• A estação de trem

    A estação de trem

    Desativada há anos, a antiga estação de trem ficava às margens da cidade, numa periferia distante situada para além do cemitério municipal. As suas plataformas, que outrora foram repletas de gente a chegar e partir, encontram-se vazias. Ao invés do apito do trem e do burburinho dos passageiros, ouve-se apenas o sopro do vento, que, em tom de sussurro e sob testemunho das aranhas que habitam os cantos do telhado, diz aos poucos desavisados que por ali aparecem:

    — Perigo.

    sobre quão perigoso é estar ali, dado que o local, bastante degradado após anos de abandono, não oferece segurança nenhuma àqueles que o visitam. A poeira, os buracos, o mato alto e a água suja empoçada criam ambiente propício para cobras, aranhas, ratos e pessoas desabrigadas.

    Um dessas pessoas é uma mulher de nome Isabel, que vive ali numa das plataformas, sob uma barraca precária de panos sujos, desde quando a estação foi desativada.

    Há 10 anos, quando o derradeiro trem dali partiu, levando seu único filho dentro do último vagão, aquele destinado à segunda classe, ela, em pé sobre a plataforma, ficou a acenar com um lenço que trazia na cabeça, o mesmo com que também enxugava as lágrimas que, em profusão, desciam pelos cantos de seus olhos. O filho partia para tentar a vida em outra cidade, maior e distante, com a promessa de que

    — Um dia eu volto, mãe.

    um dia voltaria.

    Desde então, todavia, nunca mais voltou.

    Refém da esperança de que ele um dia cumpriria sua palavra de voltar, Isabel permaneceu ali esperando por todos esses anos. Para isso, largou tudo para trás: casa, marido, pai, mãe, irmãos. Ninguém entendia o porquê, mas para ela isso não importava: ficava naquela estação de trem como se estivesse ali condenada à prisão.

    Isabel vivia à base dos restos de alimentos que recolhia do lixo deixado ao redor daquele lugar pelo serviço de coleta da cidade. Para beber, ia até o riacho que passava ao lado da estrada de terra ao fundo da estação de trem. Fazia as suas necessidades onde e quando sua vontade ditava.

    Abandonada pelos pais quando ainda era uma criança de pouco mais de 4 anos, Isabel foi criada por sua avó, seguindo uma criação muito simples, como eram aquelas que se davam às crianças, pobres como ela, em sua época, na cidade onde nasceu.

    Quanto teve Lourenço, seu primeiro e único filho, jurou a si mesma que nunca o abandonaria, como fora abandonada por seus pais. Pena, para ela, que Lourenço não fizera a mesma promessa em relação à própria mãe.

    Às vezes, quando, à maneira dos passageiros de outrora, o vento cruza, apressado, as plataformas da velha estação, é possível ouvir Isabel chorando baixinho. Em meio ao choro, ela reza: tem fé de que um dia seu filho vai voltar.

    Certa noite, uma luz, forte como a de um farol, irrompeu o breu que envolvia a estação, seguindo a linha do trem. Vinha de longe e, rapidamente, foi chegando cada vez mais e mais perto. Ao presenciar aquela cena, Isabel sentiu seus olhos serem injetados por lágrimas, enquanto seu coração batia em disparada: para ela, aquela luz era a da locomotiva do trem que trazia seu filho de volta.

    À medida que foi se aproximando, a luz foi se revelando não como a luz da locomotiva do trem, como pensava Isabel, mas a de um carro alegórico que trazia, em cima de sua carroceria, um trem feito de madeira e isopor. Da janela daquele trem de fantasia, acenava um homem vestido como um maquinista. A cada vez que ele puxava a cordinha da cabine da locomotiva, ouvia-se um apito alto e agudo.

    Junto com o trem, chegou o som de uma potente bateria de escola de samba, que por sua vez puxava, à maneira do Flautista de Hamelin, um cordão de centenas de sambistas, todos fantasiados de multicoloridos maquinistas. Seguindo o ritmo compassado da bateria, carro alegórico e sambistas avançavam na direção de Isabel, que, como se estivesse hipnotizada, acompanhava aquilo tudo sem mexer um músculo, com os olhos fixos e brilhantes como de um gato que, ao cruzar a estrada à noite, é surpreendido pelos faróis de um carro.

    Depois de anos de tristeza e resignação, tudo aquilo lhe parecia tão estranho, mas ainda assim tão espetacularmente belo.

    Minutos depois, fez-se novamente silêncio na estação de trem abandonada: o carro alegórico e os sambistas já iam longe, bem distante dali, deixando para trás muito lixo, não do tipo orgânico e fétido em cujo meio Isabel, nos últimos anos, acostumara-se a viver, mas sim restos de festa e alegria: serpentinas, confetes, plumas e restos de paetês, cujas cores e brilhos eram então realçados pelas luzes, tépidas mas ainda assim vibrantes, que o sol da manhã lançava sobre a antiga estação de trem.

    Vendo tudo aquilo espalhado pela estação e pelos trilhos do trem, Isabel se lembrou que, quando menino, Lourenço, festeiro como ele só, gostava de ir às matinês de Carnaval, vestindo fantasias diversas, que variavam conforme o tema da festa ou mesmo seu desejo de se destacar, mas sua preferida era justamente a de maquinista de trem. Ao voltar dos bailes de Carnaval, ele trazia grudado ao corpo suado restos de serpentinas, confetes, plumas e paetês similares àqueles que Isabel então via, ao seu redor, jogados ao chão. De repente, seu olhar para aqueles restos de festa e alegria mudou, e ela passou a ver ali a realização do tão aguardado retorno de seu filho que partira há 10 anos. No fundo, sabia que não era verdade que ele tinha voltado, mas se permitiu, ao menos por um instante, breve como o apito de um trem, deixar-se levar por aquela fantasia, afinal, era Carnaval.

  • a mãe

    a mãe

    A mesa de jantar, no centro da sala ao lado da cozinha, costumava receber a família para as refeições do dia a dia: pai, mãe e três filhos sentavam-se ao seu redor, e ali tomavam os cafés da manhã, almoçavam e jantavam.

    Depois de preparar as refeições, a mãe punha a mesa estendendo sobre ela uma toalha com motivos florais, sobre a qual dispunha os pratos, os talheres e os guardanapos. Finalizava a arrumação com a colocação dos alimentos.

