Anônimos

Ela morreu no início da tarde, vítima de um atropelamento, enquanto atravessava a rua e digitava ao mesmo tempo no celular. O motorista do carro fugiu sem prestar socorro. A ambulância demorou a chegar, devido ao trânsito, e quando enfim chegou, já era tarde demais.No exato instante em que a alma dela deixou seu corpo, o post que ela fizera no Facebook pela manhã contabilizava 43 curtidas. O tal post trazia, tendo por legenda um “bom dia”, uma fotografia tirada das escadas rolantes da estação Pinheiros, tomadas da habitual multidão de anônimos subindo e descendo. Ao fundo, na própria foto, aparecia um telão de mídia eletrônica, no qual era possível ler a notícia de que um jogador brasileiro tinha sido negociado por alguns milhões de Euros para um certo clube europeu de futebol.

Uma amiga dela de Facebook estava no meio daquela multidão e saíra na foto: era possível identificar seu rosto em meio aos demais rostos cansados, já àquela hora da manhã, que desciam por uma das muitas escadas rolantes daquela estação de trens e metrô. Essa amiga dela curtiu o post, mesmo não reconhecendo a si mesma retratada na foto, e respondeu, nos comentários, com um “bom dia”, seguido de um coraçãozinho. Era o último dos 7 comentários que aquele post recebia. Todos os outros também diziam “bom dia” e tinham sido respondidos e curtidos pela autora do post, mas como esta já tinha falecido quando a amiga comentou, o comentário desta ficou sem curtida e, claro, também sem nenhuma resposta. A tal amiga, ao notar o tratamento diferenciado, tomou isso pelo lado pessoal, entendeu como uma desfeita e excluiu a recém-falecida dos seus amigos do Face.

