O barulho da vida

“Ela e sua mãe passaram o resto do tempo que ficaram juntas, naquele dia, sem dizer palavra nenhuma, apenas tricotando e, vez ou outra, ao modo de um gato que levanta as orelhas ao perceber algo diferente por perto, entreolhavam-se para conferir se era verdadeira ou não a ausência que o silêncio acusava estar presente.” Continuar lendo

Dói, logo existo

Vida era seu nome de batismo. Sua mãe queria que a sua primeira filha fosse batizada com esse nome, na esperança de que, assim, a menina pudesse desfrutar de melhor sorte, podendo, quem sabe, ter uma vida plena de felicidade, ao menos no quanto possível, livre das muitas agruras pelas quais a mãe passara ao longo do curso de sua própria história, dentre as quais, talvez a pior, ter sido abandonada à própria sorte pelo pai da menina aos três meses de sua gravidez. A esperança da mãe, depositada sobre a vida da filha, frágil como a chama de uma vela ao vento, viu-se logo apagada, pois, nem bem Vida nascera, tornou-se órfã: durante o parto, sua mãe acabou sofrendo várias complicações de saúde, que, por fim, resultaram em seu óbito. A mãe de Vida morreu sem nem ao menos ter tido a chance de ver e pegar no colo a filha recém-nascida. Morreu sem poder despedir-se de Vida.Levada depois a um orfanato, Vida passou toda a sua infância e adolescência dividindo as condições precárias daquele local com outras meninas e meninos, todos também orfãos. Passavam fome, passavam frio, apanhavam uns dos outros – dos mais fortes –, e principalmente dos supervisores. Dos poucos que dali saíam, agraciados pela adoção, podia-se dizer que renasciam para a vida. A grande maioria que ali permanecia apenas sobrevivia.

Vida sobreviveu e quando, enfim, alcançou a idade adulta, tornando-se uma mulher feita, deixou o orfanato e foi viver na rua, onde, para continuar sobrevivendo, entregou-se à prostituição. Não vivia sozinha, tinha a companhia do Medo, um amigo dos tempos do orfanato com quem ela dividia a vida na rua. Numa noite quente e enluarada de outubro, um carro aproximou-se de Vida, que, como de hábito, fazia ponto numa esquina escura do centro da cidade. Ao baixar a janela do carro, o cara lá dentro identificou-se, cumprimentou Vida e negociou com ela o preço: era um cliente como outro qualquer, dos muitos que ela atendia todas as noites. Alguns meses depois, aquele cliente, porém, já não era mais um mero cliente. Ele e Vida casaram-se, jurando, em frente ao padre, viverem juntos, amarem-se e respeitarem-se, na alegria e na tristeza, até que a morte os separasse. Naquele momento, Vida sentiu-se renascendo. Deixou Medo na rua, e foi viver com o ex-cliente tornado marido, numa casa grande, num bairro tranquilo da cidade.

As palavras do marido, entretanto, ditas diante do padre, foram como que ditas ao vento: alguns meses depois de casados, ele abandonou Vida quando ela acabara de completar três meses de gravidez da filha dele com ela. Foi-se embora, com a roupa do corpo, sem explicar por que partia e jurando nunca mais voltar. Ao ver-se sozinha, atolada nas dívidas impagáveis que o seu ex-companheiro deixara, Vida desesperou-se e saiu de casa correndo, gritando a plenos pulmões por ajuda pela rua. Nenhuma alma viva veio em seu socorro: os que por ali passavam ignoravam-na. Mesmo seu amigo Medo, que por acaso andava ali por perto, olhou-a com desdém, pois sentia-se traído pelo abandono dela no passado. Vida acabou salva pela Morte, uma velha amiga que ela conhecera na sua mais tenra infância. A Morte passava por ali de carro e, quando viu o desespero da amiga Vida no meio da rua, acelerou o automóvel para ir mais rápido ao seu socorro.

  

Vida

Na maternidade, situada em um bairro tradicional da cidade de São Paulo, um homem e uma mulher, recém-empossados em seus novos papéis sociais de pai e mãe, devido ao nascimento do seu primeiro filho, algumas horas atrás, discutem calorosamente sobre a escolha de um nome para o menino. Quando a enfermeira entra no quarto, trazendo o bebê em seus braços, todo miudinho, ainda com carinha de joelho, envolto em um cueiro todo de lantejoulas prateadas, pai e mãe deixam a discussão de lado e, com olhares embevecidos, ficam a apreciar o bebê, já agora entregue aos cuidados da mãe, que o acalenta cantando baixinho sambas de raiz. A enfermeira saca então duas castanholas dos bolsos de sua calça e, tocando-as efusivamente, deixa o quarto em passos de flamenco.
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Com uma desenvoltura surpreendente para a idade avançada, uma velhinha, vestida em um traje de bailarina todo carmim, dança sobre as calçadas do Viaduto do Chá, seguindo por diversas vezes da Praça Ramos até a Praça do Patriarca, e depois repetidamente voltando. Seus passos de balé são precisos e delicados, seu rosto traz uma expressão plácida; sua saia de tule, de tão esvoaçante, parece uma chama ao vento. À maneira de uma tiara, um enorme fone de ouvido cruza por sobre sua cabeça, de orelha a orelha (o que estaria a ouvir?). Dentre os que por ali passam, são poucos os que desviam o olhar para brevemente observá-la. Pastoreada pelas contas a pagar, a maioria passa com o olhar alheio e distante.

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O menino recém-nascido e a velhinha são a mesma pessoa, aqui retratada em momentos distintos de uma vida cuja história nada teve de convencional e linear. Foi toda ela um musical.