    Depois de terminarem de comer, saíam todos da mesa para cuidar de outros assuntos, enquanto a mãe ficava ali, afinal era ela a encarregada única de terminar de lavar a louça, secar e guardar, num ciclo que se repetia ao menos três vezes ao dia, todos os dias da semana. Além de cuidar das refeições, era a mãe que cuidava da limpeza da casa, das roupas, das compras do mês, da educação dos filhos, cumprindo assim uma jornada de trabalho que não tinha intervalo. Era a primeira a acordar e a última a ir dormir.

    Com o passar dos anos, os filhos foram crescendo e, aos poucos, indo embora da casa dos pais. Formaram-se, casaram-se e se foram. A casa foi ficando vazia.

    Quando o pai faleceu, a mãe ficou morando sozinha naquela casa que, antes tão pequena, parecia ter se tornado maior com o tempo, fazendo ainda mais presentes as ausências que a vida e a morte trouxeram ao longo dos anos.

    Mesmo sem ter ninguém mais a quem cuidar senão ela mesma, a mãe continua a agir como se a casa estivesse cheia, como de fato fora outrora. Prepara as refeições, põe a mesa, lava a louça, limpa a casa, lava as roupas, faz as compras do mês, procura se manter ocupada.

    Todavia, sem ter mais a quem servir, não vê sentido para sua vida.

  • A vida é um sopro

    A vida é um sopro

    Vistas de longe, as luzes da cidade pareciam estrelas tristes, com seu brilho amarelado como os sorrisos das gentes com quem, todos os dias, Ana cruzava pelos corredores do escritório onde trabalhava como secretária.

    Era madrugada de domingo para segunda, quando o ônibus em que ela estava, depois de fazer o desvio da estrada principal, tomou a estrada secundária que daria direto na cidade. Ana voltava das férias em sua cidade natal e, na manhã daquele dia, voltaria ao trabalho. Embora tivesse ficado fora por quase um mês, parecia-lhe que tudo passara tão rápido.

    Quando criança, sua mãe sempre lhe dizia:

    — A vida é um sopro.

    Volta e meia, para ilustrar, dizia isso e, em seguida, soprava uma flor de dente-de-leão que colhera no quintal, fazendo-a se dissolver no vento.

    — Está vendo?

    Perguntava a mãe, enquanto cada florzinha do dente-de-leão voava para um lugar diferente, tomando os rumos mais distintos.

    Para sua mãe, de fato, a vida tinha sido breve como um sopro: morreu ainda jovem, quando Ana não tinha mais que 5 anos de idade. Órfã da mãe, ela acabou sendo criada por seu pai, Orlando. Foi graças a ele que ela conseguira estudar e ter, enfim, condições de deixar a sua cidade natal e seguir para a cidade grande, a fim de buscar uma vida melhor. A mesma cidade para a qual ela voltava depois de ficar fora de férias por quase um mês.

    Muitos anos atrás, quando, ainda jovem, esperava o ônibus na rodoviária que a levaria da sua cidade natal para a cidade grande, foi-lhe inevitável comparar aquela rodoviária, com toda a gente que estava ali esperando ônibus para vários destinos, com uma flor de dente-de-leão, que a partir de um sopro, lança suas florzinhas ao vento para seguirem, cada uma delas, um destino. Também aquelas pessoas seguiriam por destinos variados, não só de viagem, mas de vida mesmo. Muitos que ali estavam, mesmo morando naquela cidade tão pequena, ela nunca tinha visto. Outros, depois de embarcarem, ela jamais veria de novo.

    Ao enfim chegar a seu apartamento, onde vivia sozinha, Ana sentou-se por alguns instantes no sofá, enquanto olhava ao redor os móveis e objetos que há dias não via. Tudo era tão familiar e estranho ao mesmo tempo.

    Pouco depois, algumas horas apenas, Ana teria que estar a caminho do trabalho, onde novamente encararia os seus colegas com seus sorrisos amarelos, virem na direção dela e a cumprimentarem pelo retorno dizendo:

    — Bom retorno.

    Depois de perguntarem, só por perguntar:

    — Como foi de férias?

    Tudo dito por entre cumprimentos de mãos débeis e beijos à distância. Às vezes, nem isso.

    Ana não aguentava mais trabalhar naquele lugar, mas infelizmente, em sua idade, de quase se aposentar, conseguir um outro trabalho, um trabalho qualquer que fosse, era algo quase impossível.

    Tentando reunir forças e coragem, ela tomou um banho, se trocou e partiu, indo em direção ao ponto do ônibus que a levaria até o escritório onde trabalhava, no centro.

    Ao chegar lá, os sorrisos amarelos, que então lhe pareceram ainda mais amarelos, vieram ao seu encontro para cumprimentá-la dizendo:

    — Bom retorno.

    Depois de perguntarem, fingindo interesse:

    — Como foi de férias?

    Apesar de ser o primeiro dia de trabalho, após quase trinta dias de férias, Ana sentia-se muito cansada, afinal, viajara de ônibus a madrugada toda sem conseguir dormir direito. Mal havia ocupado seu lugar na mesa de trabalho, foi chamada a comparecer à sala da diretoria. Fez um muxoxo de chateação e seguiu para onde havia sido chamada. Lá, depois de cumprimentos protocolares, ouviu de seu chefe que, devido a uma reorganização interna, ele não mais a via como integrante da equipe.

    — Não há espaço para você nessa nova estrutura.

    Friamente, entregou-lhe um papel para ela assinar e, depois que ela assinou, despediu-se agradecendo pelos anos de serviços prestados.

    Ana trabalhara naquela empresa por quase 30 anos. Não só ela, mas também muitos dos sorrisos amarelos foram desligados naquele mesmo dia.

    Enquanto esperava pelo ônibus que a levaria de volta para casa, foi-lhe inevitável lembrar-se, sob lágrimas, de Seu Orlando, seu pai, a lhe dizer:

    — Nem tudo são flores nesta vida.

    ou

    — A vida é como uma rosa: bela e perfumada, mas ao mesmo tempo cheia de espinhos.

    Vendo toda aquela gente ali ao redor dela, no ponto de ônibus, gente que ela nunca vira e, muito provavelmente, não mais veria depois de tomarem seus rumos, lembrou-se da flor de dente-de-leão a espalhar suas florzinhas pelo mundo quando sua mãe a soprava.

    ( — A vida é um sopro)

    Lembrou-se também do dia em que partira de sua cidade natal para vir à cidade grande; lembrou-se dos quase trinta anos que passara trabalhando no escritório que acabara de a demitir.

