• a noiva

    a noiva
  • Laura

    Laura
  • Gol

    Gol
  • Estrelas

    Estrelas
  • Noite iluminada

    Noite iluminada

    Naquela noite iluminada

    Pela luz da lua

    Caminhava pela estrada deserta

    Na companhia de mim mesmo

    E de Deus?

    Que nada

    A noite estava estrelada

    E abafada

    E eu suava

    Um suor quente que descia pela minha face

    Feito lava

    Naquela estrada deserta

    Só eu caminhava

    Na esperança de chegar

    A algum lugar onde eu pudesse ao menos

    Beber água

    Aliviar a sede que me atacava

    Era tarde

    Estava cansado

    Ninguém se importava

    Caminhei, caminhei, caminhei

    Pois achei que dava

    Para chegar ao meu destino

    Mas que destino

    Se eu apenas vagueava?

    Tudo isso porque

    Quando lhe perguntei se me amava

    Você simplesmente não disse nada

    E olhou para mim como se eu

    Não dissera nada.

  • benção

    benção
  • na praça da matriz

    na praça da matriz
  • O vestido

    O vestido

    Era a mesma rotina todos os dias pela manhã: depois de acordar e tomar banho, Paulo vestia-se e punha-se diante do espelho que ficava na parte de dentro da porta do guarda-roupa, a fim de verificar se estava apresentável para ir trabalhar. Sua maior preocupação era manter a camisa para dentro da calça, bem ajustada pelo cinto, como sua avó lhe mandava fazer quando criança, dizendo:

    – É assim que um homem se veste.

    Fazendo-o crer, desde menino, que vestir a camisa deixando-a para fora da calça não era o comportamento adequado a um menino e, portanto, seria menos ainda para um homem feito.

    De sua avó, na infância, também ouvia:

    – Sair de casa com a camisa para fora da calça é o mesmo que sair como um maltrapilho.

    E, por fim, sentenciar:

    – Jamais quero vê-lo desta forma.

    Num dia desses, Paulo acordou bastante atrasado para um importante compromisso no trabalho e, por isso, mal teve tempo de tomar banho, escovar os dentes, pentear o cabelo. Acabou tendo de se arrumar a toque de caixa, esquecendo-se até de checar no espelho se tudo estava em ordem antes de sair de casa.

    Ao chegar ao metrô, viu sua imagem refletida na janela do trem e foi então que se deu conta de, não só ter esquecido de colocar a camisa para dentro da calça, como sua avó fazia questão, mas também ter esquecido de passar o cinto sob o cós da calça, de modo que, mesmo que colocasse a camisa para dentro, ela sairia de novo para fora, sempre: a calça estava larga para ele.

    Imediatamente, veio à memória sua avó a dizer-lhe:

    – Sair de casa com a camisa para fora da calça é o mesmo que sair como um maltrapilho.

    Envergonhado, correu até o banheiro da estação e lá abriu a mochila que trazia às costas. Dentro dela, havia um longo vestido de algodão, todo rendado na barra e nas mangas, que pertencera à sua avó. Paulo pretendia vesti-lo à noite, em um encontro romântico que teria depois de sair do trabalho.

    Lembrando de sua avó a dizer-lhe:

    – Jamais quero vê-lo desta forma.

    Referindo-se a usar a camisa para fora da calça, não pensou duas vezes e trocou a roupa que estava usando pelo vestido.

    As palavras de sua avó então silenciaram. Apenas o cheiro dela agora o acompanhava, dado que estava impregnado no vestido.

    Deixou o banheiro da estação com a cabeça erguida, altivo, e seguiu para o seu destino.

  • a praça

    a praça
  • O pé de manga

    O pé de manga

    No quintal, na parte detrás da casa, havia um pé de manga

    (ou uma mangueira como dizem outros)

    alta e frondosa, que todos os anos presenteava a família

    (e os pássaros)

    com suas frutas: enormes e pesadas mangas amarelas recheadas de sabor.

    Era para o alto daquela árvore que Fernando subia sempre que precisava de um refúgio da sua sufocante vida adolescente, como filho de uma família classe média baixa do interior paulista.

