Sem dúvida, talvez

Há semanas não se levantava da cama: era a primeira vez em dias que se dirigia à sala: nesse período de reclusão, limitara seus movimentos ao seu quarto, ao banheiro e à cozinha: os cômodos do apartamento que lhe ofereciam o essencial para manter-se viva: sobreviver.
Debruçada sobre o parapeito da janela, Gilda avistava o sol a nascer ao longe, com seus fachos de luz a brotarem por entre os vãos dos prédios, erguendo-se, tépidos, como os braços de um bebê polvo que pede colo.
Sentia-se aliviada, pois chegara a pensar que nunca mais veria o sol, que nunca mais veria o dia.
(que nunca mais)
Lá fora, as ruas paulistanas rapidamente eram tomadas pela multidão, cujos indivíduos iam para lá e para cá, com olhares vazios e andar apressado, como que pastoreados feito ovelhas pelos cães nervosos das contas a pagar. Era em geral nesse horário, quando a maioria das pessoas saía para o trabalho, que Gilda costumava chegar em casa, vinda de seu trabalho. Ao entrar em seu apartamento, despia-se, tirava a maquiagem, pendurava a peruca no mancebo atrás da porta do banheiro, tomava um banho e ia para sua cama, onde divertia-se a brincar um bocadinho com Mumu, sua gatinha. Depois, vencida pelo cansaço, colocava a gata para dormir em um cantinho do quarto, sobre uma almofada, envolvia sua cama com o dossel e, por fim, adormecia.
(– Acho que ela morreu.)
A luz do sol que entrava pela janela da sala contrastava com o acinzentado de seus olhos. Com pesar, lembrava-se de, naquela noite, duas semanas atrás, ter gritado muito alto, um grito que, apesar de alto, apesar de transportar a mensagem clara de uma dor lancinante, apesar de ter sido gritado uma
– Socor
duas
– roooooo!
três vezes
(– Acho que ela morreu.)
em uma rua cheia de gente passando, apesar de tudo isso, o grito de Gilda, naquela noite, não foi ouvido
(fingiram não ouvir?)
dele não se soube: acabou abafado, quiçá mesmo silenciado pela indiferença da metrópole que, com alguma contradição, quanto mais seres humanos comporta, mais desumana torna-se.
Logo após, ouviu-se um longo acorde de violoncelo e então ela perdeu a consciência, ficando seu corpo caído de um lado; sua longa peruca loira jogada dois metros adiante, com mechas de um vermelho vivo
(– Ela está sangrando!)
de sangue.
(– Vamos embora daqui!)
Acordou com os pingos de uma chuva gelada cravejando, como estilhaços de caco de vidro, seu corpo seminu e seu rosto, ambos bastante feridos.
Um hiato na memória a partir daí … … … (– Chamem uma ambulância. É uma emergência.) … … … … … …  (– Dói aqui?) … … … … … (– Amanhã ele deve ter alta.) … … … … …
(– Trouxe seu café da manhã, João.)
Passaram-se dias em que ela mal conseguiu abrir os olhos, tão inchado estava seu rosto
– Vem Mumu
a ponto de mesmo Mumu não a reconhecer quando Gilda, após ter alta do pronto-socorro, retornou a seu apartamento.
Por mais acostumada que Gilda estivesse a ser vista com estranhamento, olhada com desconfiança, observada ao longe, por olhos temerosos, como se fosse uma fera enjaulada, a ter dedos indicadores apontados em sua direção, seguidos de risos de escárnio, o fato de não ser reconhecida por Mumu pegou-a de guarda baixa, o que acabou por tornar mais pesado o sentimento de rejeição que, por toda a sua vida
(– Larga essa boneca, João!)
Gilda havia enfrentado, e este sentimento, por sua vez, naquele instante envolveu-a e, tal qual uma rocha formada pela lava vulcânica ao esfriar, fez dela, por semanas, um fóssil de seu próprio ser, até que, nessa manhã, antes do sol raiar, Mumu, com suas patinhas almofadadas, driblou o dossel que envolvia a cama, e foi brincar com uma tirinha de gaze que ainda cobria o último ferimento no rosto de Gilda, que aos poucos foi assim d e s (um bocejo) p e r t a n d o.
Gilda abriu seus olhos, olhou para dentro dos olhos de Mumu e viu ali refletido seu rosto, já quase são. Foi quando, do nada, sentiu uma saudade invadi-la, do tipo daquela que nos toma quando olhamos para nossas fotos de infância, em que a criança que fomos aparece ao lado de nossos pais, avós. Riu-se aliviada, um riso nervoso. Daí então desatou a chorar, soltando gritos guturais que acabaram por assustar Mumu: a gatinha saiu em disparada para fora do quarto, desvencilhando-se do dossel, que ali permanecia mantendo Gilda ao abrigo do mundo exterior e de suas hostilidades. Chorou a plenos pulmões, como quando nascera, rompendo o útero de sua mãe.
(– É um menino?)
Novamente em meio a lágrimas, era chegada a hora de renascer.
(– Sem dúvida, talvez.)
Vendo ali, diante de si, do lado de fora da janela do apartamento, toda a vibração de uma grande cidade, os olhos de Gilda enfim voltaram a brilhar: brilhavam como sóis.

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