    Enquanto sua mente vagava por essas memórias e lágrimas escorriam de seus olhos, chegou o ônibus que ela esperava. Por sorte, conseguiu um assento livre. Sentou-se ali logo na frente do veículo, de onde, olhando pela janela, acompanhava as cenas que se desenrolavam pelas ruas por onde o ônibus passava. Ruas que, por anos, ela cruzara, indo e voltando do trabalho. Tudo lhe parecia tão familiar. Tudo mesmo, exceto por uma multidão de bailarinas metidas em vestidos de tule rosa que, à maneira militar, marchavam sobre as pontas dos pés por uma rua, carregando em seus braços, cada uma delas, uma arma de grosso calibre.

  • De ti sem mim

    De ti sem mim

    Ela julgava que seu casamento deveria ser tido como bem-sucedido, pois, passados 20 anos desde a cerimônia em que ela, diante do padre, dissera sim a Lourenço, e este dissera sim a ela, o casal conseguiu adquirir um apartamento próprio, nada muito grande, apenas o suficiente para acomodá-los mais a família de maneira confortável; tiveram dois filhos, que já estão quase saindo da “saia da mãe”, como se diz; puderam construir, cada um deles, sua carreira própria: ele é advogado, ela é manicure e trabalha em um salão de beleza. Não raro, dos salários de ambos sobra algo ora para economia, ora para alguma extravagância; cada um tem seu carro próprio – o dela foi ele quem deu; conseguem viajar algumas vezes por ano, sem muito sacrifício financeiro, inclusive para o exterior. O casamento é abençoado e estimado pelos pais dele e dela, gente conservadora e temente a Deus. Tudo, enfim, parece perfeito, mas apenas quando visto de longe.

    De dentro, sob os olhos de Catarina, a esposa, a relação com Lourenço parece uma sessão lenta de tortura. Ela não se lembra quando foi a última vez em que fizeram amor; de fato, mal se lembra o que é isso. Para piorar, desconfia que ele tenha uma amante (quiçá várias). Já pensou em contratar até um detetive para investigar, mas diante do medo do que poderia descobrir, prefere conceder-lhe o benefício da dúvida. Afinal, um casamento de 20 anos não se joga pela janela por qualquer coisa. Ele é homem, reflete, e homens são assim mesmo. Além disso, o que diriam seus pais, seus sogros, seus filhos, suas colegas de trabalho, a vizinha de porta do apartamento, todo o condomínio, se acaso descobrissem que ela tem sido traída pelo marido? Não descarta a hipótese de que, mesmo inocente, venha a ser julgada e condenada como se culpada fosse. Foi você quem procurou, ou você não fez por merecê-lo, diriam apontando o dedo para seu nariz. Seria queimada no inquisitório tribunal da família e amigos. Há dias, esses pensamentos a perseguem e, para dormir, tem apelado para substâncias vendidas apenas com prescrição médica, que consegue facilmente por meio de uma amiga pediatra. Começou ingerindo algumas poucas gotinhas; hoje, quase engole um frasco por semana e, ainda assim, dorme mal.

    O desgaste físico e emocional já se faz visível em seu rosto, cabelos e corpo: olheiras, fios ressecados e sobrepeso. Tudo isso só vem piorar a sua fraca autoestima fazendo-a cair ao chão. Chão sobre o qual caminha quase se arrastando.

    Quando ele chega em casa depois do trabalho, ela vai ao encontro dele ali mesmo na porta para dar-lhe as boas-vindas com um beijo que tenta acertar a boca, mas que acaba na bochecha dele após ele desviar o rosto. Catarina investiga com o olhar e o nariz se ele traz no corpo ou na roupa alguma pista de traição: uma marca de batom no rosto, por exemplo, ou um perfume feminino a envolver seu pescoço. Está paranóica. Cansado e visivelmente incomodado com aquela atenção toda da mulher que ele atura todos os dias, há anos, ele mal a cumprimenta e vai se sentar no sofá onde, com um copo de whisky na mão passa algumas horas sentado a assistir séries na televisão.

    Quando o sono dela chega, enquanto ele segue na sala assistindo televisão por mais algum tempo, ela vai dormir sozinha e, na cama, fica virando de um lado para o outro até conseguir cair no sono, por efeito dos remédios. Mesmo dormindo, o desejo continua vivo dentro dela, o que a faz sonhar diversas vezes o mesmo sonho: ela está na cama, uma cama qualquer que não a dela, e faz amor com um outro homem, não aquele com quem está casada. Acorda suada e assustada. Naquela noite, depois de sonhar que fazia amor com um colega de trabalho, um cara bem mais novo que ela, quase a idade de seus filhos, ela acordou gritando o nome dele, do cara, e com isso acordou Lourenço. Sentindo-se traído, o marido quis saber com quem ela anda saindo. Ela diz que foi apenas um sonho. Ele não acredita. Ela jura e chora. Ele dá de ombros e vira as costas. Brigam a noite toda. Mal o dia amanhece, ele vai embora, levando consigo tudo que pode e xingando alto, para deleite dos vizinhos do prédio. Em posição fetal sobre a cama, ela passa aquele dia todo chorando. Ao se levantar, já bem tarde naquele dia, vê um envelope deixado à frente da soleira da porta da sala, com seu nome escrito. Corre até ele na esperança de que seja alguma mensagem de Lourenço. Sim, é a caligrafia dele. Ela abre o envelope sem muito cuidado para não rasgá-lo e lê a mensagem que o marido lhe escrevera. Em algumas poucas linhas, ele diz a ela o quanto ele se sentiu mal com a traição e que buscará na justiça todos os seus direitos sobre o patrimônio do casal. Incrédula, depois de ler a mensagem, ela começa a rir histericamente. E foi rindo assim, que ela foi resgatada, horas depois, pelos paramédicos, e levada de ambulância até o hospital. Há dias, está internada ali sob acompanhamento de uma médica especializada. Sobre a parede atrás da cabeceira de sua cama, onde há dias ela segue deitada e medicada, há um crucifixo com a figura do Nazareno nu e ensanguentado. Catarina passa o dia todo a observar aquela figura de madeira, pensando em como seria bom se ele fosse de carne e osso, descesse daquela cruz, se deitasse ao lado dela e, ali mesmo naquela cama de hospital, a possuísse.

