Dona Mirtes

No açougue, a primeira cliente do dia chega, puxando pela mão direita um carrinho de feira, vazio. Já diante do balcão, pede ao açougueiro:– Um quilo de qualquer coisa moída, por favor.

O açougueiro vira-se para ela e responde:

– Qualquer coisa não tem. Tem cochão mole, acém, filé mignon.

Ela pensa por alguns instantes e, em seguida, responde:

– Me vê então dois quilos do mais barato moído.

– Dona Mirtes

(esse era o nome dela)

– vou moer pra senhora dois quilos de patinho. 
O açougueiro propõe.

– Está bem.

Ela responde. 

Pouco depois, Dona Mirtes é vista saindo do açougue levando, dentro do carrinho de feira, um pacote de dois quilos de carne moída.

Ao chegar em casa, seus 20 gatos vieram recebê-la, entrelaçando-se por entre as pernas dela e miando alto de ansiedade: sabiam que aquela carne moída ela para eles.

Ela criava aqueles gatos para, com a carne deles, alimentar as piranhas que ela criava em um aquário, exposto na estante da sala, ao lado de uma imagem da Nossa Senhora Desatadora dos Nós.

Televisão

A vida dela era ali, em meio a suntuosas lojas de grifes internacionais, com seus letreiros dourados, sempre repletas das mais caras mercadorias, frequentadas por gente que, ao que sempre lhe parecera, tinha dinheiro de sobra, pois pagavam com gosto – sorrindo para as vendedoras e vendedores, que sorriram em resposta, ou vice-versa –, vultosas quantias pelas bolsas, sapatos, camisas, tênis, bolsas, cosméticos, bolsas, tudo meticulosamente exposto em vitrines glamurosas.A vida dela era ali, durante o dia, enquanto cumpria sua jornada de faxineira naquele luxuoso shopping center de um bairro tido por nobre da cidade de São Paulo.

Quando chegava à sua casa, onde morava ela mais o marido, já tarde da noite, depois de enfrentar mais de duas horas de trânsito e aperto no ônibus que tinha de tomar diariamente para ir e voltar do trabalho, a vida dela era bem diferente: na sua casa, apesar de seu marido ignorá-la, ela não era de todo invisível, tal como ocorria no shopping, pois a televisão estava sempre ligada à sua frente, a olhá-la, iluminando-a.

O mito de Selfie

Tinha acordado triste, sentindo-se pra baixo, a ponto até de faltar-lhe forças para levantar-se da cama. O rosto, todo amarfanhado, denunciava o estado de espírito, confirmado pelo olhar distante, quase ausente, perdido em meio a olheiras escuras e pesadas.Ainda assim, a fim de cumprir a obrigação de parecer feliz no Facebook, Selfie pegou uma caneta hidrocor, no estojo que tinha sobre a mesinha da cabeceira da cama, e, com ela, desenhou uma carinha feliz, à semelhança de um “smiley”, sobre sua nuca, toda ela desprovida de cabelos. Logo em seguida, fez uma “selfie” do desenho, como se fosse de seu próprio rosto, e postou.

Seus “amigos” acharam aquilo divertido. A foto chegou a umas cem curtidas em poucos minutos, e continuava a receber esses afagos virtuais até muitas horas depois. No mundo virtual, ninguém deu pela tristeza de Selfie no mundo real. A obrigação de parecer feliz no Facebook estava, portanto, cumprida. Ter de cumpri-la, contudo, só deixou Selfie ainda mais deprê.

A carta

Um São Sebastião de louça, crivado de flechas, com seus olhos vitrificados, dava as boas-vindas a quem chegasse à entrada do apartamento, depois de percorrer o longo, escuro e frio corredor, desde a saída do elevador, passando pelos impenetráveis olhos mágicos dos apartamentos vizinhos, que observavam, indiferentes, quem chegava e saía, do alto das muitas portas que haviam pelo caminho. Ao lado do santo, havia uma Comigo Ninguém Pode ressecada, plantada em um vaso de barro vermelho, esmaltado, trincado na vertical à semelhança de um coração partido. Sobre os cantos da porta do apartamento, fechada à chave, era possível ver algumas teias de aranha, a denunciarem que há muito tempo

(semanas… quiçá meses)

ninguém por ela entrava ou saía.

Um capacho de sisal sintético, surpreendentemente limpo e com as cores do arco-íris ainda vivas, impedia qualquer visitante de concluir que ali havia apenas sinais de abandono e tristeza.

Nenhum vizinho, nem os porteiros, tampouco o pessoal da limpeza do prédio sabia do paradeiro de quem ali teria vivido e cultivado aquele cenário à entrada daquele minúsculo apartamento, tipo quitinete. Naquele enorme condomínio, ninguém se olhava nem se via: os moradores eram invisíveis entre si. Viver ali era como estar sozinho numa multidão.

Certo dia, chamados pelo síndico – que andava cabreiro com as dívidas de condomínio daquela unidade que iam se acumulando –, os bombeiros arrombaram, sem grande esforço, a porta daquele apartamento. Lá dentro, a janela da sala, aberta e nua, deixava entrar uma brisa abafada, que trazia com ela muita poeira e fuligem, além de muito ruído: o apartamento era bem de frente para o Minhocão.

Os móveis eram escassos, havia apenas o suficiente para poder afirmar que um ser humano teria vivido ali. Na diminuta sala, conjugada com o quarto, o destaque era o pequeno sofá com a frente voltada para a janela, e encostado ao seu parapeito, sobre o qual, encoberto pela poeira, os bombeiros encontraram um envelope, e dentro dele uma carta. Dentro da carta, muita dor. Feita de dor, a caligrafia de uma despedida. Feita de despedidas, toda uma vida. Naquela carta, a despedida final.

Dona Tristinha

Ao ver o trem aproximar-se da plataforma, Dona Tristinha, num movimento reflexo, levantou o braço a fim de fazer sinal de parada, do mesmo modo como é comum fazermos no caso de um ônibus ou um táxi. Ali, na plataforma da estação de trem, lotada de gente, ninguém deu muita bola para o gesto inusitado daquela velha senhora, uma mulher comum, tão parecida com a avó de tantos por aí. Quem, por coincidência, costumava encontrá-la por ali, naquele mesmo horário, sempre no meio daquela multidão de anônimos, já estava acostumado a vê-la fazer isso sempre.Um outro hábito que faz Tristinha um tanto conhecida é aquele que ela adota ao encontrar uma comadre ou uma vizinha. Quando vai cumprimentá-las, em vez do costumeiro aperto de mãos e beijos no rosto, ela prefere virar a comadre ou vizinha de costas a fim de dar-lhes um cheiro no cangote. É quando então diz um

– Aahhh

Em sinal de clara satisfação, ou um

– Que horror!

bem alto

(apesar de sua voz bastante rouca)

em sinal de desaprovação.

A lista das excentricidades de Dona Tristinha não para por aí, é bastante longa. Ocuparíamos, de fato, demasiado espaço, para apontá-las todas aqui.

Tristinha, ou Cristina, como registra sua certidão de nascimento, é viúva e mora, ela mais sua gata, Ágata, em um diminuto apartamento de um grande condomínio no centro da cidade. Ali ela tem ultimamente vivido dias por certo muito tristes

(daí talvez o apelido que lhe deram)

pois os demais moradores não param de reclamar dela para o síndico. 