Anúncios

O grito

Demorei-me a entender e, quando finalmente o consegui, demorei-me ainda mais na tentativa de aceitar, e esta na verdade foi em vão, pois minha mente recusava-se a concluir como verdadeiro aquilo que meus ouvidos ouviram.
Não sou de falar alto. A bem da verdade, mesmo falar, falo pouco e baixinho. Às vezes, só eu sou capaz de me escutar. Sempre preferi ouvir, não apenas o que os outros têm a dizer, mas também aquilo a que chamam voz interna: sou um excelente ouvinte.
Incomodam-me sobremaneira os gritos e, se eu tenho que gritar, o transtorno é-me absoluto. Mas ali, naquelas circunstâncias, tive de fazê-lo e, assim, gritei muito e muito alto, e foi isso que custei a entender e, depois, a aceitar. Não me lembro o que gritei, pois o grito escapou-me de um modo tal, que não deixou vestígio em minha memória das palavras que usei para traduzir, sob a forma de grito, seja lá o que fosse que me impelia a gritar ali naquele momento: nem isso me lembro. Talvez a memória do grito, em si, ocorra-me ainda apenas porque minha garganta preserve o ardor e a rouquidão que o grito deixou quando de mim saiu. Estou apenas especulando. Não tenho certeza de nada. Recuso-me a tê-la: um ato de contracultura até nesse mundo em que tantos são tão seguros do que dizem, do que fazem, do que pensam…
Será mesmo assim? Na certeza, duvido.
Se já falava baixo, agora, com a rouquidão, minha voz mal se faz ouvir, mesmo que eu queira fazê-la alta, não consigo. Meu timbre de voz, grave, se antes servia a outros propósitos, nunca serviu para me ajudar a falar alto. Gritar, então, nem pensar: aquele grito foi, com todo efeito, uma exceção. E agora menos ainda, o que também me livra de ser envolvido em algo que, a meu ver, representa um dos maiores vícios de nossa época, que elegeu o grito como instrumento predominante de comunicação (comunicamo-nos?). Ao que parece, adotaram-no como a voz, por excelência, do espírito de nossos tempos. Talvez (especulo), isso ocorra com os tempos que correm por faltar-lhes, justamente, alma.
Há de fato muito ruído no mundo. Tanto que, talvez, se um dia os pássaros pararem de cantar, nem vamos mais nos dar conta disso. Alguns hão mesmo de pensar que não perdemos nada, pois nunca tiveram a chance de desfrutar desse, tão simples e ao mesmo tempo tão único, prazer ao longo de toda uma vida, vida esta, toda ela, abafada pelos sons de gritos. Uma vida sem a sedução do sussurro, sem o encanto da melodia (inclusive a dos cantos dos pássaros), sem o frescor delicado do orvalho, uma vida, enfim, sem sutileza nenhuma: crua e bruta. Tanta gritaria a nos surrupiar o silêncio necessário para nossos exames de consciência. Haveria poesia no grito? Apenas perguntando, pois também para isso não tenho respostas. E ainda que as tivesse, elas provavelmente não seriam conclusivas… e, mesmo se fossem minimamente conclusivas, não seriam definitivas… e, enfim.
Quando gritei, senti-me como de volta ao meu estado mais primevo: quando, gritando, rasguei o ventre da minha mãe ao nascer. Naquele momento, chorava também, mas o choro, ao contrário do grito, sempre foi meu companheiro, desde meu nascimento. Contudo, ele, tímido, prefere não aparecer muito em público. Costuma revelar-se apenas para mim, quando ficamos, eu e ele, juntinhos e a sós. Já chegamos ao mundo fazendo ambas as coisas: gritando e chorando. Talvez, com esse gesto, estávamos a querer que ele, o mundo, ouvisse-nos, reparasse em nossa chegada, percebesse-nos. Como nos faltavam palavras para verbalizar esse momento (éramos bebês, afinal), gritávamos e chorávamos, ou gritávamos em meio a lágrimas, ou chorávamos alto, gritando. Gritos, em geral, de algum modo servem ao propósito de nos socorrer em nossa eventual (ou, em alguns casos, nem tão eventual assim: vai ver continuamos sendo bebês) incapacidade de falar, dialogar, fazer-nos ser ouvidos, compreendidos. E amados? Talvez sim, talvez não. Não sei. E digo-lhes isso com tranqüilidade. Confesso-lhes: é-me tão mais sereno duvidar. Se essa consciência tivesse me alcançado antes, quem sabe (estou a duvidar) eu não teria gritado como gritei. Gritar, parece-me, intoxica-nos. Pode ser. Eu provavelmente estava mesmo intoxicado quando gritei. Mas do quê? Respondo-lhes, dizendo bem baixinho: não sei.