  • Copo vazio

    Copo vazio

    Na feira que acontecia todas as quintas, ocupando três quarteirões da rua principal do bairro, sempre havia muito burburinho de pessoas que iam até ali para comprar alimentos frescos, ou mesmo para simplesmente ver o movimento e fofocar. Quem quisesse encontrar preços mais em conta, chegava mais tarde, lá pela hora do almoço, horário a partir do qual os feirantes baixavam os preços na tentativa de zerar os produtos das barracas. Nem sempre funcionava para eles, mas os clientes comemoravam os preços mais baixos, ainda que, por outro lado, a variedade de produtos não fosse a mesma que aquela do início da feira.

    Maria Helena gostava de ir à feira bem cedo para dar uma geral nos produtos que estavam à venda, ver o que ela queria levar, mas de fato só levava mais tarde, na hora da xepa, quando os feirantes baixavam os preços, tornando-os mais condizentes com o dinheiro que ela recebia mensalmente da aposentadoria. Vez ou outra, não sempre, sobrava para alguma extravagância como, por exemplo, comer um pastel e tomar um caldo de cana. Mais comum era ela voltar para casa com a sacola preenchida apenas pela metade.

    De seu falecido marido, que trabalhara a vida toda na construção civil, um homem rude, porém de modos muito corretos, sempre ouvia:

    – Há que se ver sempre pela perspectiva do meio cheio.

    Referindo-se a situações da vida em que, metaforicamente ou não, o copo encontrava-se preenchido apenas pela metade.

    Era o jeito dele de cultivar algum otimismo, mesmo diante de tantas dificuldades. Às vezes funcionava, como quando ele, ao se deparar com o diagnóstico de uma doença terminal, que, segundo o médico, o levaria a óbito em, no máximo, dois meses, olhou para Maria Helena e, sorrindo, disse-lhe:

    – Pense pelo lado positivo.

    E, diante do olhar incrédulo dela, esclareceu-lhe:

    – Pelo menos vou parar de peidar.

    E então complementou:

    – Assim você vai conseguir dormir melhor daqui pra frente.

    De fato, com a morte de Luiz, seu marido, Maria Helena passou a dormir melhor. À época, não se sentiu nem um pouco culpada pela alegria que tomou sua mente quando conseguiu dormir sem o incômodo do ronco e, pior, dos peidos que seu marido emitia continuamente todas as noites, tornando desafiante a simples tarefa de respirar dentro do quarto do casal.

    Naquele dia, lá na feira, na barraca de legumes do Seu João que ela frequentava havia mais de dez anos, o próprio Seu João veio perguntar-lhe como andava a vida, pergunta que muitas vezes a faziam de maneira desinteressada, apenas para jogar conversa fora. Mas no caso de Seu João, não. A pergunta tinha um propósito absolutamente alinhado às palavras proferidas: ele estava sinceramente preocupado com o bem-estar de Maria Helena, pela simples razão de que nutria um amor platônico por ela.

    Como a cordialidade de sempre, Maria Helena respondeu-lhe:

    – Ô, Seu João, estou que nem essa sacola de feira.

    E então esclareceu:

    – Nem cheia nem vazia.

    E diante da indagação de Seu João, feita apenas por meio de um frisar de sobrancelhas, Maria Helena concluiu:

    – Ando meio triste.

    Vendo ali uma oportunidade de ser um ombro de apoio, Seu João quis saber dela:

    – Mas por quê, Dona Maria?

    – Ah, sei lá.

    Ela respondeu, não dando muita pista do que ia em sua mente nem em seu coração.

    O feirante então convidou-a para um pastel e um caldo de cana, na barraca dos japoneses a poucos passos dali, convite que foi prontamente aceito por Maria Helena, afinal ela nem tinha tomado café da manhã: estava faminta.

    Lá chegando, ao perguntar-lhe que sabor de pastel que ela queria, João ouviu dela algo completamente inusitado. Disse-lhe Maria Helena:

    – Quero me casar de novo, sabe?

    E prosseguiu:

    – Tenho pensado muito nisso ultimamente, dado que ando me sentindo muito sozinha.

    Ainda ela:

    – Além disso, não tem sido fácil fechar as contas do mês só com o que ganho de aposentadoria. Os preços têm subido muito.

    Vendo ali a deixa que precisava para dizer a ela o que ele sentia, João soltou um:

    – Quer se casar comigo?

    Dito de joelhos, diante de uma Maria Helena incrédula com a cena que se desenrolava diante de si.

    Um tanto assustada, ela não conseguiu proferir outra resposta senão:

    – Tem de queijo?

    Na verdade, uma pergunta que ela dirigiu ao pasteleiro japonês que, ali ao lado dela e de João, aguardava pelo pedido dos dois.

    Constrangido pelo fora que levara, João tirou a carteira do bolso e, como prometido, pagou pelo pastel de queijo e pelo caldo de cana pedidos por Maria Helena. Ele mesmo não comeu nem tampouco bebeu nada.

    Quando Maria Helena chegou à metade do copo de caldo de cana, olhou para João e, do nada, disse-lhe:

    – Aceita?

    João, pensando que aquela pergunta era a aguardada resposta para a proposta que ele fizera a ela poucos minutos antes, gritou de alegria, grito que, de tão inesperado e alto, acabou assustando Maria Helena a ponto de fazê-la derrubar ao chão o copo de caldo de cana que então estava pela metade, esvaziando-o por completo.

  • as estrelas

    as estrelas

    Do parapeito da janela do sobradinho onde mora, a mirar o horizonte diante de si, acompanhando o pôr do sol, distante como seu olhar, Conchita aprecia as últimas horas do domingo, com a mesma melancolia com que, em sua infância distante de menina pobre, olhava para a última fatia do delicioso bolo de cenoura com cobertura de chocolate, que sua avó preparava para os netos, torcendo para que aquele pedaço fosse dela.

    À medida que a noite se aproxima, o forte calor daquele dia vai cedendo algum espaço. As damas da noite então florescem e, com seu perfume, dão as boas-vindas às estrelas, aqueles sóis distantes que Conchita tanto gostava de observar imaginando serem as almas daqueles que já morreram. As estrelas mais brilhantes, ela acreditava, seriam as almas das pessoas que teriam desfrutado vidas interessantes. Não necessariamente vidas que merecessem uma biografia, uma estátua, um nome de rua; apenas vidas cheias de histórias para contar. Como fora a própria vida dela.

    Última de sua família, Conchita nunca se casara nem tivera filhos, e vivia na mesma casa onde seus falecidos pais tinham morado enquanto vivos. Embora cheia de histórias, não tinha a quem contá-las, então as escrevia em um caderninho que levava a tiracolo para todos os lugares onde ia. Quando terminava de preencher um, iniciava outro. Assim, ao longo dos anos, a sua coleção desses caderninhos foi ficando cada vez maior e preenche todo o espaço de uma estante da sala. Justamente a estante para a qual ela fica de costas quando, debruçada sobre o parapeito da janela do sobradinho onde mora, observa o sol se pôr no horizonte.

