona Isaura então finalizou sua explicação 

– Não sei se é bem um problema, Diamantina. Fato é que sua mãe tem te evitado a todo custo porque, ao ver o nome de seu futuro marido no convite de casamento que você lhe enviara, percebeu que se tratava de um conhecido cliente nosso, grande apreciador dos sacolés sabor saramandaia.

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Dona Mirtes

No açougue, a primeira cliente do dia chega, puxando pela mão direita um carrinho de feira, vazio. Já diante do balcão, pede ao açougueiro:– Um quilo de qualquer coisa moída, por favor.

O açougueiro vira-se para ela e responde:

– Qualquer coisa não tem. Tem cochão mole, acém, filé mignon.

Ela pensa por alguns instantes e, em seguida, responde:

– Me vê então dois quilos do mais barato moído.

– Dona Mirtes

(esse era o nome dela)

– vou moer pra senhora dois quilos de patinho. 
O açougueiro propõe.

– Está bem.

Ela responde. 

Pouco depois, Dona Mirtes é vista saindo do açougue levando, dentro do carrinho de feira, um pacote de dois quilos de carne moída.

Ao chegar em casa, seus 20 gatos vieram recebê-la, entrelaçando-se por entre as pernas dela e miando alto de ansiedade: sabiam que aquela carne moída ela para eles.

Ela criava aqueles gatos para, com a carne deles, alimentar as piranhas que ela criava em um aquário, exposto na estante da sala, ao lado de uma imagem da Nossa Senhora Desatadora dos Nós.

Televisão

A vida dela era ali, em meio a suntuosas lojas de grifes internacionais, com seus letreiros dourados, sempre repletas das mais caras mercadorias, frequentadas por gente que, ao que sempre lhe parecera, tinha dinheiro de sobra, pois pagavam com gosto – sorrindo para as vendedoras e vendedores, que sorriram em resposta, ou vice-versa –, vultosas quantias pelas bolsas, sapatos, camisas, tênis, bolsas, cosméticos, bolsas, tudo meticulosamente exposto em vitrines glamurosas.A vida dela era ali, durante o dia, enquanto cumpria sua jornada de faxineira naquele luxuoso shopping center de um bairro tido por nobre da cidade de São Paulo.

Quando chegava à sua casa, onde morava ela mais o marido, já tarde da noite, depois de enfrentar mais de duas horas de trânsito e aperto no ônibus que tinha de tomar diariamente para ir e voltar do trabalho, a vida dela era bem diferente: na sua casa, apesar de seu marido ignorá-la, ela não era de todo invisível, tal como ocorria no shopping, pois a televisão estava sempre ligada à sua frente, a olhá-la, iluminando-a.

O mito de Selfie

Tinha acordado triste, sentindo-se pra baixo, a ponto até de faltar-lhe forças para levantar-se da cama. O rosto, todo amarfanhado, denunciava o estado de espírito, confirmado pelo olhar distante, quase ausente, perdido em meio a olheiras escuras e pesadas.Ainda assim, a fim de cumprir a obrigação de parecer feliz no Facebook, Selfie pegou uma caneta hidrocor, no estojo que tinha sobre a mesinha da cabeceira da cama, e, com ela, desenhou uma carinha feliz, à semelhança de um “smiley”, sobre sua nuca, toda ela desprovida de cabelos. Logo em seguida, fez uma “selfie” do desenho, como se fosse de seu próprio rosto, e postou.

Seus “amigos” acharam aquilo divertido. A foto chegou a umas cem curtidas em poucos minutos, e continuava a receber esses afagos virtuais até muitas horas depois. No mundo virtual, ninguém deu pela tristeza de Selfie no mundo real. A obrigação de parecer feliz no Facebook estava, portanto, cumprida. Ter de cumpri-la, contudo, só deixou Selfie ainda mais deprê.

A carta

Um São Sebastião de louça, crivado de flechas, com seus olhos vitrificados, dava as boas-vindas a quem chegasse à entrada do apartamento, depois de percorrer o longo, escuro e frio corredor, desde a saída do elevador, passando pelos impenetráveis olhos mágicos dos apartamentos vizinhos, que observavam, indiferentes, quem chegava e saía, do alto das muitas portas que haviam pelo caminho. Ao lado do santo, havia uma Comigo Ninguém Pode ressecada, plantada em um vaso de barro vermelho, esmaltado, trincado na vertical à semelhança de um coração partido. Sobre os cantos da porta do apartamento, fechada à chave, era possível ver algumas teias de aranha, a denunciarem que há muito tempo

(semanas… quiçá meses)

ninguém por ela entrava ou saía.

