Milonga

Há horas esperava naquela fila, tinha sido a primeira das últimas a chegar: depois dela, ninguém mais conseguiria entrar no abrigo naquela noite, pois a capacidade deste estaria então totalmente superada.

Para se proteger do frio cortante que fazia naquela noite, Milonga se punha a mais próxima possível de quem estava à sua frente e atrás dela na fila. Um esforço em vão, pois, assim como ela, os demais que ali aguardavam estavam fracos demais para que de seus corpos irradiasse algum calor capaz de aliviar o frio, percebido ainda mais intenso pelo vento forte e incessante. Além do frio, também a fome era intensa: os corpos daqueles que aguardavam sua vez de entrar no abrigo eram apenas pele sobre ossos, num conjunto precariamente coberto por meros farrapos.

A passos lentos, a fila de umas trinta pessoas andava. O grupo seguia entoando lamúrias esperançosas, ansiosos que estavam pelo momento em que poderiam desfrutar do alívio de ter um teto sobre suas cabeças e um prato de comida quente nas mãos. Os issos e aquilos de que se viam privados no dia a dia: uns por perderem emprego, outros por serem expulsos de casa ainda jovens; havia também aqueles para quem a rua era a realidade com que conviviam desde sempre. Para cada um, uma história, mas em todas havia algo em comum: o sofrimento do desamparo.

É certo que é de cada um a medida do próprio sofrimento, mas Milonga trazia consigo um aspecto que, se não tornava o todo do seu sofrimento do desamparo maior que os dos demais, ao menos tornava mais pronunciada a parte correspondente ao medo derivado do não-pertencimento: ela era uma cadela vira-lata.

Milonga havia sido adotada por uma família de sem-teto quando ainda era uma filhotinha que mal havia desmamado da mãe, que, junto com seus irmãos e irmãs, fora abandonada por uma família com teto.

Portanto, desde muito cedo, a realidade das ruas sempre esteve na sua vida. Antes, porém, por mais difíceis que fossem as condições de sobrevivência, Milonga via os humanos como uma fonte de cuidado: naquela família adotiva, era a mulher que lhe dava de comer, tirando o que podia das sobras das pequenas e escassas refeições; era junto ao corpo do homem que ela se deitava nas noites frias para aquecer seu próprio corpo; era com a menina que ela brincava de correr pelas ruas, rindo-se aos latidos.

Dias longínquos cuja memória há muito estava reduzida a cinzas.

A família adotiva viu-se obrigada a abandonar Milonga quando esta, mal tendo deixado a infância para trás, engravidou de um outro cachorro vira-lata. Temendo por ter de dividir o já pouco sustento com mais bocas, o homem dopou a cachorra com cachaça e a abandonou em um beco. Dali, ele mais a mulher e a menina foram para o mais longe possível, para que fossem mínimas as chances de reencontrarem a cadela.

Depois desse episódio, Milonga passou a encarar os humanos de outra forma: tornou-se agressiva. Latia e avançava sobre qualquer pessoa que dela se aproximava. Num desses surtos de violência, atacou um homem bêbado, que para se defender das mordidas da cadela, socou-a na cabeça duas vezes e, num gesto certeiro, chutou-a com força na barriga, dilatada pela cria que então trazia ali dentro. Ferida e assustada, Milonga saiu correndo, ganindo alto, como que a pedir socorro a quem pudesse lhe ouvir, mas embora de fato seu ganido fosse ouvido até de muito longe, ninguém apareceu para socorrê-la. Mesmo os outros cães com quem ela cruzava em sua corrida, olhavam-na com indiferença. A dor que sentia era tão intensa que, depois de correr uns dois quarteirões, não resistiu e caiu desmaiada.

Pouco mais de vinte e quatro horas depois, acordou, ainda se sentindo meio atordoada. Estava bastante faminta e para saciar a fome não hesitou em devorar o produto de seu aborto: quatro minúsculos fetos, envoltos em sangue e líquidos corporais, que jaziam sem vida pouco abaixo de onde seu corpo estava deitado, num local escuro, na sarjeta de uma calçada, embaixo de uma ponte, cercada de moscas varejeiras, atraídas pelo mal cheiro dos pequenos defuntos que Milonga havia parido.