Para eles, os vizinhos de prédio de Tristinha, o comportamento daquela velha senhora ao entrar no elevador, sempre de bobes nos cabelos, é demasiado inaceitável, beira o ofensivo.

Ora, mas por quê? Perguntou-lhe outro dia, Adelaide, uma amiga de longa data.

Não, não tem nada a ver com os meus bobes, respondeu-lhe uma intrigada Tristinha, enquanto mastigava com gosto um bolinho de chuva quentinho, servido por Adelaide, durante o café da tarde.

O que realmente incomoda aquela gente, esclareço-lhes eu, é que, sempre que vai tomar o elevador, logo que a porta dele é aberta, Tristinha cumprimenta quem ela encontra lá dentro e sorri, em vão, esperando que, ora bolas, respondam o cumprimento e também sorriam. 

Mas, ignorando-a totalmente, todos continuam sempre em silêncio, ora com seus rostos voltados para o vazio, ora para seus celulares, o que, não raro, dá no mesmo.

Os pardais

Avó, mãe, esposa e filha: as quatro gerações femininas de uma mesma família de pardais aguardavam, pousadas uma ao lado da outra, à maneira de matrioskas, sobre um confuso emaranhado de fios do sistema de iluminação pública, bem em frente à delegacia de polícia. Estavam ali desde o mais tenro raiar do dia, aflitas por notícias de Pedro, o jovem pardal, neto da avó, filho da mãe, marido da esposa e pai da filha, que durante a madrugada fora trazido para aquele lugar, dentro do que elas não sabiam dizer se era uma gaiola ou um alçapão.Já quase enfim anoitecia, quando o delegado saiu da delegacia, em mangas de camisa, e foi dar a elas satisfação sobre o paradeiro do jovem pássaro. O delegado estava encharcado de suor, parecia angustiado, o que logo foi percebido pelas pardais como um sinal de que ele era portador de má notícia.

E foi de fato. 

Entre pios de tristeza, dolorosos de se ouvir, o delegado foi-lhes contando que Pedro morrera nas garras de um conhecido criminoso daquelas bandas.

– Quem matou meu filho? 

perguntou a avó.

– Não pode ser!

exclamou a mãe.

– O quê!?

indagou uma incrédula esposa.

Sem entender o que se passava ali, a filha apenas chorapiava, debaixo das asas da sua mãe, a esposa de Pedro, tornada então viúva.

Olhando-as firmes, como um estilingue prestes a atirar, o delegado, friamente, disparou

– Pedro morreu nas garras de Estado.

Este era o nome do assassino, praticante de crimes que passavam sempre impunes: um gato dado a maldades inomináveis com a vulnerável população de pardais.

Bom dia

Era sábado, bem cedo, o sol nem bem tinha nascido e já encontrávamos Seu Bondia acordado, fazendo seus alongamentos matinais ao lado da cama, de frente para a janela aberta do quarto. Mesmo nos finais de semana, a força do hábito o impedia de ficar dormindo até mais tarde. Logo mais, concluídos os alongamentos, também por imperativo do costume ele sairia de casa para ir à padaria da esquina, tomar um café preto acompanhado de um pão na chapa, e depois, dali, seguiria até a lotérica do bairro para fazer a sua tradicional fezinha de toda semana. Há anos, ele vem apostando sempre a mesma sequência de números; quando muito, acertou um ou outro, de forma isolada, nada portanto que lhe permitisse ver a cor de qualquer premiação, mesmo que mínima. A despeito dessa má sorte no jogo, sempre considerou-se um privilegiado na vida. Figura bastante conhecida e querida por todos na pequena cidade onde vive desde quando nasceu, Seu Bondia não passa um dia sequer sem receber um bom dia em dose dupla daqueles que cruzam com ele em suas caminhadas matutinas diárias pela cidade.– Bom dia, Seu Bondia.

Dizem, sempre que o encontram.

Helena 

Por debaixo da soleira da porta de entrada de seu apartamento, alguém fizera escorregar um envelope fechado, totalmente em branco, sem nenhuma referência a destinatário nem tampouco identificação de remetente. Dentro dele, uma folha branca de papel trazia colada bem ao centro uma letra H maiúscula, recortada em papel celofane vermelho, numa caligrafia bojuda de coração.
No segundo dia, no mesmo local, havia novamente um envelope idêntico ao primeiro, trazendo dentro uma folha de papel branca, então com a letra E maiúscula, também em celofane vermelho e com a caligrafia de coração, colada no meio da folha.
No dia seguinte, já o terceiro dia seguido, a letra
L
e assim por
E
diante
N
sempre um envelope por dia
A
contendo, cada um, uma única letra de papel celofane vermelho colada ao centro da folha que vinha dentro, as quais, juntas, alinhadas uma ao lado da outra por ordem de chegada, formavam o nome de H E L E N A, justamente o nome da moradora daquele apartamento.
Encucada, Helena pensou se não poderia ser o Seu Zé Maria, da loja de armarinhos, que estaria encaminhando aqueles envelopes a ela. Dia desses, quando Helena tinha ido até a loja dele pra comprar uns botões, notou que ele ficava olhando-a de rabo de olho enquanto ela explorava a pequena loja.

(ou será que aquele velho suspeitava que eu poderia estar a querer furtar alguma porcaria daquela loja dele?) 

Ou então, pensou melhor, vai ver é o Seu Nonô, da loja de bijuterias. Quando ela esteve lá na semana passada, buscando algo para dar à sua sobrinha de aniversário, viu expostas, sobre o balcão onde faziam as embalagens para presentes, umas folhas de papel celofane em muito similares àquele de que eram feitas as letras que vinham coladas ao papel dentro dos envelopes que andava recebendo, e além disso, o Seu Nonô há muito vinha mostrando-se interessado por ela, haja vista os generosos descontos que lhe concedia a cada bijuteria que Helena comprava na loja dele. Nenhuma das hipóteses sobre os dois, porém, oferecia elementos conclusivos sobre qual deles

(se é que algum deles)

estaria de fato enviando-lhe aqueles envelopes com as letras de papel celofane vermelho, com caligrafia bojuda de coração, coladas sobre a folha em branco que vinha dentro deles, formando o nome de Helena ao serem postas juntas, alinhadas uma ao lado da outra por ordem de chegada.

Helena, depois de receber essas misteriosas cartas, tem andado com a pulga atrás da orelha. Mal tem dormido pensando em quem pode ter sido o autor de tão curiosa, e ao mesmo tempo, para ela tão sedutora abordagem. Todos os dias, tem voltado do trabalho em passos ligeiros, ansiosa por chegar em casa e encontrar lá na soleira da porta o envelope que, enfim, daria um desfecho àquela história, revelando o mistério da identidade de seu admirador secreto.

(um futuro marido?)

Depois de quase uma vida toda dedicada, primeiro ao cuidado dos pais doentes e, depois que faleceram, ao cuidado do ex-marido alcoólatra, Helena havia-se esquecido de como cuidar de si mesma e, mais ainda, de ser cuidada por alguém. De ser, enfim, amada.