Um capacho de sisal sintético, surpreendentemente limpo e com as cores do arco-íris ainda vivas, impedia qualquer visitante de concluir que ali havia apenas sinais de abandono e tristeza.

Nenhum vizinho, nem os porteiros, tampouco o pessoal da limpeza do prédio sabia do paradeiro de quem ali teria vivido e cultivado aquele cenário à entrada daquele minúsculo apartamento, tipo quitinete. Naquele enorme condomínio, ninguém se olhava nem se via: os moradores eram invisíveis entre si. Viver ali era como estar sozinho numa multidão.

Certo dia, chamados pelo síndico – que andava cabreiro com as dívidas de condomínio daquela unidade que iam se acumulando –, os bombeiros arrombaram, sem grande esforço, a porta daquele apartamento. Lá dentro, a janela da sala, aberta e nua, deixava entrar uma brisa abafada, que trazia com ela muita poeira e fuligem, além de muito ruído: o apartamento era bem de frente para o Minhocão.

Os móveis eram escassos, havia apenas o suficiente para poder afirmar que um ser humano teria vivido ali. Na diminuta sala, conjugada com o quarto, o destaque era o pequeno sofá com a frente voltada para a janela, e encostado ao seu parapeito, sobre o qual, encoberto pela poeira, os bombeiros encontraram um envelope, e dentro dele uma carta. Dentro da carta, muita dor. Feita de dor, a caligrafia de uma despedida. Feita de despedidas, toda uma vida. Naquela carta, a despedida final.

Dona Tristinha

Ao ver o trem aproximar-se da plataforma, Dona Tristinha, num movimento reflexo, levantou o braço a fim de fazer sinal de parada, do mesmo modo como é comum fazermos no caso de um ônibus ou um táxi. Ali, na plataforma da estação de trem, lotada de gente, ninguém deu muita bola para o gesto inusitado daquela velha senhora, uma mulher comum, tão parecida com a avó de tantos por aí. Quem, por coincidência, costumava encontrá-la por ali, naquele mesmo horário, sempre no meio daquela multidão de anônimos, já estava acostumado a vê-la fazer isso sempre.Um outro hábito que faz Tristinha um tanto conhecida é aquele que ela adota ao encontrar uma comadre ou uma vizinha. Quando vai cumprimentá-las, em vez do costumeiro aperto de mãos e beijos no rosto, ela prefere virar a comadre ou vizinha de costas a fim de dar-lhes um cheiro no cangote. É quando então diz um

– Aahhh

Em sinal de clara satisfação, ou um

– Que horror!

bem alto

(apesar de sua voz bastante rouca)

em sinal de desaprovação.

A lista das excentricidades de Dona Tristinha não para por aí, é bastante longa. Ocuparíamos, de fato, demasiado espaço, para apontá-las todas aqui.

Tristinha, ou Cristina, como registra sua certidão de nascimento, é viúva e mora, ela mais sua gata, Ágata, em um diminuto apartamento de um grande condomínio no centro da cidade. Ali ela tem ultimamente vivido dias por certo muito tristes

(daí talvez o apelido que lhe deram)

pois os demais moradores não param de reclamar dela para o síndico. 

Para eles, os vizinhos de prédio de Tristinha, o comportamento daquela velha senhora ao entrar no elevador, sempre de bobes nos cabelos, é demasiado inaceitável, beira o ofensivo.

Ora, mas por quê? Perguntou-lhe outro dia, Adelaide, uma amiga de longa data.

Não, não tem nada a ver com os meus bobes, respondeu-lhe uma intrigada Tristinha, enquanto mastigava com gosto um bolinho de chuva quentinho, servido por Adelaide, durante o café da tarde.

O que realmente incomoda aquela gente, esclareço-lhes eu, é que, sempre que vai tomar o elevador, logo que a porta dele é aberta, Tristinha cumprimenta quem ela encontra lá dentro e sorri, em vão, esperando que, ora bolas, respondam o cumprimento e também sorriam. 

Mas, ignorando-a totalmente, todos continuam sempre em silêncio, ora com seus rostos voltados para o vazio, ora para seus celulares, o que, não raro, dá no mesmo.