2015/01/img_1793-0.jpg

Parece que vives sempre de uma gaiola envolvida

É final de tarde, a noite se avizinha, e como ocorre todos os dias, sem distinção entre dias úteis, sábados, domingos ou feriados – havendo mesmo uma predileção por estes últimos, pois neles o movimento de clientes é maior –, Antônio e Conchita estacionam seu carrinho de pipoqueiro em frente a um dos últimos cinemas de rua de São Paulo – na rua Augusta. O cinema dispõe, em seu hall de entrada, de um pequeno comércio que, entre outros comes e bebes, também oferece pipocas à venda, mas muitos clientes preferem adquiri-las do simpático casal de pipoqueiros, lá fora, talvez por acreditarem que as pipocas feitas por eles, posto que preparadas em um antigo carrinho de pipoqueiro, sejam mais saborosas. São pessoas para as quais o dedo da tradição está sempre a indicar um caminho mais conhecido, confortável, e, portanto, para elas, mais desejável.
Se nada no modo de preparo e na aparência das pipocas, ou mesmo em relação ao carrinho de pipoqueiro em si, mudou ao longo de 40 anos – tempo em que Antônio e Conchita estão casados e, juntos, à frente do negócio –, tal não se pode afirmar em relação ao casal, pois ambos mudaram muito e já se encontram bastante fragilizados por idades relativamente avançadas: Antônio tem 75 anos; Conchita, 70.
Tanto o carrinho de pipoqueiro quanto as pipocas parecem orientados por um relógio muito próprio, que parou em determinado momento do passado, permanecendo estanque em um tempo que já não mais existe.
(Processo este que lhes acomete com naturalidade, ao contrário do que se nota quando voltamos os olhos para a lanchonete do outro lado da rua – decorada com motivos dos anos 50 –, e a barbearia situada dentro de uma galeria de lojas no quarteirão de baixo – que também busca naquela década inspiração para sua decoração. Por serem fruto de um esforço deliberado – e por vezes até afetado – de representar um tempo passado, a lanchonete e a barbearia acabam, por fim, colhendo artificiosos pastiches como resultado.)
Em 40 anos de parceria afetiva e profissional, Antônio e Conchita nunca esboçaram nenhum sinal de descontentamento de um em relação ao outro, ou vice-versa – nunca nem mesmo brigaram. Falavam-se pouco, é verdade. Embora Conchita fosse muito extrovertida e falante, com Antônio a comunicação dava-se predominantemente em planos silenciosos: olhares, gestos.
Assim, não se sabe ao certo por qual motivo, naquele frio final de tarde de outono, por volta das 18h,
(horário em que, no passado, os homens punham-se a fazer seus exames de consciência)
quando Antônio e Conchita há pouco tinham estacionado o carrinho de pipoqueiro em frente ao cinema, enquanto Conchita servia uma primeira cliente com um saco grande de pipocas, virou-se para Antônio e, numa delicadeza de rendas, perguntou-lhe:
– Tonho,
Assim ela carinhosamente o chamava.
– você é feliz comigo?
Antônio estava então a pensar na morte da bezerra, enquanto seus olhos passeavam pelo vai e vem de pessoas que, apressadas, subiam e desciam a rua, entravam e saiam do cinema.
– Tonho?
Olhou para Conchita e ela insistiu:
– Diga-me: você é feliz comigo?
Conchita colocara essa questão a Antônio, sabendo de antemão que o efeito poderia ser o mesmo de uma flecha lançada contra um alvo de um côncavo infinito, tal qual um buraco negro. Antônio era um homem muito calado. Mas Conchita precisava dar voz àquela sua angústia, mesmo que essa voz, ao final, pudesse terminar ficando sem o eco de uma resposta qualquer de Antônio, que, não se sabe dizer se deliberadamente ou não, poderia deixar a pobre esposa a falar sozinha, tal como esses loucos que andam por aí, pelas ruas, esbarrando a miséria emocional de seus solilóquios nas muralhas da indiferença das gentes e da cidade.
Talvez, contudo, por força do efeito surpresa trazido pelo inesperado da questão, Antônio esboçou uma reação, perguntando a ela, com surpreendente calma:
– Como assim, Conchinha?
Era o apelido carinhoso com o qual a chamava.
Conchita então servia mais uma senhora, que aparentemente tinha a mesma idade dela. Ao entregar-lhe o saco de pipocas, Conchita agradeceu-lha com um apressado:
– Obrigada!
E retomou:
– Antônio,
Desta vez com a voz mais pausada.
– … vivemos juntos há 40 anos e nunca lhe perguntei isso, pois sempre me pareceu que você fosse feliz comigo,
Conchita media as palavras com bastante cuidado.
– … mas ultimamente tenho notado você distante.
– Eu!?
– Sim, você! … sentimentalmente ausente. E todo aquele carinho, afeto, cordialidade e… desejo que costumava ter para comigo parecem
Hesita por alguns instantes antes de finalizar.
– … perdidos.
Antônio, naquele instante, olhava de soslaio para uma rapariga alta, feita ainda mais alta pelo efeito dos sapatos de salto agulha que calçava, de abundantes cabelos descoloridos – que mais pareciam um chumaço de palha pronto para ser incendiado –, com ombros largos, que descia pela calçada falando ao celular com um timbre de voz forte de barítono, abafando o zum zum zum dos demais pedestres que passeavam por ali. Quando Antônio voltou os seus olhos para Conchita notou, envergonhado, o olhar de desaprovação dela. Disse-lhe então:
– Conchinha,
O olhar de Conchita deixou de lado o tom de reprovação e ganhou a languidez do olhar de uma namoradeira de gesso. Seus cabelos desgrenhados e grisalhos teimavam em cair sobre seus olhos, e cada vez que ela os afastava, aproveitava para enxugar – e assim disfarçar – pequenas lágrimas que começavam a deles brotarem, teimando em descer pelos seios pálidos de sua face, numa tristeza de noite infinita.
Um jovem casal aproximou-se do carrinho de pipocas. Ele pediu um saco de pipocas grande. Ela tentou convencê-lo que a média seria suficiente. Acabaram por fim discutindo e não levando nenhuma das opções. Homens e mulheres, até nisso tão distintos.