Passou-se uma semana sem que nenhum envelope daqueles fosse de novo entregue. Os envelopes que Helena encontrava depositados na soleira da porta, então, eram apenas aqueles das contas do mês, que religiosamente vinham atracar por ali por volta do dia 27 e seguintes de cada mês.

Helena não escondia um certo sentimento de tristeza e abandono. No trabalho, a Rita, sua melhor amiga, notando a tristeza de Helena, andou perguntando-lhe o que é que é que há. Helena não responde, sai sempre pela tangente, tergiversa. Não quer contar a verdade à amiga, pois, no fundo, sente-se envergonhada do que anda sentindo e pensando.

Helena pensou num plano: depois de pagas as contas do mês, iria visitar a loja do Seu Zé Maria e também a do Seu Nonô. Arrumaria um pretexto para cada uma das visitas, apenas para esconder a real intenção: descobrir qual dos dois

(se é que algum dos dois)

estaria abordando-a com aquelas cartas, que para ela eram verdadeiras cartas de amor sob a forma de poesia concreta.

Nem foi preciso levar adiante esse plano: no segundo dia útil do mês, ao adentrar o apartamento, nos seus já costumeiros passos ligeiros, logo depois de abrir a porta, Helena encontrou caído sobre a soleira, um envelope fechado, totalmente em branco, sem nenhuma referência a destinatário nem tampouco identificação de remetente. Helena correu para dentro, fechou a porta à chave, sentou-se no sofá, diante da televisão já ligada na novela, e com as mãos trêmulas e suarentas

(e demasiado frias)

abriu o envelope.

Dentro dele, uma folha em branco, sem nenhuma letra de papel celofane vermelho colada ao centro. Mas, no lugar das letras escarlates, estava escrito seu nome

H E L E N A

em alto relevo, todo branco sob um fundo branco. Helena virou o papel e, no verso, viu uma mensagem que dizia: “dê uma chance ao branco”, e logo abaixo um logotipo que ela bem conhecia. Helena enfim deu-se conta de que todos aqueles envelopes que ela recebera, inclusive aquele que tinha em mãos, nada mais eram do que uma ação publicitária da marca de sabão em pó que ela costumava usar.

Esperança 

Dia sim, outro também, ele aparece na agência bancária para verificar o saldo de sua conta poupança. Seu Pereira, o titular da tal conta, tem feito isso todos os dias, exceto finais de semana e feriados bancários, há uns dois anos. Curiosamente, desde sua abertura, ainda naquela época, a conta nunca teve saldo nenhum. Os resultados que ele visualiza são portanto idênticos: todos zerados. Perguntado pela nova gerente, que assumira recentemente a agência, sobre a razão de assim agir, Seu Pereira, do alto de seus setenta anos, responde com sua voz miúda e sem muita delonga, que suas idas repetidas àquele banco para retirar um saldo de sua conta poupança zerada tem por único motivo seu objetivo, até então inconfessado e ainda por certo não realizado, de enfim ver concretizada a promessa de sua Esperança, que, segundo ele 

– Antes de desaparecer, prometeu-me que um dia depositaria um dinheirinho na minha poupança 

E já ficando com os olhos marejados, prosseguiu 

– Por isso venho aqui todos os dias 

E por fim completou 

– É por causa da promessa da minha Esperança 

Ao ouvir a inusitada resposta, a gerente olhou bem dentro dos olhos de Seu Pereira, fingindo empatia e compreensão. Por dentro, porém, ruminava uma enorme raiva. Tenho mais o que fazer, pensou. 

Então a gerente perguntou-lhe, um tanto impaciente 

– E onde está Dona Esperança? 

Em seguida, ofereceu-lhe um café 

– Aceita um café? 

Ela disse e ele respondeu, de bate e pronto, já agradecendo 

– Obrigado 

Seu Pereira ficou sentado ali, como se tivesse todo o tempo do mundo, sorvendo o café oferecido pela gerente. Parecia não ter ouvido, ou simplesmente ter esquecido a pergunta que ela lhe fizera, tão indiferente ele mostrava-se. 

Com um resto da pouca paciência que lhe restava, ela resolveu repetir a questão 

– Seu Pereira, quero muito ajudá-lo, mas preciso que pelo menos me diga onde está a Dona Esperança. 

Seu Pereira continuou a olhá-la em silêncio, enquanto terminava lentamente seu café. Foi ficando por ali bem mais do que a gerente, toda atarefada como estava, gostaria. 

Vendo que seria melhor deixá-lo em seu tempo, ela voltou aos seus afazeres. Vez ou outra, nas horas seguintes, enquanto digitava no computador ou atendia ao telefone, a gerente lançava um olhar furtivo, de rabo de olho, para ele, que por sua vez, ao notar o olhar dela, retribuía com um sorrisão largo e generoso. Algumas horas depois, já quase no horário de fechamento da agência, cansada de fazer sala para aquele senhor que não representava nenhum ganho para o banco, a gerente, então, levantando-se e pegando a sua bolsa, como quem já vai embora 

(essa era a intenção) 

lançou um 

– Seu Pereira, eu preciso ir pois a agência já vai fechar. O Senhor vem também? 

– Não 

Ele respondeu, laconicamente, e continuou ali como se nada tivesse acontecido, alheio a tudo ao seu redor. A gerente, então 

– Seu Pereira, estou ficando com muito medo do senhor 

E olhando sempre diretamente para ele 

– Muito, muito medo. Vou chamar os seguranças se o senhor não sair 

Seu Pereira, enfim deixando um pouco de lado o ar impassível, levantou-se calmamente, aprumou-se e disse à gerente, num tom seco 

– Tudo bem 

Sem contudo esconder sua frustração. 

E, em seguida, deixando claro que o medo que a gerente tinha dele não poderia vencer sua crença na promessa de sua Espernça, Seu Pereira ainda afirmou, para desespero da sua interlocutora 

– Volto amanhã. Até. 

Logo em seguida, sob olhar algo aliviado da gerente, ele virou-se e caminhou em direção à porta de saída da agência. Tão serenamente partiu, que era como se nunca tivesse estado por ali. 

No dia seguinte, ao contrário do que dissera à gerente do banco, Seu Pereira não apareceu na agência: enquanto aguardava, no ponto de parada, o ônibus que o levaria até o centro da cidade, onde ficava a agência, Seu Pereira viu, jogada num canto, dentro de uma caixa de papelão, uma filhotinha de cachorro, muito parecida com Esperança, a sua cadela, desaparecida há uns dois anos. Apiedado da pequena cachorrinha, Seu Pereira decidiu adotá-la ali mesmo. Pegou-a no colo e, emocionado, abraçou-a contra o seu peito. Foi aí que viu tratar-se na verdade de um cachorro e não de uma cadela. Batizou-o de Aperto no Peito. Seu Pereira via no cãozinho muito de sua Esperança. Para ele, era como se Esperança tivesse, por meio do Aperto no Peito, encontrado um meio de fazer-se ainda presente.

Quando lembra-se do episódio com Seu Pereira, a gerente do banco até hoje fica intrigada com a história que ouviu dele, da última vez que ele foi à agência. Ela ainda está convencida que a Esperança a que ele referiu-se naquele dia era a esposa dele, de Seu Pereira. Notando que ele não apareceu mais na agência 

(nunca mais ele voltou lá) 

por esses dias ela anda até com saudades daquele sorrisão farto dele. 