    Exceto por um deles, os demais cadernos são todos pretos ou brancos, de modo que, vistos ali expostos na estante, lembram as teclas de um piano.

    Naquela noite, antes de dormir, terminou de escrever o que se passara naquele dia em mais um caderninho de anotações. Ao tentar guardá-lo em meio aos outros que tinha na estante da sala, não encontrou espaço para ele: a estante estava tão repleta daqueles cadernos, que não sobrava espaço para mais nenhum deles. Lembrou-se então de sua avó, a mãe de sua mãe, certa vez a dizer-lhe:

    — Se aprochegue aqui, minha filha.

    Quando, deitada numa cama de hospital, lutava para ver-se curada de um câncer terminal.

    Conchita foi até ela e ouviu-a dizer-lhe algo ao pé do ouvido, dito bem baixinho, de modo que só com muito esforço lhe foi possível entender. A avó disse-lhe:

    — Anota aí.

    E então passou a revelar a receita do bolo de cenoura com cobertura de chocolate que Conchita tantas vezes comera na casa da avó, em tardes animadas, junto dos seus primos. Até então, a receita era um segredo muito bem guardado pela avó. Conchita anotou a receita em um caderno, similar àqueles nos quais anotava as histórias de sua vida, mas reservado apenas a receitas. Esse caderninho de receitas, Conchita também guardava na estante. Envolto em uma capa cor de rosa, o caderno de receitas se destacava em meio aos demais em preto e branco, à maneira de uma flor que brota por entre pedras.

    Conchita decidiu tirá-lo dali e, em seu lugar, acomodar o caderno que terminara de escrever naquele dia. Sentou-se diante da estante, abriu o velho caderno de receitas e começou a folhear suas páginas até chegar àquela na qual escrevera, muitos anos atrás, a receita de bolo de sua avó. Fora da estante onde estavam todos aqueles outros cadernos com suas histórias de vida, aquele caderno de receitas parecia contar grande parte de todas aquelas mesmas histórias, mas de forma mais viva: podia-se sentir o aroma e o sabor delas.

    (— Se aprochegue aqui, minha filha)

    Ao ler a receita do bolo de cenoura com cobertura de chocolate, que quando viva sua avó tantas vezes preparara, Conchita viu seus sentidos serem transportados para aqueles idos anos de sua infância e foi então tomada por um intenso sentimento de saudade.

    Naquela noite, dormiu ali mesmo, sentada na cadeira diante da estante, com o livro de receitas no colo. Na manhã seguinte, atendendo ao chamado de sua falecida avó a dizer-lhe:

    — Se aprochegue aqui, minha filha.

    foi-se juntar a ela.

    Na noite que chegou ao final daquele dia, dentre as muitas novas estrelas do céu, nenhuma em especial chamava a atenção pelo brilho.

  • A novela favorita

    A novela favorita

    Na sala da casa, sobre uma mesa dessas de pés baixos, havia uma televisão velha, daquelas de tubo, que permanecia ligada o dia inteiro, com o volume sempre alto, de modo que era possível ouvir a programação transmitida praticamente de qualquer canto dali. Para Cláudia, a única moradora daquela casa, isso servia como um antídoto contra a solidão.

    Viúva, sem filhos nem nenhum parente vivendo próximo, ela passava o dia todo sozinha em casa, cuidando dos afazeres domésticos e fazendo bicos de passadeira de roupas, para complementar os ganhos da aposentadoria.

    A televisão só era desligada à noite, por volta das nove horas, quando ela ia dormir. Então, ao invés da tevê, Cláudia deixava o rádio ligado bem baixinho, sintonizado a uma estação que só tocava músicas antigas, do seu tempo de juventude, tempo em que as raras televisões eram todas em preto e branco, como aquela que tinha sobre a mesa de pés baixo localizado na sala de sua casa.

    A casa assim nunca ficava em completo silêncio: sempre havia um som, fosse da televisão, fosse do rádio, a preencher o ambiente.

    Os próprios vizinhos, há muito, haviam se acostumado àqueles sons que partiam daquela casa velha, com rebocos à mostra e um mal cuidado jardim à frente.

    Estes mesmos vizinhos viam Cláudia como uma figura exótica: salvo por quem fosse à casa dela para levar ou buscar as roupas que ela cobrava para passar, eram bem poucas as pessoas que já a haviam visto pessoalmente. A maioria a conhecia apenas de ouvir falar.

    Naquela pequena cidade, falar dos outros era o entretenimento preferido dos seus habitantes. Para algumas pessoas, falar da vida alheia era tão natural ou mesmo necessário como comer e respirar.

    Cláudia era um tópico repetitivo dessas conversas não apenas por ser pouco vista, o que por si só seria suficiente para atrair um certo mistério para sua figura, mas também porque, quando se permitia sair de casa, nas raríssimas vezes em que isso acontecia, sempre era vista caminhando de mãos dadas com o vazio, como se estivesse puxando alguém pela mão direita.

    Alguns moradores, para além do privilégio de terem podido vê-la caminhar pelas ruas, em suas raras aparições públicas, também tinham podido trocar alguns cumprimentos com Cláudia.

    Dessa ainda mais rara situação, traziam testemunhos de terem ouvido Cláudia apresentar o vazio que puxava pela mão direita como seu marido Alfredo, muito embora este já tivesse falecido há anos.

    Antônia, uma antiga e habitual cliente, foi à casa de Cláudia, numa sexta-feira pela manhã, buscar as roupas que havia deixado para ela passar no início daquela semana. Como nunca antes fizera, Cláudia a convidou para um café, o que Antônia, surpresa, de pronto aceitou. Enquanto aguardava Cláudia retornar da cozinha, onde preparava o café, Antônia, sentada em uma poltrona grande o suficiente para acomodar seu corpanzil de maneira confortável, observava a decoração da sala, tomada, assim como toda a casa, pelo som da televisão ligada em algum programa matutino. A decoração da sala parecia ter parado no tempo há pelo menos uns 30 anos.

    Sobre o aparador, localizado ao lado da porta de entrada, repousavam inúmeros e minúsculos bibelôs e também porta-retratos com fotos de Cláudia e Alfredo, ora juntos, ora separados. Bem no meio daqueles bibelôs e porta-retratos, havia um grande jarro de louça vermelha, em cuja lateral se lia o nome de Alfredo, envolto em um coração também em baixo relevo. Eram suas cinzas crematórias que ali estavam guardadas.