    Dali do alto da árvore, seu olhar alcançava os limites da pequena cidade

    (que pareciam ainda menores dali de cima)

    e seguia para muito além, adentrando as áreas rurais, com seus sítios e fazendas plenos de vegetação verdejante a maior parte do ano, e amarelada na parte restante.

    Naquele tempo, o jovem Fernando já sabia que, embora alto, o topo daquela árvore estava longe de ser o ponto mais alto do mundo. Era apenas o ponto mais alto daquele seu mundo de então, mundo que, alguns anos mais tarde, ele deixou para trás ao partir para a capital, a fim de trabalhar, em busca de novos horizontes.

    Deixou para trás também o pé de manga em cujo topo costumava subir.

    Na capital, sua vontade era ir para ainda mais alto, vencer na vida, como se diz, mas as contas para pagar agiram, por muitos anos, como um imã a prender seus pés no chão, vivendo a realidade da sobrevivência na cidade grande que pouco lhe permitia sonhar.

    Sentia falta da mangueira de sua infância e de sua mãe a gritar-lhe:

    – Desce daí, menino!

    e em seguida preveni-lo:

    – Esse galho quebra e você se esborracha no chão.

    Ainda que tenha de fato levado muitos tombos na vida, nunca sofrera nenhuma queda do pé de manga. A árvore, embora velha, tinha os galhos fortes como barras de metal, fortes o bastante para suportarem a carga de suas frutas e de Fernando quando ali subia.

    De uma escadaria ao ar livre, próxima ao seu trabalho, para onde sempre ia depois do almoço para pensar sobre a vida, ficava a observar o fluxo incessante de aviões que, ao longe, cruzavam o céu indo em direção ao aeroporto. Até então, nunca havia viajado de avião.

    Na primeira vez que viajou, num voo breve entre a capital e o Rio de Janeiro, passou o tempo todo a lembrar-se de sua mãe a dizer-lhe:

    – Desce daí, menino!

    com aquela mesma voz com que ela, dias atrás, chamava-o em meio a uma multidão na rodoviária da capital.

    – Fernando.

    Multidão tão imensa que fazia sua mãe parecer um balãozinho no céu, de tão pequena diante de toda aquela gente aglutinada nas plataformas da estação.

    – Fernando!

    ela chamou de novo e, logo em seguida, finalmente se encontraram. Beijos e abraços a curar anos de uma separação dolorosa tal qual uma ferida cálida.

    Sua mãe, Dona Irene, trazia na mala um porta-retrato com a última imagem do pé de manga, numa fotografia tirada dias antes daquela árvore ser derrubada para dar lugar a uma edícula que serviria de quartinho de costura.

    Era para lá que sua mãe ia todas as tardes, distrair a mente da vida que passava, exercendo uma atividade que lhe permitia domar as contas do mês. Depois do falecimento de seu marido, o pai de Fernando, Dona Irene passou a viver unicamente de sua pouca aposentadoria e dos trocados que conseguia com os trabalhos de costura.

    Ao chegarem ao apartamento onde Fernando morava na capital, Dona Irene impressionou-se com a altura: vinte andares separavam aquele apartamento da movimentada rua em frente.

    O prédio era cercado de muitos outros, tão altos quanto ou mesmo ainda mais altos, de maneira que não se via o horizonte.

    Sentado no topo do pé de manga de sua infância, Fernando alcançava com seu olhar um horizonte maior e mais amplo do que dali de seu apartamento.

    O porta-retrato dado por sua mãe, com a foto da árvore, foi deixado a um canto do apartamento, e ali ficou esquecido. Para Fernando, aquilo tudo era passado, um passado cujo único resquício no presente era sua mãe.

    Quando esta, alguns meses depois daquela breve visita ao filho, veio a óbito, resquício nenhum mais lhe sobrou do que vivera em sua infância.

    Há noites em que Fernando acorda de um sonho que noite após noite se faz renitente, sonho no qual ouve sua mãe a gritar-lhe:

    – Desce daí, menino!

    como ela fazia na sua infância, que de tão distante no tempo, parece-lhe agora ser nada mais que um sonho.