(ninguém nunca sorriu assim para ela) 

Esqueceu-se do medo.

Félix

Dias e dias passou pensando em como anunciaria aquilo para sua família. Antevia as reações de raiva e decepção de seu pai, o choro envergonhado de sua mãe, seus irmãos a olhá-lo num desdém triunfante. Havia chegado a um ponto em que os contínuos adiamentos não mais surtiam efeito analgésico nenhum: a ansiedade e o nervosismo tomavam de assalto seu ser, tornando dolorosamente penosos quaisquer gestos cotidianos, por mais ordinários que fossem.Cansado de viver uma vida dupla, Félix resolveu aproveitar que todos estavam juntos, ao redor da mesa, durante o almoço de domingo, e revelar seu grande segredo. 

Tinha a boca seca, então, a fim de aliviá-la, pediu

– Me passe a água 

A jarra de água à sua irmã. Encheu o copo e tomou-o quase de um gole só. Depois ficou a observar a família ali comendo. Muito lhe lembravam as vacas ao redor do cocho que, quando ainda era menino, vira uma vez numa visita ao sítio de sua avó: o mesmo ruído das bocas mastigando misturado ao das respirações e dos talheres. Bem, no caso das vacas, não havia talheres.

Respirou fundo, precisava tomar fôlego. A emoção crescia e meio que apertava a sua garganta, como que querendo sufocá-lo. Respirou fundo uma vez mais. Logo depois, certo de que não dava mais para voltar atrás, disse, quase num sussurro,

– Mãe 

E continuou

– Pai

A voz, baixa, ia embargando

– Meus irmãos

Cada vez mais

(fora ele, eram quatro pessoas à mesa)

À medida que cada um tinha sua atenção convocada, ia deixando de lado os talheres, continuando, porém, a mastigar o que tinha na boca.

Os olhos de todos à mesa estavam, enfim, voltados para Félix. Foi quando ele, envolto pelo nervosismo à maneira de uma larva em um casulo, disse

– …

Algo

– …

Dito, todavia, tão baixinho e para dentro, que ninguém ali ouviu.

(o bater das asas de uma borboleta teria feito maior ruído)

Diante do não-dito de Félix, continuaram a comer, como se nada tivesse lhes interrompido.

Frustrado, Félix levantou-se, deixando sobre a mesa um prato de comida intocado e, sobre a cadeira, um lugar que ninguém depois deu por vazio. Dali, ele seguiu até seu quarto, onde, em pé diante do espelho, começou a despir-se sob o olhar indiferente das muitas bonecas de louça que tinha sobre a cama.

De suas costas, enfim nuas, duas enormes e multicoloridas asas de borboleta foram abrindo-se, pouco a pouco, até chegarem, em instantes, ao ápice de sua abertura e exuberância. Aliviado por vê-las e senti-las livres da prisão da camisa que vestia, Félix começou a, leve e serenamente

(um sorriso teria feito maior ruído)

batê-las como se pretendesse alçar voo.

A folhinha do calendário, pendurada ao lado do espelho, revelava ser aquele dia o domingo do derradeiro final de semana do mês de janeiro. Daqui mais uns dias, Félix pensou aliviado, já vai ser Carnaval.

A festa

Que ela uma celebridade naquela festa, isso era bem evidente: quando chegou, depois de descer da limousine que a trouxera até ali, e caminhar fazendo poses pelo tapete vermelho à entrada, sob intenso tiroteio dos flashes das câmeras, cumprimentou todo mundo e foi cumprimentada por toda a gente ali presente. Se ela não cumprimentava, é porque o outro não era tido por gente, logo, nessa não-condição, não deveria também nem dirigir-se a ela. Não sou obrigada, ela dizia, e então virava as costas e seguia altiva pelo salão.Além de comida e bebida fartas, a festa também estava repleta de sorrisos, todos muito brancos, impecáveis… e amplos. Em alguns rostos, faltava até mesmo espaço para um cumprimento com beijo. Nesses casos, valia cumprimentar apenas com os sorrisos, deixando reticências acompanharem o gesto inconcluso do beijo.

Ela sentia-se o centro daquele universo. Tinha pleno domínio da linguagem corporal mais adequada para chegar em cada um dos convidados. Conhecia-os todos pelo nome e sobrenome. Sobre muitos, aliás, o seu conhecimento ia além: tinha os nudes.

Sabia bem o que podia falar e com quem, e, muito importante, sobre o quê calar-se.

Homens de fraque, mulheres em vestidos de noite; a noite, toda ela, em roupas de festa.

Festa esta que já avançava pelas primeiras horas da madrugada quando um homem adentrou o recinto e, gritando muito alto, parecendo bastante desesperado, ameaçou suicidar-se com um tiro na cabeça. Era apenas uma performance para divertir os convidados, como depois ele mesmo revelou ao disparar a arma e dela sairem apenas bolhas de sabão. Passado o susto, quase simultaneamente todos voltaram a beber e sorrir, e sorrir e sorrir e sorrir e beber. A comida acabara.

Mesmo assim, a alegria ainda imperava. Não era de bom tom, aliás, estar triste ali. Quem por acaso assim estivesse, procurava não deixar isso transparecer. Soube-se apenas de um único caso de uma mulher que, não resistindo à tristeza, foi chorar no banheiro. Os seguranças , ao verem-na nessas condições, trataram de colocá-la para fora da festa o quanto antes e o mais discretamente possível.

O dia que quase amanhecia lá fora encontrava o salão, onde realizava-se a festa, já enfim quase vazio ali dentro. Foi quando ela, cansada, resolveu dar por encerrada e noite e tomar o rumo de sua casa. Antes, porém, foi até o toilette, despiu-se de sua máscara, lavou a pesada maquiagem que encobria seu rosto e trocou sua fantasia por uma roupa bem mais básica. Saiu pela porta dos fundos. 

Lá fora, na companhia apenas dos sacos plásticos cheios do lixo produzido pelos convidados, ela ficou aguardando, quieta e cabisbaixa, o ônibus que a levaria dali. Começava a chuviscar leve quando o ônibus enfim chegou. Distraída, ela não o viu quando ele parou no ponto. Teria de esperar pelo próximo, que, para passar, demorou menos tempo que a festa, é verdade, embora esta, ainda que não lhe tenha assim parecido, tenha durado o tempo da vida dela.

E pode-se jamais saber numa escuridão dessas

Há anos, nenhuma carta, nenhum telefonema, nem o menor sinal de vida. O último momento em que se viram foi de fato a última vez em que se falaram. Certa manhã, ele saiu de casa logo cedo, dizendo para ela:

– Vou até ali na padaria comprar pão e já volto.

No que Dona Cristiana então lhe pediu:

– Aproveita e traz farinha de rosca também.

Pois, para o almoço daquele dia, ela queria preparar uns bifes à milanesa.

Depois disso, seguiram-se cinco anos, daí para mais,

Ela não sabia dizer ao certo.

sem nenhuma carta, nenhum telefonema, nem o menor sinal de vida de Deus: seu marido. Na verdade, João de Deus, mas que todos, por respeito e temor reverencial, chamavam-no Seu Deus.