– vê essas pipocas que vendemos aqui há tantos anos?
Conchita olhou para um resto de pipocas que sobejava dentro do carrinho – pareciam frias e murchas, como cravos brancos há muito abandonados sobre um túmulo.
Havia naquele instante menos gente na calçada em frente ao cinema. As sessões das 18h30 já tinham começado, levando para dentro das salas de projeção boa parte dos que por ali ainda circulavam. O entorno estava tomado da melancolia de uma última janela que à noite se apaga na fachada de um velho edifício no centro da cidade.
– Sim…
Ela fez que entendeu – ao menos se esforçou. Estava confusa. O cheiro das pipocas, que sempre lhe pareceu algo inebriante, naquele início de noite tinha sobre ela um efeito entorpecente.
O tempo parecia suspenso, como se estivesse a aguardar o movimento da batuta do regente de sua orquestra para seguir em frente com sua desarmônica sinfonia – a sinfonia da vida –, pautada pela nota altissonante do caos.
Antônio prosseguiu:
– Foi com a venda delas que conseguimos nos manter e criar nossos filhos.
– Oh, Antônio.
(parecia comovida)
– E hoje temos um casal de filhos exemplar, não é mesmo?
Ele perguntou já sabendo que a resposta dela não poderia ser outra senão:
– Sim, são um homem e uma mulher exemplares.
– Temos nossa casa própria, nosso carro, e tudo isso foi construído com a venda dessas pipoquinhas,
Exceto pelo modo carinhoso com o qual a chamava:
– Conchinha.
Antônio não era homem de usar diminutivos. Conchita, portanto, estranhou o:
– pipoquinhas…
– que há anos são preparadas e vendidas da mesma forma.
Perdida, sem saber aonde Antônio queria chegar com aquela cantilena toda sobre as pipocas, Conchita, ansiosa:
– Tonho, responda-me simplesmente: você é feliz comigo?
Um periquito azul, que havia acabado de fugir de um realejo que ficava ali na esquina de cima, onde há anos cumpria pena oferecendo, às pessoas, esperança dentro de papelotes, foi visto, naquele ato, voando rente às cabeças de Antônio e Conchita. Seu dono, um senhorzinho de boina de feltro verde na cabeça, com a fralda da camisa para fora do cinto, vinha correndo atrás dele, desembestado, mas logo viu-se forçado a desistir da perseguição quando, desolado, acompanhou com os olhos seu pequeno detento de plumas azuis desaparecer, livre, mimetizado pelo azul do céu.
– Conchinha, você para mim é como essas pipocas: a certeza de continuidade. Sei que amanhã, salvo se morrermos um ou outro (ou ambos), estaremos aqui a vender essas mesmas pipocas, ganhando de forma justa nosso dinheirinho,
(o diminutivo de novo)
– e isso para mim é a melhor síntese de felicidade: viver sem surpresas. A mesma esposa, a mesma rotina, no mesmo local. Assim tem sido há 40 anos e assim continuará sendo. Por quantos anos mais?
Tendo o olhar perdido, Conchita suspirou um:
– Não sei…
E Antônio por fim sentenciou:
– Deus queira que por muitos ainda, minha Conchinha.
Ele então abraçou o rosto dela com as suas mãos em concha e beijou sua testa, produzindo um estalinho, ouvido apenas por eles dois, tal como um segredo de alcova.
Diante das palavras de Antônio, Conchita sentiu-se sufocada – percebeu-se de um instante para o outro
(num estalinho)
como um passarinho na gaiola, que há 40 anos ficara presa a um homem e a uma rotina de trabalho e de vida. Vislumbrou, como que numa epifania, o quão diminutos e restritos
(inexistentes?)
tinham sido seus horizontes nesse tempo todo. Os diminutivos que Antônio utilizara naquela conversa então lhe fizeram sentido – um sentido triste e melancólico, como um domingo à noite.
(por acaso, era mesmo domingo à noite)
Conchita olhou a cidade a seu redor, viu o quanto ela mudara e comparou com o quanto ela permanecera sendo a mesma pessoa
(apenas bem mais envelhecida)
fazendo a mesma coisa, na companhia do mesmo homem.
(até o uniforme branco que ambos usavam, parecido com uma sobrepeliz, era o mesmo nesses anos todos)
Aquilo tudo a despertou para a vida tediosa e sem esperança de mudança que tinha vivido e ainda vivia. A única possibilidade de mudar seria, como o próprio Antônio mencionara em suas palavras, morrer ele ou ela, ou ambos.
(Parece que vives sempre de uma gaiola envolvida)
Num gesto de rompante, Conchita jogou o guardanapo com o qual limpava as mãos, sujas do óleo das pipocas, sobre o carrinho de pipoqueiro, e saiu pisando duro, rua abaixo, sem olhar para trás,
– Conchinha!?
deixando Antônio a falar sozinho.
Logo mais à frente, duas esquinas depois, Conchita encontrou-se com o velhinho do realejo. Ele estava lá, parado, enxugando, com a fralda da camisa, as lágrimas que vertiam de seus olhinhos castanhos, ternos como olhos de bebê: chorava a perda de seu periquito azul. Conchita apiedou-se dele e o abraçou, trazendo a cabeça do velhinho para o conforto dos fartos seios dela.
No dia seguinte, vestida de colombina, enquanto o velhinho do realejo tocava o seu instrumento, no mesmo local do dia anterior, Conchita, presa ao carrinho dele por uma corda de tule púrpura, atada a uma coleira de miçangas coloridas, dançava e oferecia, às pessoas, esperança dentro de papelotes. Estes, que até o dia anterior eram simples e não contavam com nenhum tipo de ornamento, vinham então acompanhados, cada um, de um cravo de papel crepom vermelho.
Na frente do cinema, logo mais ali abaixo, não se via mais Antônio, não se via mais o carrinho de pipoqueiro, ambos aos quais ela estivera presa por tanto tempo. Conchita, vendo aquele espaço vazio em frente ao cinema, perguntou em pensamento:
– O que será deles?
Depois se desinteressou e nisso um sorriso de margarida desabrochou em seu rosto.
Sentiu-se finalmente livre, e a emoção a levou a tentar um rodopio, que acabou sendo frustrado pela corda de tule púrpura atada à coleira de miçangas coloridas que a mantinha presa ao carrinho de realejo.
(Parece que vives sempre de uma gaiola envolvida)