    Ao contrário de Cláudia, Antônia nunca se casara: aos 54 anos, ainda era solteira. Sentia falta da presença masculina, mas sua timidez crônica associada ao seu sobrepeso nunca lhe permitira iniciar e, menos ainda, cultivar uma relação amorosa com homem nenhum.

    Enquanto Cláudia preparava o café lá na cozinha, Antônia, como que hipnotizada e seduzida por aquele vaso de louça vermelha, dentro do qual repousavam as cinzas de um homem que, como demonstravam as fotos ali em cima do aparador, quando vivo tinha sido muito bem apessoado e sedutor, levantou-se da poltrona em que estava sentada, caminhou até o aparador, pegou o jarro de louça em suas mãos e o abraçou, tocando a tampa fria do jarro com uma de suas bochechas. Com seu abraço, o frio da superfície da louça foi aos poucos se aquecendo.

    Lá da cozinha, Cláudia gritou:

    — O café está quase pronto.

    Grito alto o suficiente para se fazer ouvir mesmo em meio ao barulho da televisão que seguia ligada em alto volume, assustando Antônia a ponto de quase fazê-la deixar o jarro de louça cair ao chão.

    Ela então apertou-o ao peito ainda mais fortemente e, aproveitando-se da cobertura do som da televisão, saiu pela porta da frente levando o jarro com ela.

    Quando Cláudia finalmente voltou da cozinha, já não mais encontrou Antônia ali na sala. Naquele momento, a televisão transmitia a vinheta de início de sua novela favorita, o que foi suficiente para desviar e imediatamente prender a atenção de Cláudia de um jeito tal, que ela mal se lembrava de ter recebido a visita de Antônia, alguns minutos atrás.

    Sentou-se diante da televisão e, ensimesmada, tomando o café que havia preparado para ela mais a visita, passou a próxima hora acompanhando pela televisão a sua novela favorita.

    Era a semana dos capítulos finais.

  • Glória

    Glória

    Não se sabia se por força do hábito ou por ação de algum transtorno obsessivo compulsivo, Glória cuidava para que fosse sempre o direito o primeiro pé a ser posto para fora de casa ao sair para trabalhar.

    Nas poucas vezes em que acreditou, de memória, ter trocado o pé direito pelo esquerdo, sua mente era de tal forma tomada por angústias naquele dia, que ela mal conseguia respirar – sentia-se sufocada.

    O pior de todos os dias foi aquele em que, ao caminhar até a porta de sua casa e abri-la para sair, tropeçou sobre seus pés e caiu sobre o capacho com motivos florais que dava as boas-vindas aos seus poucos visitantes.

    Naquele dia, nem o pé direito nem o esquerdo foi o primeiro a alcançar o lado de fora, mas sim, o corpo todo, ao mesmo tempo. Tendo suas carnes e ossos ligeiramente doloridos e com alguns leves arranhões e rasgos pela roupa, ela se levantou e seguiu para o trabalho: estava demasiado atrasada para limpar as feridas e trocar de roupa.

    Ao chegar ao escritório, não foram poucas as pessoas, seus colegas de trabalho, que a abordaram para perguntar se ela havia sofrido um assalto, se estava bem, se precisava de algo. A todos, respondia cordialmente:

    – Estou bem.

    E complementava:

    – Não foi nada.

    Quando a novidade de seus ferimentos e rasgos pela roupa foi absorvida pela rotina dos afazeres daquele dia, e ninguém mais a abordou, ela correu até o banheiro e, ao chegar lá, despiu-se de todas as roupas que então vestia, ficando apenas com as lingeries de baixo.

    Ali, diante do espelho do banheiro, mirou seu olhar em seus próprios olhos e, assustada, gritou:

    – Não!

    E gritou mais alto:

    – Não pode ser!!

    Havia esquecido seu colar, no qual trazia pendurado um amuleto da sorte: uma pedra jade em formato de coração. Levou as duas mãos ao rosto e começou a chorar de desespero.

    Naquele momento, uma senhora, aparentemente de muita idade, com as costas curvas à maneira de uma cariátide, trajando um vestido todo de um véu diáfano como um papel de seda, entrou no banheiro. Ao ver Glória ali, vestida apenas com as lingeries de baixo e chorando feito criança, correu, ou pelo menos tentou correr, até ela para acudi-la. Perguntou-lhe se estava bem. Ao que Glória respondeu cordialmente:

    – Estou bem.

    E complementou:

    – Não foi nada.

    Foi só então que Glória se deu conta de que falava sozinha: a senhorinha de costas curvas que julgava (ou mesmo jurava) ter visto entrar no banheiro e falar com ela, havia desaparecido ou mesmo nunca ali com ela estivera.

    Glória andou até a borda da enorme pia daquele banheiro, abriu a torneira no máximo e, com a água jorrando forte, lavou seu rosto e seus cabelos, a fim de desamarrotar o primeiro e livrar o segundo do sebo do sal de suas lágrimas que sobre ele escorrera.

    Depois, buscou uma toalha para secar a cabeça encharcada, tateando por sobre a pia molhada. Quando seus dedos vacilantes finalmente encontraram uma toalha a um canto da parede do banheiro, Glória enfim conseguiu secar seus cabelos e rosto. Feito isso, olhou-se no espelho e viu refletida a mesma imagem que, todos os dias pela manhã, logo após acordar, via no espelho de seu banheiro, o mesmo onde Glória então estava e que, só naquele momento, assim notou com alívio, ainda permanecia naquela manhã.

    Minutos depois, ao sair pela porta de casa, foi seu pé direito que primeiro alcançou o lado de fora, pousando cuidadosamente, como que conduzido por um guindaste, sobre o capacho com motivos florais que ornava a entrada de sua casa.

    Pouco mais de uma hora depois, quando, segura de si, enfim chegou ao escritório, foi até o banheiro para retocar a maquiagem, pois queria estar bem apessoada para uma reunião que teria logo mais, ainda naquela manhã. Ao se olhar no espelho, deu-se conta, com surpresa e desespero, que esquecera de vestir no pescoço seu colar com a pedra de jade em formato de coração, seu amuleto da sorte.

  • Lembrancia

    Lembrancia

    O carro seguia viagem tendo seu pai na direção, sua mãe sentada no banco de passageiros da frente, sua irmã ao lado dele no banco de trás. Ninguém dizia uma palavra sequer, tão absortos estavam pelos pensamentos que corriam em suas mentes.