E ai daquele que ousasse escrever, ou mesmo deixar implícito na pronúncia, que o “s” do Seu estivesse em letras minúsculas: era logo punido com um xingamento deveras humilhante, que reduzia o perpetrador da injúria

Assim ele considerava.

a algo para muito abaixo de um ser humano. Também não lhe apetecia ser chamado de senhor, pois Senhor Deus afigurava-se para ele demasiado formal.

Sentia-se envelhecido com esse modo de tratamento.

Crime maior

Na visão de Deus.

cometiam aqueles que escreviam, ou que deixavam implícito na pronúncia, que o “d” do Deus estivesse em letras minúsculas: para estes, a vida tornava-se um inferno. Deus costumava usar de sua posição de gerente na empresa de seguros de vida,

Posição que lhe garantia uma cadeira de espaldar médio: nem tão alto como o das cadeiras ocupadas pelos membros da diretoria, nem tão baixo como o das cadeiras do pessoal do baixo clero, expressão com a qual ele designava os funcionários abaixo dele na hierarquia da empresa – não eram muitos.

para fazer valer sua pequena autoridade, que ia até o ponto em que esta se confrontava com a da diretoria à qual estava subordinado, pois, perante seus membros, Deus comportava-se como se devesse-lhes a vida: agia sem autonomia nenhuma, nem tampouco amor próprio – era-lhes completamente servil.

E depois de todo esse tempo sem nenhuma carta, nenhum telefonema, nem o menor sinal de vida de Deus,

Que Dona Cristiana acreditava estar vivo apenas por obra de sua própria fé.

Não havia de fato, nenhum indício disso desde o sumiço de Deus.

eis que, dentro de um envelope pardo, com o nome do remetente

Mas sem indicar seu endereço, tampouco um número de telefone qualquer para contato.

e do destinatário,

Este com o endereço.

impressos sobre etiquetas, um cartão com um:

Lembrança de Aparecida

em uma letra similar a dedinhos de gorda, escrito logo abaixo da nuvenzinha que servia de andor para a imagem da dita santa. Da nuvenzinha, pululavam umas cabecinhas de querubins, a olhar para cima, marotos, como que a espiarem por baixo do manto da divindade.

O cartão havia sido entregue na casa de Dona Cristiana provavelmente até o meio daquela tarde, quando a doméstica ainda cumpria sua jornada de trabalho, pois, como de costume, e seguindo fielmente a orientação de sua patroa, o envelope havia sido colocado, junto com outras correspondências, dentro da coroa do filtro de louça em formato de abacaxi, que ficava sobre a pia da cozinha.

Logo ao lado da moringa de barro, que, ao invés de água, era preenchida com aguardente.

Não estava jogado na soleira da porta, como aquelas cartas que chegavam depois de finda a jornada de trabalho da doméstica.

No verso do cartão, logo abaixo do:

Estive em Aparecida e lembrei-me de você

numa letra miúda, de menina, Deus dizia estar arrependido, pedia a compreensão e o perdão de Dona Cristiana por todos esses anos sem nenhuma carta, nenhum telefonema, nem o menor sinal de vida, e por fim anunciava que:

Chego no domingo, ainda a tempo de

E a mensagem de Deus, por falta de espaço no cartão, terminava assim, incompleta.

Cinco anos para mais,

Dona Cristiana não sabia dizer ao certo.

sem nenhuma carta, nenhum telefonema, nem o menor sinal de vida e, de repente, numa mensagem incompleta, escrita em uma letra miúda,

De menina.

num cartão suvenir de Lembrança de Aparecida, logo abaixo do:

Estive em Aparecida e lembrei-me de você.

Deus anunciava que chegaria no próximo domingo.

Portanto, dali a três dias.

A tempo de

Dona Cristiana deduziu que ele quisera dizer a tempo de almoçarem juntos e, no domingo, acordou bem cedo, foi ao mercado, comprou, entre outros produtos, espaguete, meio quilo de carne moída, para o molho bolonhesa, e um quilo de filé mignon,

Os pratos preferidos de Deus.

e, chegando em casa, pôs-se a cozinhar, esperançosa de que, mais hora menos hora, Deus bateria à porta, anunciando a sua chegada com um:

– Voltei.

Era quase meio-dia, o almoço já estava pronto, a mesa colocada, tudo preparado para a volta de Deus. Mas eis que as horas foram passando e nada de ele bater à porta, para anunciar a sua chegada com um:

– Voltei.

Nada.

Cansada de esperar, conformada, mas sobretudo faminta, Dona Cristiana encheu um prato de macarronada, depositou sobre ele dois bifes de filé mignon, e devorou-os avidamente. De tão boa que a comida estava

Ou seria a fome dela que estava grande?

bateu logo dois pratos, e, mesmo sobrando pouco espaço para a sobremesa, não se furtou a essa indulgência

Havia preparado um pudim de leite condensado sem furinhos.

e mandou ver no pudim de leite condensado sem furinhos que havia preparado, também de modo a satisfazer o gosto de Deus, que não tolerava pudim de leite condensado com furinhos.

Naquele dia, tão satisfeita quanto Dona Cristiana, ficou a cadela vira-lata Maria, que se fartou com a enorme sobra de macarronada e bifes de filé mignon, oferecidas a ela, como uma oferenda, por Dona Cristiana, que, cansada de esperar, conformada, mas então de barriga cheia, tomou um gole de pinga

Daquela que mantinha guardada dentro da moringa ao lado do filtro de abacaxi.

e foi para o quarto, onde tirou uma soneca tão profunda que lhe pareceu durar por uns três dias.

Ao acordar, sentiu-se como que a ressuscitar.
N. do A.: O título deste conto é uma expressão colhida do livro “O inominável”, de Samuel Beckett

  

Dali a nada

Havia terminado de endireitar o porta-retratos, que há tantos anos estivera preso naquele mesmo local, conforme denunciava a tonalidade mais clara da tinta da parede logo atrás dele. Cansada, Dona Celeste sentou-se no sofá, bem diante da televisão desligada, em cuja tela escura ela podia ver refletida sua imagem, ali projetada à maneira de um negativo de fotografia, daquelas bem antigas. Suspirou fundo… e olhou ao seu redor, a fim de preencher com imagens da memória

(impossível dizer se fiéis à realidade ou não)

o vazio humano do ambiente, buscando, num esforço de náufraga, trazer de volta àquele recinto as conversas, discussões, risos e choros daqueles

Seus familiares

que um dia haviam habitado o diminuto espaço do pequeno apartamento, onde ela agora residia sozinha. De fato, era um imóvel minúsculo, conquanto seu espaço interno foi sendo ampliado, no espaço de alguns poucos meses, à medida que a morte, à revelia dos vivos, unilateralmente decidira levar dali os outros membros da família, que também ali residiam: Seu José, seu marido, foi levado primeiro, vítima de um câncer nos pulmões; pouco tempo depois, por volta de uns dois meses após a partida dele, seu filho e sua nora o acompanharam, vítimas de um acidente de carro. Restou ela: Dona Celeste, que só não se julgava acometida pela solidão, pois lhe sobrara a companhia do casal de canários da terra, que

Cada vez de forma mais esporádica

cantarolavam dentro de uma gaiola presa à parede, logo acima do tanque, na exígua área de serviço contígua à cozinha, ali na parte de trás do apartamento. Os olhos de Dona Celeste, de aparência lassa, cheios de olheiras escuras, passeavam pelos quadros, pelas fotografias, pelos bibelôs: objetos que

Naquele momento

pareciam estar a sussurrar vozes, como se estivessem a segredar algo entre eles.