N. do A.: O título “Parece que vives sempre de uma gaiola envolvida” foi extraído de versos do poema “Mulher vestida de gaiola”, de João Cabral de Melo Neto.

Muitos acabaram varridos pra baixo do tapete a que chamam terra pelas vassouradas dos anos

Depositadas dentro daquela velha caixa de papelão, que cheirava a passado, de modo um tanto desorganizado, a misturar várias camadas de tempo, inúmeras fotografias. Umas mais novas, outras bem antigas, algumas desbeiçadas, amassadas, amareladas, decoradas com molduras cheias de rococós; faltando uma pontinha aqui, pedaços ali; um rasgo a cortar outra bem ao meio, decepando um braço, cuja mão ficou atada a uma figura feminina, enquanto o restante do corpo (masculino) ficou solitário e manquitola na outra parte da foto (eram amigos, amantes?). Rostos jovens, velhos, uma mantilha, que originalmente deveria ser de renda branca, a ornamentar a cabeça de uma noiva, mas que ali, na sépia, parecia empoeirada. Um casal sentado no banco de praça de alguma igreja matriz interiorana, posando ao lado de um cipreste baixo, esculpido à semelhança da chama de uma vela votiva. Parecem felizes – devem ter sido, ou ao menos assim estavam naquele momento registrado pela foto. Homens de bigode, com ar sisudo, metidos em jaquetões, ao lado de numerosas famílias, com mulheres e crianças, todos vestidos de maneira solene (iam à missa?). Parecem tristes: não há sorrisos (quando sorrimos estamos felizes?). Crianças barrigudas, com umbigos invertidos, brincando em meio ao barro, nos barrancos de algum arrabalde – estão sujas, descabeladas, descalças. São crianças, afinal.