    A notícia da morte da avó, a mãe de seu pai, havia chegado de madrugada, encontrando todos ainda adormecidos da vida. Parece haver uma regra não escrita, segundo a qual toda vez que um telefone toca de madrugada é para que uma má notícia seja transmitida a quem atende a ligação. Se há exceções, por certo só devem comprovar essa regra. Regra que foi naquele momento observada quando seu pai atendeu a ligação, com voz baixa e sonolenta, no seu segundo toque.

    Ao desligar o telefone, ele chamou a esposa, que por sua vez chamou os filhos para dar-lhes a notícia. Pouco mais de uma hora depois, estavam todos dentro do carro a caminho do interior.

    E era da memória de sua avó que os pensamentos de Daniel iam ao encontro enquanto o carro dirigido por seu pai seguia viagem pela estrada que, diferentemente da vida, tinha poucas curvas, uma estrada quase reta, que exigia dos motoristas que por ela trafegassem um enorme esforço para não adormecerem.

    Quando menino, Daniel sempre tivera uma predileção por conversar com pessoas idosas, pois tinham conteúdo muito mais interessante, aos ouvidos dele, que aquele que encontrava nas raras conversas que tinha com as pessoas de sua idade.

    Foi justamente com sua recém-falecida avó, Dona Lina, que ele tivera as melhores conversas da sua infância. Para ele, conversar com a avó era como abrir um livro de histórias, daqueles cheios de ilustrações que ajudam a mente a imaginar o que se narra, como eram os livros com os quais Daniel tivera contato, ainda nos seus primeiros anos de alfabetização.

    Nos finais de tarde daqueles tempos, ao sentar-se ao lado dela, entre um café e outro, as histórias eram narradas, saborosas como os bolinhos de chuva que Dona Lina insistia em fazer para acompanhar o café.

    Naquela época, não lhe ocorria que aqueles encontros pudessem, um dia, não mais acontecerem. O tempo era só aquele do relógio de louça que sua avó tinha preso à parede da cozinha, que dividia os dias em pequenas tarefas rotineiras: acordar, ir para a escola, almoçar, ir ter com a avó, voltar para casa, jantar e dormir, fechando desta forma o ciclo que, assim ele então pensava, seguiria se repetindo por toda a vida.

    Enquanto sua mente recuperava essas memórias, lágrimas insistiam em brotar dos cantos de seus olhos, com a teimosia do mato que insistia em crescer por entre os canteiros de flores que sua avó cultivava: dálias, crisântemos, margaridas e rosas. Talvez, pensou, ao permitir o crescimento daquele mato por entre as flores, a natureza quisesse dizer algo a respeito da nossa vida, lição que aprendemos só com o passar dos anos.

    Depois de algumas horas de viagem, a família finalmente chegou ao local onde, desde as primeiras horas da manhã daquele dia, acontecia o funeral do corpo de sua avó. Todos entraram no recinto, menos Daniel. Paralisado diante da entrada, como que impedido por um muro invisível, ele sentiu as lágrimas que, até então, brotavam dos cantos de seus olhos ganharem volume mais condizente com a dor que sentia naquele momento e descerem fortes por ambos os lados de sua face, à maneira das enxurradas formadas pelas chuvas que, em sua infância, chegavam para aliviar o calor insuportável daqueles dias de primavera e verão, enxurradas sobre as quais ele depositava folhas de árvores para navegarem imitando balsas em rios turbulentos. 

    Tão nervosas eram as correntezas formadas por aquelas enxurradas, que era infalível o naufrágio daquelas rudimentares balsas e, por certo, do que quer que fosse posto ali para navegar. Uma metáfora da fragilidade da vida?

    Ao verem Daniel ali fora, parado, chorando, muita gente que acompanhava o velório foi ao encontro dele a fim de tentar, pelos meios que eram possíveis a cada um, consolá-lo. Mas Daniel mostrava-se inconsolável – ele não queria que o último registro da avó em sua memória fosse com ela deitada dentro de um caixão funerário, coberta por véus e rodeada de flores, que não eram as mesmas flores que ela cultivava em seu jardim, mas sim, flores funerárias, que, com seu aroma tão característico, perfumam a morte na vã tentativa de tornar menos doloroso o luto de quem fica.

    Se as flores do jardim de sua avó lutavam com o mato, e eventualmente, graças ao cuidado e esmero de Dona Lina, venciam aquelas ervas daninhas, as flores funerárias, numa evidência de mais uma injusta desigualdade do mundo, lutam com a morte, e esta ninguém vence.

    Sua avó para ele, sempre que se encontravam:

    – Bom dia, né?

    e depois complementava:

    – Dormimo aggiunto?

    Em seguida, ela sorria e o beliscava, e só então ele respondia:

    – Bom dia, vó.

    A infância tinha o frescor de uma melancia, ou, como ele dizia, quando criança, “lembrancia”.

    Quando o funeral terminou, a gente toda que estava ali se dividiu em vários carros para acompanhar o carro funerário até o cemitério, seguindo um atrás do outro, reproduzindo assim cena que Daniel tantas vezes testemunhara em sua infância, ali na sua pequena cidade natal, e que, naquela época, quando o tempo parecia ser apenas aquele do relógio de louça preso à parede da cozinha de sua avó, nunca lhe passara pela cabeça um dia vir a fazer parte, muito menos com o corpo de sua avó dentro do carro funerário que puxava a procissão. A morte lhe parecia algo tão distante e exótico.

    Ao entrar no carro, junto com seu pai, sua mãe e sua irmã, seguiram para o cemitério, acompanhando o rodar lento dos demais carros que seguiam para o mesmo destino.

    Era um cemitério simples, para gente simples, situado na descida de uma colina, para lá de onde terminava a pequena cidade, numa distância relativamente pequena, mas longe dos olhos dos vivos.

    Lá chegando, alguns homens da família puseram o caixão sobre seus ombros e, poucos passos depois, depositaram-no dentro da cova. Naquele momento, assim como para muitas pessoas que ali estavam, foi-lhe impossível mais uma vez conter as lágrimas.

    Uma menina (talvez sua prima) veio lhe oferecer um pequeno buquê de flores, com dálias, crisântemos, margaridas e rosas, e num gesto do braço direito e da cabeça, pediu-lhe que jogasse aquelas flores sobre o caixão. Ao invés de assim fazer, Daniel abraçou aquelas flores, apertando-as sobre seu peito, enquanto as lágrimas que caiam de seus olhos as regavam com sua água salgada.