Com a fome saciada, conseguiu reunir forças para se levantar e sair andando, mesmo que sem rumo certo. Só queria poder sair daquele lugar escuro, fugir daquelas moscas do tamanho de olhos humanos.

Passou vários dias assim: indo para lá e pra cá, perambulando pelo centro da cidade, comendo os restos de comida que encontrava nas lixeiras, bebendo água das fontes das praças emporcalhadas ou da própria chuva, dormindo onde o cansaço lhe ordenava que parasse.

Quando as temperaturas dos dias e das noites começaram a cair, bateu-lhe uma certa saudade do homem que a abandonara: não tinha mais o corpo dele para se deitar ao lado e se aquecer nas noites frias. Milonga emagrecera bastante, era só quase pele e ossos. Numa manhã bastante fria, uma velha senhora com quem a cadela cruzara pelas suas andanças pela cidade, apiedou-se dela, tirou uma velha blusa de lã da bolsa e com ela vestiu o corpo magro de Milonga. A blusa, embora bastante corroída pelo tempo e com alguns buracos, conseguia preservar algum calor sobre o corpo magro da cadela.

E foi vestida nesses andrajos que Milonga, certa noite, encontrou aquele abrigo em cuja fila para entrar a encontramos.

Quando chegou sua vez de ser atendida, o homem que organizava a entrada não percebeu que se tratava de uma cadela

(são tão humanos os cães que sofrem)

e deixou-a passar para se juntar às demais pessoas que já estavam lá dentro, pessoas que viviam uma vida de cão, sobrevivendo como vira-latas.

Circulando dentro do abrigo, Milonga se deparou com um par de pernas que lhe era familiar: pertencia à mulher da família que a abandonara. Milonga chegou mais perto, a fim de, com o olfato, certificar-se daquele indício que sua visão muito fraca havia apontado.

De fato, era a mesma mulher, mas estava sozinha. Nem o marido nem a filha estavam ali junto dela. Em seu rosto, via-se um olhar de abandono e desamparo, o tipo de olhar que Milonga havia se acostumado a se deparar desde que passara a viver sozinha. Também ela, desde então, trazia esse olhar em seus olhos.

Quando a mulher avistou Milonga, o seu olhar de repente mudou, indo do abandono e desamparo para a alegria. A mulher correu em direção à cadela, e chegando até ela, abraçou-a e beijou-a, chorando de emoção.

Mas Milonga já não era mais aquela cadela amorosa que a mulher conhecera. Trazia dentro de si um desejo de vingança e tal se deu sob a forma de um

– Tiro!

Alguém gritou, seguido de tantos outros que também gritaram

– Tiro!

– Tiro!

– Tiro!

quase que em coro, depois que se ouviu um estampido muito alto atravessar o denso rumor de vozes e por um breve instante desviá-las daquilo que as entretia.

O pânico instalou-se no local, com todo mundo correndo, sem rumo, atropelando-se uns aos outros, em busca de proteção contra o que aquele barulho de tiro representava na cabeça de cada um. Quando tudo se acalmou, como a poeira que se assenta depois de um vendaval, um círculo de pessoas se formou ao redor de Milonga. Ela estava deitada ali no chão do abrigo, com seu corpo todo banhado de sangue: a cadela tinha sido alvejada por um tiro, disparado pela arma de alguém que, ao ver as lágrimas nos olhos da mulher que a abraçava, julgara que ela estava sendo atacada por Milonga. A bala atingira em cheio o local próximo ao seu coração.

Julgando-a morta, os que ali estavam nem chegaram a socorrê-la. Limitaram-se a retirar dali o corpo e jogá-lo em uma lixeira do lado de fora, onde Milonga de fato veio a falecer poucos minutos depois, vítima de pura desumanidade.

Um pensamento sobre “Milonga

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