Riam-se dela?

Quando passaram pelo buquê de camélias brancas de plástico, que sua nora usara na ocasião do casamento com seu filho, seus olhos detiveram-se para além de um simples instante, de modo a poder acomodar o volume maior de lembranças que aquele objeto lhe transmitia: na noite da cerimônia, quando a noiva – sua nora – fizera o tradicional gesto de jogar o buquê por sobre seus ombros, em direção a suas convidadas, foi Dona Celeste (na época ainda apenas Celeste) quem conseguiu pegá-lo, vencendo, na disputa, uma dezena de moças casadoiras, as quais, num frenesi de trutas que sobem a correnteza de um rio para desovar, pulavam, afoitas, tentando agarrar o buquê antes que este caísse no chão. O buquê de camélias, desde aquela noite,

– Dona Celeste, quando é que a senhora vai jogar fora essas flores velhas?

a contragosto de

– Deixe-as em paz aí, Adelaide.

Adelaide, sua nora, ornava a mesa de centro da sala, metido dentro de um jarro de opalina rosa.

– Estão tão bonitas.

Apesar de já há muito amareladas pela ação do tempo.

Há dias, Dona Celeste vinha se sentindo ansiosa, sentimento que a última noite, passada em vigília, em razão da insônia, só tinha agravado. Logo pela manhã, resolveu abrir todas as janelas do apartamento, buscando arejá-lo e, com isso, respirar melhor, a fim de afastar a ansiedade. Abriu também a porta da entrada do apartamento, que dava para um longo e escuro corredor curvo, salpicado de luzes automáticas, que acendiam quando censores ligados a elas identificavam a movimentação de algum ser vivo – humano ou animal – a passar por ali, revelando, assim, de cada lado do corredor, as portas dos muitos apartamentos que faziam vizinhança ao de Dona Celeste naquele mesmo andar. Cada porta era decorada segundo o gosto estético de seu respectivo morador: gente de todo tipo, mas, em geral, pessoas solitárias, condição que agora também alcançava Dona Celeste.

Exceto pelo casal de canários da terra a lhe fazerem companhia.

Algumas portas não dispunham de ornamento nenhum, talvez indício de que a condição humana do morador que residia sob sua guarda, além de flertar com a solidão, também podia ser diagnosticada como imune à capacidade de sonhar. Era um edifício gigantesco, com mais de uma dezena de minúsculos apartamentos em cada laje, e todos tinham as janelas de suas salas voltadas para um profundo e frio vão central, de modo que da sala de cada apartamento podia-se diretamente visualizar o interior do apartamento da frente, e, logo mais abaixo e acima, parte do interior dos demais apartamentos, e vice-versa, formando, no seu todo, um visual labiríntico, como naquelas pinturas do Escher.

Janelas de onde não se via o sol nascer, nem se por: sem horizontes à vista.

Aqueles que passavam pela porta do apartamento de Dona Celeste – e a notavam aberta –, lançavam rápidos olhares ali para dentro, desviando-os, assustados, logo em seguida ao encontro com o olhar dela, que seguia, sentada e quase imóvel, ali diante da televisão desligada. Passadas algumas horas, nada da sua ansiedade diminuir – pelo contrário, havia aumentado, a ponto até de se tornar angustiante. Uma cadela de olhar assustado, bixiguenta, só pele e osso, ao passar por ali e deparar-se com a porta aberta, atreveu-se a entrar, mas, ao ver-se diante da figura de Dona Celeste, que dali do sofá a observava feito um mocho, deu meia volta e saiu, num passo apressado, com o rabo entre as pernas.

Depois disso, Dona Celeste se levantou e foi tomar uma água na cozinha.

(– Ô véia, traz uma água para mim, quando você voltar?)

Lembrou-se de seu falecido marido a pedir-lhe isso quando ela ia à cozinha, sempre se esquecendo de emendar um:

– Por favor.

que para ela, àquela época, poderia fazer alguma diferença – não mais. Era-lhe, assim ali pensou, de fato, de todo irrelevante agora.

Ao ver a gaiola dos canários da terra, presa à parede, logo acima do tanque, na exígua área de serviço contígua à cozinha, que ficava na parte de trás do apartamento, dirigiu-se até ela e abriu a sua portinhola. Indiferentes à desimpedida passagem para o lado de fora da gaiola, os canários da terra agiam como se a portinhola ainda estivesse fechada, ignorando por completo a chance que lhes havia sido concedida de saírem e desbravarem o mundo exterior – continuaram ali dentro, como se nada em seu pequeno mundo tivesse sofrido qualquer alteração. Dona Celeste, algo indiferente, virou-lhes as costas e voltou para a sala, seguindo em direção à janela, de onde ela podia mirar o fundo do vão central do edifício e as janelas dos apartamentos vizinhos, com seus moradores vivendo seus dramas quotidianos.

(– Dona Celeste, quando é que a senhora vai jogar fora essas flores velhas?)

A brisa fresca que entrava por aquela janela fazia as cortinas esvoaçarem e revirava o jornal do dia, que Dona Celeste havia deixado sobre a mesa de canto, ao lado do sofá – era a última edição do jornal a que ela teria direito, pois cancelara a sua assinatura no dia anterior.

Não lhe interessava mais saber das notícias do dia seguinte.

Junto com a brisa, chegava uma mistura agridoce de cheiros e fedores provenientes dos outros apartamentos. Sentindo a carícia do vento sobre a pele vincada de seu rosto e por entre seus cabelos grisalhos, Dona Celeste viu-se, de um instante para outro, livre da angustiante ansiedade que a atormentava. Tomada então por uma leveza entorpecente, agarrou-se às cortinas e inclinou seu corpo

pa

ra

fo

ra,

o que, por fim, dali a nada, faria com que ela se sentisse

(– Deixa-as em p

em paz.

  

Vida

Na maternidade, situada em um bairro tradicional da cidade de São Paulo, um homem e uma mulher, recém-empossados em seus novos papéis sociais de pai e mãe, devido ao nascimento do seu primeiro filho, algumas horas atrás, discutem calorosamente sobre a escolha de um nome para o menino. Quando a enfermeira entra no quarto, trazendo o bebê em seus braços, todo miudinho, ainda com carinha de joelho, envolto em um cueiro todo de lantejoulas prateadas, pai e mãe deixam a discussão de lado e, com olhares embevecidos, ficam a apreciar o bebê, já agora entregue aos cuidados da mãe, que o acalenta cantando baixinho sambas de raiz. A enfermeira saca então duas castanholas dos bolsos de sua calça e, tocando-as efusivamente, deixa o quarto em passos de flamenco.
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Com uma desenvoltura surpreendente para a idade avançada, uma velhinha, vestida em um traje de bailarina todo carmim, dança sobre as calçadas do Viaduto do Chá, seguindo por diversas vezes da Praça Ramos até a Praça do Patriarca, e depois repetidamente voltando. Seus passos de balé são precisos e delicados, seu rosto traz uma expressão plácida; sua saia de tule, de tão esvoaçante, parece uma chama ao vento. À maneira de uma tiara, um enorme fone de ouvido cruza por sobre sua cabeça, de orelha a orelha (o que estaria a ouvir?). Dentre os que por ali passam, são poucos os que desviam o olhar para brevemente observá-la. Pastoreada pelas contas a pagar, a maioria passa com o olhar alheio e distante.