    Aquelas flores, dos mesmos tipos que sua avó cultivava, haviam sobrevivido ao mato dos canteiros em que cresceram, por obra do cuidado de algum zeloso jardineiro. As memórias de sua avó e das muitas histórias que ela compartilhara com ele naqueles idos anos de sua infância, hão-de sobreviver à morte dela.

    As linhas que aqui escrevi são como aquelas flores.

    In memoriam.

  • a morte

    a morte

    Teve que se acostumar a sentir saudades, a sentir fome e, principalmente, a sentir medo: recém chegado à capital, Mateus vivia sozinho em um barraco numa das mais distantes e violentas periferias da grande metrópole, um lugar de muitas misérias.

    Filho mais novo de uma família de sete filhos, todos homens, deixou-os todos, mais pai e mãe idosos para trás, na pequena cidade do interior do Brasil onde nascera, em busca das oportunidades que, naquela pequena vila, jamais teria acesso. Todos os seus irmãos mais velhos seguiram o destino e desejo de seus pais e se tornaram, também eles, sertanejos miseráveis.

    No dia de sua partida, sob o olhar desolado de seus pais e aliviado dos outros irmãos, embarcou em um ônibus velho e, três dias depois, chegou, entorpecido de cansaço, àquela que, em sua mente, então cheia de esperança, seria sua nova casa: a capital.

    Mas a cidade que, naquele momento, lhe parecera alvissareira, mostrou-se depois uma enorme decepção.

    Por meses, ele, por falta de alternativa, teve que viver naquela longínqua e violenta periferia, tão diferente e tão pior que sua cidade natal, onde, apesar da pobreza, não se tinha notícia de violência, pelo menos não de homem contra homem.

    Naquele bairro distante e miserável, a morte era cotidiana: dia e noite, ela rondava o bairro em busca de novas vítimas, que escolhia aleatoriamente, sem distinção nenhuma. Isso quando não matava no atacado, em geral a mando e paga por alguém, e fazia várias vítimas de uma só vez, naquilo que os jornais sensacionalistas, no tédio da renitente violência diária, chamavam em suas manchetes de chacinas, e que seriam abordadas com pouco destaque por outros jornais, os quais, ao falar daquelas mortes, mal disfarçavam o tom de comemoração.

    Ali naqueles arrabaldes longínquos, Mateus vivia de bicos de pedreiro, que fazia ora ali pela vizinhança mesmo, ora nos bairros próximos. Apesar de sua fama de exímio mestre de obras, conquistada a muito custo, o trabalho mal lhe garantia o sustento mais básico.

    De alguma forma, sua fama de bom obreiro chegou aos ouvidos da morte, que, precisando de um pedreiro, foi ter com ele numa certa manhã, cedo demais até para encontrá-lo acordado. Como de hábito, entrou sem bater e, já dentro do barraco, encontrou Mateus deitado envolto em um cobertor velho, sobre um colchão magro, dormindo um sono silencioso. Seduzida pela imagem dele, a de um jovem homem cujos sulcos da pele do rosto contavam histórias de muito sofrimento, a morte ficou ali, por cerca de uma hora, debruçada sobre Mateus a velar seu sono.

    Por todo esse tempo, Mateus não emitiu nenhum ruído, não esboçou nenhum movimento e, não fosse pelo ar que se sentia entrar e sair de suas narinas, pareceria morto: dormia um sono sem sonhos.

    Quando enfim acordou, a morte, premida por outros compromissos, já tinha partido. Ao partir, deixou um bilhete ao lado do colchão onde Mateus dormia. Ao abri-lo, ele tentou ler a mensagem deixada por ela, que dizia: “Estive aqui hoje para encontrá-lo. Volto amanhã bem cedo”, e ao final assinava: “A morte”.

    Semianalfabeto, Mateus mal pôde entender o que estava ali escrito naquele bilhete, nem tampouco quem o deixara. Deu de ombros, repetindo um gesto que lhe era habitual.

    Mais tarde, naquele mesmo dia, um vizinho, um dos poucos que tinha acesso a telefone na vizinhança, veio lhe trazer a notícia de que sua mãe morrera na noite anterior, de morte morrida, decorrência da idade avançada. No dia seguinte, bem cedo, o mesmo irmão que ligara para dar essa notícia ligou de novo para aquele vizinho, a fim de trazer a notícia da morte do pai de Mateus, que, muito velho, não suportara seguir vivendo nem um dia depois de ver a esposa falecer e também sucumbira à navalha da foice da morte.

    Naquela mesma manhã, também muito cedo, quando a morte foi ter com Mateus novamente, como avisara no dia anterior que faria, encontrou-o pouco depois do momento em que seu vizinho lhe dera a notícia da morte de seu pai. Mateus tinha o rosto triste, porém sereno e algo aliviado: seus pais finalmente tinham ido descansar de uma vida sofrida demais até para os Severinos.

    Ao ver a morte ali ao seu lado

    (ela novamente entrara sem bater)

    ele olhou para ela e, com a voz firme, disse-lhe um “Obrigado”, e então, com uma voz firme mesmo que embargada, complementou: “Te devo esse favor”.

    Foi a deixa que a morte precisava para fazer-lhe o pedido que tinha em mente:

    — Preciso de seus serviços para algumas obras.

    — Que obras?

    Quis saber Mateus.

    — Quero construir o futuro.

    Disse-lhe a morte e então complementou:

    — Vai ter obra para toda a vida.

    Ao ouvi-la, Mateus sorriu e, sentindo enfim esperança de dias melhores, respondeu, com uma confiança que beirava a arrogância:

    — Serei seu melhor mestre de obras.

    Com um sorriso triunfante, a morte disse-lhe:

    — Não tenho dúvidas disso.

    E, depois de uma breve pausa, complementou:

    — Pago muito bem.

    Frase sedutora que Mateus nunca ouvira de ninguém até então, e diante da qual não lhe foi possível ter discernimento para escolher, nem tampouco negociar. Seus olhos brilhavam, mas nenhum brilho poderia livrá-lo da escuridão sem fim do destino que estava sendo escrito à tinta diante dele.

    Ali, ao garantir-lhe a atenção e importância que nunca recebera dos vivos e a esperança de dias melhores no porvir, a morte conquistou de vez mais um soldado para seu exército, todo ele treinado para entrar onde quer que fosse sem pedir licença, do mesmo modo como ela fazia.