Os pardais

Avó, mãe, esposa e filha: as quatro gerações femininas de uma mesma família de pardais aguardavam, pousadas uma ao lado da outra, à maneira de matrioskas, sobre um confuso emaranhado de fios do sistema de iluminação pública, bem em frente à delegacia de polícia. Estavam ali desde o mais tenro raiar do dia, aflitas por notícias de Pedro, o jovem pardal, neto da avó, filho da mãe, marido da esposa e pai da filha, que durante a madrugada fora trazido para aquele lugar, dentro do que elas não sabiam dizer se era uma gaiola ou um alçapão.Já quase enfim anoitecia, quando o delegado saiu da delegacia, em mangas de camisa, e foi dar a elas satisfação sobre o paradeiro do jovem pássaro. O delegado estava encharcado de suor, parecia angustiado, o que logo foi percebido pelas pardais como um sinal de que ele era portador de má notícia.

E foi de fato. 

Entre pios de tristeza, dolorosos de se ouvir, o delegado foi-lhes contando que Pedro morrera nas garras de um conhecido criminoso daquelas bandas.

– Quem matou meu filho? 

perguntou a avó.

– Não pode ser!

exclamou a mãe.

– O quê!?

indagou uma incrédula esposa.

Sem entender o que se passava ali, a filha apenas chorapiava, debaixo das asas da sua mãe, a esposa de Pedro, tornada então viúva.

Olhando-as firmes, como um estilingue prestes a atirar, o delegado, friamente, disparou

– Pedro morreu nas garras de Estado.

Este era o nome do assassino, praticante de crimes que passavam sempre impunes: um gato dado a maldades inomináveis com a vulnerável população de pardais.

Bom dia

Era sábado, bem cedo, o sol nem bem tinha nascido e já encontrávamos Seu Bondia acordado, fazendo seus alongamentos matinais ao lado da cama, de frente para a janela aberta do quarto. Mesmo nos finais de semana, a força do hábito o impedia de ficar dormindo até mais tarde. Logo mais, concluídos os alongamentos, também por imperativo do costume ele sairia de casa para ir à padaria da esquina, tomar um café preto acompanhado de um pão na chapa, e depois, dali, seguiria até a lotérica do bairro para fazer a sua tradicional fezinha de toda semana. Há anos, ele vem apostando sempre a mesma sequência de números; quando muito, acertou um ou outro, de forma isolada, nada portanto que lhe permitisse ver a cor de qualquer premiação, mesmo que mínima. A despeito dessa má sorte no jogo, sempre considerou-se um privilegiado na vida. Figura bastante conhecida e querida por todos na pequena cidade onde vive desde quando nasceu, Seu Bondia não passa um dia sequer sem receber um bom dia em dose dupla daqueles que cruzam com ele em suas caminhadas matutinas diárias pela cidade.– Bom dia, Seu Bondia.

Dizem, sempre que o encontram.

Helena 

Por debaixo da soleira da porta de entrada de seu apartamento, alguém fizera escorregar um envelope fechado, totalmente em branco, sem nenhuma referência a destinatário nem tampouco identificação de remetente. Dentro dele, uma folha branca de papel trazia colada bem ao centro uma letra H maiúscula, recortada em papel celofane vermelho, numa caligrafia bojuda de coração.
No segundo dia, no mesmo local, havia novamente um envelope idêntico ao primeiro, trazendo dentro uma folha de papel branca, então com a letra E maiúscula, também em celofane vermelho e com a caligrafia de coração, colada no meio da folha.
No dia seguinte, já o terceiro dia seguido, a letra
L
e assim por
E
diante
N
sempre um envelope por dia
A
contendo, cada um, uma única letra de papel celofane vermelho colada ao centro da folha que vinha dentro, as quais, juntas, alinhadas uma ao lado da outra por ordem de chegada, formavam o nome de H E L E N A, justamente o nome da moradora daquele apartamento.
Encucada, Helena pensou se não poderia ser o Seu Zé Maria, da loja de armarinhos, que estaria encaminhando aqueles envelopes a ela. Dia desses, quando Helena tinha ido até a loja dele pra comprar uns botões, notou que ele ficava olhando-a de rabo de olho enquanto ela explorava a pequena loja.

(ou será que aquele velho suspeitava que eu poderia estar a querer furtar alguma porcaria daquela loja dele?) 