Em algumas fotos – talvez as mais antigas –, luz e sombra, preto e branco apenas. Noutras, há cor, mas a luz parece chegar ali na imagem retratada, como que vindo de uma longa caminhada, de anos: uma luz cansada.

Ao meu lado, a minha avó:

– Este é o tio Alfredo.

Apontando para um determinado rosto numa foto pequenina – mais um dentre tantos outros rostos que ali vejo, mas não reconheço.

– Esse aqui é seu pai, olha só, quando tinha 2 anos,

Meu pai pelado, deitado de bruços, com a cabeça levantada, olhando ao redor, curioso.

– e nesta aqui você tinha 5 anos.

Exceto pelos olhares das duas crianças nas fotos – o meu é triste –, parecemos ser o mesmo garoto, apenas retratados em idades diferentes.

– Olha seu avô como estava novinho

separando uma foto, com cuidado, afastando-a das outras do modo como selecionava, quando fazia a escolha do arroz, os grãos bons, segregando estes daqueles que estavam danificados.

– nesta foto!

Admiro-me de vê-lo ali na foto, ainda vivo, saudável, pois a última lembrança que tenho dele

– Esta outra é de pouco antes do dia em que ele faleceu.

é de pouco antes de seu falecimento – quando já não era mais meu avô, apenas uma sombra do homem que ele fora, que teimava em se apresentar encarnada no frágil corpo dele.

Numa foto grande, a cena de uma mesa posta, repleta de comidas e bebidas, rodeada de gente – todos sorriem. Devia ser Natal. Sim, pela quantidade de gente só podia ser: era a única data em que toda a família se reunia. Éramos…, bem, nem todos ali são da família: há amigos, vizinhos (amigos?), agregados. Hoje somos bem menos numerosos: muitos acabaram varridos pra baixo do tapete a que chamam terra pelas vassouradas dos anos.

– Quer um café, filho?

Indaga-me minha avó, já se levantando.

– Quero.

Acompanho-a e vamos juntos até a cozinha,

– Senta aí. Eu passo rapidinho um café quentinho pra gente.

onde nada parece ter mudado: sobre a mesa, o mesmo naperon de crochê, e sobre este o conjunto de chá que dei a ela de presente em algum dia das mães; na cristaleira, os mesmos copos de vidro granulado coloridos; xicarazinhas de porcelana branca, com bordas de esmalte dourado.

– Quer uns bolinhos?

Depositando bem à frente de meus olhos um cesto de bolinhos de chuva amanhecidos, cobertos com uma fina camada branca de açúcar, como se estivessem sido deixados lá fora sob o sereno da noite.

Servi-me de um, dois, três – estavam frios, mas deliciosos.

– Vê se está bom de açúcar.

Oferecendo-me o café feito em um coador de pano, numa xicarazinha de porcelana branca, com borda de esmalte dourado,

– Acho que adocei demais.

pousada sobre um pires de porcelana de um outro padrão, outra cor, que não ornava com o da porcelana da xicarazinha do café.

Não respondi. De repente, vi-me ali à mesa, junto dela, como numa daquelas fotos antigas que há pouco estávamos a vasculhar na velha caixa de papelão, e que tanto diziam, conquanto delas não se ouvia nenhum som.

Um dia, pensei, também eu e ela seremos nada senão fotografias dispostas em uma velha caixa de papelão, e as memórias que estas evocam.