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O menino recém-nascido e a velhinha são a mesma pessoa, aqui retratada em momentos distintos de uma vida cuja história nada teve de convencional e linear. Foi toda ela um musical.

  

Bárbara

Logo no início de “O Grande Hotel Budapeste”, filme de Wes Anderson, baseado na obra de Stefan Zweig, o narrador-personagem afirma que se enganam aqueles que pensam que os escritores passam as 24 horas do dia transbordando de inspiração, e que eles são uma verdadeira fonte de conhecimento e cultura, quando, na verdade, ainda nas palavras daquele narrador-personagem, escritores se alimentam de histórias verídicas, roubando da realidade pessoas que mais tarde se transformam em personagens. Não diria que qualquer dessas afirmações seja sempre verdadeira – pelo menos não (definitivamente não) no caso deste diletante escritor que vos escreve. A crônica a seguir, todavia, vai ao encontro justamente da segunda afirmação, pois teve sua personagem inspirada numa figura da vida real, encontrada por mim numa reportagem da BBC News (“Idosas viram prostitutas para sobreviver na Coréia do Sul” – http://migre.me/kcKKs). É de uma das entrevistadas por essa reportagem a seguinte declaração: “Estou com fome, não preciso de respeito, não preciso de honra, só quero fazer três refeições por dia”. Apenas para melhor situar o leitor que porventura não quiser ler a reportagem, esclareço que estas palavras foram ditas por uma senhorinha sul-coreana, que, após ser abandonada pela família, foi buscar seu sustento na prostituição. Tal fato reproduz um drama humano cada vez mais comum naquele país, onde os “jovens dizem não ter mais condições de sustentar os pais em uma sociedade altamente competitiva.” A história a seguir foi inspirada nessa senhora.
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Dona Cidinha, aos 70 anos, é uma dessas senhorinhas cujo peso da idade as fez ficar delicadas e pequeninas como uma codorna. No caso dela, essa semelhança faz-se ainda maior, dado que tem suas costas envergadas numa curvatura similar ao do dorso daquelas avezinhas. Ela estava ali, numa esquina movimentada da área central da cidade – aguardando seu primeiro cliente da noite –, em pé, em meio a travestis e outras prostitutas. Vestia um charmoso vestido negro, estampado com pequenas poás brancas, calçava nos pés um par de tênis de academia, fluorescentes e multicoloridos, e trazia à mão direita uma sombrinha, que lhe servia como uma bengala.
Há 3 meses, havia sido abandonada por sua única filha, Maria Aparecida dos Nós – Maria Aparecida por parte de mãe, e dos Nós por parte de Nossa Senhora Desatadora dos Nós, de quem Dona Cidinha era devota desde quando o pai de Cida dos Nós, como sua filha era mais conhecida, a abandonara, ainda antes de a menina nascer. A filha, aos 19 anos, fugiu com um alemão que conhecera num barzinho da Vila Madalena, e nunca mais foi vista, nem tampouco notícias dela foram recebidas nesses 3 meses. Cida dos Nós era a responsável pelo sustento do pequeno apartamento, no qual ambas residiam de aluguel. Com seu sumiço, Dona Cidinha, já aposentada e sem ninguém a quem recorrer (não tinha mais parentes e amigos ou amigas vivos – Cida dos Nós era a única pessoa com a qual ainda contava), viu-se na iminência de uma ordem de despejo por falta de pagamento do aluguel.
A fim de evitar o constrangimento que seria ver-se posta para fora do apartamento, preferiu sair antes do despejo bater-lhe à porta. Colocou seus poucos pertences dentro de uma grande sacola e foi viver na rua, onde, na primeira noite, ainda ensaiou uma reza para sua santa de devoção, Nossa Senhora dos Nós, mas o cansaço a pôs a dormir antes mesmo de terminar a oração.
Quando os primeiros raios de sol começaram a lamber seu rosto, pensou que estava vendo aquela luz da qual tanto falam os que tiveram experiências de quase morte. Mas era apenas o início de uma manhã ordinária, para a qual despertara com uma extraordinária fome. Saiu a pedir, de janela em janela, perante os carros que paravam no cruzamento, ali próximo, para aguardar a abertura do semáforo. Mas de seus motoristas recebia apenas a indiferença dos vidros fumês fechados.
Uma travesti, de heróica elegância, que por ali passava em um conversível branco, a caminho do cabeleireiro, vendo aquela senhorinha, ali, em tão comovente sofrimento, teve compaixão dela. Dona Cidinha, de algum modo, a fazia lembrar-se de sua falecida mãe, cuja fotografia, plastificada, a travesti trazia guardada dentro de sua bolsa. Quando Dona Cidinha aproximou-se do conversível branco, a travesti a recebeu com um largo sorriso, expondo-lhe o brilho e a alvura impecáveis de suas facetas de porcelana.
– A senhora está sozinha, com fome?
Dona Cidinha hesitou por um instante: não sabia o que responder, dado que a questão fora dupla e não sabia colocar, em um rol de prioridades, o que lhe doía mais, se a fome ou a solidão – ou ambas em igual nível de sofrimento.
– Sozinha e
Aquilo tudo para ela era muito novo.
– com fome.
Ao ouvir isso, uma lágrima escorreu do olho direito da travesti, à maneira de um pingo de parafina numa vela acesa, borrando levemente sua maquiagem. Borraria ainda um pouco mais quando ela foi enxugar a lágrima com a mão.
– Entre aqui!
Convidou Dona Cidinha a entrar e sentar-se no banco de passageiros do conversível branco. A travesti, ao final, teve de sair para ajudá-la, pois Dona Cidinha, por si só, não conseguira dar a volta ao carro e entrar antes do semáforo abrir, e, com este aberto, o frenesi das buzinas e dos sons dos aceleradores dos carros ali ao redor já se fazia ensurdecedor. Com ambas já dentro do conversível, Dona Cidinha e a travesti,
– Qual a graça da senhora?
– Maria Aparecida, mas pode me chamar de Dona Cidinha. E a sua, minha filha?
– Lindaura.
cujo nome agora sabemos, ficaram a mobilhar o silêncio, enquanto rodavam pela cidade, como se fossem amigas de longa data.
– Prazer.
Lindaura cancelou seu cabeleireiro e voltou para seu apartamento, ali na Rua Itupeva, levando consigo Dona Cidinha. Lá chegando, ofereceu-lha um vasto café da manhã, banho e novas roupas. Tinha praticamente todas as roupas de sua falecida mãe ainda guardadas em uma caixa plástica, ao lado de uma antiga penteadeira, no seu quarto, sobre a qual havia uma infinidade de perfumes e cremes de beleza. Em cima da caixa plástica, uma toalhinha de crochê fazia o papel de cama para um gatinho de pelúcia, de olhos tristes de boneca, cuja calda, de longos pelos brancos, envolvia-lhe o corpo tal como uma estola.