Ou então, pensou melhor, vai ver é o Seu Nonô, da loja de bijuterias. Quando ela esteve lá na semana passada, buscando algo para dar à sua sobrinha de aniversário, viu expostas, sobre o balcão onde faziam as embalagens para presentes, umas folhas de papel celofane em muito similares àquele de que eram feitas as letras que vinham coladas ao papel dentro dos envelopes que andava recebendo, e além disso, o Seu Nonô há muito vinha mostrando-se interessado por ela, haja vista os generosos descontos que lhe concedia a cada bijuteria que Helena comprava na loja dele. Nenhuma das hipóteses sobre os dois, porém, oferecia elementos conclusivos sobre qual deles

(se é que algum deles)

estaria de fato enviando-lhe aqueles envelopes com as letras de papel celofane vermelho, com caligrafia bojuda de coração, coladas sobre a folha em branco que vinha dentro deles, formando o nome de Helena ao serem postas juntas, alinhadas uma ao lado da outra por ordem de chegada.

Helena, depois de receber essas misteriosas cartas, tem andado com a pulga atrás da orelha. Mal tem dormido pensando em quem pode ter sido o autor de tão curiosa, e ao mesmo tempo, para ela tão sedutora abordagem. Todos os dias, tem voltado do trabalho em passos ligeiros, ansiosa por chegar em casa e encontrar lá na soleira da porta o envelope que, enfim, daria um desfecho àquela história, revelando o mistério da identidade de seu admirador secreto.

(um futuro marido?)

Depois de quase uma vida toda dedicada, primeiro ao cuidado dos pais doentes e, depois que faleceram, ao cuidado do ex-marido alcoólatra, Helena havia-se esquecido de como cuidar de si mesma e, mais ainda, de ser cuidada por alguém. De ser, enfim, amada.

Passou-se uma semana sem que nenhum envelope daqueles fosse de novo entregue. Os envelopes que Helena encontrava depositados na soleira da porta, então, eram apenas aqueles das contas do mês, que religiosamente vinham atracar por ali por volta do dia 27 e seguintes de cada mês.

Helena não escondia um certo sentimento de tristeza e abandono. No trabalho, a Rita, sua melhor amiga, notando a tristeza de Helena, andou perguntando-lhe o que é que é que há. Helena não responde, sai sempre pela tangente, tergiversa. Não quer contar a verdade à amiga, pois, no fundo, sente-se envergonhada do que anda sentindo e pensando.

Helena pensou num plano: depois de pagas as contas do mês, iria visitar a loja do Seu Zé Maria e também a do Seu Nonô. Arrumaria um pretexto para cada uma das visitas, apenas para esconder a real intenção: descobrir qual dos dois

(se é que algum dos dois)

estaria abordando-a com aquelas cartas, que para ela eram verdadeiras cartas de amor sob a forma de poesia concreta.

Nem foi preciso levar adiante esse plano: no segundo dia útil do mês, ao adentrar o apartamento, nos seus já costumeiros passos ligeiros, logo depois de abrir a porta, Helena encontrou caído sobre a soleira, um envelope fechado, totalmente em branco, sem nenhuma referência a destinatário nem tampouco identificação de remetente. Helena correu para dentro, fechou a porta à chave, sentou-se no sofá, diante da televisão já ligada na novela, e com as mãos trêmulas e suarentas

(e demasiado frias)

abriu o envelope.

Dentro dele, uma folha em branco, sem nenhuma letra de papel celofane vermelho colada ao centro. Mas, no lugar das letras escarlates, estava escrito seu nome

H E L E N A

em alto relevo, todo branco sob um fundo branco. Helena virou o papel e, no verso, viu uma mensagem que dizia: “dê uma chance ao branco”, e logo abaixo um logotipo que ela bem conhecia. Helena enfim deu-se conta de que todos aqueles envelopes que ela recebera, inclusive aquele que tinha em mãos, nada mais eram do que uma ação publicitária da marca de sabão em pó que ela costumava usar.

Esperança 

Dia sim, outro também, ele aparece na agência bancária para verificar o saldo de sua conta poupança. Seu Pereira, o titular da tal conta, tem feito isso todos os dias, exceto finais de semana e feriados bancários, há uns dois anos. Curiosamente, desde sua abertura, ainda naquela época, a conta nunca teve saldo nenhum. Os resultados que ele visualiza são portanto idênticos: todos zerados. Perguntado pela nova gerente, que assumira recentemente a agência, sobre a razão de assim agir, Seu Pereira, do alto de seus setenta anos, responde com sua voz miúda e sem muita delonga, que suas idas repetidas àquele banco para retirar um saldo de sua conta poupança zerada tem por único motivo seu objetivo, até então inconfessado e ainda por certo não realizado, de enfim ver concretizada a promessa de sua Esperança, que, segundo ele 

– Antes de desaparecer, prometeu-me que um dia depositaria um dinheirinho na minha poupança 

E já ficando com os olhos marejados, prosseguiu 

– Por isso venho aqui todos os dias 

E por fim completou 

– É por causa da promessa da minha Esperança 

Ao ouvir a inusitada resposta, a gerente olhou bem dentro dos olhos de Seu Pereira, fingindo empatia e compreensão. Por dentro, porém, ruminava uma enorme raiva. Tenho mais o que fazer, pensou. 

Então a gerente perguntou-lhe, um tanto impaciente 

– E onde está Dona Esperança? 

Em seguida, ofereceu-lhe um café 

– Aceita um café? 

Ela disse e ele respondeu, de bate e pronto, já agradecendo 

– Obrigado 

Seu Pereira ficou sentado ali, como se tivesse todo o tempo do mundo, sorvendo o café oferecido pela gerente. Parecia não ter ouvido, ou simplesmente ter esquecido a pergunta que ela lhe fizera, tão indiferente ele mostrava-se. 

Com um resto da pouca paciência que lhe restava, ela resolveu repetir a questão 

– Seu Pereira, quero muito ajudá-lo, mas preciso que pelo menos me diga onde está a Dona Esperança. 

Seu Pereira continuou a olhá-la em silêncio, enquanto terminava lentamente seu café. Foi ficando por ali bem mais do que a gerente, toda atarefada como estava, gostaria. 

Vendo que seria melhor deixá-lo em seu tempo, ela voltou aos seus afazeres. Vez ou outra, nas horas seguintes, enquanto digitava no computador ou atendia ao telefone, a gerente lançava um olhar furtivo, de rabo de olho, para ele, que por sua vez, ao notar o olhar dela, retribuía com um sorrisão largo e generoso. Algumas horas depois, já quase no horário de fechamento da agência, cansada de fazer sala para aquele senhor que não representava nenhum ganho para o banco, a gerente, então, levantando-se e pegando a sua bolsa, como quem já vai embora 

(essa era a intenção) 

lançou um 

– Seu Pereira, eu preciso ir pois a agência já vai fechar. O Senhor vem também? 

– Não 

Ele respondeu, laconicamente, e continuou ali como se nada tivesse acontecido, alheio a tudo ao seu redor. A gerente, então 

– Seu Pereira, estou ficando com muito medo do senhor 

E olhando sempre diretamente para ele 

– Muito, muito medo. Vou chamar os seguranças se o senhor não sair 

Seu Pereira, enfim deixando um pouco de lado o ar impassível, levantou-se calmamente, aprumou-se e disse à gerente, num tom seco 

– Tudo bem 

Sem contudo esconder sua frustração. 

E, em seguida, deixando claro que o medo que a gerente tinha dele não poderia vencer sua crença na promessa de sua Espernça, Seu Pereira ainda afirmou, para desespero da sua interlocutora 

– Volto amanhã. Até. 

Logo em seguida, sob olhar algo aliviado da gerente, ele virou-se e caminhou em direção à porta de saída da agência. Tão serenamente partiu, que era como se nunca tivesse estado por ali. 

No dia seguinte, ao contrário do que dissera à gerente do banco, Seu Pereira não apareceu na agência: enquanto aguardava, no ponto de parada, o ônibus que o levaria até o centro da cidade, onde ficava a agência, Seu Pereira viu, jogada num canto, dentro de uma caixa de papelão, uma filhotinha de cachorro, muito parecida com Esperança, a sua cadela, desaparecida há uns dois anos. Apiedado da pequena cachorrinha, Seu Pereira decidiu adotá-la ali mesmo. Pegou-a no colo e, emocionado, abraçou-a contra o seu peito. Foi aí que viu tratar-se na verdade de um cachorro e não de uma cadela. Batizou-o de Aperto no Peito. Seu Pereira via no cãozinho muito de sua Esperança. Para ele, era como se Esperança tivesse, por meio do Aperto no Peito, encontrado um meio de fazer-se ainda presente.

Quando lembra-se do episódio com Seu Pereira, a gerente do banco até hoje fica intrigada com a história que ouviu dele, da última vez que ele foi à agência. Ela ainda está convencida que a Esperança a que ele referiu-se naquele dia era a esposa dele, de Seu Pereira. Notando que ele não apareceu mais na agência 

(nunca mais ele voltou lá) 

por esses dias ela anda até com saudades daquele sorrisão farto dele. 

(ninguém nunca sorriu assim para ela) 

Esqueceu-se do medo.