Dona Cidinha, pelo resto daquele dia, acompanharia Lindaura onde quer que esta fosse, sempre ouvindo dela as histórias de uma vida que, para além da fina superfície de sua heróica elegância, era puro sofrimento físico e emocional, cada qual, à sua respectiva maneira, responsável por profundas e, em alguns casos ainda cálidas, cicatrizes naquele ser humano, cujo nome, Lindaura, só depois Dona Cidinha seria informada de que se tratava na verdade do nome de guerra
– Fui crismada Antônio Pedro.
de um homem,
– Meu pai era devoto de Santo Antônio, e minha mãe, de São Pedro.
com a idade para ser
– Daí o Antônio Pedro.
seu filho.
E, como tal, Lindaura acabou sendo adotada por Dona Cidinha, embora não fosse de todo errado dizer que Dona Cidinha é que acabara sendo adotada como mãe por Lindaura. O resultado, na prática, como hão de notar, dá no mesmo.
Dali em diante, passaram a fazer tudo juntas, unidas como unha e carne.
À noite, porém, quando Lindaura saía para o trabalho, Dona Cidinha – que até então nem desconfiava que trabalho era esse – ficava no apartamento. Sentia-se só, pois dormia pouco – não mais que 3 horas por noite –, e todo o restante do tempo ficava a pensar na vida, enquanto jogava paciência no computador de Lindaura. Certa noite, acabou adormecendo sobre o teclado e, quando acordou, viu diante de si, expostas no monitor, diversas fotos de Lindaura, em poses sensuais. Em outras fotos, havia mesmo pornografia: Lindaura aparecia com parceiros masculinos, desempenhando papéis sexuais que, na concepção de Dona Cidinha, seriam – ou ao menos deveriam ser – exclusivamente masculinhos.
Dona Cidinha ficou por alguns instantes como que hipnotizada pela visão daquelas imagens. Saiu do transe somente quando ouviu o som dos saltos de Lindaura aproximando-se da porta da sala, no hall de entrada do apartamento – era quase manhã. Desligou rapidamente o computador e correu para o lavabo, a fim de pegar um lenço de papel e limpar a baba que, ao cair de sua boca enquanto dormia, sujara de leve o teclado do computador.
– Bom dia, mãe!
Era assim que Lindaura a tratava.
– Já acordada?
– Acabei de acordar, filha.
Era assim que Dona Cidinha a tratava.
Mais do que simplesmente despertada de seu sono, Dona Cidinha via-se também acordada para uma realidade que lhe era distante: há muito tempo, desde a noite em que ela e seu parceiro fecundaram o que depois viria a ser Cida dos Nós, que ela nunca mais praticara sexo com ninguém – nem com ela mesma. Sentiu assim, por ocasião do contato com aquelas fotos, e com a realidade que elas enfim revelaram, correr pelo corpo um certo vigor de juventude.
Com naturalidade e sem adotar nenhum tom de julgamento, conversou com Lindaura a respeito de sua profissão.
– Ganha-se bem?
Quis saber, deixando escapar um quê de ambição,
– Sim
legítima até, para quem, há pouco, tivera chegado ao fundo do poço da pobreza material
– e eu me divirto muito fazendo o que faço.
e da descartabilidade social.
– Acabo conhecendo muitos homens interessantes, que me presenteiam com momentos, histórias e mesmo presentes materiais maravilhosos.
Na noite daquele dia, que no momento desse diálogo estava apenas começando, encontraríamos Dona Cidinha, como no início desta crônica, vestida com um charmoso vestido negro estampado com pequenas poás brancas, calçando nos pés um par de tênis de academia, fluorescentes e multicoloridos, trazendo à mão direita uma sombrinha, que lhe servia como uma bengala. Junto dela, Lindaura, em um elegante vestido de cetim verde-esmeralda, que descia até a uma altura um pouco acima de seus joelhos. Ambas estavam em pé, em meio a outros travestis e outras prostitutas, paradas em uma esquina movimentada da área central da cidade.
Um senhor, vestindo um distinto terno de linho branco, tendo sobre a cabeça um chapéu panamá da mesma cor, aproxima-se de Dona Cidinha. Esta logo nota – e vê-se seduzida por – seu belo peito, parecido com o de um pássaro columbiforme, destacado ainda mais por um plastron que ele trazia preso ao pescoço por um alfinete com cabeça de madrepérola. Acomodava em seu braço esquerdo, dobrado como um gancho, um gato persa, branco, de ar entediado. O senhor para Dona Cidinha:
– Sua graça?
Dona Cidinha, a essa altura, fazia carinhos na cabeça do bichano, e este agradecia em sua linguagem de ronronados, semicerrando os olhos à maneira de um filatelista.
– Bárbara.
Respondeu-lhe. E o senhor para ela:
– Altidore, prazer.
Enquanto, num gesto de vênia, trazia a mão de Bárbara para junto de seus lábios, a fim de beijar-lhe o dorso.
– Prazer.
Ela disse-lhe.
Saíram dali de mãos dadas, a caminhar tranquilamente pela rua. Duas figuras que, pela idade e trajes, eram tão estranhas àquele entorno, que pareciam andar tendo ao fundo um cenário artificial, montado sobre um chroma key.
– Mãe?
(Vinha ela pela rua, caminhando tatibitate)
Lindaura tentava acordar Dona Cidinha,
– Mãe!
(Levava a mãozinha na cintura, toda cocotinha)
que dormia agarrada ao gato de pelúcia, o guardião da caixa plástica na qual eram guardadas as roupas da falecida mãe de Lindaura, as quais Dona Cidinha tomara posse.
(Àqueles que a xingavam de biscate)
– Oi…
(Respondia-lhes: “biscate é a vovozinha”)
– Acorde. Você está bem?
– Ora, pois sim, por quê?
Deixando o gato de pelúcia de lado.
– É que você estava falando sozinha enquanto dormia. Devia estar tendo algum pesadelo.
– Será!? Acho que não.
Dona Cidinha já não se lembrava mais do que sonhara.
– Acorda, acorda. Vamos tomar café.
Dona Cidinha levantou-se
– Já vou indo, minha filha.
e foi até o lavabo, a fim de se recompor.
– Te espero lá na cozinha então.
Momentos depois, quando Dona Cidinha entra na cozinha, e Lindaura a vê vestida com um charmoso vestido negro estampado com pequenas poás brancas, calçando nos pés um par de tênis de academia, fluorescentes e multicoloridos, trazendo à mão direita uma sombrinha, que lhe servia como uma bengala, admirada, Lindaura exclama:
– Mãe, a senhora está bárbara!
Lisonjeada, Dona Cidinha dobra os joelhos, num gesto de vênia, levantando as abas do vestido, como um curto abrir de asas de uma pequena codorna.
Um pombo branco, pousado sobre o parapeito da lavanderia ali ao lado da cozinha, que a tudo ali dentro acompanhava com seus olhinhos vermelhos, assustou-se com o gesto de Dona Cidinha, bateu asas e voou até desaparecer em meio aos prédios, engolido pelo cinza, do modo como a memória que os outros têm de nós é engolida pelos anos, à medida que estes passam, depois que daqui nos vamos.